Antes e Depois do Dilúvio.
Louis Claude de Saint Martin
Como a circuncisão
parece ter sido praticada após o Dilúvio, todos os sacrifícios,
feitos anteriormente a este evento, devem ter sido inúteis. Ora,
se não temos provas que esta prática estava em uso antes do
Dilúvio, também não temos nenhuma prova do contrário;
admitindo que ela tenha tido início após o Dilúvio,
todas as dificuldades desaparecem quando refletimos sobre as diferenças
de estados em que a humanidade se encontrava nestas diferentes épocas:
reflexão que também se aplica aos animais.
Antes do Dilúvio, o Homem desfrutava de todos os poderes de sua natureza
corporal animal; esta roupagem temporária que lhe foi dada como um
órgão para as influencias e virtudes superiores, que é
tão útil a ele, estava mais de acordo com o plano traçado
para a sua restauração, estando, conseqüentemente, mais
aberto as influências salutares, ele podia não recorrer a circuncisão
para que elas tivessem acesso ao Homem.
Por outro lado, como os animais desfrutavam de um tempo de vida maior do
que jamais haviam tido, seu sangue era mais eficaz, o que poderia fazer
com que a assistência da circuncisão fosse menos necessária
do que se tornou no segundo período, quando todas as coisas foram
mudadas. Toda a natureza tinha sido torturada e alterada pela calamidade
do Dilúvio. Os crimes da humanidade afundaram no Dilúvio e
está se tornou muito mais presa pelas correntes da matéria;
os próprios animais perderam suas virtualidades na renovação
de suas espécies, que vieram menores do que eram antes desta explosão
de vingança da Justiça Suprema. Em resumo, a que reflexões
não levariam aqueles enormes esqueletos?
Se a Sabedoria não tivesse provido ao homem meios de remediar este
fatal resultado da justiça, ele teria continuado sem caminho algum
de retorno ao seu Princípio, e o plano do Amor divino em favor da
humanidade teria sido irrealizável, já que a primeira iniciação
neste caminho não teria ocorrido. Ora, de tudo o que temos visto,
a circuncisão parece ter sido o meio que supriu, após o Dilúvio,
as vantagens que os homens e os animais desfrutavam antes daquela catástrofe.
Talvez mesmo se o povo tivesse sinceramente observado as leis e instrumentos
que Noé transmitiu a eles, na qualidade de eleito e escolhido de
Deus, ele tivesse continuado sob condições poderosas suficientes
para que este novo meio fosse desnecessário.
Mas, através da ofensa de Ham e Canaã, e pelas abominações
cometidas nas planícies do Shinar, eles acrescentaram mais correntes
àquela que o Dilúvio colocou sobre eles, e agravaram os obstáculos
que já os posicionaram contra a reunião com sua Fonte. Não
é de se admirar que o amor que os criaram os seguiu até ao
abismo em que afundaram, lhes oferecendo uma nova rota através da
qual poderiam retornar a Ele.
Vamos retomar os três períodos, e os veremos retratados em
menor escala, na importância dada à circuncisão entre
os Hebreus.
A circuncisão Judaica: o primeiro período, durante a época
de Abraão.
É durante a época de Abraão que pela primeira vez encontramos
algo sobre circuncisão nas Escrituras; o Senhor confirma ali sua
aliança com ele e sua posteridade. Sob quais circunstâncias
esta circuncisão foi ordenada pelo Senhor? Foi quando Ele deu um
novo nome a Abraão, e também à sua esposa, adicionando
a seus nomes antigos, uma única letra do nome sagrado através
da qual Ele se tornou conhecido a Moisés pela primeira vez. Foi quando
Abraão tinha noventa e nove anos, logo após Deus ter feito
um pacto com ele, prometendo-lhe a terra de Canaã; em resumo, foi
quando Deus escolheu para Si, pela primeira vez, um povo de quem todas as
gerações devem ser abençoadas.
