A Chave dos Grandes Mistérios
Eliphas Levi
A Chave dos Grandes
Mistérios
A CHAVE DOS GRANDES MISTÉRIOS........................................................................................1
A TÍTULO DE INFORMAÇÃO...............................................................................................1
PREFÁCIO..........................................................................................................................................2
PRIMEIRA PARTE............................................................................................................................4
MISTÉRIOS RELIGIOSOS......................................................................................................4
Problemas a resolver......................................................................................................4
Considerações preliminares............................................................................................4
ARTIGO I.................................................................................................................................8
Solução do primeiro problema.......................................................................................8
Esboço da teologia profética dos números.....................................................................9
ARTIGO II..............................................................................................................................39
Solução do segundo problema......................................................................................40
ARTIGO III.............................................................................................................................41
Solução do terceiro problema.......................................................................................42
ARTIGO IV.............................................................................................................................44
Solução do quarto problema.........................................................................................44
ARTIGO V..............................................................................................................................47
Solução do último problema........................................................................................47
RESUMO DA PRIMEIRA PARTE EM FORMA DE DIÁLOGO.........................................48
A Fé, A Ciência, A Razão............................................................................................48
SEGUNDA PARTE...........................................................................................................................53
MISTÉRIOS FILOSÓFICOS..................................................................................................53
Considerações preliminares..........................................................................................53
Solução dos Problemas Filosóficos..............................................................................55
TERCEIRA PARTE..........................................................................................................................61
OS MISTÉRIOS DA NATUREZA.........................................................................................61
O Grande Agente Mágico............................................................................................61
LIVRO I..................................................................................................................................61
OS Mistérios Magnéticos.............................................................................................61
LIVRO II...............................................................................................................................117
Os Mistérios Mágicos.................................................................................................117
QUARTA PARTE...........................................................................................................................134
OS GRANDES SEGREDOS PRÁTICOS OU AS REALIZAÇÕES DA CIÊNCIA............134
Introdução...................................................................................................................134
EPÍLOGO........................................................................................................................................145
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
PREFÁCIO
Os espíritos humanos têm a vertigem do mistério. O mistério
é o abismo que atrai, sem cessar, nossa curiosidade inquieta por suas
formidáveis profundezas.
O maior mistério do infinito é a existência de Aquele para
quem e somente para Ele - tudo é sem mistério.
Compreendendo o infinito, que é essencialmente incompreensível,
ele próprio é o mistério infinito e externamente insondável,
ou seja, ele é, ao que tudo indica, esse absurdo por excelência,
em que acreditava Tertuliano.
Necessariamente absurdo, uma vez que a razão deve renunciar para sempre
a atingi-lo; necessariamente crível, uma vez que a ciência e a
razão, longe de demonstrar que ele não é, são fatalmente
levadas a deixar acreditar que ele é, e elas próprias a adorá-lo
de olhos fechados. É que esse absurdo é a fonte infinita da razão,
a luz brota eternamente das trevas eternas, a ciência, essa Babel do espírito,
pode torcer e sobrepor suas espirais subindo sempre; ela poderá fazer
oscilar a Terra, nunca tocará o céu.
Deus é o que aprenderemos eternamente a conhecer. É, por conseguinte,
o que nunca saberemos. O domínio do mistério é um campo
aberto às conquistas da inteligência. Pode-se andar nele com audácia,
nunca se reduzirá sua extensão, mudar-se-á somente de horizontes.
Todo saber é o sonho do impossível, mas ai de quem não
ousa aprender tudo e não sabe que, para saber alguma coisa, é
preciso resignar-se a estudar sempre!
Dizem que para bem aprender é preciso esquecer várias vezes. O
mundo seguiu esse método. Tudo o que se questiona em nossos dias havia
sido resolvido pelos antigos; anteriores a nossos anais, suas soluções
escritas em hieróglifos não tinham mais sentido para nós;
um homem reencontrou sua chave, abriu as necrópoles da ciência
antiga e deu a seu século todo um mundo de teoremas esquecidos, de sínteses
simples e sublimes como a natureza, irradiando sempre unidade e multiplicando-se
como números, com proporções tão exatas quanto o
conhecimento demonstra e revela o desconhecido. Compreender essa ciência
é ver Deus. O autor deste livro, ao terminar sua obra, acreditará
tê-lo demonstrado.
Depois, quando tiverdes visto Deus, o hierofante vos dirá: Virai-vos
e, na sombra que projetais na presença desse sol das inteligências,
ele fará aparecer o Diabo, o fantasma negro que vedes quando não
olhais para Deus e quando acreditais ter preenchido o céu com vossa sombra,
porque os vapores da terra parecem tê-la feito crescer ao subir.
Pôr de acordo, na ordem religiosa, a ciência com a revelação
e a razão com a fé, demonstrar em filosofia os princípios
absolutos que conciliam todas as antinomias, revelar enfim o equilíbrio
universal das forças naturais, tal é a tripla finalidade desta
obra, que será, por conseguinte, dividida em três partes.
Mostraremos a verdadeira religião com caracteres tais que ninguém,
crente ou não, poderá desconhecê-la, será o absoluto
em matéria de religião. Estabeleceremos, em filosofia, os caracteres
imutáveis dessa verdade, que é, em ciência, realidade, em
julgamento, razão e, em moral, justiça. Enfim, faremos conhecer
estas leis da natureza cujo equilíbrio é o sustento e mostraremos
o quanto são vãs as fantasias de nossa imaginação
diante das realidades fecundas do movimento e da vida. Convidaremos também
os grandes poetas do futuro para refazerem a divina comédia, não
mais de acordo com os sonhos do homem, mas segundo as matemáticas de
Deus.
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Mistério dos outros mundos, forças ocultas, revelações
estranhas, doenças misteriosas, faculdades excepcionais, espíritos,
aparições, paradoxos mágicos, arcanos herméticos,
diremos tudo e explicaremos tudo. Quem pois nos deu esse poder? Não tememos
revelá-lo a nossos leitores. Existe um alfabeto oculto e sagrado que
os hebreus atribuem a Henoch, os egípcios a Tot ou a Mercúrio
Trismegistos, os gregos a Cadmo e a Palamédio. Esse alfabeto, conhecido
pelos pitagóricos, compõe-se de idéias absolutas ligadas
a signos e a números e realiza, por suas combinações, as
matemáticas do pensamento. Salomão havia representado esse alfabeto
por setenta e dois nomes escritos em trinta e seis talismãs e é
o que os iniciados do Oriente denominam ainda de as pequenas chaves ou clavículas
de Salomão. Essas chaves são descritas e seu uso é explicado
num livro cujo dogma tradicional remonta ao patriarca Abraão, é
o Sepher Yétsirah, e, com a inteligência do Sepher Yétsirah,
penetra-se o sentido oculto do Zohar, o grande livro dogmático da Cabala
dos hebreus. As clavículas de Salomão, esquecidas com o tempo
e que se dizia estarem perdidas, nós as encontramos, e abrimos sem dificuldade
todas as portas dos antigos santuários, onde a verdade absoluta parecia
dormir, sempre jovem e sempre bela, como aquela princesa de um conto infantil
que espera durante um século de sono o esposo que deve despertá-la.
Depois de nosso livro, ainda haverá mistérios, mas mais alto e
mais longe nas profundezas infinitas. Esta publicação é
uma luz ou uma loucura, uma mistificação ou um monumento. Lede,
refleti e julgai.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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PRIMEIRA PARTE
MISTÉRIOS RELIGIOSOS
Problemas a resolver
I. Demonstrar de uma maneira certa e absoluta a existência de um Deus
e dela dar uma idéia satisfatória para todos os espíritos.
II. Estabelecer a existência de uma verdadeira religião de maneira
a torná-la incontestável.
III. Indicar o alcance e a razão de ser de todos os mistérios
da religião única, verdadeira e universal.
IV. Transformar as objeções da filosofia em argumentos favoráveis
à verdadeira religião.
V. Traçar o limite entre a religião e a superstição
e dar a razão dos milagres e dos prodígios.
Considerações preliminares
Quando o conde Joseph de Maistre, este grande lógico apaixonado, disse
com desespero: O mundo está sem religião, assemelhou-se àqueles
que dizem temerariamente: Deus não existe. O mundo, com efeito, está
sem a religião do conde Joseph de Maistre, assim como é provável
que Deus, tal qual o concebe a maioria dos ateus, não exista.
A religião é uma idéia apoiada num fato constante e universal;
a humanidade é religiosa: a palavra religião tem, portanto, um
sentido necessário e absoluto. A própria natureza consagra a idéia
que representa essa palavra e a eleva à altura de um princípio.
A necessidade de crer liga-se estreitamente à necessidade de amar: é
por isso que as almas têm necessidade de comungar com as mesmas esperanças
e com o mesmo amor. As crenças isoladas não passam de dúvidas:
é o laço da confiança mútua que faz a religião
ao criar a fé. A fé não se inventa, não se impõe,
não se estabelece por convicção política; manifesta-se,
como a vida, com uma espécie de fatalidade. O mesmo poder que dirige
os fenômenos da natureza estende e limita, além de todas as previsões
humanas, o domínio sobrenatural da fé. Não se imaginam
as revelações, elas se impõem, e nelas se crê. Por
mais que o espírito proteste contra as obscuridades do dogma, está
subjugado pela atração dessas mesmas obscuridades, e freqüentemente
o mais indócil dos pensadores coraria em aceitar o título de homem
sem religião. A religião ocupa um espaço bem maior entre
as realidades da vida do que pretendem crer aqueles que dispensam a religião
ou que têm a pretensão de dispensá-la. Tudo o que eleva
o homem acima do animal, o amor moral, a abnegação, a honra são
sentimentos essencialmente religiosos. O culto da pátria e do lar, a
religião do juramento e das lembranças são coisas que a
humanidade jamais 4 abjurará sem se degradar completamente, e que não
saberiam existir sem a crença em alguma coisa maior do que a vida mortal,
com todas as suas vicissitudes, suas ignorâncias e suas misérias.
Se a perda eterna no nada tivesse de ser o resultado de todas as nossas aspirações
às coisas sublimes que sentimos serem eternas, a fruição
do presente, o esquecimento do passado e a displicência para com o futuro
seriam nossos únicos deveres, e seria rigorosamente verdadeiro dizer,
com um sofista célebre, que o homem que pensa é um animal degradado.
Por isso, de todas as paixões humanas, a paixão religiosa é
a mais poderosa e a mais vivaz. Produz-se seja pela afirmação
seja pela negação, com igual fanatismo, uns afirmando com obstinação
o deus que fizeram à sua imagem, outros negando Deus com temeridade,
como se tivessem podido compreender e devastar por um único pensamento
todo o infinito que está ligado a seu grande nome.
Os filósofos não refletiram suficientemente sobre o fato fisiológico
da religião na humanidade: a religião, com efeito, existe além
de toda discussão dogmática. É uma faculdade da alma humana,
da mesma forma que a inteligência e o amor. Enquanto houver homens, a
religião existirá. Considerada assim, ela não é
outra coisa que a necessidade de um idealismo infinito, necessidade que justifica
todas as aspirações ao progresso, que inspira todas as abnegações,
que sozinha impede a virtude e a honra de serem unicamente palavras que servem
para iludir a vaidade dos fracos e dos tolos em proveito dos fortes e dos hábeis.
É a essa necessidade inata de crença que se poderia dar o nome
de religião natural, e tudo o que tende a diminuir e limitar o impulso
dessa crença está, na ordem religiosa, em oposição
à natureza. A essência do objeto religioso é o mistério,
uma vez que a fé começa no desconhecido e abandona todo o resto
às investigações da ciência. A dúvida é,
aliás, mortal à fé; ela sente que a intervenção
do ser divino é necessária para cobrir o abismo que separa o finito
do infinito e afirma essa intervenção com todo o ímpeto
de seu coração, com toda a docilidade de sua inteligência.
Fora desse ato de fé, a necessidade religiosa não encontra satisfação
e transmuta-se em ceticismo e em desespero. Mas, para que o ato de fé
não seja um ato de loucura, a razão quer que ele seja dirigido
e regulado. Pelo quê? Pela ciência? Vimos que nesse caso a ciência
é impotente. Pela autoridade civil? É absurdo. Colocai guardas
para vigiar as orações!
