Correspondências
de Louis Claude de Saint-Martin
CORRESPONDÊNCIA
INÉDITA DE L.-C. DE SAINT-MARTIN
CHAMADO O FILÓSOFO DESCONHECIDO e
KIRCHBERGER, BARÃO DE LIEBSTORF
Membro do Conselho Nacional da República de Berna
DE 22 DE MAIO DE 1792 A NOVEMBRO DE 1797
OBRA COLIGIDA E PUBLICADA por L. SCHAUER E ALP. CHUQUET
Editores-Proprietários de DES NOMBRES e L'ÉCLAIR SUR L'ASSOCIATION
HUMAINE
SUMÁRIO
Prefácio.........................................................................................................................................................
1
Introdução ao estudo da vida, da Ordem e da Doutrina do FILÓSOFO
DESCONHECIDO....................... 1
O Que é o Martinismo...................................................................................................................................2
CAPÍTULO I - LOUIS-CLAUDE DE SAINT-MARTIN E O MARTINISMO..........................................
3
Quadro Cronológico da Vida e os Escritos de Louis Claude de Saint-Martin..............................................
3
CAPÍTULO II - LOUIS-CLAUDE DE SAINT-MARTIN E SEUS MESTRES..........................................5
CAPÍTULO III - EXISTÊNCIA HISTÓRICA DA ORDEM MARTINISTA..............................................8
CAPÍTULO IV - O ESPÍRITO DA ORDEM MARTINISTA......................................................................9
CAPÍTULO V - A DOUTRINA MARTINISTA - MÉTODO E DIALÉTICA..........................................10
Cartas..........................................................................................................................................................
14
Prefácio
Senhor L. Schauer, homem de letras, Paris: Tenho, Senhor, de agradecer-vos
muito por vos haverdes lembrado em mim
para ler este escrito de Saint-Martin. Sempre nutri por ele grande veneração
e senti-me atraído por seu pensamento, embora
nesses assuntos seja eu um dos mais profanos. Vejo que, graças a
vós a ao Senhor Matter, vou aprender ainda mais sobre
ele. Dignai-vos aceitar, Senhor, a expressão de minha mais distinta
consideração. SAINTE-BEUVE
Paris, 6 de dezembro de 1861.
Senhor L. Schauer, homem de letras, Paris: Senhor: Expresso-vos meu reconhecimento
pela bondade que tiveste em enviarme
vosso interessante volume1 e pela amável carta com que o acompanhstes.
Considero essa publicação como um serviço
importante prestado à história do misticismo francês
e agradeço-vos antecipadamente pela edição completa
das obras de
Saint-Martin que nos prometeis em vosso Prefácio Saint-Martin não
é somente uma bela alma: é uma uma nobre inteligência
e uma das penas2 mais finas que já se consagraram ao se rviço
do espiritualismo, do qual o misticismo é uma das formas
mais elevadas. Experimentei um grande encanto ao reler, em vossa bela edição,
o Écair sobre a Associação Humana.
Recebei por isso, Senhor, meus agradecimentos e felicitações,
com a certeza de meus mais distintos sentimentos. AD.
FRANCK Paris, 17 de janeiro de 1862
1 Des Nombres (Sobre os Números), de L. C. de Saint-Martin. E.Dentu,
livreiro e editor, Palais-Royal.
2 Sentido figurado: pena (ou caneta) do escritor. (N.T.)
LOUIS CLAUDE DE SAINT MARTIN E O MARTINISMO
Introdução ao estudo da vida, da Ordem e da Doutrina do FILÓSOFO
DESCONHECIDO
1
ADVERTÊNCIA
Seguidamente confundem-se sob a denominação de Martinistas,
os discípulos de Martinez de Pasqually e os de Louis
Claude de Saint-Martin. Se bem que as teorias sejam as mesmas, uma diferença
profunda separa as duas escolas. A de
Martinez, restringiu-se ao plano da Maçonaria Superior, enquanto
que a de Saint-Martin estendeu-se aos profanos; a
segunda, ainda, recusou-se às práticas e às cerimônias
às quais a primeira dava uma importância muito acentuada. É
exclusivamente no sentido da doutrina e dos discípulos de Saint-Martin
que, as palavras Martinismo e Martinistas, serão
empregadas no transcorrer das páginas que se seguem. Assim se fala
do Spinozismo de Spinoza, do Bergsonismo de
Bergson. Em particular, a expressão "Ordem Martinista",
que será lida uma ou duas vezes, não implica nenhuma referência
à
Ordem dos Elus-Cohen, fundada por Martinez e que se perpetua até
os nossos dias; ela se aplica ao "Círculo Íntimo"
dos
Amigos de Saint-Martin. Chamará atenção do leitor o
grande número de citações de Saint-Martin apresentadas
nesta obra.
Talvez elas o surpreendam. Entretanto, acreditamos que não nos devemos
desculpar por isso. Nosso único desejo é dar do
Martinismo a idéia menos infiel possível. Pareceu-nos que
os textos se impunham, cada vez que uma paráfrase tentava trair
o pensamento do Filósofo Desconhecido. Algumas vezes, foi-nos necessário
interpretar, deduzir certas conseqüências dos
princípios estabelecidos. Disto não nos desculparemos mais,
tentaremos justificar tal medida. A nossa idéia diretriz, aquela
doutrina viva, responde ao pensamento do filósofo. Mas o trabalho
de desenvolvimento que se nos impõe, terá sido sempre
conduzido no sentido em que Saint- Martin o teria levado? Disto não
podemos nos vangloriar. Para alcançar semelhante
objetivo, teria sido necessário o próprio Ph Desc, ou, pelo
menos algum iniciado adiantado, algum "homem de desejo" mais
evoluído. E é por esta traição involuntária,
cuja multiplicação dos fragmentos de Saint-Martin nos pareceu
limitar a
importância que nós devemos, em definitivo, pedir perdão
ao leitor. No curso do presente trabalho, as obras de Saint-Martin
são citadas da seguinte maneira: "Erreurs" designa os Erros
e a Verdade (Des Erreurs et de la Verité) refere-se à edição
de
Edimbourg 1782, 2 volumes, indicando o tomo e a página. "Le
Tableau Naturel", é citado segundo a reedição
da "Biblioteca
da Ordem Martinista", Paris, Chamuel, 1900. "Le Cimitière
d'Amboise" e as "Stances sur l'origine et la destination de
l'homme", são citadas segundo a reedição da "Petite
collection d'auteurs mystiques", Paris, Chacornar 1913. Para os outros
escritos de Saint-Martin, utilizamos, salvo indicações contrárias,
o texto e a paginação da primeira edição. Enfim,
lembramos
uma vez por todas que, as indicações complementares sobre
as outras de que citamos na Biblioteca de M. Chateaurhin ou
no suplemento bibliográfico, estão no final do presente estudo,
na página 67.
O Que é o Martinismo
"É preciso que um homem esteja oculto, escreveu Dostoiewsky,
para que se possa amá-lo. Desde que mostre o seu rosto, o
amor desaparece". (1) Não é certamente a Louis Claude
de Saint-Martin, o "Filósofo Desconhecido", que estas palavras
podem ser aplicadas. Ignorado, sem dúvida, do grande público,
Saint-Martin nunca enganou aqueles que se inclinaram sobre
a sua tão curiosa personalidade e se aprofundaram na sua doutrina
espiritual. Mestre da vida espiritual, assim se apresenta
aquele que as histórias da Filosofia rejeitam, às vezes, em
notas de rodapé. É porque sua obra se endereça aos
homens de
boa vontade, que em nossos dias como em todos os tempos procuram a verdade
e a salvação, este modesto trabalho foi
projetado. Poder-se-ia, se não tivéssemos temor de ver superestimada
sua importância, intitulá-lo: Iniciação ao Martinismo.
Tal foi, exatamente, a razão destas linhas. E, como nossa intenção
era de apresentar uma introdução ao estudo e à prática
de uma doutrina, tentamos explicar a tarefa que se nos apresenta. Assim
compreenderemos melhor e mais rapidamente, o
que se pode entender por "Martinismo". Tratou-se, em síntese,
de apresentar um esboço do pensamento do Ph... Desc... .
Porém, mais que aos amadores de reconstituições históricas,
ou aos curiosos de debates metafísicos, era preciso dirigir-se
àqueles para os quais o Martinismo é um fermento de vida espiritual,
e, Saint-Martin, um Guia Fraternal, um Mestre e um
Amigo. Fixar para os "homens de desejo e de boa vontade", os próprios
ensinamentos dos quais eles se alimentam ou fazêlos
conhecer aqueles que se saciarão dos mesmos; oferecer um quadro vivo
de uma doutrina viva: tal deve ser e tal foi nossa
constante preocupação ao redigir este trabalho. Não
se encontrará aqui, propriamente falando, a exposição
didática da
filosofia de Saint-Martin. O Teósofo de Amboise pode, certamente,
reivindicar um honrado lugar entre os filósofos. Poderá
ser, sobre este particular, objeto de um trabalho detalhado.(2) Sua obra
suporta a prova de um exame minucioso. Determinar
precisamente as influências que exerceram sobre Saint-Martin, seguindo
os efeitos através de suas diferentes obras.
Reconhecer em determinada página do Tableau Naturel, uma reminiscência
platônica, ou, em tal parágrafo do Ecco Homo, a
lembrança de uma conversação com Madame de Boecklin;
situar enfim, após haver dissecado, o sistema que elaborou no
século XVIII, um pensador denominado Louis Claude de Saint-Martin,
são tantas tarefas úteis, apaixonantes mesmo é
próprias para dar um novo brilho à figura do Mestre. Mas não
queremos reconstituir um esqueleto, nem queremos erguer
uma estátua de pedra. As condições já enunciadas
e nas quais este livro foi elaborado, nos justificarão, sem dúvida,
de ter
abandonado todo aparato de erudição. Somente figurarão
as indicações necessárias para compreender a doutrina
definitiva,
porque existe um aspecto perfeito no pensamento Martinista. Está
além das palavras, aquele que o entrevê; permite
perceber a coerência e o fundamento das aplicações que
deles se tiram. O que se chama Martinismo é, ao mesmo tempo,
uma sociedade de homens continuando os estudos místicos do Mestre
e, um sistema filosófico e metafísico que alguns
denominam uma teologia. Mas é também um método que
permite reconhecer, à luz deste próprio ensinamento, o que
em
todos os domínios é especialmente tradicional e iniciático.
(3) Se é uma especulação abstrata, o martinismo é
logo uma
2
vivência, um estado de espírito, um espírito. É
um conhecimento superficial, uma luz que dá a sua cor aos objetos
que
envolve, e, que, misturando sua nuança aqueles que lhes é
próprio, funde-os sem os confundir, numa doce harmonia.
Pudessem estas páginas, escritas com simpatia e respeito, incitar
aqueles que se uniram numa admiração comum por Saint-
Martin, a partir da leitura, para encontrar o espírito. Talvez o
maior dos filósofos da Unidade perseguisse, sem cessar, um
esforço de síntese. "É um excelente casamento
para fazer, disse este, da nossa primeira escola com o nosso amigo
Böehme. É para isso que eu trabalho".(4) Nesta inspiração
consiste o verdadeiro ensinamento do Teósofo. Aí encontra-se
expressa a grande idéia que norteou toda a sua vida. E não
é mostrarse um fiel discípulo de Saint-Martin o buscar nos
seus
livros a idéia que os ditou? "Os livros que fiz, ele mesmo declarou,
só tiveram por meta convencer os leitores a abandonar
todos os livros sem respeitar os meus". (5) A própria Bíblia,
o livro dos livros, não é suficiente para fundamentar uma
verdade. "Por mais avantajadas que sejam as descobertas que se possa
fazer nos livros hebreus, elas não devem ser
empregadas como provas demonstrativas das verdades que dizem respeito à
natureza dos homens e sua correspondência
com o seu Princípio, porque estas verdades subsistem por si mesmas;
o testemunho dos livros não deve jamais servir senão
como confirmação". (6) Por isso, convidamos todos os
homens, nossos irmãos, a recolher, independentemente das fórmulas
e das demonstrações, a exaltação mística
do Teósofo, e restabelecer o cânon, segundo o qual ele julgava
o homem e o
Universo, e acima de todas as coisas, a reencontrar a espontaneidade do
impulso que o levava a Deus. Tal é o convite que
este pequeno livro pode lançar. O objetivo do autor será plenamente
alcançado, se graças a ele, só uma minoria
compreender o apelo dos Mestres Passados, e reconhecer o verdadeiro Caminho
da Reintegração; a Rota Interior que lhe
traçou o Ph Desc , pela voz grave e amável de Louis Claude
de Saint-Martin.