Tudo isto mostra, mais uma vez, que a circuncisão tinha uma virtude
iniciatória, onde todas as virtudes que Deus preparou para seu povo
não teriam efeito algum se Ele não tivesse aberto este caminho
para que se cumprissem. Abraão havia recebido, contudo, auxílios
divino previamente a esta cerimônia; ele foi tirado de sua própria
terra, que havia sido invadida pela iniqüidade; ele havia erigido altares
ao Senhor em Bethel, e invocado seu nome; ele havia sido abençoado
por Melchizedeck e no sacrifício de sangue que ele ofereceu por ordem
de Deus, recebeu evidências da presença do Espírito;
mas isto contradiz os princípios que estabelecemos.
Abraão foi eleito do Senhor, embora tenha nascido entre os idólatras
e de alguns o acusarem de ter comerciado ídolos. Seu coração
pode ter permanecido puro, embora seu espírito possa ter sucumbido
as mesmas trevas que cubriam seus contemporâneos. Assim, os auxílios
divinos podem ter encontrado acesso a ele, sem os meios secundários
da circuncisão.
Além disso, é preciso fazer uma distinção essencial
entre os meios empregados por Deus para manifestar uma eleição,
e aqueles usados para fazer com que esta eleição se cumpra.
Veremos sempre estes diferentes meios formarem duas classes em todas as
eleições e épocas subseqüentes; temos uma prova
real disto na eleição de Abraão, já que, apesar
de todos os auxílios que ele havia recebido, antes de sua circuncisão,
foi somente após a sua obediência a esta lei, assim como a
de todos os seus familiares, que ele recebeu a visita de três anjos;
que a época para o nascimento de Isac foi claramente fixada; e que,
no final do ano recebeu seu Filho prometido, através de quem o pacto
iniciado com Abraão, deveria ser realizado e completado.
Nada mais é preciso para nos convencer de que, na época em
que se começou a falar sobre circuncisão, ela era entendida
como iniciação em todos os benefícios prometidos na
eleição, e assim sendo, tem uma sensível relação
com o que dissemos sobre a Páscoa, ou o primeiro período do
retorno dos Hebreus à terra prometida.
O Segundo Período, durante a época de Moisés.
A segunda vez em que a circuncisão é mencionada nas Escrituras
é em Moisés (Ex.IV.25), de onde se conclui que esta cerimônia
tinha sido negligenciada, sendo a causa da fúria do anjo, além
do mais a circuncisão é novamente recomendada assim como todas
as outras leis e decretos da montanha (LV.XII.3); isto nos leva a considerar
a lei da circuncisão, dada na montanha, e aquela realizada no filho
de Moisés, como um único e mesmo período.
O tempo em que esta lei reapareceu é notável pela sua conformidade
com aquilo que se passou no período de Abraão. Foi após
Moisés ter visto a sarça ardente e recebido a promessa de
Deus de que o povo seria libertado; foi após ele próprio ter
sido escolhido o instrumento desta libertação, e recebido
os mais extraordinários sinais de sua missão, que a vingança
divina, prestes a cair sobre seu filho, foi detida pela submissão
de Séfora; finalmente, foi no momento do retorno de Moisés
ao Egito para iniciar sua missão que esta cerimônia foi realizada
em seu filho.
Esta comparação mostra claramente que a cerimônia era
como uma iniciação dos frutos da libertação
prometida, da mesma forma que na época de Abraão era como
uma iniciação aos frutos de sua eleição; nenhuma
delas pode ser realizada sem o derramamento de sangue. Não se deve
dar importância ao fato de o sangue do filho, no caso de Moisés,
é que foi derramado e não o do próprio patriarca, pois
embora fossem dois indivíduos distintos, o sangue deles pode ser
considerado como um; além disso, há sob este véu inumeráveis
relações de outras verdades, que os olhos observadores irão
descobrir sem dificuldade.
Assim, sem minha interferência na exposição destas verdades,
se verificará, num período mediano, uma dupla circuncisão,
uma comemoração do sacrifício do filho de Abraão,
e a profecia de um outro sacrifício, sobre o qual ainda não
é hora de falar a respeito. Devemos ficar satisfeitos com a observação
de que a eleição de Moisés, e a circuncisão
ocorrida visavam os primeiros frutos vivificantes da promessa feita a Abraão,
conectá-los quase que naturalmente com o segundo período,
ou com o segundo festival Hebraico, no qual a terra ofereceu sua primeira
produção, e o povo recebeu os primeiros frutos do Espírito,
que era a Lei; pois, nestas comparações, nunca se deve esquecer
que todo ternário de épocas forma um círculo, e que
todo círculo precedente é um grau menos elevado do que seu
sucessor.