Resta, pois, a autoridade moral, única que pode constituir o dogma e
estabelecer a disciplina do culto de comum acordo, dessa vez, com a autoridade
civil, mas não conforme às suas ordens; é preciso, em uma
palavra, que a fé dê à necessidade religiosa uma satisfação
real, inteira, permanente, indubitável. Para tanto, é preciso
a afirmação absoluta, invariável, de um dogma conservado
por uma hierarquia autorizada. É preciso um culto eficaz que dê,
com uma fé absoluta, uma realização substancial aos signos
da crença.
A religião, assim compreendida, sendo a única que satisfaz a necessidade
natural de religião, deve ser chamada de a única verdadeiramente
natural. E chegamos por nós mesmos a esta dupla definição:
a verdadeira religião natural é a religião revelada, é
a religião hierárquica e tradicional, que se afirma absolutamente
acima das discussões humanas pela comunhão da fé, da esperança
e da caridade. Ao representar a autoridade moral e ao realizá-la pela
eficácia de seu ministério, o sacerdote é santo e infalível,
enquanto a humanidade está sujeita ao vício e ao erro. O padre,
ao agir como padre, é sempre o representante de Deus. Pouco importam
as faltas ou mesmo os crimes do homem. Quando Alexandre VI fazia uma ordenação,
não era o envenenador que impunha as mãos aos bispos, era o papa.
Ora, o papa Alexandre VI nunca corrompeu nem falsificou os dogmas que o condenavam,
os sacramentos que, em suas mãos, salvavam os outros e não o justificavam.
Houve sempre e em todos os lugares homens mentirosos e criminosos; mas, na Igreja
hierárquica e divinamente autorizada, nunca houve e nunca haverá
nem maus papas nem maus padres. Mau e padre são palavras que não
se ajustam.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
5
Falamos de Alexandre VI e acreditamos que esse nome baste, sem que nos oponham
outras lembranças justamente execradas. Grandes criminosos puderam duplamente
desonrar-se, por causa do caráter sagrado de que estavam revestidos;
mas não lhes foi dado desonrar esse caráter, que continua sempre
radiante e esplêndido acima da humanidade que cai. Dissemos que não
há religião sem mistérios; acrescentemos que não
há mistérios sem símbolos. Sendo o símbolo a fórmula
ou a expressão do mistério, ele só exprime sua profundidade
desconhecida por imagens paradoxais emprestadas do conhecido. Devendo caracterizar
o que está acima da razão científica, a forma simbólica
deve necessariamente encontrar-se fora dessa razão: daí, a palavra
célebre e perfeitamente justa de um Pai da Igreja: Creio, porque é
absurdo, credo quia absurdum.
Se a ciência afirmasse o que não sabe, destruiria a si própria.
A ciência não pode, portanto, realizar a obra da fé, tanto
quanto a fé não pode decidir em matéria de ciência.
Uma afirmação de fé com que a ciência tenha a temeridade
de ocupar-se será apenas um absurdo para ela, da mesma forma que uma
afirmação de ciência que nos fosse dada como artigo de fé
seria um absurdo na ordem religiosa. Crer e saber são dois termos que
nunca se podem confundir.
Tampouco poderiam opor-se um ao outro num antagonismo qualquer. É impossível,
com efeito, crer no contrário do que se sabe sem deixar, por isso mesmo,
de o saber, e é igualmente impossível chegar a saber o contrário
do que se crê sem deixar imediatamente de crer. Negar ou mesmo contestar
as decisões da fé, e isso em nome da ciência, é provar
que não se compreende nem a ciência nem a fé: com efeito,
o mistério de um Deus em três pessoas não é um problema
de matemática; a encarnação do Verbo não é
um fenômeno que pertença à medicina; a redenção
escapa à crítica dos historiadores. A ciência é absolutamente
impotente para decidir se se tem ou não razão de se acreditar
ou não no dogma; ela pode constatar somente os resultados da crença
e, se a fé torna evidentemente os homens melhores, se, aliás,
a fé em si mesma, considerada como um fato fisiológico, é
evidentemente uma necessidade e uma força, será preciso que a
ciência o admita e tome o sábio partido de contar sempre com a
fé.
Ousemos afirmar agora que existe um fato imenso, igualmente apreciável
pela fé e pela ciência, um fato que torna Deus visível de
algum modo sobre a terra, um fato incontestável e de alcance universal;
esse fato é a manifestação, no mundo, a partir da época
em que começa a revelação cristã, de um espírito
desconhecido pelos antigos, de um espírito evidentemente divino, mais
positivo que a ciência em suas obras, mais magnificamente ideal em suas
aspirações que a mais elevada poesia, um espírito para
o qual era preciso criar um nome novo, completamente inaudito nos santuários
da Antigüidade. Assim, esse nome foi criado, e demonstraremos que esse
nome, que essa palavra é, em religião, tanto para a ciência
quanto para a fé, a expressão do absoluto; a palavra é
caridade e o espírito de que falamos chama-se o espírito de caridade.
Diante da caridade, a fé prosterna-se e a ciência, vencida, inclina-se.
Há evidentemente aqui alguma coisa maior do que a humanidade; a caridade
prova por suas obras que não é um sonho. É mais forte do
que todas as paixões; triunfa sobre o sofrimento e a morte; faz que Deus
seja compreendido por todos os corações e parece já preencher
a eternidade pela realização iniciada de suas legítimas
esperanças.
Diante da caridade viva e atuante, que Proudhon ousará blasfemar? Que
Voltaire ousará rir? Empilhai, um sobre os outros, os sofismas de Diderot,
os argumentos críticos de Strauss, as Ruínas de Volney - tão
bem nomeadas, pois esse homem não poderia fazer senão ruínas
-, as blasfêmias dessa revolução cuja voz extingue-se uma
vez no sangue e outra no silêncio do desprezo; acrescentei a isso o que
o futuro pode nos reservar de monstruosidades e devaneios; depois, que venha
a mais humilde e a mais simples de todas as irmãs da caridade, o mundo
abandonará todas as suas tolices, todos os seus crimes, todos os seus
devaneios doentios, para inclinar-se diante dessa realidade sublime.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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Caridade! palavra divina, palavra que, por si, leva à compreensão
de Deus, palavra que contém uma revelação inteira! Espírito
de caridade, aliança de duas palavras que são toda uma solução
e todo um futuro! Que pergunta, com efeito, essas duas palavras não podem
responder? O que é Deus para nós senão o espírito
de caridade? o que é a ortodoxia? não é o espírito
de caridade que não discute sobre a fé a fim de não alterar
a confiança dos pequenos e de não perturbar a paz da comunhão
universal? Ora, o que é a Igreja universal senão a comunhão
em espírito de caridade? É pelo espírito de caridade que
a Igreja é infalível. O espírito de caridade é a
virtude divina do sacerdócio.
Dever dos homens, garantia de seus direitos, prova de sua imortalidade, eternidade
de felicidade iniciada para eles na terra, objetivo glorioso dado a sua existência,
fim e meio de seus esforços, perfeição de sua moral individual,
civil e religiosa, o espírito de caridade abrange tudo, aplica-se a tudo,
tudo pode esperar, tudo empreender e tudo cumprir.
Era pelo espírito de caridade que Jesus, expirando na cruz, dava a sua
mãe um filho na pessoa de São João e, triunfando sobre
as angústias do mais horrível suplício, soltava um grito
de libertação e de salvação ao dizer: "Pai,
nas tuas mãos entrego meu espírito." Foi pelo espírito
de caridade que doze artesãos da Galiléia conquistaram o mundo;
amaram a verdade mais do que suas vidas; e foram sozinhos dizê-la aos
povos e aos reis; provados pela tortura, foram considerados fiéis. Mostraram
às multidões a imortalidade viva em sua morte e regaram a terra
com um sangue cujo calor não podia extinguir-se, pois neles ardia a chama
da caridade. Foi pela caridade que os apóstolos constituíram seus
símbolos. Disseram que acreditar juntos é melhor do que duvidar
separadamente; constituíram a hierarquia sobre a obediência, tornada
tão nobre e tão grande pelo espírito de caridade, que servir
assim é reinar; formularam a fé de todos e a esperança
de todos e puseram esse símbolo sob a guarda da caridade de todos. Ai
do egoísta que se apropria de uma só palavra dessa herança
do Verbo, pois é um deicida que quer desmembrar o corpo do Senhor.
O símbolo é a arca sagrada da caridade, quem quer que o toque
é atingido pela morte eterna, pois a caridade retira-se dele. É
a herança sagrada de nossos filhos, é o preço do sangue
de nossos pais. Era pela caridade que os mártires se consolavam nas prisões
dos césares e atraíam para sua crença seus guardas e mesmo
seus carrascos.
Era em nome da caridade que São Martinho de Tours protestava contra o
suplício dos priscilianos e separava-se da comunhão do tirano
que queria impor a fé pela espada. Foi pela caridade que tantos santos
consolaram o mundo dos crimes cometidos em nome da própria religião
e dos escândalos do santuário profanado.
Foi pela caridade que São Vicente de Paulo e Fenelon impuseram-se à
admiração dos séculos, mesmo aos mais ímpios, e
fizeram calar de antemão o riso dos filhos de Voltaire diante da seriedade
imponente de suas virtudes.
Foi pela caridade, enfim, que a loucura da cruz tornou-se a sabedoria das nações,
porque todos os nobres corações compreenderam que é mais
elevado acreditar ao lado dos que amam e devotam-se do que duvidar ao lado dos
egoístas e dos escravos do prazer!
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7
ARTIGO I
Solução do primeiro problema
O Verdadeiro Deus
Deus só pode ser definido pela fé; a ciência não
pode negar nem afirmar que ele existe. Deus é o objeto absoluto da fé
humana. No infinito, é a inteligência suprema e criadora da ordem.
No mundo, é o espírito de caridade.
Será o Ser universal uma máquina fatal que tritura eternamente
as inteligências ocasionais ou uma inteligência providencial que
dirige as forças para a melhoria dos espíritos? A primeira hipótese
repugna à razão, é desesperadora e imoral.
Ciência e razão devem, portanto, inclinar-se diante da segunda.
Sim, Proudhon, Deus é uma hipótese, mas é uma hipótese
tão necessária que, sem ela, todos os teoremas tornam-se absurdos
ou duvidosos.
Para os iniciados da cabala, Deus é a unidade absoluta que cria e anima
os números.
A unidade da inteligência humana demonstra a unidade de Deus. A chave
dos números é a dos símbolos, porque os sintomas são
as figuras analógicas da harmonia que vem dos números.
As matemáticas não saberiam demonstrar a fatalidade cega, uma
vez que são a expressão da exatidão que é o caráter
da mais suprema razão.
A unidade demonstra a analogia dos contrários; é o princípio,
o equilíbrio e o fim dos números. O ato de fé parte da
unidade e retorna à unidade.
Vamos esboçar uma explicação da Bíblia pelos números,
porque a Bíblia é o livro das imagens de Deus.
Perguntaremos aos números a razão dos dogmas da religião
eterna, e os números responderão sempre, reunindo-se na síntese
da unidade.
As poucas páginas que se seguem são simples apanhados das hipóteses
cabalísticas; são externas à fé e as indicamos somente
como pesquisas curiosas. Não nos cabe inovar em matéria de dogma,
e nossas asserções como iniciado estão inteiramente subordinadas
à nossa submissão como cristão.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
8
Esboço da teologia profética dos números
I - A Unidade
A unidade é o princípio e a síntese dos números,
é a idéia de Deus e do homem, é a aliança da razão
e da fé.
A fé não pode ser oposta à razão, é exigida
pelo amor, é idêntica à esperança. Amar é
acreditar e esperar, e esse triplo ímpeto da alma é chamado virtude,
porque é preciso coragem para realizá-lo. Mas haveria coragem
nisso se a dúvida não fosse possível? Ora, poder duvidar
é duvidar. A dúvida é a força equilibrante da fé
e tem todo o seu mérito.
A própria natureza nos induz a crer, mas as fórmulas de fé
são constatações sociais das tendências da fé
numa época dada. É o que dá a infalibilidade à Igreja,
infalibilidade de evidência e de fato. Deus é necessariamente o
mais desconhecido de todos os seres, uma vez que só é definido
em sentido inverso de nossas experiências, é tudo o que não
somos, é o infinito oposto ao finito por hipótese contraditória.
A fé e, por conseguinte, a esperança e o amor são tão
livres que o homem, longe de impô-los aos outros, não os impõe
a si mesmo.
São graças, diz a religião. Ora, será concebível
que se exija a graça, isto é, que se queira forçar os homens
ao que vem livre e gratuitamente do céu? É preciso desejar-lhes
isso.