CAPÍTULO I - LOUIS-CLAUDE DE SAINT-MARTIN E O MARTINISMO
Alguns dados históricos
Uma nova exposição da vida de Saint-Martin, para apresentar
algum interesse, deverá apoiarse em documentos inéditos,
elucidar certas dificuldades históricas que ainda oferece a existência
do Ph Desc. Mas esta delimitação precisa no tempo e
no espaço da personalidade de Saint-Martin, não é,
já se sabe, a finalidade desta obra. Parece inútil apresentar,
sob uma
forma diferente, a bibliografia de Saint-Martin, tal como foi escrita por
vários autores. É deles que nos socorremos e, em
particular, aos estudos de Matter e de Papus, assim como os livros de Moreau,
de Caro e as diversas notas das
enciclopédias e dos jornais. (7) Entretanto, para bem captar a doutrina
Martinista, talvez seja útil possuir os elementos
essenciais de sua formação. Também daremos um sumário
dos homens e dos livros cujo contato influenciou Saint-Martin.
Mas, antes, recapitularemos em um simples quadro, as grandes épocas
da vida do Teósofo de Amboise, as datas essenciais
sobre sua passagem pela terra, a menos que, para qualquer outro, parece
que o destino e o pensamento de um homem de
desejo, como o foi Saint-Martin, devem ter sofrido a influência de
circunstâncias exteriores. Foi sublinhado o curioso contraste
que existe entre as preocupações místicas das quais
testemunhou a correspondência com Kirchberger e os trágicos
episódios, que agitaram, ao mesmo tempo, a França no terror.
Entretanto, está fora de dúvida que a Revolução
Francesa e a
corrente de idéias que a aureolou, ficaram longe de deixar indiferente
o autor de l'Eclair sur l'association humaine. Sua atitude
a respeito da Franco-Maçonaria, explica-se sem dúvida, por
uma evolução pessoal, mas também, pela degenerescência
da
própria Maçonaria. E como compreender o sistema Martinista
sem levar em conta as relações com Martinez e a viagem a
Strasbourg? Cremos, pois, mantermo-nos fiel ao nosso assunto, que é
o estudo do Martinismo, lembrando, sucintamente,
seus fundamentos históricos; por um lado, a pessoa de Saint-Martin,
por outro, a sociedade que se apregoa, criada
diretamente por ele.
Quadro Cronológico da Vida e os Escritos de Louis Claude de Saint-Martin
(Com os principais sincronismos literários, políticos e Martinistas)
Ano Vida de Saint-Martin - Sincronismos Martinistas - Sincronismos Literários
- Sincronismos Políticos
· 1730 Lyon. Nascimento de Willer-moz.
· 1741 Guerra da Sucessão na Áustria.
· 1743 18 de Janeiro. Nascimento de Saint-Martin, em Amboise.
· 1748 Montesquieu: "OEspírito das Leis".
· 1750 Rousseau: "Discurso sobre as Ciências e as Artes".
Palissot: "Os Filósofos".
· 1754 Martinez de Pasqually funda em Montpellier os "Juizes
Escoceses". Viagens na França. Formação e Iniciados.
· 1758 Helvetius: "Do Espírito".
· 1760 Revês em Touluse. Em Foix, Pasqually inicia Grainville
e funda um Templo.
· 1761 M. de Pasqually em Borde-aux afilia-se à Loja "La
Fran-çaise" que ele procura reno-var. Rousseau: Do Contrato
Social".
3
· 1762 Rousseau: "L' Emile".
· 1764 "La Française" se associa a um Capítulo
Cohen "La Française Elu Ecossaise". Voltaire: Dicionário
Filosófico.
· 1765 Carta Patente de Oficial do Regimento de Foix.
· 1766 Suspensão do Capítulo Co-hen. M. de Pasqually
em Paris. Instrui Bacon de la Chevalerie, Lusignan Gra-inville, du
Guers, Willermoz. Iniciação de Willer-moz.
· 1767 21 de Março, Equinócio da Primavera. Constituição
de um Capítulo Cohen e do Tri-bunal Soberano, Bacon de la
Chevalerie, substituto Uni-versal. Abril; M. de Pas-qually em Bordeaux,
após Amboise Blois, Tours, Poi-tiers. Casamento
de Pas-qually. Ocupações de Guers.
· 1768 Agosto, Setembro. Saint-Martin é iniciado Elu Co-hen
por Grainville e Bal-zac. Saint-Martin reencontra Martinez. 13
de Março, Willermoz é ordenado Rose-Croix. Ele encontra Saint-Martin
pela primeira vez. 20 de Junho, nascimento do
filho de Pasqually. Negócios em Guers. Boulanger: l' Antiquité
dé-voilée. Negócios em Guers.
· 1770 D'Holbach: "Sistema da Natureza".
· 1771 Saint-Martin abandona as armas para melhor seguir a espiritualidade.
Saint-Martin, secretário de Pasqually em
Bordeaux. "Tratado da Reintegração dos Seres Criados".
· 1772 Primavera: Saint-Martin obtém "Passes" no
transcurso da Operação do Equinócio. 17 de Abril: é
ordenado Rose-
Croix. Equinócio da Primavera: Willermoz fracassa nova-mente. Sucesso
de Saint-Martin e Deserre. 17 de Abril:
ordenação Rose-Croix de Saint-Martin e Deserre. 5 de Maio:
Pasqually embarca para São Domingos. Termina a
publicação da Enciclopédia.
· 1773 Setembro: Saint-Martin em Lyon, junto com Willermoz.
· 1774 Outubro: viagem a Itália com o médico Jacques
Willermoz.
· 20 de Setembro: morte de Pasqually em São Domingos. Caignet,
Grande So-berano. Morte de Louis XV. Posse de Louis
XVI.
· 1775 "Dos Erros e da Verdade". Abril: Saint Martin em
Paris.
· 1776 9 de junho: Saint-Martin encontrase com o abade Fournié
em Bordeaux. 12 de julho: Saint-Martin par-te para
Toulouse. Voltaire: A Bíblia Explicada. 4 de Agosto: nascimento de
Ballanche.
· 1777 Início: Saint-Martin em Paris.
· 1778 25 de Novembro, Conven-to de Gaules em Lyon. J. de Maistre,
Gran Professo por Willermoz. 30 de Maio: morte de
Voltaire. 3 de Julho: morte de Rousseau. Guerra na América.
· 1779 19 de Dezembro: morte de Gainet de Lesterre. S. de Las Casas,
Gran Soberano.
· 1780 Novembro: Las Casas aconselha a dissolução dos
Cohen e a guarda dos arquivos aos Filaletes.
· 1782 "Quadro Natural das Rela-ções que existem
entre Deus, o Homem e o Uni-verso". 16 de julho: Convento de
Wilhemsbad. Rosseaux: "Confissões".
· 1783 Mémoire à l'Académie de Berlim.
· 1784 Janeiro: Saint-Martin presta juramento à Sociedade
de Mesmer. Recusa-se a participar no Convento dos Filaletes.
20 de Outubro: Cagliostro em Lyon.
· 1785 30 de junho. Partida para Lyon com sua Bíblia He-braica.
24 de Agosto: embastilha-mento de Cagliostro (pro-cesso
de Collier). Primave-ra: Manifestação do "Agente Inconnu"
em Lyon.
· 1786 12 de Janeiro: retorno a Paris com Zimovief.
· 1787 10 de Janeiro: Chegada a Londres com Galitgin. Reencontro
de Law e de Divone. Setembro: partindo para a Itália
com Galitgin, se detém em Lyon.
· 1788 Fevereiro: retorno da Itá-lia, permanece em Lyon. Abril:
em Paris (Amboise, Montbéliard). 6 de Junho: Strasbourg.
Reencontros: Turkheim, Madame de Boeklin e Salzmann lhe revelam Boheme.
Swedenborg: Resumo em Francês de
suas obras.
· 1789 5 de Maio: Estados Gerais em Versalhes.
· 1790 "O Homem de Desejo". 4 de Julho: manda riscar seu
nome dos registros maçônicos desde 1785. Goethe: Fausto -
1ª parte.
· 1791 Julho: deixa Strasbourg por Amboise. Em Paris re-encontra
a duquesa de Bourbon. Volney: Les Ruines. 20/22. Fuga
do Rei Varennes. 1º de Outubro: Legislativo.
· 1792 "Ecce Homo". "O Novo Homem", escrito em
Stras-bourg, 28 de maio: 1ª carta de Liebisdorf a Saint-Martin.
· 1793 Janeiro: morte do pai de Saint-Martin. Abril: chamado à
presença das autoridades revolucionárias de Amboise.
Agosto-Outubro: curta estada junto à duquesa de Bourbon em Petit-
Bourg. Outubro: Amboise. Lê Böehme e Law.
Gleichen: "En-saios Teosóficos". 21 de Setem-bro: Proclamação
da República.
· 1794 Saint-Martin em Paris re-torna a Amboise. Fim do ano: é
chamado à Escola Normal. 20 de Julho: morte de André-
Marie Chenier. 21 de Janeiro: morte de Luis XVI. 2 de Junho: o Terror. 16
de Outubro: morte de Maria Antonieta.
· 1795 27 de Fevereiro: Controvérsia com Garat. Permanece
em Paris, corrige l'-Eclair e escreve as "Reve-lações
Naturais".
16 de Abril: um decreto, proíbe aos nobres de deixar Paris. 27 de
Ju-lho: queda de Robespierre. Fim do Terror.
4
· 1796 Memórias à Academia sobre os "Signes de
la Pen-sée". "Lettre à un ami", ou "Considérations
Philoso-phiques et
religieuses sur la Révolution Française". Maio, em Amboise.
27 de Outubro: O Diretório.
· 1797 Junho: curta estada em Petit- Bourg em Champlâ-treaux.
Julho/Setembro: Amboise. Eclair sur l'association humaine.
Réfletions d'un observateur sur la question proposée par l'Institut,
quelles sont les institutions les plus propes à fonder la
morale d'un peuple. En Sonbreuil en-contro com Gassicourt. Chateubriand:
"Ensaios sobre a Revolução".
· 1798 "O Crocodilo" ou "A Guerra do Bem e do Mal",
escrito sobre o reinado de Louis XV. Condenação do livro:
"Dos Erros
e da Verdade" pela Inquisição da Espanha.
· 1799 "De l'influence des Signes sur la pensée",
primeira-mente no "Crocodilo". Nascimento de Balzac. 9 de Novembro:
Bonaparte substitui os Diretores.
· 1800 "O Espírito das Coisas". Tradução
da "Aurora Na-cente" de Jacob Boehme.
· 1801 O Cemitério d'Amboise. Ballanche: "Du Sentiment".
Constituição do ano VIII. Bonaparte: 1º Cônsul.
· 1802 "O Ministério do Homem Espírito".
Tradução: "Dos Três Princípios da Essência
Divina", de Jacob Boehme.
Chateaubriand: Gênio do Cristianismo.
· 1803 Termina a tradução "Das 40 Questões
sobre a alma" e "Da Tríplice Via do Ho-mem" de Böehme.
Entre-vista com
Chateaubriand no "la Valle aux Loups" (Janeiro). 13 de Outubro:
em Aulnay na Casa de Le-noir- Laroche, morte de Saint-
Martin.
· 1804 18 de Maio: Bonaparte imperador
· 1806 No Grande Convento dos Ritos do Grande Oriente, Bacon de La
Chevalerie representa os Elus Cohens.
· 1807 "Obras Póstumas" - "40 Questões
sobre a Alma", "Da Tríplice Via do Homem".
· 1812 7 de Outubro: morte de Salzmann.
· 1821 Joseph de Maistre: Soirées de Saint-Petersbourg.
· 1824 Lyon, 29 de Maio: morte de Willermoz.
· 1843 "Os Números", Litografia de Chauvin.
· 1862 "Correspondências inéditas com o Barão
de Liebisdorf.
CAPÍTULO II - LOUIS-CLAUDE DE SAINT-MARTIN E SEUS MESTRES
"Se eu não tivesse encontrado Deus, jamais meu espírito
teria podido fixar-se em algo sobre a terra". (Portrait nº 290,
pág.
37)
Se bem que o Martinismo possa definir-se como sendo a doutrina conforme
o espírito e não somente à letra de Saint-Martin,
a personalidade e a obra do Filósofo Desconhecido, permaneceu, entretanto,
como base desse ensinamento. Depois de tê-lo
situado na sua época e em seu país, vejamos que tipo de homem
foi Saint-Martin e como se modelou o seu espírito. Ele
deixou-nos sobre sua vida e sobre suas afeições, páginas
deliciosas e profundas. Melhor que quaisquer comentários, elas
saberão delinear seu rosto bondoso num sorriso enigmático.