Circuncisão, terceiro período, durante a
época de Josué: suas correspondências.
Finalmente, a terceira vez em que o ritual da circuncisão aparece
nas Escrituras, é durante a época de Josué, quando
o povo esta prestes a entrar na terra prometida (Js.V.2). Este ritual não
havia sido realizado durante os quarenta anos em que o povo viajou no deserto;
e aqueles que haviam sido circuncidado no Egito tinham todos perecido; assim,
Deus reviveu este ritual para todos aqueles que permaneceram não
circuncidados, a fim de que "todo o opróbrio do Egito pudesse
ser extraído do povo"; e todo o povo foi circuncidado em Guilgal.
Não se pode evitar de notar o momento em que esta circuncisão
apareceu novamente, e as numerosas maravilhas que se seguiram. Foi por ocasião
da entrada na terra prometida, assim como a circuncisão de Abraão
foi na ocasião de sua entrada no pacto da eleição e
aquela do filho de Moisés no momento de seu ingresso no caminho da
lei e do trabalho; e a este respeito, este período está conectado
com o terceiro dos festivais hebraicos, que foi aquele da abundância,
da festa celebrada após a colheita, a realização de
todos os seus trabalhos.
Este período está tão conectado com as comemorações
na ordem temporal e terrestre, porque representa o futuro repouso que o
povo deve desfrutar depois de destruir ou subjugar os habitantes de Canaã,
apenas profeticamente, pois sua entrada na terra da promessa os admitem
unicamente nas batalhas que devem travar ali; e as vitórias que eventualmente
possam se seguir tinham sido indicadas por aquelas conquistadas sobre o
povo do deserto.
Não é demais observar que foi no primeiro mês que ocorreu
esta entrada na terra prometida; assim como foi no primeiro mês que
o Êxodo do Egito, ou a libertação, ocorreu; isto porque
aqui os dois círculos retornam ao mesmo ponto, embora o segundo seja
relativo a uma ordem das coisas, muito maior e mais ativa que o primeiro.
Mas o que realmente indica o quão vantajosa era a circuncisão
naquela ocasião é que após a cerimônia, o maná
deixou de cair, e o povo começou a comer dos frutos da terra; que
Josué entrou sob a proteção direta do Príncipe
visível dos exércitos do Senhor; que as trombetas do Júbilo
se tornaram as principais armas do povo, e ao seu som, acompanhado por aquele
do Verbo, ou palavra (parole), os muros de Jerico foram derrubados, e cada
homem foi capaz de entrar na cidade seguindo a este som; tudo isto é
um modelo daquilo que está reservado ao Homem nos períodos
subseqüentes, e do que nos espera quando estivermos fora de nosso confuso
e terrestre círculo.
Eficácia dos Sacrifícios ao longo da destruição
de Jerusalém.
Verificamos aqui o poder e eficácia dos sacrifícios, pois
todas as maravilhas que mencionamos foram precedidas não somente
pela circuncisão mas também pelos sacrifícios ígneos
da Páscoa que o povo celebrou em Guilgal, e provavelmente também
aqueles que Moisés e os anciãos recomendaram por ocasião
em que deveriam entrar na terra prometida (Dt. XXVII.), e sobre quais o
livro de Josué não menciona antes da conquista de Hai (VIII.30),
mas que se acredita terem sido oferecidos após a passagem do Jordão,
como Moisés havia ordenado.
Não iremos recapitular o que já dissemos a respeito da eficácia
destes sacrifícios, confirmada pelo sucesso maravilhoso que se seguiu
a eles; é suficiente já ter estabelecido uma vez os sacrifícios
como um princípio de relação que o sangue tem com influências
regulares (ações) e que estas possuem com influências
mais elevadas, para compreender as vantagens que o homem ou o povo escolhido
pode extrair destas cerimônias, com relação à
sua libertação e progresso com relação ao cumprimento
de sua verdadeira liberdade.