Raciocinar sobre a fé é disparatar, uma vez que o objeto da fé
é externo à razão. Se me perguntam:
"Existe um Deus?", eu respondo: "Acredito que sim." "Mas
o senhor tem certeza disso?" "Se tivesse certeza, não acreditaria
nele, eu o saberia."
Formular a fé é admitir termos da hipótese comum.
A fé começa onde a ciência acaba. Ampliar a ciência
é aparentemente suprimir a fé, e, na realidade, é ampliar
igualmente seu domínio, pois é ampliar sua base.
Só se pode adivinhar o desconhecido por suas proporções
supostas ou passíveis de serem supostas do conhecido.
A analogia era o dogma único dos antigos magos. Dogma verdadeiramente
mediador, pois é metade científico, metade hipotético,
metade razão e metade poesia. Esse dogma foi e será sempre o gerador
de todos os outros.
O que é o Homem-Deus? É o que realiza na vida mais humana o ideal
mais divino.
A fé é uma adivinhação da inteligência e do
amor dirigidos pelos índices da natureza e da razão. Faz parte,
portanto, da essência das coisas de fé serem inacessíveis
à ciência, duvidosas para a filosofia e indefinidas para a certeza.
A fé é uma realização hipotética dos fins
últimos da esperança. É a adesão ao signo visível
das coisas que não se vê.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
9
Sperandarum substantia rerum
Argumentum non apparentium
Para afirmar sem disparate que Deus existe ou não, é preciso partir
de uma definição sensata ou insensata de Deus. Ora, essa definição
para ser sensata deve ser hipotética, analógica e negativa do
finito conhecido. Pode-se negar um Deus qualquer, mas o Deus absoluto não
se nega tanto quanto não se prova; é sensatamente suposto e nele
se acredita.
Bem-aventurados os que têm o coração puro, pois verão
a Deus, disse o Mestre; ver com o coração é acreditar e,
se essa fé se relaciona ao verdadeiro bem, não pode ser enganada
contanto que não procure definir muito seguindo as induções
arriscadas da ignorância pessoal. Nossos julgamentos, em matéria
de fé, aplicam-se a nós mesmos, será para nós como
tivermos acreditado. Isto é, nós próprios nos fazemos à
semelhança de nosso ideal.
Quem faz os deuses torna-se semelhante a eles, assim como todos aqueles que
lhes dão sua confiança.
O ideal divino do velho mundo fez a civilização que acabou, e
não se deve desesperar ao ver o deus de nossos bárbaros pais tornar-se
o diabo de nossos filhos mais esclarecidos. Fazem-se diabos com deuses de refugo,
e Satã só é assim tão incoerente e tão disforme
porque é feito com todos os retalhos das antigas teogonias. É
a esfinge sem palavra, é o enigma sem solução, é
o mistério sem verdade, é o absoluto sem realidade e sem luz.
O homem é o filho de Deus, porque Deus, manifestado, é chamado
o filho do homem. Foi depois de ter feito Deus em sua inteligência e seu
amor que a humanidade compreendeu o verbo sublime que disse: Faça-se
a luz!
O homem é a forma do pensamento divino, e Deus é a síntese
idealizada do pensamento humano.
Assim, o Verbo de Deus é o que revela o homem, e o Verbo do homem é
o que revela Deus.
O homem é o Deus do mundo, e Deus é o homem do céu.
Antes de dizer: Deus quer, o homem quis.
Para compreender e honrar Deus todo-poderoso, é preciso que o homem seja
livre. Obedecendo e abstendo-se por temor ao fruto da ciência, tendo sido
inocente e estúpido como o cordeiro, curioso e rebelde como o anjo de
luz, o homem cortou o cordão de sua ingenuidade e, caindo livre sobre
a terra, arrastou Deus em sua queda.
E é por isso que, do fundo dessa queda sublime, revela-se glorioso com
o grande condenado do calvário e entra com ele no reino do céu.
Pois o reino do céu pertence à inteligência e ao amor, ambos
filhos da liberdade! Deus mostrou ao homem a liberdade como uma amante, e, para
pôr seu coração à prova, fez passar, entre ela e
ele, o fantasma da morte.
O homem amou e sentiu-se Deus; deu por ela isto que Deus acabava de nos dar:
a esperança eterna.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
10
Lançou-se em direção de sua noiva através da sombra
da morte e o espectro desapareceu.
O homem possuía a liberdade; tinha abraçado a vida.
Expia agora tua glória, ó Prometeu!
Teu coração devorado sem cessar não pode morrer; é
o teu abutre e Júpiter que morrerão. Um dia despertaremos enfim
dos sonhos penosos de uma vida atormentada, a obra de nossa provação
terá acabado, seremos fortes o bastante contra a dor para sermos imortais.
Então viveremos em Deus, numa vida mais abundante, e desceremos às
suas obras com a luz de seu pensamento, seremos levados ao infinito pelo sopro
de seu amor. Seremos, sem dúvida, os primogênitos de uma nova raça;
anjos do porvir.
Mensageiros celestes, vogaremos na imensidão e as estrelas serão
nossas brancas naus. Transformar-nos-emos em doces visões para acalmar
os olhos dos que choram; colheremos lírios resplandecentes em prados
desconhecidos e espargiremos seu orvalho sobre a terra. Tocaremos a pálpebra
da criança que dorme e alegraremos docemente o coração
de sua mãe com o espetáculo da beleza de seu filho bem-amado.
II - O Binário
O binário é mais particularmente o número da mulher, esposa
do homem e mãe da sociedade.
O homem é o amor na inteligência, a mulher é a inteligência
no amor. A mulher é o sorriso do criador contente de si próprio,
e foi depois de tê-la feito que ele descansou, diz a parábola celeste.
A mulher está antes do homem, porque é mãe e tudo lhe é
perdoado de antemão porque dá à luz com dor.
A mulher foi quem primeiro se iniciou na imortalidade pela morte; o homem, então,
a viu tão bela e a compreendeu tão generosa, que não quis
sobreviver a ela, e amou-a mais do que sua vida, mais do que sua felicidade
eterna.
Feliz proscrito! já que lhe foi dada como companheira de seu exílio.
Mas os filhos de Caim revoltaram-se contra a mãe de Abel e escravizaram
sua mãe.
A beleza da mulher tornou-se uma presa para a brutalidade dos homens sem amor.
Então, a mulher fechou seu coração como um santuário
desconhecido e disse aos homens indignos dela: "Sou virgem, mas quero ser
mãe, e meu filho ensinar-vos-á a me amar." Ó Eva!
sê saudada e adorada em tua queda!
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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Ó Maria! sê abençoada e adorada em tuas dores e em tua glória!
Santa crucificada que sobrevivia a teu Deus para enterrar teu filho, sê
para nós a última palavra da revelação divina!
Moisés chamava Deus de Senhor, Jesus chamava-o de meu Pai, e nós,
pensando em ti, diremos à Providência: "Sois nossa mãe!"
Filhos da mulher, perdoemos a mulher decaída.
Filhos da mulher, adoremos a mulher regenerada.
Filhos da mulher, que dormimos em seu seio, que fomos embalados em seus braços
e consolados por seus carinhos, amemo-la e amemo-nos entre nós!
III - O Ternário
O ternário é o número da criação.
Deus criou a si próprio eternamente e o infinito que ele preenche com
suas obras é uma criação incessante e infinita.
O amor supremo contempla-se na beleza como em um espelho, e experimenta todas
as formas como enfeites, pois é o noivo da vida.
O homem também afirma e cria a si próprio: enfeita-se com suas
conquistas, ilumina-se com suas concepções, reveste-se com suas
obras como que com vestes nupciais. A grande semana da criação
foi imitada pelo gênio humano divinizando as formas da natureza. Cada
dia forneceu uma revelação nova, cada rei progressivo do mundo
foi por um dia a imagem e a encarnação de Deus! Sonho sublime
que explica os mistérios da Índia e justifica todos os simbolismos!
A elevada concepção do homem-Deus corresponde à criação
de Adão, e o cristianismo, à semelhança dos primeiros dias
do homem típico no paraíso terrestre, foi apenas uma aspiração
e uma viuvez.
Esperamos o culto da esposa e da mãe, aspiramos às núpcias
da nova aliança. Então os pobres, os cegos, todos os proscritos
do velho mundo serão convidados para o festim e receberão um traje
nupcial; e olhar-se-ão uns aos outros com uma grande doçura e
um inefável sorriso, porque terão chorado muito tempo.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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IV - O Quartenário
O quaternário é o número da força. É o ternário
completado por seu produto, é a unidade rebelada reconciliada à
trindade soberana.
No ardor primeiro da vida, o homem, tendo esquecido sua mãe, compreendeu
Deus apenas como um pai inflexível e cioso.
O sombrio Saturno, armado com sua foice parricida, põe-se a devorar seus
filhos.
Júpiter teve cenhos que abalaram o Olimpo, e Jeová, trovões
que ensurdeceram as solidões do Sinai. E, no entanto, o pai dos homens,
embriagado às vezes como Noé, deixava o mundo perceber os mistérios
da vida.
Psiquê, divinizada por suas aflições, tornava-se esposa
do Amor; Adônis ressuscitado reencontrava Vênus no Olimpo; Jó,
vitorioso ao mal, recuperava mais do que tinha perdido. A lei é uma prova
de coragem. Amar a vida mais do que se teme as ameaças da morte é
merecer a vida.
Os eleitos são os que ousam; ai dos tímidos!
Assim, os escravos da lei que se fazem os tiranos das consciências, e
os servidores do temor, e os avaros de esperança, e os fariseus de todas
as sinagogas e de todas as igrejas, estes são os réprobos e os
malditos do Pai!
Cristo não foi excomungado e crucificado pela sinagoga?
Savonarola não foi queimado por ordem de um pontífice da religião
cristã?
Os fariseus não são hoje o que eram no tempo de Caifás?
Se alguém lhes fala em nome da inteligência e do amor, escutá-lo-ão?
Foi arrancando os filhos da liberdade à tirania dos Faraós que
Moisés inaugurou o reino do Pai. Foi quebrando o jugo insuportável
do farisaísmo mosaico que Jesus convidou todos os homens à fraternidade
do filho único de Deus.
Quando caírem os últimos ídolos, quando se quebrarem as
últimas correntes materiais das consciências, quando os últimos
matadores de profetas, quando os últimos sufocadores do Verbo forem confundidos,
será o reino do Espírito Santo.
Glória, pois, ao Pai, que enterrou o exército do Faraó
no mar Vermelho! Glória ao Filho que rasgou o véu do templo e
cuja cruz extremamente pesada posta sobre a coroa dos Césares quebrou
contra a terra a fronte dos Césares!
Glória ao Espírito Santo que deve varrer da terra com seu sopro
terrível todos os ladrões e todos os carrascos para dar lugar
ao banquete dos filhos de Deus!
Glória ao Espírito Santo que prometeu ao anjo da liberdade a conquista
da terra e do céu.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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O anjo da liberdade nasceu antes da aurora do primeiro dia, antes mesmo do despertar
da inteligência, e Deus o denominou estrela da manhã.
Ó Lúcifer, tu te desligaste voluntária e desdenhosamente
do céu onde o sol te inundava com sua claridade, para sulcar com teus
próprios raios os campos agrestes da noite. Brilhas quando o sol se põe
e teu olhar resplandecente precede o nascer do dia.
Cais para de novo levantar; experimentas a morte para melhor conhecer a vida.
És, para as glórias antigas do mundo, a estrela da noite; para
a verdade renascente, a bela estrela da manhã!
A liberdade não é a licença: a licença é
a tirania.
A liberdade é a guardiã do dever, porque ela reivindica o direito.
Lúcifer, cujas idades das trevas fizeram o gênio do mal, será
verdadeiramente o anjo da luz quando, tendo conquistado a liberdade ao preço
da reprovação, fizer uso dela para se submeter à ordem
eterna, inaugurando assim as glórias da obediência voluntária.
O direito é apenas a raiz do dever, é preciso possuir para dar.
Ora, eis como uma elevada poesia explica a queda dos anjos.
Deus tinha dado aos espíritos a luz e a vida, depois lhes disse: Amai.
- O que é amar?, responderam os espíritos.
- Amar é dar-se aos outros, respondeu Deus. - Os que amarem sofrerão,
mas serão amados.
- Temos o direito de não dar nada, e nada queremos sofrer, disseram os
espíritos inimigos do amor. - Estais em vosso direito, respondeu Deus
-, e separemo-nos. Eu e os meus queremos sofrer e morrer, mesmo para amar. É
nosso dever!