O conhecimento "por simpatia" do Teósofo, permitirá,
talvez,
perceber melhor sua profunda elasticidade que é, exatamente, a mesma
do Martinismo. Nas primeiras páginas de seu
Portrait, entre esses esboços tão delicadamente puros de estilo
e de pensamento, o próprio Saint-Martin nos diz que tinha
"pouco de astral", e acrescenta: "A Divindade me recusou
um máximo de astral porque queria ser meu móvel, meu elemento
e meu termo universal"(8). Sua alma sensível e meditativa, seu
próprio corpo do qual recebeu somente um "projeto", (9)
predispunha Saint-Martin a seguir o caminho interior. Ele próprio
nô-lo afirma: "Na minha infância não consegui persuadir-me
de que os homens conhecedores das doçuras da razão e do espírito,
pudessem ocupar-se, por um momento, das coisas da
matéria". (10) Acima de tudo Saint-Martin buscava Deus. Teria
em si, incessantemente, esta sede do Bem, do Belo, do
Verdadeiro que só Deus pode saciar. "Todos os homens podem ser-me
úteis, escreveria um dia, mas nenhum deles poderia
jamais, satisfazer-me: Deus me basta". (11) A estes pendores naturais,
juntaram-se, para os acentuar, a primeira educação e
as primeiras leituras. Uma madrasta, inteligente e piedosa, substitui junto
a Louis Claude, a mãe desaparecida muito cedo.
Seu filho adotivo, que ela concebeu segundo o espírito, dela falou,
nestes termos gratos e ternos: "Eu tenho uma madrasta a
quem devo, talvez, toda a minha felicidade, pois foi ela quem me deu os
primeiros elementos de uma educação doce, atenta
e piedosa que me fez amar Deus e os homens".(12) A influência
desta mulher sobre Saint-Martin, foi considerável. A religião
íntima que lhe ensinou, permaneceu sempre gravada no coração
do Filósofo Desconhecido. O exemplo e as palavras da
primeira mulher que influenciou a vida de Saint-Martin, juntou-se à
escolha das leituras. Foi graças a ela, sem dúvida, que
Saint-Martin pode ler Abbadie. As obras de Jacques Abbadie, "ministro"
protestante de Genebra, iluminaram as longas horas
do Colégio de Pontlevoi. Elas se endereçavam ao homem, não
somente ao intelecto - correspondia assim às aspirações
do
jovem Louis Claude. A arte de conhecer-se a si mesmo, reforçou em
Saint- Martin, o gosto pelo estudo de si próprio, não da
análise, decepcionante e estéril, mas da reflexão fecunda
da marcha do caminho do Coração. Pela feliz inclinação
que
ajudou a despertar em sua alma, Abbadie bem merece ser chamado o "iniciador"
de Saint-Martin. (13) Também Pascal
exerceu uma influência precoce sobre o Filosofo Desconhecido e, veremos
que ele acentuou sua concordância moral e
metafísica. Deste modo, se constitui e frutifica em Saint-Martin,
o tesouro da verdade que permanecerá sempre com ele e
5
cujo valor, jamais deixará de conhecer. "Quando tinha 18 anos,
disse-me, no meio das confissões filosóficas que os livros
me
ofereciam: existe um Deus, eu tenho uma alma, não é necessário
mais nada para ser sábio e, foi sobre essa base que se
ergueu todo o meu edifício". (14) Dir-se-á que o vigário
Saboiano não falará de outro modo. Entretanto, nada seria
mais falso
que ver nesta frase a profissão de fé de um deísta.
"Dou mais valor a um idólatra do que a um deísta, diz
ainda Saint-Martin,
porque este abjura e proscreve toda comunicação entre Deus
e o homem, enquanto o outro, apenas se engana sobre o
órgão e a maneira da comunicação". (15)
Nessa época, conformando-se com a vontade paterna que o destinou
à
magistratura, estudou direito. Foi assim que tomou contato com o meio filosófico
e literário da época. Este contato não se fez
sem lhe deixar alguns traços. Leu os autores da moda que, segundo
Matter (16) foram: Voltaire, Rousseau, Montesquieu,
todos escritores pouco místicos. Entretanto, Saint-Martin tinha a
capacidade de pensar por si mesmo. Sobretudo a
Providência velava sobre ele, por meio da Proteção ele
reivindicava freqüentemente, cuja Presença e cuja Virtude celebrava.
Saint-Martin conheceu o Erro, mas sem aderir a ele. Não cedeu à
sedução da "Encyclopédie" nem ao encanto
irônico do
"Dictionnaire Philosophique". Podia, sem remorso, lembrar-se dos
tempos de sua juventude. Transpõe a corrupção sem
sofrer seus golpes mortais. "Li, vi e escutei os filósofos da
matéria e os doutores que devastam o mundo com suas
instruções; nenhuma gota de seus venenos penetrou-me; nem
mesmo as mordidas de uma só destas serpentes me
prejudicaram". (17) Certamente, Saint-Martin não compartilhava
as idéias de Helvetius e de Condillac; permanecera sempre
adversário irreconciliável deles. Assim, ele apreendeu a conhecer
seus inimigos, os "Filósofos". Sua familiaridade, mesmo
enquanto não foi mais que um livresco, transparecia em seu propósito.
O julgamento que fizeram deles traiu, talvez, uma
certa indulgência e, encerrou, em todo caso, uma justa compreensão
de sua doutrina. "Se fosse possível dar-mos conta dos
primeiros passos que esta filosofia tinha feito..., talvez fosse preciso
agradecer à inteligência humana por ter adquirido as
altas verdades das trevas onde os instituidores as haviam reunido".
(18) Saint-Martin, não condena, de modo algum, à razão;
ao contrário, ele a exalta e o veremos atribuir-lhe a tarefa de conquistar
a verdade. Mas ela deve admitir os seus limites e
reconhecer aquilo que a ultrapassa. Essa preocupação de um
lugar certo para cada coisa, essa distinção de planos, são
constantes em Saint-Martin. Elas iluminarão sua vida e suas opiniões.
Veremos o Teósofo julgar Voltaire. Admitir-lhe o
talento, a virtude intelectual, como também as fraquezas. Talvez
seja mais difícil não se admirar Voltaire do que estimá-lo
ou
amá-lo, porque a sutileza do espírito não pode substituir
o sentido moral. E o cuidado desse senso moral, dominou em Saint-
Martin, uma vez que ele tocou, pelo filósofo, a própria essência
do homem capaz de discernir o bem e o mal. Saint-Martin
concluiu também de Voltaire: "Talvez um homem sensato fizesse
melhor em recusar totalmente seu espírito, se com isso,
fosse obrigado, ao mesmo tempo, a aceitar sua moral". (19) No que diz
respeito a Rousseau, Saint-Martin tinha com ele
muitos pontos em comum, conforme ele os assinala: "Á leitura
das Confissões de Jean-Jacques Rousseau, impressioneime
com a semelhança de meu pensamento com o dele, tanto pelas nossas
maneiras tomadas às mulheres como pelas nossas
tendências, ao mesmo tempo racionais e infantis, na facilidade com
a qual nos julgaram estúpidos no mundo, quando não
tínhamos uma liberdade plena em nosso desenvolvimento". (20)
Algumas divergências separam, portanto, os dois autores,
acentuadas aliás, pelo próprio Saint-Martin. (21). É
bem certo que jamais concordou com Rousseau quanto à inocência
do
homem ao nascer, pois tinha sobre o pecado (original), um sentimento profundo.
Quanto às idéias políticas do Contrato
Social, estas foram equilibradas no espírito do jovem jurista pelo
descobrimento de Montesquieu e, sobretudo, no de
Burlamaqui: Sábio Burlamaqui, exclamará o Teósofo errante
na sua obra Le Cimitère d'Amboise: Sábio Burlamaqui, não
estás longe destes lugares Que tu santificaste na aurora de minha
vida, Com fogo sagrado, saindo de tua profunda lida,
Perturbando todo meu corpo com santos estremecimentos, Da justiça
assentou-se-me todos os fundamentos...(22) Tais eram
as disposições de Saint-Martin quando se deu um encontro que
deveria marcar sua vocação: o encontro com Martinez de
Pasqually, seu "primeiro mestre". Ele não conheceu de imediato
Martinez, mas entrou, primeiramente, na sua irradiação. Esta
se manifestou num grupo de discípulos constituídos em corporação,
da qual, Martinez era o Grande Soberano: "A Ordem dos
Cavaleiros Maçons Elus Cohen do Universo". Depois de "sorrir
por muito tempo de tudo aquilo a que se referia a Ordem",
(23) Saint-Martin foi iniciado no rito Elu Cohen em 1768. Os "três
poderosos Mestres", Grainville e Balzac, também oficiais do
regimento de Foix, procederam à sua recepção no seio
da fraternidade. Durante algum tempo, ele foi um partidário zeloso,
(24) e no seguinte, em Bordeaux, Saint-Martin apresentou-se a Martinez de
Pasqually. O que poderíamos dizer desta
estranha personalidade do "Taumaturgo" do século XVIII?
Um "meteco", judeu espanhol, supõem-se que alterava o francês
nas suas cartas ou no seu Tratado; de caráter irritável e
inconstante, conservava, por seu encanto e suas promessas, os
descendentes de algumas das grandes famílias da França. O
que dizer deste cabalista cujas elucubrações teosóficas
encantavam um grupo de jovens mundanos e cultos? O que poderemos dizer,
enfim, deste profeta, cujo Verbo tem até o
poder de subjugar um negociante Lyonês? Saint-Martin também
foi envolvido pelo encanto emanante de Martinez. Sua
afeição, nascida durante o dia de seu encontro, jamais deveria
terminar. Suas relações com a "Ordem dos Cohen"
refletiam
uma evolução interior que o afastava das operações
teurgicas. Mas Saint-Martin, jamais abandonaria os princípios da
Reintegração dos Seres. No fim de sua vida, Saint-Martin prestou
homenagem à sua "primeira escola": "Martinez de
Pasqually possuía a chave ativa... mas não acreditava que
nos pudesse conduzir a essas altas verdades". (25) Quando
discute a respeito da Virgem com Liebisdorf, faz uma nova alusão
ao Mestre da sua juventude: "Quanto à Sofia e ao rei do
mundo, ele (Dom Martinez) nada nos revelou... Não queremos dizer
com isso que ele nada soubesse do assunto e, estou
convencido que, se dispuséssemos de mais tempo, poderíamos
ter falado sobre isso".(26) Convertido ao Martinesismo,
Saint-Martin integrou-se plenamente. Não somente a doutrina que permanecerá
a sua, ao menos em linhas gerais, mas
ainda, as realizações mágicas e teúrgicas, receberiam
a adesão total do filósofo. Périsse du luc, lembrar-se-á
deste período,
quando escreverá a Willermoz, após a leitura do Homem de Desejo:
"Vi belas coisas, as mais obscuras e místico - poéticas
6
(sic) que o autor, em outros tempos, detestava enormemente".(27) Entretanto,
assim como Voltaire ou Diderot, não tinham
tornado Saint- Martin incrédulo, a experimentação de
Martinez não o fez perder de vista o verdadeiro caminho, que é
o
interior. Enquanto seu companheiro, o abade Fournié, oscilava entre
Swedenborg e Madame Guyon, Saint-Martin soube
manter-se no caminho do meio. De vez que os nomes Swedenborg e Madame Guyon
acabam de nos aparecer, como os
símbolos de dois excessos, releiamos a apreciação que
Saint-Martin nos faz deles: "Nunca vi Madame Guyon", declara ele
em 1792 e após ter estudado suas obras: "Apreciei esta leitura,
como a fraca inspiração feminina em relação
à masculina".
(28) Quanto a Swedenborg, convém afastar para o domínio das
lendas a pretensa formação que ele teria dado a Saint-
Martin. O papel do místico sueco foi de pouca monta na carreira do
Filósofo Desconhecido. Quando era teurgo - "a
verdadeira meta dos teurgistas é menos a ciência da alma do
que a dos espíritos".(29) É preciso não esquecer
que o livro
dos Erros e da Verdade não era, originalmente, destinado ao grande
público, mas, somente à seita dos Martinistas. - V.
Rijnberk, I pág. 163 (em 1775 não se trata do Martinismo de
Saint-Martin). A obra, aliás, foi projetada, amadurecida, discutida
e escrita em Lyon junto a Willermoz. (A. Joly: Un mystique Iyonnais, pág.
58) e, enfim, que expôs, conferida pela brilhante
inteligência de Saint-Martin, a doutrina de Martinez. Portanto, pouca
coisa tem para mudar, e estas mudanças, referem-se a
meros detalhes por ter a expressão perfeita do pensamento de Saint-Martin.
Saint-Martin censurava Swedenborg de ter
"mais do que se chama a ciência das almas do que a dos espíritos".