Deveríamos observar no mesmo espírito todos os sacrifícios
oferecidos pelos hebreus, desde sua entrada na terra prometida até
a destruição de seu último templo pelos Romanos; é
desnecessário seguir a linha histórica e as épocas,
pois todas derivam de um princípio reconhecido, precisamente o princípio
ou a chave universal com a qual devemos atuar; completamente convencidos
de que isto é derivado da verdade, irá então solucionar
nossas dificuldades.
Iremos, assim, passar a um outro tipo de observação com relação
a estes sacrifícios, a saber, como que a sua instituição
veio a ser estabelecida por todo o mundo, sob tão variadas formas
e, às vezes, de forma tão contrária à razão
e até mesmo de forma criminosa.
A prática dos sacrifícios entre outras nações;
sua corrupção.
É evidente que o uso destas cerimônias entre outras nações
não se atribui à religião Judaica e nem aos sacrifícios
em que ela estava fundamentada, porque os Judeus eram um povo exclusivo
e isolado, que não possuía relações com outras
nações; isto porque eles deixaram de existir como um povo,
somente na nossa época e, a partir de então, tem perdido o
uso de suas cerimônias e sacrifícios; além do mais,
tendo os sacrifícios estado em uso desde o início do mundo,
quando este fora renovado após o Dilúvio, a renovação
dos sacrifícios entre todas as nações deve ser atribuída
à dispersão destas nações, que teriam carregado
consigo os costumes e cerimônias de seus antepassados.
Não é, portanto, o prevalecimento universal dos sacrifícios
que irá agora nos surpreender e ocupar, pois, já que são
reconhecidos como originários de campos naturais, nenhuma de suas
ramificações pode ter outra origem; mas, as mudanças
que estas correntes ou ramos tem tomado em seu curso é o que deve
ser objeto de nossas pesquisas e reflexões.
Esta mudança corrupta nunca teria ocorrido se não houvesse
uma nascente pura a que tudo deu início; e aqueles que tem atribuído
o uso dos sacrifícios à mera ignorância e superstição,
tem confundido o abuso e as conseqüências com o princípio
e, agindo desta forma, impedem a si próprios de conhecer tanto o
princípio como as conseqüências. Não vamos esquecer
jamais a infeliz situação do Homem neste mundo de aflições
e trevas, exemplificado pelos sofrimentos de todos os mortais e pelas lágrimas
de todos os tempos. Não vamos esquecer de que se estamos rodeados
por influências regulares, das quais os animais puros são os
intermediários, também estamos rodeados por influências
desordenadas, que tentam incessantemente introduzir a desordem em tudo o
que se aproxima de nós, para que possa nos invadir e adiar o nosso
retorno em direção a luz.
Este quadro, infelizmente tão real e caro a nós, assim se
torna ainda mais quando lembramos das preparações sacerdotais
a que as vítimas eram submetidas de acordo com a lei Judaica; e especialmente
quando nos recordamos das aves que desceram sobre as carcaças, na
ocasião do sacrifício de Abraão e que foram afastados
por este patriarca.
Não se deve acreditar que na multiplicidade de sacrifícios
que foram oferecidos, seja na família de Noé, ou na de seus
descendentes que povoaram a Terra, nunca houve a falta destas preparações
sacerdotais, e que as aves foram sempre afastadas das vítimas; isto,
eu afirmo, não se pode acreditar, na medida em que vemos a abominação
aparecer no seio da própria família de Noé, e a sua
posteridade envolvida nas trevas, a ponto de obrigar a Sabedoria Suprema
a fazer uma nova eleição. Ainda que um único ato de
negligência, nestas importantes cerimônias, basta para dar acesso
as influências desordenadas assim como a todas as suas conseqüências.
Julgue, então, que conseqüências foram estas se o sacrificador
à negligência uniu a profanação, à profanação
uniu a impiedade e à impiedade um propósito criminoso; em
resumo, se ele mesmo abriu o caminho à influência desordenada,
e atuou em concordância com ela, ao invés de resistir a ela.
Com certeza, nada mais se poderia ter esperado do que uma inundação
de horrores e abominações surgisse deste ato, inundação
que cresce diariamente a uma proporção que não se pode
estimar e que deve ter invadido o mundo com suas águas impuras, cobrindo-a
com a iniqüidade.
