Antes e Depois do Dilúvio.

Louis Claude de Saint Martin


Como a circuncisão parece ter sido praticada após o Dilúvio, todos os sacrifícios, feitos anteriormente a este evento, devem ter sido inúteis. Ora, se não temos provas que esta prática estava em uso antes do Dilúvio, também não temos nenhuma prova do contrário; admitindo que ela tenha tido início após o Dilúvio, todas as dificuldades desaparecem quando refletimos sobre as diferenças de estados em que a humanidade se encontrava nestas diferentes épocas: reflexão que também se aplica aos animais.
Antes do Dilúvio, o Homem desfrutava de todos os poderes de sua natureza corporal animal; esta roupagem temporária que lhe foi dada como um órgão para as influencias e virtudes superiores, que é tão útil a ele, estava mais de acordo com o plano traçado para a sua restauração, estando, conseqüentemente, mais aberto as influências salutares, ele podia não recorrer a circuncisão para que elas tivessem acesso ao Homem.
Por outro lado, como os animais desfrutavam de um tempo de vida maior do que jamais haviam tido, seu sangue era mais eficaz, o que poderia fazer com que a assistência da circuncisão fosse menos necessária do que se tornou no segundo período, quando todas as coisas foram mudadas. Toda a natureza tinha sido torturada e alterada pela calamidade do Dilúvio. Os crimes da humanidade afundaram no Dilúvio e está se tornou muito mais presa pelas correntes da matéria; os próprios animais perderam suas virtualidades na renovação de suas espécies, que vieram menores do que eram antes desta explosão de vingança da Justiça Suprema. Em resumo, a que reflexões não levariam aqueles enormes esqueletos?
Se a Sabedoria não tivesse provido ao homem meios de remediar este fatal resultado da justiça, ele teria continuado sem caminho algum de retorno ao seu Princípio, e o plano do Amor divino em favor da humanidade teria sido irrealizável, já que a primeira iniciação neste caminho não teria ocorrido. Ora, de tudo o que temos visto, a circuncisão parece ter sido o meio que supriu, após o Dilúvio, as vantagens que os homens e os animais desfrutavam antes daquela catástrofe.
Talvez mesmo se o povo tivesse sinceramente observado as leis e instrumentos que Noé transmitiu a eles, na qualidade de eleito e escolhido de Deus, ele tivesse continuado sob condições poderosas suficientes para que este novo meio fosse desnecessário.
Mas, através da ofensa de Ham e Canaã, e pelas abominações cometidas nas planícies do Shinar, eles acrescentaram mais correntes àquela que o Dilúvio colocou sobre eles, e agravaram os obstáculos que já os posicionaram contra a reunião com sua Fonte. Não é de se admirar que o amor que os criaram os seguiu até ao abismo em que afundaram, lhes oferecendo uma nova rota através da qual poderiam retornar a Ele.
Vamos retomar os três períodos, e os veremos retratados em menor escala, na importância dada à circuncisão entre os Hebreus.
A circuncisão Judaica: o primeiro período, durante a época de Abraão.
É durante a época de Abraão que pela primeira vez encontramos algo sobre circuncisão nas Escrituras; o Senhor confirma ali sua aliança com ele e sua posteridade. Sob quais circunstâncias esta circuncisão foi ordenada pelo Senhor? Foi quando Ele deu um novo nome a Abraão, e também à sua esposa, adicionando a seus nomes antigos, uma única letra do nome sagrado através da qual Ele se tornou conhecido a Moisés pela primeira vez. Foi quando Abraão tinha noventa e nove anos, logo após Deus ter feito um pacto com ele, prometendo-lhe a terra de Canaã; em resumo, foi quando Deus escolheu para Si, pela primeira vez, um povo de quem todas as gerações devem ser abençoadas.