A frase é cruel para o conquistador dos mundos
angélicos, o confidente dos bons e dos maus gênios. Ela demonstra
que ao menos, Saint-Martin não se deixava impressionar
por toda a eloquência, toda a imaginação e todo o esplendor
Swedenborgiano: ele teria antes, subscrito o julgamento de V.E.
Michelet: "Swedenborg não era um filósofo, mas um engenheiro
de grande mérito".(30) Mesmo nesta ciência da alma, que
iria, mais tarde, revestir-se de grande importância, Saint-Martin
apreciava pouco Swedenborg. "Sobre este aspecto, escreveu
ele, ainda que não seja digno de ser comparado a J. Boehme pelos
verdadeiros conhecimentos, é possível que convenha a
um grande número de pessoas". (31) Isso não é
muito lisonjeiro. O Teósofo de Amboise percorreu, portanto, durante
algum
tempo, o caminho exterior e fecundo.(32) Ele o seguia com êxito e,
em poucos anos, colheu os elogios, pelos quais
Willermoz esperou onze anos. Entretanto, Saint-Martin sentia renascer em
si os impulsos da infância, o desejo de expansão
mística. O cerimonial Cohen lhe pareceu inútil, seus resultados
falazes: "Mestre, disse ele um dia a Martinez, por que são
necessários tantas coisas para orar a Deus?". Esta tendência
tornou-se cada vez mais forte e o entusiasmo. Foi então que
aconteceu a revelação que transformou a sua vida: Saint-Martin
descobriu Jacob Böehme. Ele mesmo nos relatou sua
viagem a Strasbourg e as relações que travou com Rodolphe
de Salzmann. Este lhe confiará mais tarde, "a chave de
Böehme" (33) que ele possuía. Mas foi por intermédio
de Madame Charlotte de Boecklin que conheceu a obra do iluminado
sapateiro alemão, enquanto recebia dela o apoio de uma alma compreensiva.
"Eu tenho no mundo, escreverá em seguida
quando se separar, eu tenho no mundo uma amiga como ninguém possui,
só com ela minha alma podia expandir-se à
vontade e conversar sobre os grandes assuntos que me ocupavam, porque só
ela consegue adaptar-se à medida dos meus
desejos, e ser-me extremamente útil". (34) Podemos perceber
a ajuda preciosa que proporcionou a Saint-Martin, o amor
"puro como o de Deus" de seu caríssimo Böehme. Quanto
a Jacob Böehme, é impossível descrever em frase melhor
do que
esta, a descoberta que ele representa para o Teósofo francês:
"Não são minhas obras que me fazem lamentar sobre a
negligência daqueles que lêem sem compreender, são aquelas
de um homem do qual não sou digno de desatar o cordão do
sapato, meu caríssimo Böehme. É preciso que o homem tenha
se transformado inteiramente em pedra ou demônio para não
tirar proveito deste tesouro enviado ao mundo há 180 anos".
(35) Estas entusiásticas expressões são encontradas
nas obras
de Saint-Martin. Cada página da correspondência com Kirchberger
é um grito de reconhecimento e de louvor à glória de
Jacob Böehme. Não hesitemos neste capítulo onde deixamos
falar Saint-Martin, em rever seu itinerário filosófico, como
ele
mesmo resumiu: "É devido à obra de Abbadie intitulada
l'Art de se connaitre que devo meu afastamento das coisas
mundanas... é a Burlamaqui que devo minha inclinação
pelas bases naturais da razão e da justiça dos homens. É
a Martinez
de Pasqually que devo meu ingresso nas verdades superiores. É a Jacob
Böehme que devo os passos mais importantes que
dei nos caminhos da verdade". (36) Daí em diante, Saint-Martin
encontrou o caminho interior. Entrada pela senda que
entrevia, mas da qual, apenas galgara o limiar. Agora, se dirigia para a
Unidade por meio do Caminho do Espírito e do
Coração. Descobriu o verdadeiro sentido das tradições
Cohen. Conciliando, ao mesmo tempo seus dons congênitos, os
ensinamentos de Martinez e Böehme, tão próximos de seu
pensamento, Saint-Martin constitui o Martinismo. E essa doutrina
filosófica e mística, ele a viveu, não recolhido sobre
si mesmo, mas no meio mundano. "Seduziu a alta sociedade parisiense,
escreveu um historiador moderno, através da doçura de seus
costumes, a austeridade de sua vida e a gravidade de suas
palavras". (37) Permaneceu no mundo e prosseguiu sua grande aventura
espiritual. "O espírito mundano o aborrece, mas ele
ama o mundo e a sociedade". (38) Segundo as maravilhosas palavras de
São Paulo "Ele está no mundo, como se não
estivesse".(39) A divisa que um inspirado ancião lhe atribui,
dirige sua conduta: "Terrena reliquit".(40) Pela sabedoria que
ensina e vive pela própria existência, Saint-Martin tende à
Suprema Unidade e só visa a Reintegração Universal.
A máscara
de sua doçura, de sua graça tímida e de sua benevolência,
não consegue dissimular o Mestre. "O mais elegante dos
teósofos modernos", também é o Filósofo
Desconhecido. (41) Em 1795, um correspondente do professor Körter,
que se
fizera amigo de Saint-Martin, o descreve assim: "Ele possui uma iluminação
e um conhecimento, de tal maneira superior, que
não teriam causado admiração, se não houvessem
sido plantados num coração cheio de humildade e amor".
(42) Não está
aí realizado em seu venerado Mestre, o Filósofo Desconhecido,
todo o ideal do Martinismo?
7
CAPÍTULO III - EXISTÊNCIA HISTÓRICA DA ORDEM MARTINISTA
"As Iniciações individuais de Saint-Martin, são,
verdadeiramente, uma realidade".
1. Van Rijnberk: Martinez de Pasqually, t. II, pág. 33.
"A existência de uma "Ordem Martinista" fundada por
Saint-Martin, é negada por todos os autores sérios".
(43) Tal é a
conclusão das pesquisas filosóficas efetuadas pelo Sr. Van
Rijnberk. Não podemos taxar este autor de parcialidade, pois ele
mesmo se declara "inclinado a admitir" o fato controverso. Mas,
é preciso reconhecer a ausência de todo estudo aprofundado
da questão, devido talvez, à falta de suficiente documentação.
O Sr. Van Rijnberk, preencheu esta lacuna e encerrou a
discussão. Com efeito, num segundo estudo, o Sr. Van Rijnberk, resume-se
assim: "As iniciações individuais de Saint-Martin,
consideradas por muitos como simples lendas, são uma realidade patente".(44)
Enviaremos, para todas as discussões de
documentos, as criticas de testemunhos, etc., os relatórios do Sr.
Van Rijnberk, conduzido segundo o mais sadio método
histórico. Indicaremos textos aos quais ele se refere para provar
a existência de uma ordem Martinista, de uma ordem de
Saint-Martin. 1º) Entre os documentos que poderíamos qualificar
de exteriores, encontramos: 1 - Um texto das Memórias do
Conde de Gleichen, o qual relata que Saint-Martin tinha estabelecido uma
pequena escola em Paris. (45) 2 - Um artigo de
Varnhagem von Ense, datado de 1821, onde se lê: "Ele (Saint-Martin)
decidiu ... fundar uma sociedade (comunhão), cuja
meta seria a espiritualidade mais pura, e pela qual começou a elaborar
à sua maneira, as doutrinas de seu mestre Martinez".
(46) 3 - Uma carta, cujo autor é desconhecido e que foi endereçada
em 20 de dezembro de 1794 ao professor Köster. Nela
se fala de "Saint-Martin e dos membros de seu círculo íntimo".
(47) Trata-se, em termos apropriados, de uma "Sociedade de
Saint-Martin" e de uma filial Strasburgiana desta mesma sociedade.
Anexemos a estes documentos, muitas vezes inexatos
nos detalhes, mas, unânimes em afirmar a existência de uma sociedade
de Saint-Martin, a sucinta nota necrológica do
Journal des Débats. Está assim redigida: "Paris 13 Brumário...
o Sr. de Saint-Martin, fundador na Alemanha de uma seita
religiosa conhecida com o nome de Martinista, acaba de falecer em Aulnay
próximo a Paris, na casa do senador Lenoir
Laroche. Ele adquirira alguma notoriedade por suas exóticas opiniões,
sua dedicação aos devaneios dos iluminados e seu
livro ininteligível "Dos Erros e da Verdade". (48) Notar-se-á
que se menciona uma seita religiosa e não maçônica.
A
Sociedade a qual o redator do Journal des Débats atribui a formação
do Filósofo Desconhecido, não tem, pois, nada em
comum com o pretenso rito maçônico de Saint-Martin. (49) Nenhum
dos documentos indicados acima, sugere, aliás, esta
identificação. Citemos, enfim, a curiosa estória do
Cavaleiro d'Arson. Acha-se narrada na sua obra "Appel à l'humanité".
Preciosa para entender o espírito da Ordem Martinista, fornece, também,
um documento histórico sobre a Sociedade de
Saint-Martin em 1818. Vê-se, com efeito, nesta obra, que naquela época,
os discípulos do Teósofo liam suas obras,
aconselhando à sua leitura e agiam em torno delas como verdadeiros
Superiores Desconhecidos. (50) 2º) Mas o Sr. Von
Rijnberk, recebeu outras informações do Sr. Augustin Chaboseau,
até a época inéditas, sendo publicadas no tomo II de
Martinez de Pasqually. Elas comprovam a existência de uma iniciação
transmitida por Saint-Martin, diferente da iniciação
Cohen. A seguir, reproduzimos o quadro da filiação Martinista
de Saint-Martin, até nossos dias: Deste quadro resulta que a
iniciação dos Martinistas atuais, iniciados pelo Sr. Augustin
Chaboseau, é, incontestável, e aliás, incontestada.
A dos
Martinistas de Papus, à medida que se unam à única
subdivisão de Chaptal-Delaage, e, na medida em que o próprio
Papus
se liga a esta única subdivisão, está obscurecida por
uma dúvida. Chaptal, com efeito, morreu em 1832 e não pôde
iniciar
Delaage, que nascido em 1825, tinha, então, sete anos. O próprio
Papus diz "que um dos alunos diretos (de Saint-Martin), o
Sr. de Chaptal, foi avô de Delaage" (51), mas não indica
com precisão que ele deveria tomar a posição paterna.
(52) De fato,
a regularidade Martinista de Papus é certa, porque ele não
possuía somente a hipotética filiação de Delaage.
Augustin
Chaboseau, assinalou num artigo inédito este ponto na história
do Martinismo contemporâneo. Ele relata que Gérard
Encausse e ele, trocaram suas iniciações, conferindo-se, reciprocamente,
o que cada um deles havia recebido.(53) Pode-se,
pois, dizer que se Papus era validamente detentor da iniciação
da Saint-Martin, ele o devia a Augustin Chaboseau. Certas
tradições e outros fatos, ligam Saint-Martin e a Ordem Martinista
à Companhia dos Filósofos Desconhecidos.(54) Saint-
Martin, estaria unido pelo canal de uma iniciação cerimonial
a Salzmann, a Boehme, a Sethon e a Khunrath. O que se poderá
pensar desta genealogia? Não é nossa tarefa fazer-lhe a crítica;
é trabalho para um historiador. De resto, a questão pouco
nos importa. Se Saint-Martin criticou todas as peças da iniciação
Martinistas, ninguém poderá discutir sobre seu direito e seu
poder. Se a iniciação de Saint-Martin leva em si o influxo
de Martinez ou do Cosmopolita, isto é totalmente supérfluo.
Porque
a originalidade de Saint-Martin é tal, e tal é a força
de sua personalidade que ocultariam e removeriam as relações
anteriores.
Saint-Martin pôde ser visto de uma iniciação já
praticada com os seus discípulos, como denominamos aqueles Superiores
Desconhecidos, sem lhes dar nenhuma prerrogativa administrativa e honorífica,
primitivamente ligadas a este título. Mas a
concepção que Saint-Martin tinha da iniciação
e do Superior Desconhecido, eis o que o Teósofo transmitiu e o que
é
essencial. Qualquer que seja o veículo, a iniciação
Martinista está totalmente penetrada pelo espírito de Saint-Martin.
É
necessário e suficiente que ela se refira, efetivamente a ele. Tais
são os fatos mais seguros no que diz respeito à questão
tão
longamente debatida da Ordem Martinista. Resta depois da prova de sua existência,
pesquisar sua natureza, sua
organização, seu espírito, em uma palavra, as ligações
do Martinismo, como nós o definimos, e da Ordem Martinista, que
pretende ser sua continuadora.
