As causas e operações das excomunhões e exterminações.
Louis Claude de Saint Martin
Numa direção
oposta, mas tendendo ao mesmo fim, a interdição ou excomunhão
operada é mencionada no último capítulo dos Levitas.
O que foi consignado por este tipo de consagração, à
justiça do Senhor, era, aparentemente, o domicílio do mais
irregular e abominável e portanto o que havia de mais fatal aos escolhidos.
Assim, todos aqueles sujeitos à excomunhão haviam de ser exterminados,
a fim de que a ação ou influência irregular que estavam
neles, não encontrando mais apoio, fosse obrigada a partir e a se
tornar incapaz de injuriar as pessoas.
Temos aqui a oportunidade de não apontar erro na punição
de Achan, na execução de Agag por Samuel e na rejeição
de Saul que desejou salvar este rei impiedoso e condenado; e até
mesmo em todos os massacres autorizados de cidades inteiras com seus habitantes,
relatados nas Escrituras, tão revoltante para aqueles que não
estão preparados, ou estão pouco familiarizados com as verdades
profundas, e especialmente para aqueles cujo o corpo material é tudo
enquanto Deus só pertence as almas.
Por que o inocente cai com o culpado; a exterminação de animais.
Esta classe de pessoas, a que nos referimos anteriormente, está longe
de suspeitar do grande segredo, comentado no "O Espírito das
Coisas", através do qual a Divindade permite, freqüentemente,
que o inocente caia com o culpado nas pragas ou catástrofes da Natureza,
para que possam, pela pureza que possuem, se preservarem de uma corrupção
maior, assim como cobrimos com sal as carnes que preservamos e que de outra
forma putrefariam.
Em resumo, é com este intento, de remover os princípios fundamentais
do veneno, que encontramos a razão pela qual, na conquista da terra
Prometida, os judeus eram tão freqüentemente ordenados a exterminar,
mesmo entre os animais, porque, neste caso, a morte de animais infectados
com as influências impuras daquelas nações, preservavam
os escolhidos dos veneno; enquanto que, nos sacrifícios, a morte
de animais puros atraíam influências preservadoras e salutares.
A destruição rápida daquelas nações teria
exposto as crianças de Israel às influências impuras
daquelas bestas da Terra, pois tais nações eram seus receptáculos
e bases de ação; é por isso que Moisés disse
ao povo: "Iahweh, teu Deus, pouco a pouco irá expulsando estas
nações da tua frente; não poderás exterminá-las
rapidamente: as feras do campo se multiplicariam contra ti." (Dt. VII,22).
O sangue dos animais puros, a morada das boas influências na escravidão.
Isto não significa que as virtudes puras e regulares estejam encerradas
e sepultadas no sangue dos animais como pensam alguns, entre eles os Hindus
que acreditam que todos os tipos de espíritos habitam e se sustentam
ali; isto leva a crer simplesmente que aquelas influências puras e
regulares estão ligadas a certas classes e elementos distintos entre
os animais, e que, ao romper as bases nas quais estão fixadas, elas
podem se tornar úteis ao homem; é neste sentido que devemos
ler a passagem: "É o sangue que faz expiação pela
vida" (Lev.XVII.11); pois não devemos confundir a alma humana
e, portanto, a alma dos animais, com as ações regulares externas
que as governam.
Desta espécie de escravidão ou confinamento, onde se encontra
este tipo de ação ou influência, surge uma outra conseqüência,
justificada anteriormente pelo doloroso estado ou espécie de reprovação
em que se encontra o homem e que o denuncia como um criminoso. Esta conseqüência
é que se o homem exige que todas estas ações sejam
liberadas, antes que possa dar início a recuperação
de sua própria liberdade, se, em resumo, ele é colocada em
operação, ele deve ter sido também o objetivo de algo
que as subjugou, durante a revolução.
O Homem causou a escravidão destas virtudes ou influências.