Tudo isto mostra, mais uma vez, que a circuncisão tinha uma virtude iniciatória, onde todas as virtudes que Deus preparou para seu povo não teriam efeito algum se Ele não tivesse aberto este caminho para que se cumprissem. Abraão havia recebido, contudo, auxílios divino previamente a esta cerimônia; ele foi tirado de sua própria terra, que havia sido invadida pela iniqüidade; ele havia erigido altares ao Senhor em Bethel, e invocado seu nome; ele havia sido abençoado por Melchizedeck e no sacrifício de sangue que ele ofereceu por ordem de Deus, recebeu evidências da presença do Espírito; mas isto contradiz os princípios que estabelecemos.
Abraão foi eleito do Senhor, embora tenha nascido entre os idólatras e de alguns o acusarem de ter comerciado ídolos. Seu coração pode ter permanecido puro, embora seu espírito possa ter sucumbido as mesmas trevas que cubriam seus contemporâneos. Assim, os auxílios divinos podem ter encontrado acesso a ele, sem os meios secundários da circuncisão.
Além disso, é preciso fazer uma distinção essencial entre os meios empregados por Deus para manifestar uma eleição, e aqueles usados para fazer com que esta eleição se cumpra.
Veremos sempre estes diferentes meios formarem duas classes em todas as eleições e épocas subseqüentes; temos uma prova real disto na eleição de Abraão, já que, apesar de todos os auxílios que ele havia recebido, antes de sua circuncisão, foi somente após a sua obediência a esta lei, assim como a de todos os seus familiares, que ele recebeu a visita de três anjos; que a época para o nascimento de Isac foi claramente fixada; e que, no final do ano recebeu seu Filho prometido, através de quem o pacto iniciado com Abraão, deveria ser realizado e completado.
Nada mais é preciso para nos convencer de que, na época em que se começou a falar sobre circuncisão, ela era entendida como iniciação em todos os benefícios prometidos na eleição, e assim sendo, tem uma sensível relação com o que dissemos sobre a Páscoa, ou o primeiro período do retorno dos Hebreus à terra prometida.
O Segundo Período, durante a época de Moisés.
A segunda vez em que a circuncisão é mencionada nas Escrituras é em Moisés (Ex.IV.25), de onde se conclui que esta cerimônia tinha sido negligenciada, sendo a causa da fúria do anjo, além do mais a circuncisão é novamente recomendada assim como todas as outras leis e decretos da montanha (LV.XII.3); isto nos leva a considerar a lei da circuncisão, dada na montanha, e aquela realizada no filho de Moisés, como um único e mesmo período.
O tempo em que esta lei reapareceu é notável pela sua conformidade com aquilo que se passou no período de Abraão. Foi após Moisés ter visto a sarça ardente e recebido a promessa de Deus de que o povo seria libertado; foi após ele próprio ter sido escolhido o instrumento desta libertação, e recebido os mais extraordinários sinais de sua missão, que a vingança divina, prestes a cair sobre seu filho, foi detida pela submissão de Séfora; finalmente, foi no momento do retorno de Moisés ao Egito para iniciar sua missão que esta cerimônia foi realizada em seu filho.
Esta comparação mostra claramente que a cerimônia era como uma iniciação dos frutos da libertação prometida, da mesma forma que na época de Abraão era como uma iniciação aos frutos de sua eleição; nenhuma delas pode ser realizada sem o derramamento de sangue. Não se deve dar importância ao fato de o sangue do filho, no caso de Moisés, é que foi derramado e não o do próprio patriarca, pois embora fossem dois indivíduos distintos, o sangue deles pode ser considerado como um; além disso, há sob este véu inumeráveis relações de outras verdades, que os olhos observadores irão descobrir sem dificuldade.
Assim, sem minha interferência na exposição destas verdades, se verificará, num período mediano, uma dupla circuncisão, uma comemoração do sacrifício do filho de Abraão, e a profecia de um outro sacrifício, sobre o qual ainda não é hora de falar a respeito. Devemos ficar satisfeitos com a observação de que a eleição de Moisés, e a circuncisão ocorrida visavam os primeiros frutos vivificantes da promessa feita a Abraão, conectá-los quase que naturalmente com o segundo período, ou com o segundo festival Hebraico, no qual a terra ofereceu sua primeira produção, e o povo recebeu os primeiros frutos do Espírito, que era a Lei; pois, nestas comparações, nunca se deve esquecer que todo ternário de épocas forma um círculo, e que todo círculo precedente é um grau menos elevado do que seu sucessor.
