OS
SEGREDOS DO GÓLGOTA
Robert Ambelain
Robert Ambelain nasceu no dia 2 de setembro de 1907, na cidade de Paris. No mundo profano, foi historiador, membro da Academia Nacional de História e da Associação dos Escritores de Língua Francesa.´ Foi iniciado nos Augustos Mistérios da Maçonaria em 26 de março (o Dictionnaire des Franc-Maçons Français, de Michel Gaudart de Soulages e de Hubert Lamant, não diz o ano da iniciação, apenas o dia e o mês), na Loja La Jérusalem des Vallés Égyptiennes, do Rito de Memphis-Misraïm. Em 24 de junho de 1941, Robert Ambelain foi elevado ao Grau de Companheiro e, em seguida, exaltado ao de Mestre. Logo depois, com outros maçons pertencentes à Resistência, funda a Loja Alexandria do Egito e o Capítulo respectivo. Para que pudesse manter a Maçonaria trabalhando durante a Ocupação, Robert Ambelain recebeu todos os graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, até o 33º, todos os graus do Rito Escocês Retificado, incluindo o de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa e o de Professo, todos os graus do Rito de Memphis-Misraïm e todos os graus do Rito Sueco, incluindo o de Cavaleiro do Templo. Robert Ambelain foi, também, Grão-Mestre ad vitam para a França e Grão-Mestre substituto mundial do Rito de Memphis-Misraïm, entre os anos de 1942 e 1944. Em 1962, foi alçado ao Grão-Mestrado mundial do Rito de Memphis-Misraïm. Em 1985, foi promovido a Grão-Mestre Mundial de Honra do Rito de Memphis-Misraïm. Foi agraciado, ainda, com os títulos de Grão-Mestre de Honra do Grande Oriente Misto do Brasil, Grão-Mestre de Honra do antigo Grande Oriente do Chile, Presidente do Supremo Conselho dos Ritos Confederados para a França, Grão-Mestre da França - do Rito Escocês Primitivo e Companheiro ymagier do Tour de France - da Union Compagnonnique dês Devoirs Unis, onde recebeu o nome de Parisien-la-Liberté.
SEGUNDA PARTE
21 - O verdadeiro
Herodes Filipo II
É bem sabido que a verdade não sempre é verossímil
...
François, marquês De SADE, Histoire secrète d'Ysabelle
de Bavière, reine de France
Como se acaba de ver pelo estudo que foi objeto do precedente capítulo,
o personagem de Herodes Filipo II foi criado integralmente para justificar
a existência de uma pseudo-Cleópatra de Jerusalém, e
velar deste modo que não era outra que a Maria de Cleofás
dos textos apostólicos, meio-irmã de Maria mãe de Jesus,
aliás Mariamna II, esposa de Herodes, o Grande, e mãe de Herodes
Filipo II, este perfeitamente real, já que foi o primeiro marido
de Herodias, mãe de Salomé II.
E então se expõe um novo problema, o de determinar a identidade
do primeiro marido desta última, antes de que se convertesse na egeria
de Jesus, (128) e logo na esposa de Aristóbulo III, rei de Armênia.
Este importante problema, que uma vez resolvido podia projetar uma nuvem
de descrédito sobre a família davídica, primeiro por
causa dessa aliança matrimonial, e logo pelas libertinagens nas quais
participou a citada Mariamna II, os historiadores eclesiásticos dos
primeiros séculos resolveram a sua maneira, invariável. Desta
vez não criaram um personagem imaginário, mas sim o suprimiram.
E assim, é inútil procurar algum rastro de Salomé II
nas obras de João Cristóstomo, de Atanasio de Alexandria,
etc. Para eles, a dançarina que pediu a cabeça de Batista
foi Herodias, ignoram Salomé, sua filha... E o mesmo acontece com
Eusebio da Cesaréia, quem em sua História eclesiástica
(I, VIII, 13) menciona Salomé I, irmã de Herodes, o Grande,
mas ignora por completo que Herodias que ele cita em tal obra (op. cit.,
I, XI, 1; I, XI, IV, 1) teve uma filha chamada Salomé, e que esta
foi a dançarina responsável pela decapitação
de João, o Batista, segundo os evangelhos canônicos (cf. Mateus,
14, 6, e Marcos, 6, 22). Pareceria como se o bispo da Cesaréia, historiador
da igreja primitiva, panegirista de Constantino, copista e difusor dos evangelhos
oficiais, não os lesse jamais. (129)
De fato, tais reticências, omissões, encobrimentos e mentiras
são, para o historiador, sempre mais gratificantes.