8
CAPÍTULO IV - O ESPÍRITO DA ORDEM MARTINISTA
"Saint-Martin induzido a formar uma espécie de agrupamento,
essencialmente espiritualista, desligado das cerimônias
ritualísticas e das operações mágicas".
J. Bricaud: Notice historique sur le Martinisme. Nova Edição,
1934, pág. 7.
Saint-Martin foi Franco-Maçom, foi Elu-Cohen e aderiu ao Mesmerismo;
prestou-se, de boa mente, aos ritos e aos usos
destas sociedades; conduziu-se como membro irrepreensível de fraternidades
iniciáticas. Mas este comportamento
representa uma época de sua vida. Vimos como o temperamento de Saint-Martin
e toda a sua formação o afastavam do
caminho exterior. Podemos entender, tanto as operações teúrgicas
ou mágicas visando resultados sensíveis, como as
associações maçônicas ou ocultistas, nos seios
das quais elas são praticadas. Quando Saint-Martin solicitou a sua
exclusão
dos registros da Franco-Maçonaria, onde, somente figurava nominalmente,
exprimiu seu desejo e sua convicção de
conservar seus graus Cohen. Mas a idéia que até então
fazia dos Elus-Cohen, parece bem próxima de sua concepção
pessoal da Ordem iniciática. O verdadeiro elo entre os irmãos,
é um elo moral e espiritual. Também vimos Saint-Martin
repudiar a sociedade, desculpar-se de haver fundado uma: "Minha seita
é a Providência; meus prosélitos, sou eu, meu oculto
é a Justiça".(55) Mas, o Teósofo, sabia também
que os seus profundos conhecimentos lhe impunham uma missão. Sabia
auxiliar os homens que o cercavam, proporcionar-lhes conselhos, tentar insuflar-lhes
o Espírito. Por possuir o "alimento
espiritual", os "aspirantes" se lhe aproximavam. Assim o
círculo íntimo de Saint-Martin se constituiu de discípulos
escolhidos
e de amigos fiéis. Somente o valor intelectual e o zelo pela busca
da Verdade, permitiam ingressar nessa sociedade. Nem a
idade, nem a posição social eram levadas em consideração,
as mulheres eram convidadas a participar. "A alma feminina não
sai da mesma fonte que aquela revestida de um corpo masculino? Não
tem ela a mesma tarefa a cumprir, o mesmo espírito a
combater, os mesmos frutos a esperar?" (56) Entretanto, recomendava
Saint-Martin, insisto na opinião de as mulheres
devem ser em pequeno número e, acima de tudo, escrupulosamente examinadas".
(57) Talvez seja necessário procurar aí, a
razão deste aforismo de Portrait: "A mulher me parece ser melhor
que o homem, mas, o homem me parece mais verdadeiro
do que a mulher". (58) Finalmente, colhemos no que diz respeito às
mulheres, uma delicada e graciosa observação de Saint-
Martin. Ela ajudará também, a reconstituir a atmosfera do
Martinismo, segundo a vontade de seu fundador. "As grandes
verdades só se ensinam bem no silêncio, enquanto que toda a
necessidade das mulheres é que se fale, e que elas falem;
então tudo se desorganiza como já o provei várias vezes".
(59) A personalidade do Filósofo Desconhecido, tal como se
manifesta nas suas obras e em seus atos, impede atribuir à sua sociedade
um aspecto rígido, solidamente organizado e
hierarquizado. Ninguém crê mais na autenticidade do rito maçônico,
dito de Saint-Martin. E a única ação importante do
Teósofo, no seio da Maçonaria, foi tentar quebrar a armadura
das Lojas regulares, dispersar seus membros e arrastá-los, na
sua corrida para o Absoluto, para fora, dos quadros e dos agrupamentos.
Admitamos, pois, que os discípulos de Saint-Martin,
formavam antes uma espécie de "clube", do que uma verdadeira
sociedade iniciática. Admitamos que o elo que ligava esses
discípulos ao Mestre e entre si, eram de natureza espiritual. Resta
saber o que se fazia nessa escola e como se trabalhava
nela; o que transmitia o Mestre e como se era admitido na cadeia. Estas
duas últimas frases nos parecem resumir a
finalidade e o princípio da sociedade de Saint- Martin, nela instruía,
mas também conferia uma iniciação, no sentido exato
do
termo. Sobre a maneira de Saint-Martin instruir, possuímos um testemunho
de primeira mão, são as explicações dadas por
Saint-Martin a um discípulo que o interpela. São as inestimáveis
cartas a Kirchberger, barão de Liebisdorf. A primeira carta de
Kirchberger, solicitava alguns esclarecimentos sobre o autor e o fundamento
"Dos Erros e da Verdade". O Filósofo de
Amboise lhe respondeu cortesmente, e assim nasceu uma troca de idéias
que durou quatro anos. Encontramos ao longo das
páginas, um apreciável número de concessões
doutrinárias. A que descobertas convida a belíssima parábola
do jardineiro! E
quais revelações, Saint-Martin não hesita comunicar!
O Filósofo Desconhecido, na sua primeira obra, esboçara
alegoricamente o estado do homem antes da queda. O homem original, nela
se lia, tirava todo o seu poder da posse de uma
lança maravilhosa, composta de quatro metais diferentes. Saint- Martin
não oculta até que ponto é importante descobrir a
verdadeira natureza dessa lança simbólica. E responde, assim,
a Kirchberger, que lhe reclama o segredo: "A lança composta
de quatro metais não é outra coisa do que o grande nome de
Deus, composto de quatro letras".(60) Pode-se exigir algo mais
claro? Compreendemos a fecundidade das relações do Mestre
e dos discípulos, quando uma tal vontade de ensinar, anima
aquele que sabe. A seqüência da revelação feita
a Kirchberger sobre a significação metafísica da lança,
mostrará ainda,
Saint-Martin orientando aqueles que o solicitam. Liebisdorf, com efeito,
tirou desse símbolo, conclusões demasiado
arbitrárias. Comparou, por exemplo, a liga dos quatro metais com
os quatro evangelistas. (61) Saint-Martin taxou tais
conclusões de "convencionais" e, escreveu a Kirchberger
"que os quatro evangelistas são, talvez, cinqüenta".(62)
Assim se
exerce o primeiro ministério do Filósofo Desconhecido entre
os membros de sua Ordem; repara e enriquece sua inteligência.
Ele lhes expõe sua verdadeira doutrina. Acrescentemos, também,
a essas demonstrações, as técnicas místicas,
as chaves
cabalísticas de meditação, de respirações
que Saint-Martin ensinava a seu grupo. O barão de Turkhein, acreditava
que várias
passagens dos "Erros e da Verdade", "eram tiradas literalmente"
das Parthes, obra clássica dos Cabalistas. (63) Não existe
uma parte da Cabala que pode ser intitulada "a yoga do Ocidente"?
Tais eram alguns ensinamentos transmitidos por Saint-
Martin aos membros de sua Sociedade. O que dissemos da concepção
Martinista da "Ordem iniciática", deixa bem entendido
a possibilidade de ser Martinista, sem estar materialmente, socialmente,
ligado a Saint-Martin. Certamente é fácil se mostrar
Martinista, como esses homens superficiais que Mercier descreve no seu "Tableau
de Paris" e que fazem do Filósofo
9
Desconhecido, uma moda. Não há nenhuma necessidade de ligar-se
à "Ordem Martinista". Pode-se ter aderido à doutrina
instaurada pelo Teósofo de Amboise, colocá-la em prática,
esforçar-se em seguir o caminho que ele indica, sem ter recebido
a iniciação por meio de outro iniciado. Ou por outra, extrapolemos
a noção da Ordem Martinista. A religião cristã
julga salvos
todos que se incorporam a ela pelo "batismo do desejo". Será
preciso ver o Martinismo recusar a iniciação do Homem
Espírito a todo "Homem de Desejo"? Reconheçamos,
todavia, que a iniciação ritual é o meio mais comum
e o mais fácil de
ingressar na "Ordem Martinista". Ela proporciona a todo aquele
que a recebe, uma poderosa ajuda. Um auxílio místico, em
primeiro lugar, dos Irmãos passados ou presentes na comunhão
dos quais, nos permite entrar, mais facilmente. Ajuda moral
e também material dos membros contemporâneos. Auxílio
intelectual pelo socorro que solicita no estudo da doutrina, seja por
trabalhos em comum, seja pela voz dos adeptos mais adiantados, seja, principalmente,
pelas tradições dos quais esses
adeptos são o reflexo e que dormem no seio da Ordem, não esperando
senão um Príncipe, cujo amor virá despertá-los.
Mas,
a iniciação possui em si mesma um valor exato. Saint-Martin
instruía os membros de sua sociedade, dessa sociedade que a
história confirmou-nos a sobrevivência através dos séculos.
Mas, o Filósofo Desconhecido lhes dava também, um misterioso
viático, (64) uma chave mais estranha do que as clavículas:
a iniciação. Extraordinário encanto do influxo Divino
que emana
de suas mãos, que faz o sacerdote ou o adepto, que dá o poder
ou a facilidade das ciências. Virtude mágica ao limite
extremo do natural e do sobrenatural. Prodigioso e impalpável auxiliar
que se dá sem dividir-se, que se transmite de homem
a homem; guarda seu efeito próprio e infalível, mas não
desenvolve inteiramente seu poder, senão no espírito pronto
a
conservá-lo. Singular fascinação dessa corrente sutil,
desse fluído vital que anima o membro do corpo místico. Saint-Martin
soube discernir o papel da iniciação e entendeu que seu mecanismo
não ultrapassava "as leis da natureza corporal". "Vós
tendes razão, escrevia a Willermoz, de crer que a nossa sorte depende
de nossas disposições pessoais, tendes ainda razão
de crer que o grau... dá ao iniciado um caráter, nada é
mais verdadeiro que a perfeita harmonia dessas duas coisas e não
deve ter um efeito real que, sem dúvida, aumenta com o tempo, pelas
instruções e pelos cuidados que cada um pode
acrescentar-lhe".(65) Louis Claude de Saint-Martin transmitiu a seus
discípulos o depósito da iniciação, a fim de
que germine
naquele que é digno de recebê-lo e que purifique aquele que
ainda não o é. "Se o poder da iniciação
não opera
sensivelmente pela visão, opera, não obstante, infalivelmente,
como preservativo e prepara a forma daquele que se mantém
puro, para receber instruções salutares quando o espírito
o julga conveniente". (66) Assim, sem aventais e sem fitas, sem
vaidade e sem orgulho, a iniciação que Saint-Martin confere
à sua Ordem, será a primeira etapa da única iniciação,
da
iniciação última, "a santa aliança que
só se pode contrair após uma perfeita purificação".
(67)
CAPÍTULO V - A DOUTRINA MARTINISTA - MÉTODO E DIALÉTICA
"Os princípios naturais são os únicos que se devem,
primeiramente, apresentar à inteligência humana e, as tradições
que se
seguem, por mais sublimes e profundas que sejam, jamais devem ser empregadas,
senão como confirmações, porque a
existência humana surgiu antes dos livros".
Portrait n.º 319 (Obras Póstumas vol. I, pág. 40, 41).
O Martinismo é uma maneira de viver, mas seus princípios de
ação estão subordinados a uma determinada maneira de
pensar. A soberania da inteligência e do senso moral deve ser respeitada.
Nenhum vulgar oportunismo e nenhum utilitarismo
poderiam ser admitidos. As verdades essenciais e exatas que os livros só
podem confirmar, regem nossa existência e nossa
atividade total. Qualquer que seja o plano sobre o qual o homem aja, sua
conduta decorre de suas certezas profundas,
intelectuais, digamos a palavra: filosóficas. É porque sabe
de onde vem e para onde vai que o homem poderá orientar sua
ação política e dar-lhe um sentido. A resposta ao problema
capital do destino humano, contém a solução de todas
as
questões que se apresentam ao homem. Antes de possuir a lógica
desta dedução, antes de expor as conseqüências
morais
ou políticas da doutrina Martinista, perguntemos, inicialmente, qual
é seu fundamento. Quais são, no espírito de Saint-Martin,
as verdades primeiras e como as adquiriremos? "É um espetáculo
bem aflitivo, quando se quer contemplar o homem e vê-lo,
ao mesmo tempo, atormentado pelo desejo de conhecer, não percebendo
as razões de nada e, entretanto, tendo a audácia
de querer dá-las a tudo".(68) Essas primeiras linhas da obra
inicial de Saint-Martin, fornecem o ponto de partida e o plano de
toda a doutrina Martinista. "O homem é a soma de todos os problemas.
Ele próprio é um problema, o enigma dos enigmas. A
questão que ele coloca, a que a sua própria natureza encerra,
nos obriga a solucioná-la. Uma teoria que não visasse, em
primeira instância, o bem do homem, seria totalmente inútil".