Circuncisão, terceiro período, durante a
época de Josué: suas correspondências.
Finalmente, a terceira vez em que o ritual da circuncisão aparece nas Escrituras, é durante a época de Josué, quando o povo esta prestes a entrar na terra prometida (Js.V.2). Este ritual não havia sido realizado durante os quarenta anos em que o povo viajou no deserto; e aqueles que haviam sido circuncidado no Egito tinham todos perecido; assim, Deus reviveu este ritual para todos aqueles que permaneceram não circuncidados, a fim de que "todo o opróbrio do Egito pudesse ser extraído do povo"; e todo o povo foi circuncidado em Guilgal.
Não se pode evitar de notar o momento em que esta circuncisão apareceu novamente, e as numerosas maravilhas que se seguiram. Foi por ocasião da entrada na terra prometida, assim como a circuncisão de Abraão foi na ocasião de sua entrada no pacto da eleição e aquela do filho de Moisés no momento de seu ingresso no caminho da lei e do trabalho; e a este respeito, este período está conectado com o terceiro dos festivais hebraicos, que foi aquele da abundância, da festa celebrada após a colheita, a realização de todos os seus trabalhos.
Este período está tão conectado com as comemorações na ordem temporal e terrestre, porque representa o futuro repouso que o povo deve desfrutar depois de destruir ou subjugar os habitantes de Canaã, apenas profeticamente, pois sua entrada na terra da promessa os admitem unicamente nas batalhas que devem travar ali; e as vitórias que eventualmente possam se seguir tinham sido indicadas por aquelas conquistadas sobre o povo do deserto.
Não é demais observar que foi no primeiro mês que ocorreu esta entrada na terra prometida; assim como foi no primeiro mês que o Êxodo do Egito, ou a libertação, ocorreu; isto porque aqui os dois círculos retornam ao mesmo ponto, embora o segundo seja relativo a uma ordem das coisas, muito maior e mais ativa que o primeiro.
Mas o que realmente indica o quão vantajosa era a circuncisão naquela ocasião é que após a cerimônia, o maná deixou de cair, e o povo começou a comer dos frutos da terra; que Josué entrou sob a proteção direta do Príncipe visível dos exércitos do Senhor; que as trombetas do Júbilo se tornaram as principais armas do povo, e ao seu som, acompanhado por aquele do Verbo, ou palavra (parole), os muros de Jerico foram derrubados, e cada homem foi capaz de entrar na cidade seguindo a este som; tudo isto é um modelo daquilo que está reservado ao Homem nos períodos subseqüentes, e do que nos espera quando estivermos fora de nosso confuso e terrestre círculo.
Eficácia dos Sacrifícios ao longo da destruição de Jerusalém.
Verificamos aqui o poder e eficácia dos sacrifícios, pois todas as maravilhas que mencionamos foram precedidas não somente pela circuncisão mas também pelos sacrifícios ígneos da Páscoa que o povo celebrou em Guilgal, e provavelmente também aqueles que Moisés e os anciãos recomendaram por ocasião em que deveriam entrar na terra prometida (Dt. XXVII.), e sobre quais o livro de Josué não menciona antes da conquista de Hai (VIII.30), mas que se acredita terem sido oferecidos após a passagem do Jordão, como Moisés havia ordenado.
Não iremos recapitular o que já dissemos a respeito da eficácia destes sacrifícios, confirmada pelo sucesso maravilhoso que se seguiu a eles; é suficiente já ter estabelecido uma vez os sacrifícios como um princípio de relação que o sangue tem com influências regulares (ações) e que estas possuem com influências mais elevadas, para compreender as vantagens que o homem ou o povo escolhido pode extrair destas cerimônias, com relação à sua libertação e progresso com relação ao cumprimento de sua verdadeira liberdade.