O conhecimento que o leitor terá adquirido, a esta altura, irá
fazer com que isto pareça um tanto natural. Se o consideramos como
um Rei; se teve sua origem exatamente na Fonte de Luz; se o reconhecemos
como tendo sido feito à imagem e semelhança da Divindade e
sua finalidade era ser o seu representante no universo, ele deve ter sido
superior a todas estas ações que agora são empregadas
na preservação da Natureza.
Ora, se estas ações diversas procuram o homem para mantê-las
em sua ordem e em seu emprego primitivo, ou seja, se ele deve ter desenvolvido
e manifestado nelas as maravilhas divinas das quais eram depositárias
e as quais deveriam servir como sacrifícios de glória, fica
claro que, quando o homem se perdeu, sua queda deve ter colocado estas ações
e poderes num estado de sujeição e violência, para o
qual não foram feitos e que representa para eles uma espécie
de morte.
Assim, vemos nas tradições hebraicas, os judeus como sendo,
por assim dizer, os primogênitos de um povo; as prevaricações
do faraó e a dureza de coração induziu a Justiça
a atingir não só a ele, mas a todos os primogênitos
de seu reino, dos animais aos homens; do filho do escravo ao filho daquele
que sentou no trono.
A oferta do primogênito.
Após esta terrível vingança, aplicada sobre o Egito,
verificamos os hebreus ordenados a consagrar todos os seus primogênitos
à Deus, desde o primogênito do homem até aquele dos
animais. Esta coincidência é mais uma indicação
do que já adiantamos a respeito do objetivo e espírito dos
sacrifícios; pois a consagração do sacerdote, que parece
reunir em si o significado de todas as outras consagrações,
não foi feita sem o sacrifício de um carneiro.
Se seguirmos estas comparações, verificaremos que, através
do crime do homem, todos os primogênitos, todos os princípios
produzidos de cada espécie, foram mergulhados com ele em seu abismo;
mas que através do amor perfeito da Sabedoria Suprema, o Homem recebe
o poder de restaurá-los sucessivamente às suas posições
e depois deles os seus semelhantes, por sua vez; e fazer com que as almas
desfrutem os seus sabath, assim como teve o poder de fazer a natureza desfrutar
dos seus.
Veremos, em resumo, que os sacrifícios de sangue tendiam a dois objetivos,
seja para restaurar a liberdade original a todas as ações
puras e regulares, cujo pecado atacou nas diferentes classes de animais
e coisas criadas, seja para permitir que tragam alívio ao homem e
o liberte da servidão onde definha.
O Êxodo, a dualidade fundamentada na natureza do Homem.
No exemplo que acabamos de dar, devemos sempre considerar que seu objetivo
era o Homem, e que sua dualidade se aplica as duas nações
distintas, a Egípcia e a Hebraica, uma representa o Homem em sua
queda e estado de reprovação, e a outra sob sua lei de libertação
e retorno em direção ao posto sublime do qual descende.
Nós, contudo, não tomamos as leis e os costumes hebraicos
como base e fundamento sobre o qual repousa esta teoria.
Ela repousa, em primeiro lugar, na natureza do Homem, na forma em que ele
estava, em sua origem, e como ele está no momento, ou seja, em nossa
grandeza e em nossa miséria; e quando, mais tarde, esta teoria encontra
sobre a terra testemunhos que a sustente e a confirme ela se utiliza deles,
não como provas, mas como confirmações.
Portanto, não precisamos nos referir aos escritos sagrados para descobrir
a época em que os sacrifícios tiveram origem. Os sacrifícios
de glória datam de uma época anterior à queda do homem:
assim como os sacrifícios de sangue e expiação tiveram
início tão logo o homem começou a ver o caminho da
libertação diante de si, e isto ocorreu quando ele teve a
permissão de vir habitar a Terra; já que sendo, previamente,
tragado como uma criança num abismo, não teria matéria
alguma à sua disposição para sacrificar, não
tendo o uso de suas faculdades.
As relações do Homem (conformidades) com a Natureza e os Animais.
