A operação espiritual e a causa dos sacrifícios.

Louis Claude de Saint Martin


A lei hebraica nos diz que há animais puros e impuros. Jacob Boehme nos dá um motivo real para isto, com as duas tinturas, que se encontravam em harmonia antes do crime e que foram subdivididas com a grande alteração. A Natureza não se opõe a isto, uma vez que reconhecemos uma distinção entre os animais, alguns sendo úteis, outros nocivos. Desta forma, até mesmo num mero sentido físico, o significado das Escrituras pode ser confirmado.
Mas e se isto tivesse um significado espiritual? Na verdade, a matéria possui uma vida unicamente de dependência e sua existência, virtudes e propriedades só existem através das diferentes ações ou influências espirituais, pelas quais são engendradas, combinadas, constituídas e caracterizadas; a matéria é, além do mais, o contínuo receptáculo dos poderes opostos à ordem, que só tendem à estampar a marca da irregularidade e da confusão em todo lugar; por este motivo, não é de se surpreender que esta matéria apresente todo tipo e atuações destas ações ou influências diversas e opostas, das quais vemos melancólicas evidências em nós mesmos.
Assim, quando o homem caiu sob o domínio de algumas influências desordenadas, o animal puro representou um meio de livrá-lo destas influências; a ação desordenada seria atraída pelo fundamento que ele representa e sobre o qual deve ter certos direitos e poderes.
Mas para esta atração não prolongar as conseqüências e efeitos das influências desordenadas, é necessário, em primeiro lugar, que o sangue do animal seja derramado; depois este animal, embora limpo pela Natureza, deve receber algumas influências preservativas extras, pois é composto de elementos mistos e exposto a influências desorganizadoras do inimigo, como tudo o mais que seja matéria. Ora a ação preservativa, neste caso, era representada, entre os Hebreus, pela imposição das mãos do sacerdote, sobre a cabeça da vítima, o sacerdote representa o Homem restabelecido em seus direitos primitivos; e tal é o espírito destas duas leis.
Pelo derramamento do sangue do animal, a ação desordenada unida a matéria do homem, é mais fortemente atraída para fora do que pela simples presença corpórea do animal, porque, quanto mais perto chegarmos do princípio, mais energética e eficaz são todas as suas relações, em qualquer ordem que seja.
Pela preparação sacerdotal, ou da preparação do Homem, que desfruta da virtualidade de seus direitos, este sangue, e esta vítima, são colocados além do alcance desta ação desordenada; que assim abandona a matéria do homem, sugada pela atração dos sangue animal; mas sendo repelida pela poderosa virtude que o sacerdote comunicou ao sangue, ela é forçada a banir a si mesma, para ser mergulhada nas regiões da desordem, de onde veio.
Ao que me parece, isto dá uma visão geral do espírito da instituição dos sacrifícios. Esta visão sobre o assunto pode nos ajudar a descobrir o espírito particular que ordenou os detalhes de todos os sacrifícios hebreus; aqueles, por exemplo, para o pecado e expiação; aqueles chamados oferendas de paz; e até mesmo aqueles da redenção ou reconciliação e da união do homem com Deus, confirmada pelos visíveis sinais de sua aliança.
Sacrifício para o pecado.
Esta simples lei da transposição, da qual temos falado, é suficiente para nos dar uma idéia do espírito de sacrifício para o pecado, banir a profanação para as regiões da desordem e sobre o inimigo que a causou.
Oferenda de paz.
O objetivo do sacrifício para paz, seria o de dar forças ao homem para resistir a este inimigo e até mesmo prevenir seus ataques. A preparação da vítima, pela imposição das mãos do sacerdote, torna isto inteligível, já que coloca um sangue puro que está em conjunção com influências regulares, em proximidade de um sangue cercado por influências destrutivas e maleficente e é ainda assim capaz de recuperar a calma e o repouso.
Um grande número de detalhes sobre cerimônia de sacrifícios justificam nossa confiança nestas conjecturas. O sangue vertido ao redor do altar e consagrado aos quatro cantos, os combatentes do sangue, o consumir da vítima etc., tudo se refere estritamente a um trabalho de paz e preservação.
Os sacrifícios perpétuos e aqueles de consagração.
As Leis dos sacrifícios perpétuos, e daqueles ordenados para a consagração dos sacerdotes (cujo objetivo espiritual era unir o pontífice a Deus) nos levarão a seu próprio significado; este tipo de sacrifício não foi instituído a todos os homens, mas somente àqueles chamados por Deus, através de uma eleição particular, a seu serviço.
Tais homens, preparados, exatamente através da eleição de cada um, estavam em conecção com as mais altas virtudes, que, abarcando todas as coisas, estão sempre unidas àquelas ações regulares que cuidam de afastar nosso sangue da desordem. A vítima imolada, após estas preparações, apresenta um sangue onde estas influências desenvolve seus poderes, e permitem que as altas virtudes, por sua vez, também se desenvolvam, pois tudo o que é harmonioso participa mais ou menos das propriedades do pacto divino, mesmo que se encontre entre os animais.
Não é de se surpreender, então, que estas mesmas altas virtudes devam agir sobre o homem escolhido, e produzam para ele todas aquelas manifestações perceptíveis tão necessárias para direcioná-lo em suas trevas; o homem só pode receber as evidências da verdade através de um intermediário.
Tudo isto ocorreu com Abraão, quando sacrificou os animais divididos em dois; com Araão, nos oito dias de sua consagração; com Davi, na eira de Ornan; o que ocorreu no templo, após os sacrifícios dos altos sacerdotes, o que indica, de forma clara, o objetivo e o poder que realmente possuíam os sacrifícios sagrados, quando executados pelos eleitos do Senhor, que exerciam, de uma forma adequada à época, o Ministério espiritual do Homem.
Destas poucas observações sobre os sacrifícios de sangue em geral, segue-se que seu objetivo era o de desenvolver certas influências puras e regulares (ações) que unidas ao homem poderiam auxiliá-lo a elevar-se de seu abismo, às regiões de ordem e regularidade.