Deveríamos observar no mesmo espírito todos os sacrifícios oferecidos pelos hebreus, desde sua entrada na terra prometida até a destruição de seu último templo pelos Romanos; é desnecessário seguir a linha histórica e as épocas, pois todas derivam de um princípio reconhecido, precisamente o princípio ou a chave universal com a qual devemos atuar; completamente convencidos de que isto é derivado da verdade, irá então solucionar nossas dificuldades.
Iremos, assim, passar a um outro tipo de observação com relação a estes sacrifícios, a saber, como que a sua instituição veio a ser estabelecida por todo o mundo, sob tão variadas formas e, às vezes, de forma tão contrária à razão e até mesmo de forma criminosa.
A prática dos sacrifícios entre outras nações; sua corrupção.
É evidente que o uso destas cerimônias entre outras nações não se atribui à religião Judaica e nem aos sacrifícios em que ela estava fundamentada, porque os Judeus eram um povo exclusivo e isolado, que não possuía relações com outras nações; isto porque eles deixaram de existir como um povo, somente na nossa época e, a partir de então, tem perdido o uso de suas cerimônias e sacrifícios; além do mais, tendo os sacrifícios estado em uso desde o início do mundo, quando este fora renovado após o Dilúvio, a renovação dos sacrifícios entre todas as nações deve ser atribuída à dispersão destas nações, que teriam carregado consigo os costumes e cerimônias de seus antepassados.
Não é, portanto, o prevalecimento universal dos sacrifícios que irá agora nos surpreender e ocupar, pois, já que são reconhecidos como originários de campos naturais, nenhuma de suas ramificações pode ter outra origem; mas, as mudanças que estas correntes ou ramos tem tomado em seu curso é o que deve ser objeto de nossas pesquisas e reflexões.
Esta mudança corrupta nunca teria ocorrido se não houvesse uma nascente pura a que tudo deu início; e aqueles que tem atribuído o uso dos sacrifícios à mera ignorância e superstição, tem confundido o abuso e as conseqüências com o princípio e, agindo desta forma, impedem a si próprios de conhecer tanto o princípio como as conseqüências. Não vamos esquecer jamais a infeliz situação do Homem neste mundo de aflições e trevas, exemplificado pelos sofrimentos de todos os mortais e pelas lágrimas de todos os tempos. Não vamos esquecer de que se estamos rodeados por influências regulares, das quais os animais puros são os intermediários, também estamos rodeados por influências desordenadas, que tentam incessantemente introduzir a desordem em tudo o que se aproxima de nós, para que possa nos invadir e adiar o nosso retorno em direção a luz.
Este quadro, infelizmente tão real e caro a nós, assim se torna ainda mais quando lembramos das preparações sacerdotais a que as vítimas eram submetidas de acordo com a lei Judaica; e especialmente quando nos recordamos das aves que desceram sobre as carcaças, na ocasião do sacrifício de Abraão e que foram afastados por este patriarca.
Não se deve acreditar que na multiplicidade de sacrifícios que foram oferecidos, seja na família de Noé, ou na de seus descendentes que povoaram a Terra, nunca houve a falta destas preparações sacerdotais, e que as aves foram sempre afastadas das vítimas; isto, eu afirmo, não se pode acreditar, na medida em que vemos a abominação aparecer no seio da própria família de Noé, e a sua posteridade envolvida nas trevas, a ponto de obrigar a Sabedoria Suprema a fazer uma nova eleição. Ainda que um único ato de negligência, nestas importantes cerimônias, basta para dar acesso as influências desordenadas assim como a todas as suas conseqüências.
Julgue, então, que conseqüências foram estas se o sacrificador à negligência uniu a profanação, à profanação uniu a impiedade e à impiedade um propósito criminoso; em resumo, se ele mesmo abriu o caminho à influência desordenada, e atuou em concordância com ela, ao invés de resistir a ela. Com certeza, nada mais se poderia ter esperado do que uma inundação de horrores e abominações surgisse deste ato, inundação que cresce diariamente a uma proporção que não se pode estimar e que deve ter invadido o mundo com suas águas impuras, cobrindo-a com a iniqüidade.