(69) E esse bem só pode resultar da resposta à interrogação
humana. A existência dessa interrogação será
a primeira certeza. Com efeito, uma constatação se impõe:
o estado do
homem. Ora, este estado se caracteriza pela angustia, o sentimento de limitação
e de imperfeição. O fato de que o homem
possa ignorar e assombrar-se por isso, é um mistério inicial
que ocasiona, logicamente, a conclusões sobre a origem e o
destino do homem. Mas é somente pelo estudo do homem, pelo aprofundamento
do problema, pela reflexão sobre os termos
do problema que encontraremos a solução do mesmo. Tal é
o método de Saint-Martin. Precisamos explicar "não o
homem
pelas coisas, mas as coisas pelo homem". (70) "Aquele que possuir
o conhecimento de si mesmo terá acesso à ciência do
mundo, dos outros seres. Mas o conhecimento de si, é somente em si
que convém buscar. É no espírito do homem que
devemos encontrar as leis que dirigiram a sua origem".(71) O homem
que é o enigma, é também a chave do enigma. Dir-seá
que temos aí uma tautologia? E que não se poderia provar o
valor do espírito ou a eminente natureza do homem por um
10
método que os pressupõe? Mas não se trata de utilizar
um método para demonstrar a superioridade da faculdade intelectual.
Não se trata mesmo de uma idéia diretriz apropriada para estabelecer
as bases dessa faculdade. Diante de sua situação que
é também, seu enigma, o homem é naturalmente levado
a examinar-se. Ele quer julgar os elementos do enigma. Seu reflexo
normal (se assim podemos afirmar) será olhar para si mesmo, pois
aí reside o problema. Também é uma infelicidade para
o
homem ter necessidade de provas estranhas à sua pessoa "para
conhecer-se e crer em sua própria natureza, porque ela traz
consigo, testemunhos bem mais evidentes que aqueles que podem concentrar
nas observações dos objetos sensíveis e
materiais". (72) É, somente após ter-se reconhecido por
aquilo que ele é, que o homem convencido de sua Divindade e de
sua situação central, decide tomar-se por medida das coisas,
ou, ao menos, por princípio de explicação. Afirmar
que da
verdadeira natureza do homem deve resultar "o conhecimento das leis
da natureza e dos outros seres" (73), não é um
postulado, é uma certeza; a conclusão de uma experiência.
Se o Martinismo nos faz encontrar a explicação do Universo
e a
visão de Deus, é porque ele tem sua fonte na "arte de
conhecer-se a si mesmo". Saint-Martin, mestre do Ocidente,
reencontra-se aqui com a luz da Ásia. O Buda, premido pela urgência
de nosso estado, condenou energicamente as
reflexões sem proveito. Elas nos desviam de nosso verdadeiro interesse.
Com efeito, que loucura seria procurar, em primeiro
lugar, saber se o princípio da vida se identifica com o corpo ou
é algo diferente! Seria como se um homem, tendo sido ferido
por uma flecha envenenada e, cujos amigos ou companheiros, chamassem um
médico para tratá-lo, dissesse: "não quero
que retirem esta flecha antes que eu saiba qual foi o homem que me feriu,
se foi nosso príncipe, cidadão ou escravo", ou,
"qual o seu nome e a família a que pertence", ou, "se
é grande, pequeno ou médio"... Certo é que esse
homem morreria
antes de estar ciente de tudo isso. (74) Nossa situação exige
uma resposta exata. Os outros problemas são acessórios. Mas,
Saint- Martin, não os baniu, por isso, do campo da pesquisa humana.
A investigação filosófica não foi proibida.
Ele considera
absurdo que nosso espírito, sendo havido de conhecimento, não
possa satisfazer tal sede. (75) Simplesmente estabelece
esta curiosidade intelectual. Quando o homem reconheceu o Caminho que o
leva à Verdade, pode entregar-se à meditação
sobre os mistérios de Deus e do Universo. Mas não se podem
combinar os jogos do espírito, ou mesmo os seus processos
abstratos com a prioridade sobre a direção de nossa vida.
Aliás não existe defazagem entre essas duas ordens de pesquisa,
mas apenas, prioridade e dialética entre uma e outra. É digno
de nota que, por conspiração universal, tudo esteja ligado,
e
que a solução do primeiro enigma conduza, também, à
dos outros. Primeiramente é necessário tratar o ferimento
e retirar a
flecha. Mas, corresponde à necessidade imperiosa de nos salvar, descobrirmos
a natureza do ferimento, a qualidade do
dardo e, por assim dizer, sua marca de fábrica. A questão
de sua origem e procedência é esclarecida de imediato, mas
a
cura terá que ser procurada e os remédios terão que
ser receitados em primeiro lugar. O Humanismo de Saint- Martin (76)
não é coisa a priori, mas, procede da experiência mais
exata e imediata que o homem possa realizar: a experiência própria
da consciência de seu estado. Persistamos um pouco sobre o caráter
a priori que acabamos de negar no Martinismo.
Convém não deixar alguma dúvida. É a natureza
íntima de Saint-Martin que aqui está em causa. Pode-se dizer
que sua
filosofia é, a priori, porque explica o inferior pelo superior, o
baixo pelo alto, os fatos por seu princípio. O materialismo seria,
então, a posteriori, porque explica a matéria pela matéria,
explica o que parece transcender à matéria, reduzindo o homem
à
própria matéria. Superando-a, encontraríamos aqui a
fórmula de W. James: "O empirismo é um hábito
de explicar as partes
pelo todo". Todo espiritualismo é, pois, a priori - e o Martinismo
mais do que qualquer outro sistema. O livro "Dos Erros e da
Verdade", procura mostrar a fraqueza e a insuficiência de uma
visão materialista do mundo. Essa oposição não
é, em
nenhuma parte, mais sensível do que na crítica do sensualismo
perseguida por Saint-Martin durante toda sua vida. (77)
Saint-Martin disse a um amigo que o qualificava de espiritualista: "Não
é o suficiente para mim ser espiritualista - e se ele me
conhecesse, longe de restringir-se a isso, ele chamar-me-ia deísta:
porque é o meu verdadeiro nome". (78) O Martinismo é
espiritualista e seu objetivo principal é, portanto, um "a priori
gigantesco", segundo a palavra de Henri Martin. (79) Mas que
essa explicação, a priori, seja dada, a priori: que seja apresentada
como um postulado, que se mostre inverificável e que se
possa julgá-la o fruto de uma imaginação, eis aí,
o contrário da essência da filosofia de Saint-Martin. Porque
essa filosofia
está baseada totalmente numa sentença e numa dialética
que iremos examinar. Por não ser apoiada na matéria ou no
sensível aos sentidos físicos, ela não é menos
exata. Diríamos quase ao contrário. Saint-Martin não
proclamou e não somos
instados a experimentar junto a ele, a acharmos em nós provas mais
convincentes, que não encontraríamos na Natureza
inteira? (80) Essas breves reflexões sobre o método Martinista
não tem a pretensão de determinar a sua essência. Esta,
depreende-se da própria exposição da doutrina de Saint-Martin.
Após fornecer algumas explicações da doutrina,
destacaremos algumas características principais da mesma. Entretanto,
convinha explicar, nitidamente, a base da reflexão
Martinista. "Saint-Martin deseja crer, escreveu Matter, (81) mas com
inteligência, apesar de ser um filósofo místico".
A
teosofia de Saint-Martin não é uma obra de imaginação,
uma teia de afirmativas inverificáveis, nem de devaneios místicos.
Para atingir os píncaros da metafísica e da espiritualidade,
o pensador de Amboise, não se estabelece no plano das
especulações abstratas, inacessível ao vulgar. Ele
nos alcança no nosso nível - no nível do homem. Daí,
nos reconduzirá até
Deus, do qual nos sentimos tão cruelmente afastados. O itinerário
desse percurso, eis o que precisamos, agora, determinar
com exatidão, Poderemos constatar assim, a coerência do sistema
Martinista. Em seguida, examinaremos, sucessivamente,
as diferentes partes, que sem este trabalho preliminar, correriam o risco
de parecer desprovidas de fundamento. Esbocemos,
pois, o esquema de uma dialética Martinista. O homem, inicialmente,
toma consciência de seu estado. Entendemos pelo que
foi dito supra, que o homem se conhece tanto em espírito como em
corpo, ou, mais explicitamente, constata nele e fora dele,
manifestações variadas. Na medida em que estas manifestações
lhe pertencem ou lhe afetem - e como as conheceria sem
ser por elas atingido - na proporção onde estas manifestações
o afetam, de alguma maneira, elas contribuem para constituir
seu estado. "Ora, àqueles que não tivessem sentido a
sua verdadeira natureza, só lhes pediria que se precavessem contra
11
os desprezos. Porque no que eles chamam homem, no que denominamos moral,
no que chamam ciência, enfim, no que se
poderia chamar o caos e campo de batalha de suas diversas doutrinas, eles
encontrariam tantas ações duplas e opostas,
tantas forças que se degladiam e se destroem, tantos agentes, nitidamente
ativos e tantos outros, nitidamente passivos e isto
sem buscar fora de sua própria individualização, talvez,
sem poder dizer, ainda, o que nos compõe, concordariam que,
seguramente, tudo em nós não é semelhante e que não
existimos senão numa perpétua diferença, seja conosco,
seja com
tudo que nos circunda e tudo o que possamos atingir ou considerar. Apenas
seria necessário, em seguida, auxiliar com
alguma ciência essas diferenças, para perceber seu verdadeiro
caráter e para colocar o homem no seu devido lugar". (82)
Saint-Martin convida, pois, o homem a considerar-se e a analisar, com cuidado,
a realidade que houvera atingido. Assim o
homem descobrirá o seu verdadeiro lugar e, perceberá a harmonia
do mundo de acordo com o famoso adágio de Delfus:
"Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses".
A convite de Saint-Martin, procedamos pois, fazendo o
exame que ele preconiza, o exame do homem. O simples exame de sua presente
situação lhe revela que esse estado assim
se resume: a coexistência de elementos aparentemente contraditórios,
ambos, objeto de uma experiência, igualmente exata.
I - O homem descobre em si um princípio superior. Observa seu pensamento,
sua vontade, todos "estes atos de gênio e de
inteligência que o distinguem sempre por características impressionantes
e indícios exclusivos". (83) Por que, pois, o homem
pode afastar-se da lei dos sentidos? (84) "Por que o homem é
dirigido por um maravilhoso senso de moral, infalível em seu
princípio? Não é senão porque é essencialmente
diferente devido ao seu Princípio intelectual (85) e é o único
favorecido aqui
em baixo por essa sublime vantagem... "(86) A consciência de
si dá ao homem uma certeza primordial. "Quando sentimos
uma só vez nossa alma, não podemos ter nenhuma dúvida
sobre suas possibilidades". (87) Mas, o que lhe surge, antes de
tudo, é o sofrimento necessário de sentir-se exilado, é
a nostalgia de uma morada edênica. "O homem, na verdade, na
qualidade de Ser intelectual, leva sempre sobre os Seres corporais, a vantagem
de sentir uma necessidade que lhe é
desconhecida". (88) O Filósofo reuniu então essas múltiplas
provas, esses testemunhos irrecusáveis e o espetáculo de sua
alma inspira a Saint-Martin esta revelação: "Cidadão
imortal das regiões celestes, meus dias são o vapor dos dias
do Eterno".
(89) Não atribuamos, de momento, nenhuma importância metafísica
a este verso do Teósofo. Nele, não temos senão a
afirmação de nossa grandeza, à qual Saint-Martin, vai
opor o espetáculo de nossa miséria. II - Ao mesmo tempo, que,
reconhece a transcendência do seu espírito, o homem percebe
o conjunto dos males e das desgraças dos quais está
cercado. A realidade do sofrimento de nos impõe, com efeito, da maneira
mais trágica. Inútil é pintar o quadro das fraquezas
e das desgraças dos homens. Nenhum, entre eles, os ignora porque
ninguém pode viver sem tomar parte nelas. "Não existe
uma pessoa de boa fé, disse Saint-Martin, que não considere
a vida corporal do homem uma privação e um sofrimento
contínuo". (90) A aproximação entre essa evidência
e essa certeza anteriormente adquirida, se evidência, ao mesmo tempo,
inevitável e surpreendente. "Tanto é verdade que o estudo
do homem faz-nos descobrir, em nós, relações com o
primeiro de
todos os princípios e os vestígios de uma origem gloriosa,
quanto o mesmo estudo deixa-nos perceber uma horrível
degradação". (91) Saint-Martin explicou na sua belíssima
análise da miséria espiritual, como a união destas
duas conclusões
caracteriza o nosso estado. Para explicar uma passagem do Ecce Homo, o Filósofo,
põe em questão a ambivalência do
homem, a dualidade de sua natureza. "A miséria espiritual, diz
ele, é o sentimento vivo da nossa privação Divina aqui
na
terra, operação que se combina: 1º com o desejo sincero
de reencontrar nossa pátria; 2º com os reflexos interiores que
o sol
Divino nos irradia, algumas vezes, a graça de enviar-nos até
o centro de nossa alma; 3º com a dor que experimentamos
quando, após ter sentido alguns desses Divinos reflexos tão
consoladores, recaímos em nossa região tenebrosa, para aí,
continuarmos nossa expiação". (92) Retomando outra formula
de Saint-Martin: "Existem seres que só são inteligentes;
existem outros que só são sensíveis; o homem é
ao mesmo tempo, um e outro, eis aí a palavra do enigma". (93)
A
contradição brota desse aspecto, desse duplo aspecto da existência
humana, como surge entre o desejo de saber e o
fracasso freqüente das tentativas para chegar até aí.