A influência ou ação desordenada a que o sacrificador
deu acesso em si mesmo, o levou ao erro de várias formas; em um momento,
sugeriu a idéia de trocar de vítima e substituir as vítimas
puras por vítimas tais como bestas, adequadas aos desígnios
abomináveis; a partir disto não é de se surpreender
o fato de observarmos sobre a Terra os inúmeros animais usados nos
sacrifícios.
Numa segunda oportunidade, sem interferir com as vítimas, a influência
desordenada deve ter instigado o sacrificador a endereçar a ela própria
o espírito e intenção de sua obra, levando-o a esperar
por isso um benefício maior do que aquele que se poderia esperar
de um Ser severo e zeloso, que retira todas as suas graças por causa
da menor negligência durante as cerimônias que Ele instituiu;
e, ao lançar a sua cobiça em várias direções,
esta influência desordenada teria unido o Homem a si mesmo, afundando-o
nos mais fatais abusos e monstruosas abominações.
Uma outra vez, empregará todas estas iniqüidade juntas e fazendo
com que tenham uma piedade aparente, para assegurar o sucesso, irá,
sob esta máscara, levar o Homem às mais revoltantes e desumanas
práticas, persuadindo-o de que quanto maior o preço e maior
o número de vítimas, mais ele poderá ser amado pela
Divindade; além disso, como este poder desordenado estava, assim
como o poder ordenado, conectado a todas as substâncias e materiais
do sacrifício, ela terá a capacidade de fortalecer e confirmar
todas estas falsas insinuações, através de manifestações
visíveis, todas de grande eficácia, porque correspondem aos
sentimentos internos e movimentos secretos que o sacrificador já
havia recebido.
Vamos, então, considerar a raça humana sob o jugo de um inimigo
engenhoso e atento, que respira unicamente para levar o Homem de erro em
erro, e que o tem feito se curvar de joelhos diante de si, em todo lugar,
através dos mesmos meios que foram dados ao Homem para repeli-lo.
Há três classes ou níveis de desordem e abominações.
Estes erros podem ser divididos em três classes: primeira, abominações
de primeiro grau, quando todas as faculdades do Homem se encontram corrompidas.
Segunda, abominações religiosas que tem início, assim
como a anterior, com a própria corrupção do Homem,
mas que o comanda, a partir de então, através de suas fraquezas.
Terceira, a mera superstição ou idolatria, que embora derive
das outras duas, não tem o mesmo efeito e conseqüências.
Podemos até acreditar que as superstições pueris e
abusos secundários, aos quais o Homem tem sido levado através
de sua fraqueza e credulidade, possa o ter preservado e salvado de crimes
mais essenciais na medida em que possuísse mais luz e poder.
E, na verdade, não são os ídolos que possuem bocas,
eles não falam, a ponto de evitar aqueles que possuem boca e que
falam, que possuem ouvidos e ouvem, que possuem olhos e vêem etc.
O primeiro grau de abominações: tragado pelos elementos.
As abominações conectadas com estes tipos de ídolos,
ferindo a justiça em seu centro, deve ser enquadrada no primeiro
grau; isto tem atraído inumeráveis calamidades, tanto conhecidas
como desconhecidas, sobre os culpados: pois, quantos crimes tem afundado
no abismo juntamente com aqueles que os cometem! Podemos ter uma idéia,
por todas estas abominações transmitidas a nós nas
Escrituras, das outras que se mantém em silêncio.
Lembrar o pecado do primeiro Homem, que lhe provocou uma profunda mudança,
o fez passar da luz para as trevas em que vive; lembrar as abominações
cometidas pela sua descendência durante o Dilúvio, e do imenso
número de culpados levados por este, é fazer uma idéia
da grande quantidade de crimes que deve ter sido eliminado de nossa vista
por este intermédio; verifique as abominações dos Egípcios,
e dos habitantes da Palestina que atraiu a ira de Deus sobre aquelas regiões,
compelindo-o a fortalecer os elementos e poderes da Natureza e até
mesmo o fogo do céu para destrui-los.