A influência ou ação desordenada a que o sacrificador deu acesso em si mesmo, o levou ao erro de várias formas; em um momento, sugeriu a idéia de trocar de vítima e substituir as vítimas puras por vítimas tais como bestas, adequadas aos desígnios abomináveis; a partir disto não é de se surpreender o fato de observarmos sobre a Terra os inúmeros animais usados nos sacrifícios.
Numa segunda oportunidade, sem interferir com as vítimas, a influência desordenada deve ter instigado o sacrificador a endereçar a ela própria o espírito e intenção de sua obra, levando-o a esperar por isso um benefício maior do que aquele que se poderia esperar de um Ser severo e zeloso, que retira todas as suas graças por causa da menor negligência durante as cerimônias que Ele instituiu; e, ao lançar a sua cobiça em várias direções, esta influência desordenada teria unido o Homem a si mesmo, afundando-o nos mais fatais abusos e monstruosas abominações.
Uma outra vez, empregará todas estas iniqüidade juntas e fazendo com que tenham uma piedade aparente, para assegurar o sucesso, irá, sob esta máscara, levar o Homem às mais revoltantes e desumanas práticas, persuadindo-o de que quanto maior o preço e maior o número de vítimas, mais ele poderá ser amado pela Divindade; além disso, como este poder desordenado estava, assim como o poder ordenado, conectado a todas as substâncias e materiais do sacrifício, ela terá a capacidade de fortalecer e confirmar todas estas falsas insinuações, através de manifestações visíveis, todas de grande eficácia, porque correspondem aos sentimentos internos e movimentos secretos que o sacrificador já havia recebido.
Vamos, então, considerar a raça humana sob o jugo de um inimigo engenhoso e atento, que respira unicamente para levar o Homem de erro em erro, e que o tem feito se curvar de joelhos diante de si, em todo lugar, através dos mesmos meios que foram dados ao Homem para repeli-lo.
Há três classes ou níveis de desordem e abominações.
Estes erros podem ser divididos em três classes: primeira, abominações de primeiro grau, quando todas as faculdades do Homem se encontram corrompidas. Segunda, abominações religiosas que tem início, assim como a anterior, com a própria corrupção do Homem, mas que o comanda, a partir de então, através de suas fraquezas. Terceira, a mera superstição ou idolatria, que embora derive das outras duas, não tem o mesmo efeito e conseqüências.
Podemos até acreditar que as superstições pueris e abusos secundários, aos quais o Homem tem sido levado através de sua fraqueza e credulidade, possa o ter preservado e salvado de crimes mais essenciais na medida em que possuísse mais luz e poder.
E, na verdade, não são os ídolos que possuem bocas, eles não falam, a ponto de evitar aqueles que possuem boca e que falam, que possuem ouvidos e ouvem, que possuem olhos e vêem etc.
O primeiro grau de abominações: tragado pelos elementos.
As abominações conectadas com estes tipos de ídolos, ferindo a justiça em seu centro, deve ser enquadrada no primeiro grau; isto tem atraído inumeráveis calamidades, tanto conhecidas como desconhecidas, sobre os culpados: pois, quantos crimes tem afundado no abismo juntamente com aqueles que os cometem! Podemos ter uma idéia, por todas estas abominações transmitidas a nós nas Escrituras, das outras que se mantém em silêncio.
Lembrar o pecado do primeiro Homem, que lhe provocou uma profunda mudança, o fez passar da luz para as trevas em que vive; lembrar as abominações cometidas pela sua descendência durante o Dilúvio, e do imenso número de culpados levados por este, é fazer uma idéia da grande quantidade de crimes que deve ter sido eliminado de nossa vista por este intermédio; verifique as abominações dos Egípcios, e dos habitantes da Palestina que atraiu a ira de Deus sobre aquelas regiões, compelindo-o a fortalecer os elementos e poderes da Natureza e até mesmo o fogo do céu para destrui-los.