O anjo caído é pois aquele que desde o princípio recusou
amar; não ama, e é todo o seu suplício; não dá,
e é toda a sua miséria; não sofre, e é seu nada;
não morre, e é seu exílio. O anjo caído não
é Lúcifer, o porta-luz, é Satã, o caluniador do
amor. Ser rico é dar; não dar nada é ser pobre; viver é
amar, não amar nada é estar morto; ser feliz é devotar-se;
existir somente para si é reprovar a si próprio, é seqüestrar-se
no inferno. O céu é a harmonia dos sentimentos gerais; o inferno
é o conflito dos instintos lassos. O homem do direito é Caim,
que matou Abel por inveja; o homem do dever é Abel, que morre para Caim
por amor.
E tal foi a missão do Cristo, o grande Abel da humanidade.
Não é pelo direito que devemos ousar em tudo, é pelo dever.
O dever é a expansão e a fruição da liberdade; o
direito isolado é o pai da servidão.
O dever é a obrigação, o direito é o egoísmo.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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O dever é o sacrifício, o direito é a rapina e o roubo.
O dever é o amor, o direito é o ódio.
O dever é a vida infinita, o direito é a morte eterna.
Se é preciso combater pela conquista do direito, é somente para
adquirir a potência do dever: e por que seríamos livres se não
fosse para amar, devotarmo-nos e, assim, assemelharmo-nos a Deus? Se é
preciso infringir a lei, é quando ela submete o amor ao medo. Aquele
que quiser salvar sua alma perdê-la-á, diz o livro santo, e aquele
que consentir em perdê-la salvá-la-á.
O dever é amar: pereça todo aquele que cria obstáculos
ao amor! Silêncio aos oráculos do ódio!
Aniquilamento aos falsos deuses do egoísmo e do medo! Vergonha aos escravos
avaros de amor!
Deus ama os filhos pródigos!
V - O Quinário
O quinário é o número religioso, pois é o número
de Deus reunido ao da mulher.
A fé não é a credulidade estúpida da ignorância
maravilhada.
A fé é a consciência e a confiança do amor.
A fé é o grito da razão que persiste em negar o absurdo,
mesmo diante do desconhecido. A fé é um sentimento necessário
à alma como a respiração à vida: é a dignidade
do coração, é a realidade do entusiasmo.
A fé não consiste na afirmação deste ou daquele
símbolo, mas na aspiração verdadeira e constante às
verdades veladas por todos os simbolismos.
Um homem rejeita uma idéia indigna da divindade, quebra suas falsas imagens,
revolta-se contra odiosas idolatrias, e dizeis que é um ateu?
Os perseguidores da Roma decaída também chamavam os primeiros
cristãos de ateus, porque não adoravam os ídolos de Calígula
ou de Nero.
Negar toda uma religião e mesmo todas as religiões de preferência
a aderir a fórmulas que a consciência reprova é um corajoso
e sublime ato de fé.
Todo homem que sofre por suas convicções é um mártir
da fé. Talvez se explique mal, mas prefere a justiça e a verdade
a qualquer coisa; não o condeneis sem entendê-lo.
Acreditar na verdade suprema não é defini-la, e declarar que nela
se crê é reconhecer ignorá-la.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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O apóstolo São Paulo limita toda fé a estas duas coisas:
acreditar que Deus existe e que ele recompensa aqueles que o procuram.
A fé é maior que as religiões, porque precisa menos dos
artigos da crença. Um dogma qualquer constitui apenas uma crença
e pertence a uma comunhão especial; a fé é um sentimento
comum a toda a humanidade.
Quanto mais se discute para precisar, menos se acredita; um dogma a mais é
uma crença de que uma seita se apropria e eleva assim, de alguma maneira,
à fé universal. Deixemos os sectários fazerem e refazerem
seus dogmas, deixemos os supersticiosos detalharem e formularem suas superstições,
deixemos os mortos enterrarem seus mortos, como dizia o Mestre, e acreditemos
na verdade indizível, no absoluto que a razão admite sem compreender,
no que pressentimos sem saber.
Acreditemos na razão suprema.
Acreditemos no amor infinito e tenhamos piedade das estupidezes da escola e
das barbáries da falsa religião.
Ó homem! dize-me o que esperas, e eu dir-te-ei o que vales. Rezas, jejuas,
velas e crês que escaparás assim sozinho, ou quase sozinho, à
perda imensa dos homens devorados por um Deus cioso. És um hipócrita
e um ímpio. Fazes da vida uma orgia e esperas o nada como sono, és
um doente ou um insano. Estás pronto a sofrer como os outros e pelos
outros e esperas a salvação de todos, és um sábio
e um justo.
Esperar não é ter medo.
Ter medo de Deus! Que blasfêmia!
O ato de esperança é a oração.
A oração é o derramar-se da alma na sabedoria e no amor
eternos.
É o olhar do espírito para a verdade e o suspiro do coração
para a beleza suprema.
É o sorriso da criança para a mãe.
É o murmúrio do bem-amado que se debruça para os beijos
de sua bem-amada.
É a doce felicidade da alma amante que se dilata num oceano de amor.
É a tristeza da esposa na ausência do novel esposo.
É o suspiro do viajante que pensa em sua pátria.
É o pensamento do pobre que trabalha para alimentar a mulher e os filhos.
Oremos em silêncio e ergamos em direção de nosso Pai desconhecido
um olhar de confiança e de amor; aceitemos com fé e resignação
a parte que nos cabe nas penas da vida, e todas as batidas de nossos corações
serão palavras de oração.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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Necessitamos acaso informar a Deus que coisas lhe pedimos, já não
sabe ele o que nos é necessário? Se choramos, apresentemos-lhe
as nossas lágrimas; se nos regozijamos, dirijamos-lhe o nosso sorriso;
se ele nos atinge, baixemos a cabeça; se nos acaricia, adormeçamos
em seus braços! Nossa oração será perfeita, quando
orarmos sem sequer saber que oramos.
A oração não é um ruído que fere os ouvidos,
é um silêncio que penetra no coração.
E doces lágrimas vêm umedecer os olhos, e suspiros escapam como
a fumaça dos incensos. Fica-se tomado por um inefável amor a tudo
o que é beleza, verdade, justiça; palpita-se de uma nova vida
e não se teme mais morrer. Pois a oração é a vida
eterna da inteligência e do amor; é a vida de Deus na terra.
Amai-vos uns aos outros, eis a lei e os profetas! Meditai e compreendei essa
palavra.
E, quando tiverdes compreendido, não leiais mais, não procures
mais, não duvideis mais, amai! Não mais sejais sábios,
não mais sejais eruditos, amai! Essa é a doutrina da verdadeira
religião; religião quer dizer caridade, e o próprio Deus
não é senão amor. Eu já vos disse: amar é
dar.
O ímpio é aquele que absorve os outros.
O homem pio é aquele que se expande na humanidade.
Se o coração do homem concentra em si próprio o fogo com
o qual Deus o anima, é um inferno que devora tudo e que só se
preenche de cinzas; se ele o faz resplandecer fora, torna-se um doce sol de
amor.
O homem doa-se à família; a família doa-se à pátria;
a pátria, à humanidade. O egoísmo do homem merece o isolamento
e o desespero, o egoísmo da família merece a ruína e o
exílio, o egoísmo da pátria merece a guerra e a invasão.
O homem que se isola de todo amor humano ao dizer: Eu servirei a Deus, este
se engana. Pois, diz o apóstolo São João, se ele não
ama ao próximo que vê, como amará a Deus que não
vê? É preciso dar a Deus o que é de Deus, mas não
se deve recusar mesmo a César o que é de César.
Deus é quem dá a vida, César é quem pode dar a morte.
É preciso amar a Deus e não temer a César, pois está
dito no livro sagrado: Quem com ferro fere com ferro perecerá.
Quereis ser bons, sede justos; quereis ser justos, sede livres!
Os vícios que deixam o homem semelhante à besta são os
primeiros inimigos da sua liberdade.
Olhai o bêbado e dizei-me se essa besta imunda pode ser livre!
O avaro maldiz a vida de seu pai e, como o corvo, tem fome de cadáveres.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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O ambicioso quer ruínas, é um invejoso em delírio; o devasso
escarrou no seio da mãe e encheu de abortos as entranhas da morte.
Todos esses corações sem amor são punidos pelo mais cruel
dos suplícios: o ódio.
Pois, saibamo-lo bem, a expiação está contida no pecado.
O homem que faz o mal é como um vaso de barro defeituoso, quebrar-se-á,
a fatalidade o quer.
Com os escombros do mundo, Deus refaz estrelas; com os escombros da alma, refaz
anjos.
VI - O Senário
O senário é o número da iniciação pela prova;
é o número do equilíbrio, é o hieróglifo
da ciência do bem e do mal.
Quem procura a origem do mal procura o que não é.
O mal é o apelativo da desordem do bem, é a tentativa infrutífera
de uma vontade inábil.
Cada um possui o fruto de suas obras, e a pobreza é somente o aguilhão
do trabalho. Para o rebanho dos homens, o sofrimento é como o cão
pastor que morde a lã das ovelhas para recolocá-las no caminho.
É por causa da sombra que podemos ver a luz; é por causa do frio
que sentimos o calor; é por causa da dor que somos sensíveis ao
prazer.
O mal é, portanto, para nós, a ocasião e o começo
do bem.
Mas, nos sonhos de nossa inteligência imperfeita, acusamos o trabalho
providencial, por não o compreender.
Assemelhamo-nos ao ignorante que julga o quadro no começo do esboço
e diz, quando a cabeça está feita: "Então esta figura
não tem corpo."
A natureza continua calma e realiza sua obra.
A relha não é cruel quando rasga o seio da terra, e as grandes
revoluções do mundo são a lavoura de Deus.
Tudo tem seu tempo: aos povos ferozes, senhores bárbaros; ao gado, açougueiros;
aos homens, juizes e pais.
Se o tempo pudesse transformar os carneiros em leões, eles comeriam os
açougueiros e os pastores.
Os carneiros nunca se transformam porque não se instruem, mas os povos
instruem-se. Pastores e açougueiros dos povos, tendes razão, portanto,
em ver como inimigos aqueles que falam a vosso rebanho.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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Rebanhos que conheceis ainda apenas vossos pastores e que quereis ignorar seu
comércio com os açougueiros, sois desculpáveis por apedrejar
aqueles que vos humilham e que vos inquietam ao falarem de vossos direitos.
Ó Cristo! Os grandes condenam-te, teus discípulos renegam-te,
o povo amaldiçoa-te e aclama teu suplício, somente tua mãe
chora, Deus abandona-te!
Eli! Eli! Lamma Sabachtani!
VII - O Setenário
O setenário é o grande número bíblico. É
a chave da criação de Moisés e o símbolo de toda
a religião. Moisés deixou cinco livros, e a lei resume-se em dois
testamentos. A Bíblia não é uma história, é
uma coletânea de poemas, é um livro de alegorias e imagens. Adão
e Eva são somente tipos primitivos da humanidade; a serpente que tenta
é o tempo que põe à prova; a árvore da ciência
é o direito; a expiação pelo trabalho é o dever.
Caim e Abel representam a carne e o espírito, a força e a inteligência,
a violência e a harmonia.
Os gigantes são os antigos usurpadores da terra; o dilúvio foi
um imensa revolução. A arca é a tradição
conservada numa família: a religião, nessa época, torna-se
um mistério e a propriedade de uma raça. Caim é maldito
por ser seu revelador. Nemrod e Babel são duas alegorias primitivas do
désposta único e do império universal sempre sonhado desde
então; empreendido sucessivamente pelos assírios, os medas, os
persas, Alexandre, Roma, Napoleão, os sucessores de Pedro, o Grande,
e sempre inacabado por causa da dispersão de interesses, figurada pela
confusão das línguas.
O império universal não deveria realizar-se pela força,
mas pela inteligência e pelo amor. Por isso, a Nemrod, homem do direito
selvagem, a Bíblia opõe Abraão, homem do dever, que se
exila para buscar a liberdade e a luta numa terra estrangeira de que se apodera
pelo pensamento. Tem uma mulher estéril, é seu pensamento, e uma
escrava fecunda, é sua força; mas, quando a força produz
seu fruto, o pensamento torna-se fecundo, e o filho da inteligência exila
o filho da força. O homem de inteligência é submetido a
duras provas; deve confirmar suas conquistas pelo sacrifício. Deus quer
que ele imole seu filho, isto é, a dúvida deve pôr à
prova o dogma e o homem intelectual deve estar pronto a tudo sacrificar diante
da razão suprema. Deus, então, intervém: a razão
universal cede aos esforços do trabalho, mostra-se à ciência
e apenas o lado material do dogma é imolado. É o que representa
o carneiro preso pelos chifres entre os arbustos. A história de Abraão
é pois um símbolo à moda antiga e contém uma elevada
revelação dos destinos da alma humana. Tomada ao pé da
letra, é um relato absurdo e revoltante. Santo Agostinho não tomava
ao pé da letra o Asno de Ouro de Apuleu! Pobres grandes homens!