"O homem, um Deus! Verdade; não é uma ilusão?
Como o homem,
esse Deus, esse prodígio espantoso, definharia no opróbrio
e na fraqueza! (94) O problema está apresentado. Os dados
estão expressos. O encontro das duas experiências, sua simultaneidade,
eis o ponto de partida da dialética Martinista. A
tristeza de nosso destino não forneceria material para alguma reflexão
se não houvesse, justamente aí, o espírito para tomar
conhecimento. "O temor, disse Aristóteles, é o começo
da filosofia". Ele entendia que a atenção se dirigia
assim para os
problemas que o vulgo ignora. Mas, o temor é, também, objeto
de meditação. Por sua própria existência o temor
ou a
angústia, se quisermos, assinala uma oposição entre
aquele que se espanta e aquilo do qual ele se espanta. É a mais
irretorquível réplica ao materialismo. Ele impede de considerar
o mundo material como única realidade, autosatisfazendo-se,
existindo só, porque existe sempre o mundo e aquele que o julga.
O mundo não pode ser uma máquina noturna, porque
encontrará o homem para observá-lo girar. Destarte, seu assombro,
que é indiscutível e parece um nó de contradições,
faz
parte da situação do homem. Miséria humana, experiência
de todo momento. Grandeza do homem que se sabe infeliz.
Grandeza e miséria humana se interpenetrando. A primeira permitindo
a segunda e a segunda levando o espírito a se elevar
à instrução da primeira. Que ambivalência de
nosso ser induz a dividir os seres e as coisas em duas classes que a crença
em um princípio mau e poderoso, embora submetido ao Princípio
do Bem, tenha surgido da mesma reflexão. Isto é certo e
confirma a importância desta consideração. Aqui só
examinamos as arestas da doutrina Martinista. Antes de tudo, destinada
a instruir o homem sobre si próprio, poderá, em seguida, ensinar-lhe
a Ciência do Mundo e de Deus. Mas é, primeiramente, o
método do seu próprio estudo. O homem, inicialmente, se interessa
por ele mesmo. Se o auto conhecimento permite abordar
as pesquisas das leis que regem o Universo, se este conhecimento nos eleva
até Deus, não tem menos por objeto a solução
do problema do homem. É deste problema que é necessário,
em primeira instância, ocupar-se, porque ele é, em essência,
o
único. Nunca o homem se aperceberá demasiadamente disso. Admitamos,
pois, como base da doutrina Martinista, esta
12
contradição, esta dualidade da pessoa humana. Será
ai que reside a originalidade de Saint-Martinº Absolutamente não.
Numerosos foram os pensadores que descobriram na condição
humana um tema rico em ensinamentos. Aristóteles após
Platão, sabia bem que a essência do homem, sua alma, era algo
de Divino. De São Paulo a Pascal, a luta das duas leis a da
carne e a da alma, constituíram argumentos clássicos para
a apologia cristã. "Sinto nos meus membros, disse São
Paulo,
uma outra lei que se opõe à lei do Espírito e me aprisiona
na lei do pecado que está nos meus membros".(95) "A grandeza
do homem é grande na medida em que ele se reconhece miserável",
lemos nos Pensamentos. (96) A descoberta pelo
homem de sua queda e a consciência de sua filiação Divina,
para explicar seu atual estado, é exposto em várias etapas
da
história da filosofia. E, aliás Saint-Martin não procura
inovar em toda sua doutrina. Ao contrário, se felicita por reencontrar,
sem cessar, os ensinamentos tradicionais ou as descobertas dos filósofos.
A tradição ocupa lugar muito importante para ele.
E, se de bom grado, citamos Pascal, é que sua doutrina se mescla,
às vezes, ao pensamento Martinista. O próprio Saint-
Martin assinalou estes parentescos intelectuais: "Lede, nos diz num
texto pouco conhecido, os Pensamentos de Pascal... Ele
disse com termos próprios o que vos disse e o que publiquei: saber
que o dogma do pecado original resolve melhor nossas
dificuldades que todos os reacionários filosóficos".(97)
Com efeito, chegamos, tanto com Saint-Martin como com Pascal, a
resolver o enigma que o homem traz consigo. Após ter pintado o homem
e, subtilmente tê-lo analisado, competiu ao Teósofo,
deduzir de acordo com seu método, as conseqüências dos
fatos que acabou de conhecer. Vemos manifestar aqui o seu
esforço de síntese. Saint-Martin vai conciliar os elementos
opostos que formam o homem, mostrar que eles podem ser
resolvidos numa explicação. O método será sempre
o aprofundamento destas contradições que constituem o homem.
III -
"Pelo sentimento de nossa grandeza, concluímos que somos senão
Pensamentos Deus, ao menos, Pensamentos de Deus".
(98) Pelo sentimento doloroso da horrível situação
que é a nossa, podemos formar uma idéia do estado feliz onde
estivéramos anteriormente". "Quem se acha infeliz por não
ser rei, diz Pascal, senão um rei destronado".(99) E Saint-
Martin:
"Se o homem não tem nada é porque tinha tudo". (100)
De uma parte, a certeza de nossa origem sublime, quer que nós
tenhamos a intuição da nossa faculdade essencial ou quer que
a deduzamos da nossa miséria atual; de outra parte, essa
própria miséria. Só a queda pode explicar essa posição,
essa passagem. Só uma doutrina da queda explicará o fato do
homem ter caído. Pois que, tanto o estado primordial de felicidade
é uma certeza que adquirimos e que a miséria na qual nos
debatemos é uma realidade não menos evidente, é preciso
admitir uma transição de um estado para outro. Tal é
a queda.
Sugerimos uma análise mais sutil do sublime estado que tornava o
homem tão grande e tão feliz. Compreendemos como
Saint-Martin, que ele podia nascer do conhecimento íntimo e da presença
contínua do bom Princípio. Conseguiremos a
terceira norma do que se pode chamar dialética Martinista. Podemos
então resumir o desenvolvimento dessa dialética
utilizando as próprias palavras do Teósofo: 1. "O homem
um Deus! Verdade". 1. "Como o homem esse Deus, esse prodígio
espantoso, definharia no opróbrio e na fraqueza". 3. "Por
que esse homem definharia, presentemente, na ignorância, na
fraqueza e na miséria, se não é porque está
separado deste princípio que é a única luz e o único
apoio de todos os
Seres?(101) Tais são os princípios. Tal é o caminho
pelo qual o homem chega à compreensão de seu estado. Pode-se
construir sobre esse esquema a doutrina Martinista completa. Ele é
o fundamento psicológico indispensável da múltiplas
explicações que inspirará o pensamento do Filósofo
Desconhecido. Não está esclarecido daí em diante o
destino do homem?
"Acorrentado sobre a terra como Prometeu", (102) exilado do seu
verdadeiro reino, que meta poderia propor senão a de
reconquistar e de reintegrar-se em sua pátria? E o meio de reencontrar
o paraíso perdido, não o possuímos também?
Sabemos como o homem foi banido. Ora, a mera descrição desse
éden, mostrar-nos-á que está disposto "com tanta
sabedoria que, retornando sobre seus passos, pelos mesmos caminhos, esse
homem deve estar seguro de recuperar o
ponto central, no qual, apenas ele pode gozar de alguma força e de
algum repouso". (103) E a teoria da Reintegração deve,
necessariamente, girar em torno da figura central do Reparador. É
todo o Martinismo, magnificamente coerente e sólido, que
se desenvolve no entendimento, a partir das intuições fundamentais.
Vimos a dialética de Saint-Martin e, descrito sob este
termo, o percurso do homem na direção do conhecimento de sua
origem e de seu destino. É interessante notar que essa
marcha do pensamento, reproduz a própria marcha do ser. Comparemos,
com efeito, a apreensão do homem por si mesmo
com suas conseqüências e a aventura humana que esta apreensão
permite reconstituir. 1º - O Homem goza, inicialmente, da
felicidade edênica. O menor toma consciência de sua imperfeição
atual e da aspiração de seu espírito, em uma palavra,
a
idéia da beatitude original. Ele se recorda disso em primeiro lugar.
2º - Depois medita sobre o sofrimento que é seu quinhão
nesta vida. Descobre o estado após a queda. Assim o Homem no seu
périplo cai do Céu, para vir à Terra. 3º - Enfim,
o
Homem miserável compreende o mistério da passagem, a distância
que separa os dois estados. Assim, o Homem decaído
transporá novamente a distância infinita, refará o trajeto
que conduz à Felicidade e obterá sua Reintegração.
Tese, antítese,
síntese. Felicidade primordial, queda e reintegração.
O menor espiritual possui o traçado de seu destino. Ele reconheceu,
seguramente, através de um procedimento lógico baseado sobre
sua curva ontológica. Cada homem reencontra em seu
espírito a eterna epopéia do Homem. "Tenho por verdadeiro
o que me é dado por verdadeiro no fundo íntimo de minha alma".
(104) Assim, Salzmann define a verdade. Sem dúvida, Saint-Martin
não teria negado essa profissão de fé de um iluminado.
Mas teria ele julgado suficiente para fundar uma doutrina, para presidir
uma iniciação, isto é, a um começo? É
o que se
pretendeu por várias vezes. Alguns quiseram construir o conjunto
do sistema Martinista sobre esse único critério subjetivo.
E
é porque o quadro do qual tentamos traçar as grandes linhas,
parecerá, talvez, muito intelectual, muito intelectualista.
Censurar-nos-ão, talvez, por termos insistido sobre o aspecto racional
do Martinismo. Seria fácil responder que este aspecto
é o único que se pode expor ou discutir e que além
de tudo, a pura mística não se descreve nem se prega, que
a exortação,
pelo próprio fato de ser formulada, sofre o impacto da razão
e, reconhece implicitamente o seu poder. Dir-se-á que Saint-
Martin é um místico. A doutrina Martinista é uma doutrina
mística. Certamente, mas seria trair a memória de Saint-Martin,
13
apresentá-lo como um puro discípulo de Madame Guyon. Balzac
critica violentamente certos escritos místicos: "São
escritos
sem método, sem eloqüência e, sua fraseologia é
tão bizarra que se pode ler mil páginas de Madame Guyon, de
Swedenborg e, sobretudo de Jacob Böehme sem nada depreender daí.
Vós ides saber porque, aos olhos destes crentes,
tudo está demonstrado". (Prefácio do livre Mystique.
Obras completas, Calmann Levy, XXII, 423). Se essas censuras podem,
a rigor, aplicar-se a Jacob Böehme, elas não atingem Saint-Martin.
Os impulsos do Homem de Desejo repousam sobre as
considerações filosóficas Dos Erros e da Verdade, ou
do Tableau Naturel. (105) É preciso nos entendermos sobre a
expressão mística. A palavra mística, como a hindu
yoga, serve para designar duas idéias diferentes: por um lado, união
com
Deus, a vida que os cristãos chamam unitiva, de outra parte, um caminho,
um método, uma técnica (às vezes, muito próxima
do plano físico como na Hatha Yoga) que conduzem a essa união.
De um lado a meta, de outro os meios para atingi-la. (106)
Para retomar a terminologia Martinista, diferenciamos: a Reintegração
e o Caminho Interior que conduz a ela. No esboço do
caminho para Deus, podem figurar aspectos racionais que não terão
mais vez na existência do homem reintegrado. Quanto à
ascese, quanto a essa preparação moral à vida unitiva,
ela ocupa lugar no quadro dos elementos racionais. Ainda melhor,
apoia-se neles. Convém, pois, tratar dos mesmos em primeiro lugar.
Encontraremos em Saint-Martin, a idéia de Deus
sensível ao coração. Mas, esta relação,
apenas constitui mais seguidamente, um ideal ou fruto do amor e seu coroamento.
O
conhecimento de Deus, corolário do conhecimento do homem, pode também
ser adquirido através do caminho intelectual.