Encontramo-nos no ano 29 de nossa era, já que Tibério foi
imperador no ano 14. Da morte de Herodes, o Grande, e a interpretação
de seu terceiro testamento por César Augusto em Roma, em presença
de toda a família herodiana, seu reino foi dividido em três
partes, ou seja:
- uma metade para Arquelao, que compreendia Judéia e Samaria;
- uma quarta parte para Herodes Antipas (daí seu nome de tetrarca),
que compreendia Galiléia e Perea;
- uma quarta parte (a última) para Herodes Filipo I, que compreendia
Batanea, Traconítide, Gaulanítide e Auranítide. Este
era então o marido de sua sobrinha Herodias, que se converteria na
concubina oficial de Herodes Antipas quando este repudiou à filha
de Aretas, rei do Nabatene. portanto Herodes Filipo era do mesmo modo, devido
a este fato, o pai de Salomé II. Considerando que Herodes Filipo
II, filho de Cleópatra de Jerusalém, ambos os personagens
imaginários, não pôde ser marido desta, quem foi, então,
o primeiro cônjuge de Salomé II? Não fica mais que um,
Lysanias, a quem também lhe chama Herodes Lysanias.
Tomemos pois em mão o problema dos documentos históricos,
e releiamos atentamente a passagem de Lucas: "No décimo quinto
ano do império de Tibério César, sendo governador da
Judéia Poncio Pilatos, tetrarca da Galiléia Herodes, e Filipo,
seu irmão, tetrarca da Iturea e da Traconítide, e Lysanias
tetrarca do Abilene, sob o pontificado de Anás e Caifás, foi
dirigida a palavra de Deus ao João, filho de Zacarias, no deserto".
(Cf. Lucas, 3, 1-2).
Há que reconhecer que quem redigiu esta passagem parece querer provocar
controvérsias, porque não deixou de levantá-las durante
séculos. E inclusive nas origens! Começando por Luciano de
Samosata, o terrível ironista grego, quem nas seitas em leilão
se mofa assim: "O 7 do mês em curso, sendo Zeus pritano, Poseidon
proedro, Apolo epistato, e Momo, filho da Noite, cartulario, o Sonho propôs
o que segue...". Durante muito tempo os exegetas da crítica
liberal sustentaram que Lucas, ou quem falasse em seu nome, tinha dado uns
nomes ao azar, e que isso não se tinha em pé frente a verificações.
Mas não há nada disso, e o Dictionnaire d'archéologie
chrétienne de Dom Cabrol e Dom Leclercq nos contribui a prova.
O nome do Abilene procede do da cidade de Abila, hoje Souq-wadi-Barada,
situada no lado oriental do Anti-Líbano, no caminho de Beirut à
Damasco. Esta cidade gozava de uma certa notoriedade em princípio
de nossa era, e foi a capital de uma pequena dinastia local que desempenhou
um papel na história do Oriente Médio.
Segundo Flavio Josefo (cf. Antigüidades judaicas, XIII, XV, XVI; XIV,
III, VII, XIII; XV, IV; Guerra dos judeus, I, IX, XIII), Ptolomeo, filho
de Meneo, emir dos beduínos nômades dos arredores de Damasco,
foi o fundador desta família. Viveu por volta do ano 85 antes de
nossa era, e se fez muito temível ante os damascenos. Flavio Josefo
o considera capaz de todas as maldades, e mais ainda devido ao fato de ser
parente de Dionisio, tirano de Trípoli, por isso tinha a quem parecer-se.
Não obstante, quando Pompeyo penetrou em Síria, no ano 63
antes de nossa era, assolou totalmente o pequeno reino de Ptolomeo, fez-lhe
pagar um enorme resgate, devastou Calcis (hoje Andjor), Heliópolis
(hoje Baalbeck), e fez decapitar a seu terrível parente Dionisio
de Trípoli.
Ptolomeo conseguiu pagar o exorbitante tributo, e assim conservou seu feudo.
Depois da morte trágica de Aristóbulo II (no ano 49 antes
de nossa era), Ptolomeo recolheu em seus estados à família
deste útlimo, e casou a seu filho Filipion com Alejandra, filha de
Aristóbulo II. Logo, ao encontrar a de seu gosto, e lamentando não
havê-la conservado para si mesmo, fez assassinar a seu filho Filipion
e tomou por esposa. Morreu no ano 40 antes de nossa era, e seu filho Lysanias
sucedeu-lhe.
O novo "dinasta" (título que lhe dá Flavio Josefo)
sustentou os direitos do Antígono, filho de Aristóbulo II,
e para isso se aliou com os partos. Cleópatra do Egito fez que Antonio
lhe desse morte no ano 34 antes de nossa era, o que lhe permitiu apoderar-se
de uma parte de seus Estados, entre os quais provavelmente se encontravam
Calcis e Abila, e possivelmente inclusive também Paneas e a região
do lago Ulatha.
Ao defunto Lysanias sucedeu-lhe Zenodoro, chamado às vezes também
Zenón, quem, com o título de "eparca", possuiu a
Traconítide, a Batanea, o Hauran, e extensos domínios ao redor
da Jamnia. De todo modo, e como seu caráter belicoso e saqueador
era incorrigível, César Augusto, para castigá-lo por
suas invasões, confiscou-lhe a Traconítide, a Batanea e o
Hauran, e confiou esses territórios ao Herodes, o Grande. Zenodoro
encontrou-se com que era simplesmente proprietário de um território
reduzido, sito no país do lago Ulatha, aliás Houleh, com o
Paneas e seus arredores imediatos.