A história de Isaac é uma outra lenda. Rebeca é o tipo
de mulher oriental, laboriosa, hospitaleira,
parcial em suas afeições, astuta e ardilosa em suas manobras.
Jacó e Esaú são ainda os dois tipos
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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reproduzidos de Caim e Abel; mas aqui Abel se vinga; a inteligência emancipada
triunfa pela astúcia. Todo o gênio israelita está no caráter
de Jacó, o paciente laborioso suplantador que cede à cólera
de Esaú, torna-se rico e compra o perdão de seu irmão.
Quando os antigos queriam filosofar, contavam, nunca se deve esquecer.
A história ou lenda de José contém em germe todo o gênio
do Evangelho, e Cristo, desconhecido por seu povo, teve de chorar mais de uma
vez ao reler esta cena em que o governador do Egito lança-se ao pescoço
de Benjamim dando um grito e dizendo: "Eu sou José!" Israel
torna-se o povo de Deus, isto é, o conservador da idéia e o depositário
do Verbo. Essa idéia é a da independência humana e a da
realeza pelo trabalho, mas é ocultada com cuidado, como um germe precioso.
Um signo doloroso e indelével é imprimido nos iniciados, toda
imagem da verdade é proibida, e os filhos de Israel velam, segurando
o sabre em torno da unidade do tabernáculo. Hermor e Siquém querem
introduzir-se pela força na família sagrada e perecem com seu
povo em conseqüência de uma falsa iniciação. Para dominar
os povos, é preciso que o santuário já esteja cercado de
sacrifícios e terror.
A servidão dos filhos de Jacó prepara sua libertação:
eles têm uma idéia, e não se acorrenta uma idéia;
têm uma religião, e não se violenta uma religião;
são por fim um povo, e não se acorrenta um verdadeiro povo. A
perseguição suscita vingadores, a idéia encarna-se num
homem, Moisés levanta, o Faraó cai e a coluna de nuvens e chamas
que precede um povo livre avança majestosamente no deserto.
O Cristo é o pai e o rei pela inteligência e pelo amor.
Recebeu a unção santa, a unção do gênio, a
unção da fé, a unção da virtude que é
a força. Ele vem quando o sacerdote está esgotado, quando os velhos
símbolos não têm mais virtudes, quando a pátria da
inteligência está extinta.
Vem para fazer Israel voltar à vida e, se não puder galvanizar
Israel, morto pelos fariseus, ressuscitará o mundo abandonado ao culto
morto dos ídolos. Cristo é o direito do dever!
O homem tem o direito de cumprir o seu dever e não tem outro.
Homem, tens o direito de resistir até a morte a quem quer que te impeça
de cumprir o teu dever! Mãe! teu filho afoga-se; um homem impede-te de
socorrê-lo; feres esse homem e corres a salvar teu filho!... Quem ousará
condenar-te?...
Cristo veio para opor o direito do dever ao dever do direito.
O direito para os judeus era a doutrina dos fariseus. E, com efeito, pareciam
ter adquirido o privilégio de dogmatizar; não eram eles os legítimos
herdeiros da sinagoga? Tinham o direito de condenar o Salvador, e o Salvador
sabia que seu direito era o de resistir-lhes.
O Cristo é a protestação viva.
Mas protestação de quê? Da carne contra a inteligência?
Não!
Do direito contra o dever? Não!
Da atração física contra a atração moral?
Não! não!
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
20
Da imaginação contra a razão universal? Da loucura contra
a sabedoria? Não, mil vezes não, ainda uma vez!
O Cristo é o dever real que protesta eternamente contra o direito imaginário.
É a emancipação do espírito que quebra a servidão
da carne.
É a devoção revoltada contra o egoísmo.
É a modéstia sublime que responde ao orgulho: Eu não te
obedecerei!
O Cristo é viúvo, o Cristo é só, o Cristo é
triste: por quê? É que a mulher prostituiu-se.
É que a sociedade é acusada de roubo.
É que a felicidade egoísta é ímpia.
Cristo é julgado, condenado, executado, e nós o adoramos!
Isso se passou num mundo talvez tão sério quanto o nosso.
Juizes do mundo em que vivemos, sede atentos e pensai naquele que julgará
vossos julgamentos.
Mas, antes de morrer, o Salvador legou a seus filhos o símbolo imortal
da salvação: a comunhão.
Comunhão! União comum! Última palavra do Salvador do mundo.
O pão e o vinho repartidos entre todos, disse ele, é minha carne
e meu sangue!
Ele deu sua carne aos carrascos, seu sangue à terra que quis bebê-lo:
e por quê? Para que todos repartam o pão da inteligência
e o vinho do amor. Ó signo da união dos homens! Ó mesa
comum! Ó banquete da fraternidade e da igualdade! quando enfim serás
melhor compreendido?
Mártires da humanidade, vós que destes a vida para que todos tivessem
o pão que alimenta e o vinho que fortifica, também não
dizeis ao impor a mão sobre esses símbolos da comunhão
universal: Isso é nossa carne e nosso sangue!
E vós, homens do mundo inteiro, vós a quem o Mestre chama irmãos:
oh, não sentis que o pão universal é Deus!
Devedores do crucificado.
Vós todos que não estais prontos para dar à humanidade
vosso sangue, vossa carne e vossa vida não sois dignos da comunhão
do Filho de Deus! Não o façais derramar seu sangue sobre vós,
pois faria nódoas sobre vossa fronte!
Não aproximeis vossos lábios do coração de Deus,
ele sentiria vossa mordedura. Não bebais o sangue do Cristo, queimaria
vossas entranhas; já é suficiente que ele o tenha derramado inutilmente
por vós!
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
21
VIII - O Número Oito
O octonário é o número da reação e da justiça
equilibrante.
Toda ação produz uma reação.
É a lei universal do mundo.
O cristianismo devia produzir o anticristianismo.
O anticristo é a sombra, é o contraste e a prova do Cristo.
O anticristo já se produzia na Igreja na época dos apóstolos:
Aquele que resiste agora resiste até a morte, dizia São Paulo,
e o filho da iniqüidade manifestar-se-á. Os protestantes disseram:
O anticristo é o papa.
O papa respondeu: Todo herege é um anticristo.
O anticristo não é mais o papa do que Lutero: o anticristo é
o espírito oposto ao do Cristo.
É a usurpação do direito pelo direito; é o orgulho
da dominação e o despotismo do pensamento. É o egoísmo
pretensamente religioso dos protestantes da mesmíssima maneira que a
ignorância crédula e imperiosa dos maus católicos.
O anticristo é o que divide os homens ao invés de os unir; é
o espírito de disputa, é a teimosia dos doutores e dos sectários,
o desejo ímpio de se apropriar da verdade e dela excluir os outros, o
de forçar todo o mundo a sofrer a estreiteza de nossos julgamentos. O
anticristo é o pai que amaldiçoa ao invés de abençoar,
que afasta ao invés de aproximar, que escandaliza ao invés de
edificar, que condena ao invés de salvar. É o fanatismo odioso
que desencoraja a boa vontade.
É o culto da morte, da tristeza e da fealdade.
Que futuro daremos a nosso filho? disseram os pais insensatos; ele é
fraco de espírito e de corpo e seu coração não dá
ainda sinal de vida: faremos dele um padre, a fim de que viva do altar. E não
compreenderam que o altar não é uma manjedoura para os animais
preguiçosos. Por isso, olhai os padres indignos, contemplei esses pretensos
servidores do altar. O que é que dizem a vossos corações
esses homens gordos ou cadavéricos, de olhos inexpressivos, de lábios
cerrados ou escancarados?
Escutai-os falarem: o que vos ensina esse ruído desagradável e
monótono?
Rezam como dormem e sacrificam como comem.
São máquinas de pão, de carne, de vinho e de palavras vazias
de sentido. E, quando se regozijam, como ostras ao sol, por estarem sem pensamento
e sem amor, diz-se que têm paz de espírito.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
22
Têm a paz da besta e, para o homem, a do túmulo é melhor;
são os padres da tolice e da ignorância, são os ministros
do anticristo.
O verdadeiro padre do Cristo é um homem que vive, que sofre, que ama
e que combate pela justiça.
Não briga, não reprova, difunde o perdão, a inteligência
e o amor. O verdadeiro cristão é estranho ao espírito de
seita; ele é tudo para todos e vê todos os homens como filhos de
um pai comum que quer salvar a todos; o símbolo inteiro tem para ele
somente um sentido de doçura e amor: deixa para Deus os segredos da justiça
e só compreende a caridade. Vê os maus como doentes de quem é
preciso ter pena e cuidar; o mundo com seus erros e seus vícios é,
para ele, o hospital de Deus, e ele quer ser seu enfermeiro. Não se acha
melhor que ninguém, apenas diz: Enquanto eu for melhor, sirvamos os outros,
quando for preciso cair e morrer, outros talvez tomarão meu lugar e nos
servirão.
IX - O Número Nove
Eis o eremita do tarô; eis o número dos iniciados e dos profetas.
Os profetas são solitários, pois seu destino é nunca serem
ouvidos. Vêem muito mais que os outros; pressentem as desgraças
por vir. Assim, são aprisionados, mortos ou vilipendiados, são
rejeitados como leprosos, ou deixam-nos morrer de fome. Depois, quando os eventos
ocorrem, dizemos: Foram essas pessoas que nos trouxeram desgraça.
Agora, como sempre, na véspera dos grandes desastres, nossas ruas estão
plenas de profetas.
Encontrei alguns nas prisões; vi outros que morriam esquecidos em pardieiros.
Toda grande cidade viu algum cuja profecia silenciosa era girar incessantemente
e andar sempre coberto de andrajos no palácio do luxo e da riqueza.
Vi um cujo rosto resplandecia como o do Cristo: tinha as mãos calejadas
e a roupa do trabalhador e moldava epopéias como argila. Torcia juntos
o gládio do direito e o cetro do dever e, sobre esta coluna de ouro e
aço, inaugurava o símbolo criador do amor. Um dia, numa grande
assembléia do povo, desceu a rua, segurando um pão que partia
e distribuía, dizendo: Pão de Deus, faze-te pão para todos!
Conheço outro que gritou: Não quero mais adorar o Deus do diabo;
não quero um carrasco como Deus! E acreditou-se que ele blasfemava.
Não; mas a energia de sua fé transbordava em palavras inexatas
e imprudentes. Dizia ainda, na loucura de sua caridade ferida: Todos os homens
são solidários e expiam uns pelos outros, da mesma forma que se
merecem uns aos outros.
O castigo para o pecado é a morte.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
23
O próprio pecado é, aliás, um castigo, e o maior dos castigos.
Um grande crime é apenas uma grande desgraça.
O pior dos homens é o que se acredita melhor do que os outros. Os homens
apaixonados são escusáveis, uma vez que são passivos. Paixão
significa sofrimento e redenção pela dor.
O que chamamos de liberdade é somente a onipotência da atração
divina. Os mártires diziam: Mais vale obedecer a Deus que aos homens.
O menos perfeito ato de amor vale mais ao que a melhor palavra de piedade.
Não julgueis, falai pouco, amai e agi.
Um outro que veio disse: Protestai contra as más doutrinas por boas obras,
mas não vos separeis de ninguém.
Restabelecei todos os altares, purificai todos os templos e estai prontos para
a visita do espírito do amor.
Que cada um reze seguindo seu rito e comungue com os seus, mas não condeneis
os outros.
Uma prática de religião nunca é desprezível, pois
é o símbolo de um grande e santo pensamento.
Rezar em conjunto é comungar na mesma esperança, na mesma fé,
na mesma caridade.
O signo não é nada para si próprio: é a fé
que o santifica.
A religião é o laço mais sagrado e mais forte da associação
humana, e fazer um ato de religião é fazer um ato de humanidade.