Em resumo, basta olharmos para o nosso globo, onde talvez não encontremos
um único ponto que ainda não mostre os sinais da ira do céu
espalhada sobre os desafortunados que foram insanos e culpados o suficiente
para se juntar ao inimigo contra a Divindade; e este quadro de nosso globo
é uma história viva, mais convincente do que qualquer outra
contida nos livros, e demonstra a prevalência universal do crime,
não mencionados nos livros, ou aludidos apenas resumida ou incidentemente.
Tudo indica que as calamidades e abominações do primeiro grau
parecem ter diminuído; e, se não acabaram completamente, não
se encontram mais nas estruturas das nações, mas apenas praticadas
por indivíduos.
O segundo grau: abominações religiosas, ilusões Satânicas,
ciências ocultas etc.
Na pura observação dos sacrifícios legítimos,
o sacerdote sincero e seu povo recebiam visíveis evidências
da aprovação do Poder Soberano, já que tinham instruções
para a sua conduta na senda da santidade, respostas para as perguntas dentro
da sabedoria e justiça; contudo, tão logo a negligência
ou corrupção invadiu estes sacrifícios, a influência
desordenada entrou imediatamente neles, mostrando-se visivelmente sob a
forma que desejasse; ela elaborava respostas e se estabeleceu como oráculo
e a real arca da aliança.
Muitos sacerdotes foram ingênuos e vítimas destas falsas aparições;
e muitos tendo primeiro se submetido ao seu governo, governaram , então,
nações através destas seduções encantadoras!
Esta influência desordenada pôde comunicar algumas verdades
que chegou a conhecer através da imprudência dos homens; ela
previu eventos que vieram a ocorrer, e freqüentemente respondia questões
de forma correta; isto era o suficiente para fazer o povo se prostrar diante
dela, seja qual for a forma que tomasse, ou qualquer ordens que prescrevesse.
Tal é, sem dúvida, a origem de muitas religiões e formas
de culto no mundo, assim como das atrocidades associadas religiosamente
a elas; é preciso distinguir claramente estas abominações
secundárias daquelas do primeiro grau, que atacaram a própria
Divindade intencionalmente; o efeito dos crimes do segundo grau parece ter
sido apenas o de desviar os homens e privá-los dos benefícios
dos propósitos divinos; isto representa atacar a Divindade apenas
indiretamente. Mas estes crimes parecem superar em número e extensão
o que não possuem em importância.
Nesta classe devemos colocar todos aqueles mestres das ciências ocultas,
a quem os ignorantes tem chamado de iluminados; todos aqueles que tem ou
tiveram espíritos Pythonicos, que consultam espíritos de familiares,
e deles recebem mensagens.
Nesta classe se deve colocar todos aqueles oráculos dos quais as
mitologias estão repletas, todas aquelas respostas proféticas
e ambíguas que os poetas tem feito de base e centro dos seus poemas,
na tentativa de despertar nosso interesse em seus heróis representando-os
como vítimas do destino, ou até mesmo vítimas de palavras
ambíguas, através das quais foram levados a caminhos de erros
e problemas, ao invés de marcharem sob os estandartes da verdade
e sabedoria.
Nesta classe devem ser colocados muitos daqueles prodígios realizados
na suspensão de nossos sentidos corporais (torpor mesmérico,
sonambulismo etc.) que expõem os homens a qualquer domínio
que se apresente; além do mais, temos motivos para crer que o crime
do Homem teve início com o sono, e que por ter permitido seus sentidos
reais se tornarem torpes, mergulhou na ilusão e nas trevas.
Nesta classe devem ser colocadas todas aquelas práticas ilegítimas
e falsas, de todas as épocas, que sob a aparência da verdade,
separou os homens da única Verdade que deveria ser seu guia. Me refiro
a todas as práticas abusivas, pois apesar da não realização
dos sacrifícios em grande parte do mundo, é certo que estes
abusos tiveram início na corrupção destes sacrifícios,
sendo então propagados de geração em geração,
produzindo novos erros até a nossa própria época, já
que a fonte criminosa de onde surgiram é viva e apodera-se de cada
oportunidade que os homens lhe proporciona para estender seu reino e realizar
seus desígnios.