"No que se refere às duas portas, o Coração e
o Espírito, creio, escreve o filósofo, que a primeira é
muito mais preferível do
que a outra, sobretudo, quando se tem a felicidade de participar dela. Mas
ela não deve ser, absolutamente exclusiva,
principalmente quando é necessário falar a pessoas que só
possuem a porta do Espírito apenas entreaberta, e é preciso
ser
muito escrupuloso sobre esse ensinamento, até que surja a luz".
(107) O método é, em ambos os casos, de inspiração
idêntica. É no homem que encontramos Deus. Mas enquanto a descoberta
mística se revela estritamente pessoal e às vezes
infrutífera, o procedimento racional reverte-se de um valor universal.
O Tableau Naturel, por exemplo, mostrará que o exame
do espírito, a formação das idéias, em uma palavra,
que a psicologia supõe Deus. (108) Descobrir-se-á, assim,
um novo
elemento a integrar-se na dialética Martinista e que justificará
o empréstimo da senda interior. Por mais inesperada que
pareça essa aproximação, o iluminismo de Saint-Martin
se acha bem caracterizado pelas observações de um Maurice
Blondel. O que é mística? Interroga esta autor, e responde:
"A mística não nos conduz para o que é obscuridade
e
iluminismo, para o que é subliminal ou supraliminal, para um jogo
de perspectiva subjetiva, mas para um modo determinado
positivamente e metodicamente determinável da vida espiritual e da
luz interior, isto quer dizer que ela implica no emprego
prévio e concomitante de disposições intelectuais e
inteligentes, um querer muito consciente e muito pessoal, uma ascese
moral segundo graduações observáveis e reguláveis".
(109) Reprovamos, como Maurice Blondel, esse falso iluminismo. O
próprio Saint-Martin, denunciou-o, vigorosamente em Ecce Homo. E
nós o reprovamos porque ele está em contradição
com o
verdadeiro iluminismo, do qual, o Martinismo representa o tipo acabado.
Uma palavra não deve lançar o descrédito sobre
uma doutrina que ela não designa senão por confusão.
"Em geral, olham-me como um iluminado, dizia Saint-Martin, sem que
o mundo saiba, todavia, o que se deve entender por essa palavra". (110)
J. de Maistre observará, também, nos seus Soirées
de Saint-Petersbourg, (111) até que ponto esse nome foi desviado
de seu verdadeiro significado. "Chamam de iluminados a
delinqüentes que ousaram, hoje, conceber e mesmo organizar na Alemanha
a mais criminosa associação, medonho projeto
de extinguir o Cristianismo e a Monarquia na Europa. (112) Dá-se
esse mesmo nome ao discípulo virtuoso de Saint-Martin,
que não professa somente o Cristianismo, mas que trabalha para elevar-se
às mais sublimes alturas dessa lei Divina". O
iluminismo é, em resumo, o sistema, a maneira de agir do espírito,
que oferece a salvação na iluminação. Mas que
o
iluminismo pressupõe essa iluminação, nada de menos
seguro. Sem dúvida, Deus poderá manifestar-se, precocemente
e
sem preparação. A certeza será manifestada, e mais
do que a certeza de uma doutrina, a meta será alcançada. Mas,
Saint-
Martin possui a mais fiel e a mais exata imagem do homem. Nós o vimos
extrair dessa percepção aguda da essência
humana seus mais fortes argumentos. A busca de Deus, o caminho para a reintegração;
ele admite que nós possuímos a
sua chave para uma revelação imediata. É preciso procurá-la,
pedi-la, solicitá-la. É por meio dessa finalidade, para responder
a essa necessidade racional que erguer-se-á hostil senão a
satisfizermos, que o Martinismo usa uma dialética. Saint-Martin
declara que o maior erro do homem seria desinteressar-se pela verdade, e
também de julgá-la inacessível. "Tu não
me
buscarás se tu já não tiveres me encontrado",
disse Pascal. E Santo Agostinho, demonstrava que à base do pedido
de graça
havia já uma graça que permitia formular a oração.
Mas qualquer que seja a gratuidade da salvação, da Reintegração,
não
permanece menos, no início, um movimento voluntário. O Martinismo
não desconhece a vontade mesmo quando ela procura
identificar-se com a vontade de Deus. Porque é lá que encontra
sua plena expansão. No primeiro passo que conduz ao
Caminho, o Homem deve contribuir com o seu esforço. E como não
age sem razão e sem motivação, cabe à dialética
Martinista, lhe indicar a estrela que o conduzirá até Deus,
seu Princípio. Feliz daquele que verá a iluminação
esclarecer a
conclusão racional com os raios da certeza. Estará próximo
da meta. A dialética terá conduzido à mística,
pois terá revelado
o homem a si mesmo. "Nosso ser, sendo central, deve encontrar no centro
onde estão todos os socorros necessários à sua
existência". (113) Que ele aí se encontre com o segredo
de seu destino e da sua origem, com os meios de realizar um,
retornando à outra. Tal é o grande ensinamento do Martinismo.
Cartas
14
Primeira Carta Berna, Suíça, 22 de maio de 1792
Senhor: Que não vos seja surpresa receber uma carta de um desconhecido:
foram as vossas obras e o vosso mérito pessoal,
ao qual não sou totalmente estranho, que me fizeram tomar da pena.
Enquanto a maior parte dos pensadores se ocupa com
interesses que agitam as nações, emprego minhas horas de lazer
no estudo das verdades que influem mais diretamente na
felicidade dos homens do que as revoluções políticas
e nos assuntos que engrandecem a esfera dos conhecimentos
humanos ao nos indicarem quão pouco, até o presente, já
pudemos aprender, e a importância das coisas que ainda nos
restam saber. Confessarei, senhor, com a sinceridade e a franqueza de um
suíço, que o escritor mais ilustre na minha
opinião e o mais profundo deste século, é o autor de
Des Erreurs et de la Verité3 e que corresponder-me com ele seria
uma
das maiores satisfações de minha vida. Nessa obra, senhor,
encobriste com um véu algumas verdades importantes para não
expô-las à profanação daqueles que têm
um coração pervertido e os olhos fascinados pelos preconceitos
do vulgo ou pelas
sofisticações dos pretensos filósofos. Porém,
ouso crer, e até mesmo com alguma certeza, que o autor de Dos Erros
e da
Verdade não se furtará a alguns esclarecimentos destinados
às pessoas que de boa fé buscam essa verdade e que, a
exemplo do maior modelo, busquem expandir a luz tanto quanto possível.
Cada página desse livro admirável respira um
sentimento de benevolência que me deixa seguro quanto à minha
asserção. Creio haver adivinhado o que entendeis sob a
denominação da causa ativa e inteligente na obra Des Erreurs
e de de la Vérité; creio haver compreendido, da mesma forma,
em que sentido foi tomada a palavra virtudes4 no Quadro Natural5. Sobre
essa terminologia, não me resta mais dúvida
alguma; na minha opinião, a causa ativa é a verdade por excelência
e, se alguém perguntar como Pilatos: Quid est veritas?6,
eu lhe direi que transponha as letras da pergunta para achar a resposta:
Est vir qui adest7. Mas é o conhecimento físico
desta causa ativa e inteligente, conhecimento que não esteja sujeito
a ilusão alguma, que me parece o maior núcleo da obra
Dos Erros, repito, conhecimento que não esteja sujeito a ilusão
alguma, pois o próprio sentido interno pode algumas vezes
estar sujeito a erros; porque nossos sentidos e nossa imaginação
costumam falar tão alto e nosso sentimento pode algumas
vezes estar tão multiplicado, sobretudo no turbilhão dos negócios,
que nem sempre estamos em condições de ouvir a doce
voz da verdade. Entretanto, nada mais importante do que discerni-la com
alguma segurança, pois "se essa causa ativa e
inteligente não pudesse jamais ser conhecida sensivelmente pelo homem,
ele jamais poderia ter certeza de haver encontrado
a melhor rota e de possuir o verdadeiro culto; uma vez que é essa
causa que tudo deve operar e tudo manifestar, é
necessário então que o homem tenha a certeza da qual falamos
e que não seja o homem que a dê; é necessário
que essa
própria causa ofereça claramente, à inteligência
e aos olhos do homem, os testemunhos de sua aprovação; é
necessário, por
fim, se o homem pode ser pelos homens, que ele tenha meios de não
enganar a si próprio e que tenha ao alcance da mão
recursos dos quais possa esperar socorros evidentes." É sobre
esse ponto essencial que os esclarecimentos ser-me-iam
infinitamente preciosos. Como chegar com segurança a esse conhecimento
físico da causa ativa e inteligente? As virtudes do
Quadro Natural são auxílios para esse conhecimento físico?
E como o conhecimento físico das virtudes do mesmo modo se torna
possível? Eis aqui perguntas sobre as quais eu
aceitaria tudo o que julgardes adequado transmitir-me com reconhecimento
e respeito, pois há somente motivos bem
respeitáveis que possam levar-vos a ter esse trabalho. Ouso ainda
rogar-vos que acrescenteis um outro favor: o de me
informar quais são os livros que partem realmente de vossa pena e
quais são aqueles que expõem os vossos sentimentos
sem mescla de opiniões estrangeiras. Podeis ver, senhor, com que
confiança dirijo-me a vós e, aguardando de vossa parte
uma palavra de resposta, à qual serei muito sensível, rogo-vos
receber a homenagem sincera de meus mais distintos
sentimentos. KIRCHBERGER, Barão de Liebistorf, Membro do Conselho
Soberano da República de Berna
3 Dos Erros e da Verdade, obra existente em português.
4 Itálico da tradutora.
5 Tableau naturel des rapports qui existent entre Dieu, l'homme et l'univers.
6 "Que é a verdade?" - Evangelho segundo São João,
18:38. Tradução para o port uguês de JOÃO FERREIRA
DE
ALMEIDA. Sociedade Bíblica do Brasil, 1969. Edição
revista e atualizada no Brasil. Esta tradução será
adotada no presente
trabalho, com exceção dos trechos pertencentes aos livros
deuterocanônicos, para os quais foi usada a Bíblia de Jerusalém.
7 "É o homem que está presente."
Carta 2 Paris, 8 de fevereiro de 1782
Senhor: Não deixarei de vos agradecer, por minha própria conta,
pelos elogios que tivestes a bondade de dirigir-me em
vossa carta de último 22 de maio. Vou esquecer-me de mim mesmo apenas
para render graças ao Autor de toda a
sabedoria, o qual permitiu que vossa bela alma sentisse a necessidade de
aproximar-se dessa fonte de todas as nossa
venturas. Vejo que apreendeste perfeitamente o sentido da causa ativa e
inteligente e o da palavra virtudes, e creio que nela
está o germe radical de todos os conhecimentos. Quanto aos frutos
que dele devem resultar, só podem nascer segundo as
justas leis da vegetação, na qual somos brigados a participar
desde a queda, e esses frutos só podem ser conhecidos à
medida que vão brotando. Parece que sois bastante instruído
para desconhecer que a alma do homem é a terra em que esse
germe é semeado e onde, por conseguinte, todos os frutos devem ser
manifestados. Acompanhai a comparação de São
Paulo, na Primeira Epístola ao Coríntios, capítulo
15, sobre a vegetação espiritual e corporal, e verei com clareza
a verdade
desta palavra do Salvador: "Se alguém não nascer de novo,
pode ver o reino de Deus." Evangelho de João, 3:3. A isso
acrescentai somente que o nascimento de que fala o Salvador pode ser feito
durante a nossa vida, enquanto que São Paulo
15
falava apenas da ressurreição final. Esta é a obra
na qual todos deveríamos trabalhar e, se ele é tão
laboriosa, está também
repleta de consolações pelos socorros que dela recebemos quando
nos determinamos com bastante coragem a empreendêla.
Independentemente do grande jardineiro que semeia em nós, existe
um grande número de outros que regam, que podam
a árvore e que lhe facilitam o crescimento, sempre sob os olhares
da divina sabedoria que pretende ornar seus jardins, como
todos os outros cultivadores, mas que só pode orná-los conosco
porque somos as suas mais belas flores. Compreendo bem
que é sobre a natureza desses jardineiros que recaem vossa pergunta
e vossa incerteza em saber discerni-los; mas não
esqueçamos a o suave caminho das progressões. Comecemos por
tirar proveito dos pequenos movimentos de virtude, de fé,
de preces e de trabalho que nos são dados. Esses nos atrairão
outros que trarão também sua luz consigo, e assim por
diante, até o complemento da medida particular de cada indivíduo,
e veremos que a única razão pela qual os homens sofrem
embaraços e inquietudes é que eles ultrapassam sempre as épocas
de sua vegetação, ao passo que, se se ocupassem com