O destino primitivo do Homem era estar conectado com toda a Natureza, até
que a obra a qual tinha que realizar, se tivesse mantido seu posto, estivesse
acabada. Apesar de sua queda, ele ainda se encontrava conectado com esta
Natureza da qual não podia sair e cujo peso opressivo era ainda maior,
pelo domínio que o homem permitiu que seu inimigo adquirisse sobre
ela e sobre ele próprio. Assim, a conecção do homem
com a Natureza não era outra senão o sofrimento, e seu ser
propriamente dito estava identificado com o poder das trevas. Aos poucos,
quando o caminho de volta lhe foi aberto, estes meios salutares (sacrifícios)
podiam operar somente através do órgão ou canal que
é a natureza, lugar onde o Homem estava sepultado ao invés
de ser seu comandante. Desta forma, as relações (conformidades)
que o homem tem com os animais não terá fim até que
a Natureza tenha completado seu curso; contudo, estas relações
variam em suas características, de acordo com as diferentes épocas
em que o homem está situado. Em seu tempo de glória, ele reinava
como um soberano sobre os animais; e se supomos que haviam sacrifícios
naquela época, seu objetivo não podia ser a restauração
do Homem, já que não era culpado.
Quando caiu, o Homem se tornou a vítima destes animais e de toda
a Natureza. Na ocasião de sua libertação, ele foi capaz
e teve a permissão de empregar tais animais para o seu desenvolvimento:
isto não pode ser duvidado, depois de tudo o que foi dito. Ora, sendo
estes fundamentos apoiados em bases firmes, nada mais satisfatório
do que encontrá-los plenamente confirmados nos escritos sagrados.
O significado espiritual e correspondência dos Sacrifícios
Mosaicos.
O primeiro Homem, em seu estado de glória, é apresentado nas
Escrituras como sendo investido com total autoridade sobre a Natureza, particularmente
sobre os animais, já que lhe foi concedido o poder de aplicar a eles
seus nomes essenciais e constituintes; com a queda a Terra foi amaldiçoada,
e animosidade se colocou entre a mulher e a serpente; contudo dificilmente
vemos o homem sendo enviado para cultivar a terra, antes encontramos o uso
dos sacrifícios de animais em sua família, uma forte indicação
de que ele próprio os praticou, e que transmitiu esta prática
a seus filhos que a espalharam por toda a Terra.
É fácil verificar o quão vantajosa esta instituição
tão salutar em seu princípio e em seus objetivos, teria sido
para o Homem se ele a tivesse observado em seu verdadeiro espírito;
basta olharmos os sacrifícios restaurados na época de Moisés,
para reconhecer que, se o povo os tivessem observado sinceramente, nunca
teria sido abandonado, ao contrário lhe teria sido oferecido todas
as boas coisas que era capaz de receber, uma vez que a luz e o poder divino
os teria envolvido constantemente.
A primeira coisa a se notar, nas regras relacionadas a estes sacrifícios,
é que eram, de longe, mais numerosas e importantes na ocasião
dos três grandes festivais Hebraicos: a Páscoa, a Festa das
Semanas, e a Festa dos Tabernáculos.
Estas três épocas solenes, tão instrutivas pelos fatos
que relembram, os períodos fixos em que ocorriam, e a conecção
que possuíam com a história espiritual e a regeneração
do homem, mostra claramente como eram importantes os sacrifícios
então praticados, uma vez que é natural supor que aconteciam
para o desenvolvimento daqueles grandes objetivos.
A melhor coisa para se verificar a conecção destes três
principais festivais com a história espiritual da regeneração
do Homem é olhar continuamente a nossa própria natureza, e
observar que, como somos caracterizados espiritualmente por três reinos
ou eminentes faculdades constituintes, que requerem o máximo de desenvolvimento
em cada um dos três planos, terrestre, espiritual e divino, através
das quais passamos, é certo que todos os meios e leis que cooperem
com nossa regeneração, deva seguir um curso correspondente
a este número, e análogo ao tipo de assistência que
solicitamos, de acordo com nossos estados de desenvolvimento e o trabalho
de suas respectivas épocas.