Em resumo, basta olharmos para o nosso globo, onde talvez não encontremos um único ponto que ainda não mostre os sinais da ira do céu espalhada sobre os desafortunados que foram insanos e culpados o suficiente para se juntar ao inimigo contra a Divindade; e este quadro de nosso globo é uma história viva, mais convincente do que qualquer outra contida nos livros, e demonstra a prevalência universal do crime, não mencionados nos livros, ou aludidos apenas resumida ou incidentemente.
Tudo indica que as calamidades e abominações do primeiro grau parecem ter diminuído; e, se não acabaram completamente, não se encontram mais nas estruturas das nações, mas apenas praticadas por indivíduos.
O segundo grau: abominações religiosas, ilusões Satânicas, ciências ocultas etc.
Na pura observação dos sacrifícios legítimos, o sacerdote sincero e seu povo recebiam visíveis evidências da aprovação do Poder Soberano, já que tinham instruções para a sua conduta na senda da santidade, respostas para as perguntas dentro da sabedoria e justiça; contudo, tão logo a negligência ou corrupção invadiu estes sacrifícios, a influência desordenada entrou imediatamente neles, mostrando-se visivelmente sob a forma que desejasse; ela elaborava respostas e se estabeleceu como oráculo e a real arca da aliança.
Muitos sacerdotes foram ingênuos e vítimas destas falsas aparições; e muitos tendo primeiro se submetido ao seu governo, governaram , então, nações através destas seduções encantadoras! Esta influência desordenada pôde comunicar algumas verdades que chegou a conhecer através da imprudência dos homens; ela previu eventos que vieram a ocorrer, e freqüentemente respondia questões de forma correta; isto era o suficiente para fazer o povo se prostrar diante dela, seja qual for a forma que tomasse, ou qualquer ordens que prescrevesse.
Tal é, sem dúvida, a origem de muitas religiões e formas de culto no mundo, assim como das atrocidades associadas religiosamente a elas; é preciso distinguir claramente estas abominações secundárias daquelas do primeiro grau, que atacaram a própria Divindade intencionalmente; o efeito dos crimes do segundo grau parece ter sido apenas o de desviar os homens e privá-los dos benefícios dos propósitos divinos; isto representa atacar a Divindade apenas indiretamente. Mas estes crimes parecem superar em número e extensão o que não possuem em importância.
Nesta classe devemos colocar todos aqueles mestres das ciências ocultas, a quem os ignorantes tem chamado de iluminados; todos aqueles que tem ou tiveram espíritos Pythonicos, que consultam espíritos de familiares, e deles recebem mensagens.
Nesta classe se deve colocar todos aqueles oráculos dos quais as mitologias estão repletas, todas aquelas respostas proféticas e ambíguas que os poetas tem feito de base e centro dos seus poemas, na tentativa de despertar nosso interesse em seus heróis representando-os como vítimas do destino, ou até mesmo vítimas de palavras ambíguas, através das quais foram levados a caminhos de erros e problemas, ao invés de marcharem sob os estandartes da verdade e sabedoria.
Nesta classe devem ser colocados muitos daqueles prodígios realizados na suspensão de nossos sentidos corporais (torpor mesmérico, sonambulismo etc.) que expõem os homens a qualquer domínio que se apresente; além do mais, temos motivos para crer que o crime do Homem teve início com o sono, e que por ter permitido seus sentidos reais se tornarem torpes, mergulhou na ilusão e nas trevas.
Nesta classe devem ser colocadas todas aquelas práticas ilegítimas e falsas, de todas as épocas, que sob a aparência da verdade, separou os homens da única Verdade que deveria ser seu guia. Me refiro a todas as práticas abusivas, pois apesar da não realização dos sacrifícios em grande parte do mundo, é certo que estes abusos tiveram início na corrupção destes sacrifícios, sendo então propagados de geração em geração, produzindo novos erros até a nossa própria época, já que a fonte criminosa de onde surgiram é viva e apodera-se de cada oportunidade que os homens lhe proporciona para estender seu reino e realizar seus desígnios.