Quando os homens compreenderem, enfim, que não se deve discutir sobre
coisas que se ignora;
Quando sentirem que um pouco de caridade vale mais que muita influência
e dominação;
Quando todos respeitarem o que o próprio Deus respeita na menor de suas
criaturas: a espontaneidade da obediência e a liberdade do dever;
Então, só haverá uma religião no mundo, a religião
cristã e universal, a verdadeira religião católica que
não renegará mais a si própria por restrição
de lugares ou de pessoas. Mulher, dizia o Salvador à samaritana, em verdade
te digo que virá o tempo em que os homens não adorarão
mais a Deus nem em Jerusalém nem sobre esta montanha, pois Deus é
espírito, e seus verdadeiros adoradores devem servi-lo em espírito
e em verdade.
X - Número Absoluto da Cabala
A chave das sefirotes (ver Dogma e Ritual da Alta Magia).
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
24
XI - O Número Onze
Onze é o número da força; é o da luta e do martírio.
Todo homem que morre por uma idéia é um mártir, pois nele
as aspirações do espírito triunfaram sobre os temores dos
animais.
Todo homem que morre na guerra é um mártir, pois morre pelos outros.
Todo homem que morre miserável é um mártir, pois é
como um soldado vencido na batalha da vida. Aqueles que morrem pelo direito
são tão santos em seu sacrifício quanto as vítimas
do dever e, nas grandes lutas da revolução contra o poder, os
mártires caem dos dois lados. Sendo o direito a raiz do dever, nosso
dever é defender nossos direitos. O que é um crime? É o
exagero do direito. O assassínio e o roubo são negações
da sociedade; é o despotismo isolado de um indivíduo que usurpa
a realeza e faz guerra por sua conta e risco. O crime deve ser sem dúvida
reprimido, e a sociedade deve defender-se; mas quem poderia ser justo o suficiente,
grande o suficiente e puro o suficiente para ter a pretensão de punir?
Paz a todos os que tombam na guerra, mesmo na guerra ilegítima, pois
arriscaram a cabeça e perderam-na, e, tendo pago, o que podemos ainda
reclamar? Honra a todos os que combatem bravamente e lealmente! Vergonha somente
aos traidores e aos covardes!
O Cristo morreu entre dois ladrões e levou consigo um deles ao céu.
O reino dos céus é dos lutadores e se ganha à força.
Deus dá sua onipotência ao amor. Gosta de triunfar sobre o ódio,
mas vomita a tibieza.
O dever é viver, nem que seja por um instante!
É belo ter reinado por um dia, mesmo por uma hora! Mesmo que seja sob
a espada de Dâmocles ou na fogueira de Sardanapalo.
Mas é mais belo ter visto a seus pés todas as coisas do mundo
e ter dito: Serei o rei dos pobres e meu trono será sobre o calvário.
Existe um homem mais forte do que aquele que mata, é o que morre para
salvar.
Não existem crimes isolados nem expiações solitárias.
Não existem virtudes pessoais nem devotamentos perdidos.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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Quem não for irrepreensível é cúmplice de todo mal,
e quem não for absolutamente perverso pode participar de todo bem.
É por isso que um suplício é sempre uma expiação
humanitária, e toda cabeça que é recolhida de um cadafalso
pode ser saudada e honrada como a cabeça de um mártir. É
por isso também que o mais nobre e o mais santo dos mártires podia,
ao entrar em sua consciência, achar-se digno da pena que iria suportar
e dizer, saudando o gládio pronto a feri-lo: Justiça seja feita!
Puras vítimas das catacumbas de Roma, judeus e protestantes massacrados
por indignos cristãos. Padres da Abbaye e dos Carmes, guilhotinados do
terror, realistas degolados, revolucionários sacrificados, soldados de
nossos grandes exércitos que semeasses as ossadas pelo mundo, vós
todos que morresses com sofrimento, ousados de toda sorte, bravos filhos de
Prometeu que não tendes medo nem do raio nem do abutre, honra a vossas
cinzas, paz e veneração a vossas memórias! Sois os heróis
do progresso, os mártires da humanidade!
XII - O Número Doze
O doze é o número cíclico; é o do símbolo
universal.
Eis uma tradução dos versos feitos para o símbolo mágico
e católico sem restrição:
Creio num só Deus onipotente, nosso pai,
Eterno criador do céu e da terra.
Creio no Rei salvador, chefe da humanidade.
Da divindade, filho, palavra e esplendor.
Concepção viva do eterno amor,
Divindade visível e luz atuante.
Desejado pelo mundo sempre e em todos os lugares.
Mas que não é um Deus separável de Deus.
Descido entre nós para libertar a terra,
Santificou a mulher em sua mãe.
Era o homem celeste, sábio e doce homem.
Nasceu para sofrer e morrer como nós.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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Proscrito pela ignorância, acusado pela inveja,
Morreu na cruz para nos dar a vida.
Todos os que o tomarem por guia e apoio
Podem, por sua doutrina, ser Deus como ele.
Ressuscitou para reinar sobre os tempos;
Deve, da ignorância, as nuvens dissipar.
Seus preceitos, um dia mais fortes e mais conhecidos,
Serão o julgamento dos vivos e dos mortos.
Creio no Espírito Santo cujos únicos intérpretes
São o espírito e o coração dos santos e dos profetas.
É um sopro de vida e fecundidade
Que provém da humanidade e do Pai.
Creio na família única e sempre santa
Dos justos que o céu reuniu em seu temor.
Creio na unidade do símbolo, do lugar,
Do pontífice e do culto na honra de um só Deus.
Creio que, em nos transformando, a morte nos renove,
E que em nós, como em Deus, a vida é eterna.
XIII - O Número Treze
O treze é o número da morte e o do nascimento; é o da propriedade
e da herança, da sociedade e da família, da guerra e dos tratados.
A sociedade tem por bases as trocas do direito, do dever e da fé mútua.
O direito é a propriedade; a troca, a necessidade; a boa fé, o
dever.
Aquele que quer receber mais do que dá ou que quer receber sem dar é
um ladrão. A propriedade é o direito de dispor de uma parte da
fortuna comum; não é nem o direito de destruição
nem o direito de seqüestro.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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Destruir ou seqüestrar o bem público não é possuir,
é roubar. Digo bem público, porque o verdadeiro proprietário
de todas as coisas é Deus, que quer que tudo seja de todos. O que quer
que façais, não levareis convosco ao morrer nenhum dos bens deste
mundo. Ora, o que vos deve ser tomado um dia não vos pertence realmente.
Foi apenas um empréstimo. Quanto ao usufruto, é o resultado do
trabalho; mas o próprio trabalho não é uma garantia segura
de posse, e a guerra pode vir, pela devastação ou pelo incêndio,
deslocar a propriedade. Fazei, pois, um bom uso das coisas que perecem, vós
que perecereis antes delas! Levai em consideração que o egoísmo
provoca o egoísmo e que a imoralidade do rico corresponderá a
crimes dos pobres.
O que quer o pobre, se é honesto?
Quer trabalho. Usai vossos direitos, mais fazei vosso dever: o dever do rico
é expandir a riqueza; o bem que não circula está morto,
não entesoureis a morte.
Um sofista disse: A propriedade é o roubo. E queria sem dúvida
falar da propriedade absorvida, subtraída à troca, desviada da
utilidade COMUM.
Se esse era seu pensamento, ele poderia ir mais longe e dizer que tal supressão
da vida pública é um verdadeiro assassínio.
É o crime do açambarcamento, que o instinto público sempre
viu como um crime de lesa-majestade humana.
A família é uma associação natural que resulta do
casamento. O casamento é a união de dois seres que o amor uniu
e que se prometem um devotamento mútuo no interesse dos filhos que podem
nascer.
Dois esposos que têm um filho e se separam são ímpios. Será
que querem executar o julgamento de Salomão e separar também o
filho?
Prometer-se um amor eterno é puerilidade: o amor sexual é uma
emoção sem dúvida divina, mas acidental, involuntária
e transitória; mas a promessa do devotamente recíproco é
a essência do casamento e o princípio da família.
A sanção e a garantia dessa promessa devem ser uma confiança
absoluta.
Todo ciúme é uma suspeita, e toda suspeita é um ultraje.
O verdadeiro adultério é o da confiança: a mulher que se
queixa de seu marido perto de outro homem; o homem que confia a outra mulher,
que não a sua, as aflições ou as esperanças de seu
coração, esses traem verdadeiramente a fé conjugal.
As surpresas dos sentidos só são infidelidades por causa dos arrebatamentos
do coração que se abandona mais ou menos ao reconhecimento do
prazer. Afora isso, são faltas humanas, de que é preciso envergonhar-se
e que se deve esconder: são indecências que é preciso evitar
afastando as ocasiões, mas que nunca se deve procurar surpreender; os
bons costumes são a proscrição do escândalo.
Todo escândalo é uma torpeza. Não se é indecente
porque tem-se órgãos que o pudor não nomeia; mas se é
obsceno quando são mostrados.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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Maridos, escondei as chagas de vossa vida a dois; não desnudeis vossas
mulheres perante o escárnio público!
Mulheres, não exibais as misérias do leito conjugal: seria vos
ínscreverdes na opinião pública como prostituídas.
É preciso uma elevada dignidade de coração para conservar
a fé conjugal: é um pacto de heroismo que somente as grandes almas
podem compreender em toda a extensão. Os casamentos que são rompidos
não são casamentos, são acasalamentos. No que se pode transformar
uma mulher que abandona o marido? Não é mais esposa, não
é viúva; o que é então? É uma apóstata
da honra, que é forçada a ser licenciosa, porque não é
nem virgem nem livre.
Um marido que abandona a mulher a prostitui e merece o nome infame que é
dado aos amantes das jovens perdidas.
O casamento é sagrado, indissolúvel, quando existe realmente.
Mas só pode existir para seres de elevada inteligência e nobre
coração. Os animais não se casam, e os homens que vivem
como animais sofrem as fatalidades de sua natureza.
Fazem sem cessar tentativas para agir racionalmente. Suas promessas são
tentativas e simulacros de promessas; seus casamentos, tentativas e simulacros
de casamento; seus amores, tentativas e simulacros de amor. Quereriam sempre
e não querem nunca; começam sempre e não terminam nunca.
Para tais pessoas, as leis só se aplicam pela repressão. Tais
seres podem ter uma ninhada, mas nunca têm uma família: o casamento,
a família são direitos do homem perfeito, do homem emancipado,
do homem inteligente e livre. Por isso, consultar os anais dos tribunais e lede
a história dos parricidas. Erguei o véu negro de todas estas cabeças
cortadas e perguntai-lhes o que pensaram do casamento e da família, que
leite sugaram, que carinhos as enobreceram... Depois tremei, vós todos
que não dais a vossos filhos o pão da inteligência e do
amor, vós todos que não sancionais a autoridade paterna pela virtude
do bom exemplo...
Esses miseráveis eram órfãos pelo espírito e pelo
coração e vingaram-se de seu nascimento!... Vivemos num século
em que mais do que nunca a família é desconhecida no que tem de
augusta e sagrada: o interesse material mata a inteligência e o amor;
as lições da experiência são desprezadas, regateia-se
as coisas de Deus. A carne insulta o espírito, a fraude ri na cara da
lealdade. Quanto mais ideal, mais justiça: a vida humana ficou órfã
dos dois lados.
Coragem e paciência! Este século irá para onde devem ir
todos os culpados. Vede como é triste! O tédio é o véu
negro de sua cabeça... a carroça anda, e a multidão segue
estremecendo... Logo, mais um século será julgado pela história,
e será escrito num túmulo de ruínas: Aqui jaz o século
parricida! o século carrasco de Deus e de seu Cristo!
Na guerra tem-se o direito de matar para não morrer: mas na batalha da
vida, o mais sublime dos direitos é o de morrer para não matar.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
29
A inteligência e o amor devem resistir à opressão até
a morte, nunca até o assassínio. Homem de coração,
a vida daquele que te ofendeu está em tuas mãos, pois ele é
senhor da vida dos outros, o qual não faz questão da sua. Massacra-o
com tua grandeza: perdoa-o! - Mas será proibido matar o tigre que nos
ameaça?
- Se for um tigre com rosto humano, é mais belo deixar-se devorar, no
entanto, aqui, a moral nada prescreve.
- Mas e se o tigre ameaça meus filhos?
- A própria natureza vos responderá.
Harmódio e Aristogiston tinham festas e estátuas na Grécia
antiga. A Bíblia consagrou os nomes de Judite e Aud e uma das mais sublimes
figuras do livro santo, Sansão cego e acorrentado que sacode as colunas
do templo e grita: Que eu morra com os filisteus! Acreditai, entretanto, que,
se Jesus, antes de morrer, tivesse ido a Roma apunhalar Tibério, teria
salvado o mundo como fez ao perdoar seus carrascos e até mesmo ao morrer
por Tibério? Brutus, ao matar César, salvou a liberdade romana?