Somos levados a acreditar que se a maioria dos homens vive sob o jugo destas
iniquidades e ilusões, ainda que de boa fé ou pela ignorância,
podem também trazer suas paixões e intenções
egoístas para dentro de si, ao invés da virtude; aquele que
se acerca das abominações do primeiro grau, mostram muito
bem o que tem sido as lamentações dos profetas e como toda
vontade é fundada.
Terceira classe de desordem: superstição, idolatria,
confecção de santos, imagens etc.
Finalmente, a terceira classe destas abominações é
aquela de todo tipo de idolatria e superstição. As múltiplas
formas que a influência desordenada era capaz de assumir, a fim de
alterar os sacrifícios e desencaminhar o Homem, foram as principais
fontes da idolatria material, os sacerdotes que recebiam tais manifestações
sendo levados por uma tendência natural a reverenciar animais e outras
substâncias naturais com que aquelas formas, assumidas pelo poder
desordenado, tinha alguma relação; e esta era a origem de
cultos oferecidos por tantas nações a diferentes criaturas.
Deste ponto para a idolatria figurativa, ou a confecção de
imagens, não há mais que um passo; inumeráveis causas
freqüentemente levam à substituição da imagem
de ídolos pelo próprio ídolo; o povo transfere facilmente
sua veneração do ídolo para a imagem.
A deificação tem uma origem similar; o sacerdote tem sido
objeto de adoração. Assim, quase que em todas as nações,
encontramos uma Divindade visível e uma invisível; no Norte,
dois Odins, um é o Deus supremo, o outro é um conquistador;
entre os gregos encontramos dois Zeus; dois Zoroastros entre os Persas;
dois Zamolxis entre os Thracias etc.
Não é muito difícil descobrir a origem das superstições
populares. Não foi pela falta de profetas que os judeus caíram
em todo tipo de idolatria já que em seus escritos particularmente
os Salmos, o Deus Supremo é claramente distinto de qualquer coisa
que o Homem tem tomado por Deus.
Mas, ao abordar os sacrifícios, esteja corrompido ou não,
e pelo testemunho das cerimônias daquelas abominações
secundárias, o Homem verá que, sob certas circunstâncias
ocorrem certos resultados; o Homem perderá a visão do espírito
que deveria dirigir todas estas formalidades e ao lhe dar valor e se prender
à forma vazia, substância, ou somente a cerimônias isoladas,
entregando a eles aquilo que conquistou enquanto o espírito vivo
estava com eles.
Vemos aqui como o povo vem consultar as entranhas das vítimas, mesmo
no últimos momentos do agonizante animal; o vôo dos pássaros;
talismãs; criptograma; amuletos; ou seja, a todos aqueles inumeráveis
sinais naturais cuja as opiniões agitam as mentes dos homens, e a
cobiça, se tem dado um valor e uma importância que na verdade
não possuem.
Este triste quadro é suficiente para mostrar a que tipo de aberrações
a mente do Homem está exposta, quando ele para de olhar contra a
influência desordenada, que após tê-lo desviado na época
de sua glória, o desviou novamente quando os sacrifícios foram
instituídos para a sua regeneração; ela tem propagado
a desordem de tal forma que o Homem não pode conhecer nenhuma paz
até que sua morada seja inteiramente renovada.
É preciso notar, com relação aos presentes, que estes
sempre foram oferecidos ao vidente, uma imitação daqueles
oferecidos no templo através do sacrificador; estes presentes e oferendas
faziam parte, a princípio, da virtude do sacrifício, depois
é que se tornaram órgãos inferiores de correspondência
e por fim um mero objeto de fraude, avareza e especulação.
As leis são progressivas em sua ordem e objetivo.
Todos as leis dadas ao Homem desde o seu pecado, tem tido a sua elevação
como objetivo. Por esta razão, a lei é sempre inferior ao
limite para o qual aponta e para o qual pretende levar o Homem, embora seja
superior àquele onde o encontrou: é por este motivo também
que estas diferentes leis teriam sido sempre progressivas se o Homem não
tivesse atrapalhado seu curso, tão freqüentemente, através
de seus erros; contudo, tendo o Homem multiplicado continuamente suas próprias
quedas, e aumentado suas próprias trevas, ele atraiu leis de rigor
e repressão enquanto deveria ter recebido aquelas de bondade e consolo.