Somos levados a acreditar que se a maioria dos homens vive sob o jugo destas iniquidades e ilusões, ainda que de boa fé ou pela ignorância, podem também trazer suas paixões e intenções egoístas para dentro de si, ao invés da virtude; aquele que se acerca das abominações do primeiro grau, mostram muito bem o que tem sido as lamentações dos profetas e como toda vontade é fundada.
Terceira classe de desordem: superstição, idolatria,
confecção de santos, imagens etc.
Finalmente, a terceira classe destas abominações é aquela de todo tipo de idolatria e superstição. As múltiplas formas que a influência desordenada era capaz de assumir, a fim de alterar os sacrifícios e desencaminhar o Homem, foram as principais fontes da idolatria material, os sacerdotes que recebiam tais manifestações sendo levados por uma tendência natural a reverenciar animais e outras substâncias naturais com que aquelas formas, assumidas pelo poder desordenado, tinha alguma relação; e esta era a origem de cultos oferecidos por tantas nações a diferentes criaturas.
Deste ponto para a idolatria figurativa, ou a confecção de imagens, não há mais que um passo; inumeráveis causas freqüentemente levam à substituição da imagem de ídolos pelo próprio ídolo; o povo transfere facilmente sua veneração do ídolo para a imagem.
A deificação tem uma origem similar; o sacerdote tem sido objeto de adoração. Assim, quase que em todas as nações, encontramos uma Divindade visível e uma invisível; no Norte, dois Odins, um é o Deus supremo, o outro é um conquistador; entre os gregos encontramos dois Zeus; dois Zoroastros entre os Persas; dois Zamolxis entre os Thracias etc.
Não é muito difícil descobrir a origem das superstições populares. Não foi pela falta de profetas que os judeus caíram em todo tipo de idolatria já que em seus escritos particularmente os Salmos, o Deus Supremo é claramente distinto de qualquer coisa que o Homem tem tomado por Deus.
Mas, ao abordar os sacrifícios, esteja corrompido ou não, e pelo testemunho das cerimônias daquelas abominações secundárias, o Homem verá que, sob certas circunstâncias ocorrem certos resultados; o Homem perderá a visão do espírito que deveria dirigir todas estas formalidades e ao lhe dar valor e se prender à forma vazia, substância, ou somente a cerimônias isoladas, entregando a eles aquilo que conquistou enquanto o espírito vivo estava com eles.
Vemos aqui como o povo vem consultar as entranhas das vítimas, mesmo no últimos momentos do agonizante animal; o vôo dos pássaros; talismãs; criptograma; amuletos; ou seja, a todos aqueles inumeráveis sinais naturais cuja as opiniões agitam as mentes dos homens, e a cobiça, se tem dado um valor e uma importância que na verdade não possuem.
Este triste quadro é suficiente para mostrar a que tipo de aberrações a mente do Homem está exposta, quando ele para de olhar contra a influência desordenada, que após tê-lo desviado na época de sua glória, o desviou novamente quando os sacrifícios foram instituídos para a sua regeneração; ela tem propagado a desordem de tal forma que o Homem não pode conhecer nenhuma paz até que sua morada seja inteiramente renovada.
É preciso notar, com relação aos presentes, que estes sempre foram oferecidos ao vidente, uma imitação daqueles oferecidos no templo através do sacrificador; estes presentes e oferendas faziam parte, a princípio, da virtude do sacrifício, depois é que se tornaram órgãos inferiores de correspondência e por fim um mero objeto de fraude, avareza e especulação.
As leis são progressivas em sua ordem e objetivo.
Todos as leis dadas ao Homem desde o seu pecado, tem tido a sua elevação como objetivo. Por esta razão, a lei é sempre inferior ao limite para o qual aponta e para o qual pretende levar o Homem, embora seja superior àquele onde o encontrou: é por este motivo também que estas diferentes leis teriam sido sempre progressivas se o Homem não tivesse atrapalhado seu curso, tão freqüentemente, através de seus erros; contudo, tendo o Homem multiplicado continuamente suas próprias quedas, e aumentado suas próprias trevas, ele atraiu leis de rigor e repressão enquanto deveria ter recebido aquelas de bondade e consolo.