Ao matar Calígula, Quéreas apenas deu lugar a Cláudio e
a Nero. Protestar contra a violência com violência é justificá-la
e forçá-la a se reproduzir.
Mas triunfar sobre o mal pelo bem, sobre o egoísmo pela abnegação,
sobre a ferocidade pelo perdão:
é o segredo do cristianismo e da vitória eterna.
Eu vi o lugar em que a terra sangrava ainda pelo assassínio de Abel e
nesse lugar passava um regato de pranto.
E miríades de homens avançavam conduzidos pelos séculos,
deixando cair lágrimas no regato. E a eternidade, agachada e morna, contemplava
as lágrimas que caíam, contava-as uma a uma, e nunca havia o suficiente
para lavar uma mancha de sangue.
Mas, entre duas multidões e duas épocas, veio o Cristo, pálida
e resplandecente figura. E, na terra do sangue e das lágrimas, plantou
a vinha da fraternidade, e as lágrimas e o sangue aspirados pelas raizes
da árvore divina tornaram-se a seiva deliciosa da uva que deve embriagar
de amor os filhos do futuro.
XIV - O Número Catorze
Catorze é o número da fusão, da associação
e da unidade universal, e é em nome do que representa que faremos aqui
um apelo às nações, a começar pela mais antiga e
mais santa. Filhos de Israel, por que, em meio ao movimento das nações,
continuais imóveis como se guardásseis os túmulos de vossos
pais?
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
30
Vossos pais não estão mais aqui, ressuscitaram: pois o Deus de
Abraão, de Isaac e de Jacó não é o Deus dos mortos!
Por que imprimis sempre a vossa geração a marca sangrenta do cutelo?
Deus não quer mais separar-vos dos outros homens; sede nossos irmãos,
e comei conosco hóstias pacíficas nos altares que o sangue nunca
conspurca.
A lei de Moisés está cumprida: lede vossos livros e compreendei
que fostes um povo cego e duro, como dizem todos os vossos profetas.
Mas fostes também um povo corajoso e perseverante na luta.
Filhos de Israel, tornai-vos filhos de Deus: compreendei e amai! Deus apagou
de vossa fronte a marca de Caim, e os povos ao vos ver passar não dirão
mais: Aí estão os judeus! gritarão: Abram alas para nossos
irmãos, abram alas para os que nos precederam na fé. E iremos
todos os anos comemorar convosco a páscoa na nova Jerusalém. E
descansaremos debaixo de vossa videira e de vossa figueira; pois sereis ainda
amigos do viajante, em memória de Abraão, de Tobias e dos anjos
que os visitavam. E em memória daquele que disse: Quem ao menor dentre
vós recebe a mim me recebe. Pois doravante não recusareis mais
um asilo em vossa casa e em vosso coração a vosso irmão
José que vendesses às nações.
Porque ele se tornou poderoso na terra do Egito onde procuráveis pão
durante os dias de esterilidade. E ele recordou-se de seu pai Jacó e
de Benjamim, seu jovem irmão; e perdoa vossa inveja e vos abraça
chorando.
Filhos dos crentes, cantaremos convosco: não existe outro Deus senão
Deus e Maomé é seu profeta.
Dizei com os filhos de Israel: Nenhum Deus existe senão Deus e Moisés
é seu profeta!
Dizei com os cristãos: Não existe outro Deus senão Deus
e Jesus Cristo é seu profeta!
Maomé é a sombra de Moisés. Moisés é o precursor
de Jesus. O que é um profeta? É um representante da humanidade
que procura Deus. Deus é Deus, o homem é o profeta de Deus quando
faz que acreditemos em Deus.
A Bíblia, o Alcorão e o Evangelho são três traduções
diferentes do mesmo livro. Há somente uma lei como há somente
um Deus.
Ó mulher idealizada, ó recompensa dos eleitos, és mais
bela do que Maria? Ó Maria, filha do Oriente, casta como o puro amor,
grande como as aspirações maternais, vem ensinar aos filhos do
Islã os mistérios do céu e os segredos da beleza. Convida-os
para o festim da nova aliança, lá, em três tronos resplandecentes
de pedrarias, três profetas estarão sentados.
A árvore tuba fará de seus galhos recurvados um dossel para a
mesa celeste.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
31
A esposa será branca como a lua e rubra como o sorriso da manhã.
Todos os povos acorrerão para vê-Ia e não temerão
mais passar Al Sirah, pois, sobre essa ponte cortante como uma lâmina
de barbear, o Salvador estenderá sua cruz e virá estender a mão
aos que vacilarem, e aos que caírem a esposa estenderá seu véu
perfumado e os trará em sua direção. Povos, batei palmas
e aplaudi o último triunfo do amor! Somente a morte ficará morta
e somente o inferno será queimado.
Ó nações da Europa, a quem o Oriente estende as mãos,
uni-vos para expulsar os ursos do Norte! Que a última guerra faça
triunfar a inteligência e o amor, que o comércio entrelace os braços
do mundo e que uma civilização nova, saída do Evangelho
armado, reúna todos os rebanhos da terra sob o cajado do mesmo pastor!
Tais serão as conquistas do progresso; tal é o objetivo para o
qual nos empurra todo o movimento do mundo.
O progresso é o movimento; e o movimento é a vida.
Negar o progresso é afirmar o nada e deificar a morte.
O progresso é a única resposta que a razão pode opor às
objeções relativas à existência do mal.
Nada está bem, mas tudo estará bem um dia. Deus inicia e acabará
sua obra.
Sem o progresso, o mal seria imutável como Deus!
O progresso explica as ruínas e consola Jeremias que chora.
As nações sucedem-se como os homens e nada é estável
porque tudo caminha em direção da perfeição.
O grande homem que morre lega a sua pátria o fruto de seu trabalho; a
grande nação que se extingue na terra transfigura-se numa estrela
para iluminar as obscuridades da história. O que ele escreveu por suas
ações fica gravado no livro eterno; acrescentou uma página
à bíblia do gênero humano.
Não digais que a civilização é má; pois assemelha-se
ao calor úmido que amadurece as colheitas, desenvolve rapidamente os
princípios da vida e os princípios da morte, mata e vivifica.
É como o anjo do julgamento que separa os maus dos bons.
A civilização transforma em anjos de luz os homens de boa vontade
e coloca o egoísta abaixo da besta; é a corrupção
dos corpos e a emancipação das almas. O mundo ímpio dos
gigantes elevou ao céu a alma de Henoch; acima das bacanais da Grécia
primitiva eleva-se o espírito harmonioso de Orfeu.
Sócrates e Pitágoras, Platão e Aristóteles resumem,
ao explicá-las, todas as aspirações do mundo antigo; as
fábulas de Homero permanecem mais verdadeiras do que a história,
e só nos restam das grandezas de Roma os escritos imortais que elaborou
o século de Augusto. Assim, Roma talvez só tenha abalado o mundo
com suas guerreiras convulsões para gerar seu Virgílio.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
32
O cristianismo é o fruto das meditações de todos os sábios
do Oriente que revivem em Jesus Cristo. Assim, a luz dos espíritos nasceu
onde nasce o sol do mundo; o Cristo conquistou o Ocidente, e os doces raios
do sol da Ásia tocaram os gelos do Norte.
Movidos por esse calor desconhecido, formigueiros de homens novos espalharam-se
por um mundo exaurido; as almas dos povos mortos brilharam sobre os povos rejuvenescidos
e aumentaram neles o espírito de vida.
Há no mundo uma nação que se chama franqueza e liberdade,
pois essas duas palavras são sinônimos do nome França.
Essa nação sempre foi, de algum modo, mais católica do
que o papa e mais protestante do que Lutero.
A França das cruzadas, a França dos trovadores e das canções,
a França de Rabelais e de Voltaire, a França de Bossuet e de Pascal,
ela é a síntese dos povos; ela consagra a aliança da razão
e da fé, da revolução e do poder, da crença mais
terna e da dignidade humana mais altiva. Por isso, vede como ela caminha, como
se agita, como luta, como cresce! Freqüentemente enganada e ferida, nunca
batida, entusiasta com seus triunfos, audaciosa em seus reveses, ela ri, canta,
morre e ensina ao mundo a fé na sua imortalidade. A velha guarda não
se rende, mas também não morre. Confiai no entusiasmo de nossos
filhos, que querem ser um dia, eles também, soldados da velha guarda!
Napoleão não é mais um homem, é o próprio
gênio da França, é o segundo salvador do mundo, e também
deu como símbolo a seus apóstolos a cruz!
Santa Helena e o Gólgota são os marcos da nova civilização,
são os pilares de uma imensa arcada que o arco-íris do último
dilúvio forma e que lança uma ponte entre dois mundos. E pensaríeis
que a espora de um tártaro quebrará um dia o pacto de nossas glórias,
o testamento de nossa liberdade!
Dizei antes que voltaremos a ser crianças e retornaremos ao seio de nossas
mães! Caminha!, caminha!, diz a voz divina a Aasveros. Avança!
avança! grita para a França o destino do mundo!... E para onde
vamos? Para o desconhecido, para o abismo talvez; não importa! Mas para
o passado, para os cemitérios do esquecimento, mas para os cueiros que
nossa própria infância rasgou, mas para a imbecilidade e a ignorância
das primeiras idades... nunca! nunca!
XV - O Número Quinze
Quinze é o número do antagonismo e da catolicidade.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
33
O cristianismo divide-se agora em duas Igrejas: a Igreja civilizadora e a Igreja
bárbara, a Igreja progressista e a Igreja estacionária.
Uma é ativa, a outra é passiva; uma sempre condenou as nações
e os governos, uma vez que os reis a temem; a outra submeteu-se a todos os despotismos
e só pode ser um instrumento de servidão. A Igreja ativa realiza
Deus pelos homens e só ela crê na divindade do Verbo humano, intérprete
do Verbo de Deus.
O que é, afinal de contas, a infalibilidade do papa, senão a autocracia
da inteligência confirmada pelo sufrágio universal da fé?
A esse respeito, dir-se-á, o papa deveria ser o primeiro gênio
de seu século. Por quê? É melhor, na realidade, que ele
seja um espírito comum. Sua supremacia não é mais divina,
porque é, de algum modo, mais humana.
Os acontecimentos não falam mais alto do que os rancores e as ignorâncias
irreligiosas? Não vedes a França católica sustentar com
uma mão o papado desfalecido e com a outra segurar a espada para combater
na liderança do exército do progresso?
Católicos, israelitas, turcos, protestantes já combateram sob
a mesma bandeira; o crescente uniu-se à cruz latina, e juntos lutamos
contra a invasão dos bárbaros e contra sua embrutecida ortodoxia.
É para sempre um fato consumado. Ao admitir dogmas novos, a cátedra
de São Pedro acaba de se pronunciar solenemente progressiva.
A pátria do cristianismo católico é a da ciência
e das belas-artes, e o Verbo eterno do Evangelho vivo e encarnado numa autoridade
visível é ainda a luz do mundo. Silêncio pois aos fariseus
da nova sinagoga! Silêncio às tradições odiosas da
escola, ao presbiterianismo arrogante, ao jansenismo absurdo e a todas estas
vergonhosas e supersticiosas interpretações do dogma eterno, tão
justamente estigmatizadas pelo gênio impiedoso de Voltaire! Voltaire e
Napoleão morreram católicos. E será que sabeis o que deve
ser o catolicismo do futuro? Será o dogma evangélico posto à
prova como ouro pela crítica dissolvente de Voltaire, e realizado no
governo do mundo pelo gênio de um Napoleão cristão!
Os que não quiserem caminhar, os acontecimentos os arrastarão
ou passarão sobre eles! Imensas calamidades podem ainda pesar sobre o
mundo. Os exércitos do Apocalipse um dia talvez desencadearão
os quatro flagelos. O santuário será depurado. A santa e severa
pobreza enviará seus apóstolos para sustentar todo aquele que
cambalear, reanimar aquele que estiver fatigado e espalhar o óleo santo
em todas as feridas!
O despotismo e a anarquia, esses dois monstros ávidos de sangue, dilacerar-se-ão
e aniquilar-se-ão um ao outro depois de serem mutuamente sustentados,
por pouco tempo, pelo próprio entrelaçamento de sua luta.
E o governo do futuro será aquele cujo modelo é mostrado na natureza
pela família, no ideal religioso pela hierarquia dos pastores. Os eleitos
devem reinar com Jesus Cristo durante mil anos, dizem as tradições
apostólicas: ou seja, durante uma seqüência de séculos,
a inteligência e o amor dos homens de elite dedicados aos encargos do
poder administrarão os interesses e os bens da família universal.
Então, segundo a promessa do Evangelho só haverá um rebanho
e um pastor.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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XVI - O Número Dezesseis
Dezesseis é o número do templo.
Digamos o que será o templo do futuro.
Quando o espírito de inteligência e de amor tiver se revelado,
toda trindade manifestar-se-á em sua verdade e em sua glória.
A humanidade transformada em rainha e, como que ressuscitada, terá a
graça da infância em sua poesia, o vigor da juventude em sua razao
e a sabedoria da idade madura em suas obras. Todas as formas que o pensamento
divino revestiu sucessivamente renascerão imortais e perfeitas. Todos
os traços que a arte sucessiva das nações tinha esboçado
reunir-se-ão e formarão a imagem completa de Deus.
Jerusalém reconstruirá o templo de Jeová de acordo com
o modelo profetizado por Ezequiel; e o Cristo, novo e eterno Salomão,
nele cantará, debaixo de lambris de cedro e de ciprestes, suas núpcias
com a santa liberdade, a jovem esposa do cântico.
Mas Jeová terá largado seu raio para abençoar com as duas
mãos o noivo e a noiva: aparecerá sorridente entre os dois esposos
e alegrar-se-á por ser chamado de pai. Entretanto, a poesia do Oriente,
em suas mágicas lembranças, ainda o chamará de Brama e
Júpiter. A índia ensinará a nossos climas encantados as
fábulas maravilhosas de Vishnu, e experimentaremos na fronte ainda ensangüentada
de nosso Cristo bem-amado a tripla coroa de pérolas da mística
trimurti. Vênus purificada sob o véu de Maria não mais chorará
seu Adônis. O esposo ressuscitou para não mais morrer, e o javali
infernal encontrou a morte em sua passageira vitória.
Reerguei-vos, templos de Delfos e Éfeso! O deus da luz e das artes tornou-se
o Deus do mundo, e o verbo de Deus concorda em ser chamado de Apolo! Diana não
reinará mais como viúva nos campos solitários da noite;
seu crescente prateado está agora sob os pés da esposa. Mas Diana
não foi vencida por Vênus; seu Endimião acaba de despertar,
e a virgindade vai orgulhar-se de ser mãe!
Sai da tumba, ó Fídias, e alegra-te com a destruição
de teu primeiro Júpiter: é agora que vais gerar um Deus!
Ó Roma! Que teus templos reergam-se ao lado de tuas basílicas;
sê ainda a rainha do mundo e panteão das nações;
que Virgílio seja coroado no capitólio pelas mãos de São
Pedro; e que o Olimpo e o Carmelo unam suas divindades sob o pincel de Rafael!
Transfigurai-vos, antigas catedrais de nossos pais; arremessei até as
nuvens vossas flechas cinzeladas e vivas, e que a pedra conte por figuras animadas
as sombrias lendas do Norte, alegradas pelos apólogos dourados e maravilhosos
do Alcorão!
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
35
Que o Oriente adore Jesus Cristo em suas mesquitas, e que nos minaretes de uma
nova Santa Sofia a cruz se eleve em meio ao crescente!
Que Maomé liberte a mulher para dar ao verdadeiro crente as huris com
que tanto sonhou, e que os mártires do Salvador ensinem castas carícias
aos belos anjos de Maomé. Toda a terra revestida com os ricos ornamentos
que todas as artes lhe bordaram será então um templo magnífico,
cujo padre eterno será o homem!
Tudo o que foi verdadeiro, tudo o que foi belo, tudo o que foi doce nos séculos
passados reviverá gloriosamente nessa transfiguração do
mundo.
E a forma bela continuará inseparável da idéia verdadeira,
como o corpo será um dia inseparável da alma, quando a alma, tendo
alcançado todo o seu poder, terá feito para si um corpo à
sua imagem. Esse será o reino do céu sobre a terra, e os corpos
serão os templos da alma, da mesma forma que o universo regenerado será
o templo de Deus.
E os corpos e as almas, e a forma e o pensamento, e o universo inteiro serão
a luz, o Verbo e a revelação permanente e visível de Deus.
Amém! Assim seja!
XVII - O Número Dezessete
Dezessete é o número da estrela; é o da inteligência
e do amor. Inteligência guerreira, audaciosa, cúmplice do divino
Prometeu, primogênita de Lúcifer, louvor a ti em tua audácia!
Quiseste saber para ter, desafiaste todos os trovões e afrontaste todos
os abismos! Inteligência, tu a quem os pobres pecadores amaram até
o delírio, até o escândalo, até a reprovação!
Direito divino do homem, essência e alma da liberdade, louvor a ti! Pois
perseguiram-te pisoteando, por ti, todos os sonhos mais caros de sua imaginação,
os fantasmas mais amados de seu coração! Por ti foram repelidos
e proscritos; por ti suportaram a prisão, o desenlace, a fome, a sede,
o abandono daqueles que amavam e as sombrias tentações do desespero!
Eras o direito deles, e eles conquistaram-te! Agora eles podem chorar e crer,
podem submeter-se e rezar! Caim arrependido teria sido maior do que Abel: é
o legítimo orgulho satisfeito que tem o direito de se fazer humilde!
Creio porque sei por que e como é preciso crer; creio porque amo e porque
não temo mais nada. Amor! amor! redentor e reparador sublime; tu que
fazes tanta felicidade de tantas torturas, tu, o sacrificador do sangue e das
lágrimas, tu que és a própria virtude e o salário
da virtude; força da resignação, liberdade da obediência,
alegria das dores, vida da morte, louvor, louvor e glória a ti! Se a
inteligência é uma lâmpada, és a sua chama; se é
o direito, és o dever; se é a nobreza, és a felicidade!
Amor pleno de orgulho e pudor nos mistérios, amor divino, amor oculto,
amor insano e sublime, Titã que toma o céu com duas mãos
e que o força a descer, último e inefável segredo da viuvez
cristã, amor eterno, amor infinito e ideal que seria suficiente para
criar mundos, amor! amor! bênção e glória a ti! Glória
às inteligências que se encobrem para não ofender os olhos
doentes!
Glória ao direito que se transforma inteiramente em dever e que se torna
a devoção! às almas viúvas
que amam e consumam-se sem serem amadas! aos que sofrem e não fazem nada
sofrer, aos que
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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perdoam os ingratos, aos que amam seus inimigos! Oh! felizes sempre, felizes
mais do que nunca os que se empobrecem e que se esgotam para se dar! Felizes
as almas que fazem sempre tua paz! Felizes os corações puros e
simples que não se acham melhor do que ninguém! Humanidade minha
mãe, humanidade filha e mãe de Deus, humanidade concebida sem
pecado, Igreja universal, Maria! Feliz de quem tudo ousou para te conhecer e
te entender, e de quem está pronto a tudo sofrer para te servir e te
amar!
XVIII - O Número Dezoito
Esse número é o do dogma religioso, que é toda poesia e
todo mistério. O Evangelho diz que, quando da morte do Salvador, o véu
do templo rasgou-se, porque essa morte manifestou o triunfo da devoção,
o milagre da caridade, o poder de Deus no homem, a humanidade divina e a divindade
humana, o último e o mais sublime dos arcanos, a última palavra
de todas as iniciações.
Mas o Salvador sabia que não seria compreendido a princípio, e
disse: Não suportaríeis agora toda a luz de minha doutrina; mas,
quando se manifestar o espírito de verdade, ele vos ensinará toda
verdade e sugerirá o sentido do que eu vos disse.
Ora, o espírito de verdade é o espírito de ciência
e de inteligência, o espírito de força e de conselho. Foi
esse espírito que se manifestou solenemente na Igreja romana, quando
ela declarou nos quatro artigos do decreto de 12 de dezembro de 1845:
1º Que, se a fé for superior à razão, a razão
deve apoiar as inspirações da fé;
2º Que a fé e a ciência tem cada uma seu domínio separado,
e que uma não deve usurpar as funções da outra;
3º Que é próprio da fé e da graça não
enfraquecer, mas, ao contrário, afirmar e desenvolver a razão;
4º Que o concurso da razão, que examina não as decisões
da fé mas as bases naturais e racionais da autoridade que decide, longe
de prejudicar a fé, não poderia senão ser-lhe útil;
em outras palavras, que a fé, perfeitamente racional em seus princípios,
não deve temer, mas deve, ao contrário, desejar o exame sincero
da razão.
Semelhante decreto é toda uma revolução religiosa acabada,
e a inauguração do Espírito Santo na terra.
XIX - O Número Dezenove
É o número da luz.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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É a existência de Deus provada pela própria idéia
de Deus.
Ou é preciso dizer que o Ser imenso é um túmulo universal,
ou que se move automaticamente, uma forma sempre morta e cadavérica,
ou é preciso admitir o princípio absoluto da inteligência
e da vida. A luz universal está morta ou viva? Fatalmente dedicada à
obra da destruição ou providencialmente dirigida para a criação
universal?
Se Deus não existe, a inteligência é apenas uma decepção
pois ela carece de absoluto e seu ideal é uma mentira.
Sem Deus, o ser é um nada que se afirma, e a vida, uma morte que se disfarça.
A luz é uma noite sempre enganada pela miragem dos sonhos.
O primeiro e o mais essencial ato de fé é pois este.
O Ser é, e o ser do ser, a verdade do ser é Deus.
O Ser é vivo com inteligência, e a inteligência viva do Ser
absoluto é Deus.
A luz é real e vivificante; ora, a realidade e a vida de toda luz é
Deus.
O Verbo da razão universal é uma afirmação e não
uma negação.
Cegos os que não vêem que a luz física é apenas o
instrumento do pensamento!
Somente o pensamento vê a luz e a produz empregando-a em benefício
próprio.
A afirmação do ateísmo é o dogma da noite eterna;
a afirmação de Deus é o dogma da luz! Vamos parar aqui,
no décimo nono número, embora o alfabeto sagrado tenha vinte e
duas letras; as dezenove primeiras são as chaves da teologia oculta.
As outras são as chaves da natureza; voltaremos a elas na terceira parte
desta obra.
Resumamos o que dissemos de Deus citando uma bela evocação emprestada
da liturgia israelita. É uma página do Kether-Malkuth, poema cabalístico
do rabino Salomão, filho de Gabirol. "Sois um, o começo de
todos os números, o fundamento de todos os edifícios; sois um
e, no segredo de vossa unidade, os homens mais sábios perdem-se porque
não a conhecem. Sois um, e vossa unidade nunca diminui, nem aumenta,
nem sofre nenhuma alteração. Sois um, mas não como o um
em matéria de cálculo, pois vossa unidade não admite nem
multiplicação, nem mudança, nem fórmula. Sois um,
para quem nenhuma de minhas fantasias pode fixar definição: eis
por que vigiarei minha conduta, evitando cometer faltas com a língua.
Sois um enfim, cuja excelência é tão elevada que não
pode cair de maneira alguma, e não como em um que pode deixar de ser.
"Sois existente; entretanto, o entendimento e a vista dos mortais não
podem atingir vossa existência nem colocar em vós o onde, o como
e o porquê. Sois existente, mas em vós mesmo, uma vez que outro
não pode existir convosco. Sois existente desde antes do tempo e em lugar
algum. Sois enfim existente e vossa existência é tão oculta
e tão profunda que ninguém pode descobri-Ia ou penetrar seu segredo.
"Sois vivo, mas não desde um tempo conhecido e fixo; sois vivo,
mas não por um espírito e uma alma; pois sois a alma de todas
as almas. Sois vivo, mas não como as vidas dos mortais, que são
comparadas a um sopro, e cujo fim será o alimento dos vermes. Sois vivo,
e aquele que puder atingir vossos mistérios desfrutará as delícias
eternas e viverá para sempre.
A Chave dos Grandes Mistérios - Eliphas Levi
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"Sois grande, e perto de vossa grandeza todas estas grandezas se curvam,
e tudo o que há de mais excelente torna-se defeituoso. Sois grande, acima
de qualquer imaginação, e elevai-vos acima de todas as hierarquias
celestes. Sois grande, acima de toda grandeza, e sois exaltado acima de qualquer
louvor. Sois forte, e nenhuma de vossas criaturas fará as obras que fazeis
e nem sua força poderá ser comparada à vossa. Sois forte,
e é a vós que pertence essa força invencível que
não muda nem se altera nunca. Soi