A sua morte, este território, assim reduzido pelo rigor romano, voltou
para o Herodes, o Grande, cujo favor aumentava sem cessar. Mas a lembrança
de seus direitos subsistiu durante muito tempo ainda, já que Flavio
Josefo, no ano 4 antes de nossa era, à morte do Herodes, o Grande,
menciona que Herodes Filipo recebeu, para a constituição de
seu tetrarquia, "uma parte dos domínios de Zenodoro", e
mais tarde ainda, no ano 36 de nossa era, menciona no lote de Herodes Agripa
I, "a tetrarquia de Lysanias"; logo, no ano 52, Claudio César
retira Calcis ao Herodes Agripa I, e lhe dá, em compensação
"a Abilene de Lysanias". Mas, como penetrar na Abilene de Lysanias
se, no mesmo dia, retira-se ao Calcis?
Outros autores antigos nos falam de Ptolomeo e de Zenodoro, por exemplo
Estrabón e Dion Cassius. Mas nada disto justifica como Lucas pôde
citar a um Lysanias, tetrarca do Abilene, sob o reinado de Tibério
César, se o Lysanias mais próximo tinha morrido no ano 34
antes de nossa era, como já vimos.
Felizmente chegaram até nós, duas inscrições
antigas que nos provaram que houve outro Lysanias, mais próximo a
nós. A primeira foi descoberta em Nebi-Abil, aliás Abila,
por Pococke. A segunda em Souq-wadi-Barada, por R.P. Savignac, em abril
de 1912. Estava gravada sobre a parede da montanha, no bordo de um antigo
atalho que, procedente da localidade, conduzia a um templo cujas ruínas
se vêem ainda na rocha que domina o vale. Vejamo-la na tradução
do grego antigo: "À saúde dos senhores Augustos e de
toda sua Casa, Nymphaios, filho do Abimmeos, liberto do Tetrarca Lysanias,
criou este caminho, construiu o templo e plantou todas as plantações
com seus próprios meios. Ao deus Cronos e à Pátria,
em testemunho de piedade".
Como vemos, o templo estava dedicado ao Cronos (Saturno), e devia estar
rodeado de um bosque sagrado, já que os carvalhos verdes que ainda
subsistiam em 1912 continuam considerados pelos indígenas como sagradas
(cf. Revue biblique, 1912, nova série, tomo IX, pp. 534-536).
Pelos trabalhos de Dittenberger (cf. Orientis graeci inscriptiones, 606,
nota I) se sabe agora que a expressão "senhores Augustus"
designava ao imperador e a toda sua família. Não pode tomar-se
em conta ao Nero e a sua mãe Agripina, porque no ano 37 a tetrarquia
desaparecera, e sob o Claudio não se considerou jamais como Augusta
a Messalina; portanto, não ficam mais que Tibério César
e a imperatriz Livia, que foi declarada com justiça Augusta depois
da morte de Augusto, e que morreu no ano 29. A dedicatória de Nymphaios,
"liberto do Tetrarca Lysanias", é por conseguinte anterior
ao ano 29 de nossa era e posterior ao ano 14, ano da morte de Augusto. Esta
nos prova que um tetrarca reinava então em Abilene e chamava-se Lysanias,
evidentemente o segundo deste nome. E simplesmente foi ele o primeiro marido
de Salomé II, filha de Herodes Filipo I e de Herodias.
Mas como terei que afiançar a existência de um Herodes Filipo
II com o fim de creditar a uma Cleópatra de Jerusalém, diferente
à escandalosa Mariamna II, e cortar assim toda prova de uma aliança
matrimonial entre os filhos de David e os herodianos, fez-se desaparecer
a este Lysanias por ser muito revelador, e deu-se à Salomé
II em matrimônio ao imaginário Herodes Filipo II.
Nós, pacientemente, procuramos ao Lysanias dentro do extenso panorama
dos membros da dinastia herodiana, e acreditam que o encontramos.
Convém admitir, com efeito, que a existência de um fragmento
de território no seio de uma tetrarquia governada por um Herodes,
e que entretanto continua propriedade de um dos "dinastas" descendentes
de Ptolomeo, filho de Meneo, é mais que improvável. Este enclave
tornaria rapidamente, sob um pretexto qualquer, ao tetrarca herodiano proprietário
do conjunto. Portanto temos que admitir razoavelmente que o dono desse pequeno
feudo interior era, também ele, da família dos Herodes. Uma
vez admitido isto, podemos buscá-lo. E provavelmente aqui o temos:
"O imperador, depois de havê-los ouvido, levantou a sessão
do conselho (...) A Batanea, com a Traconítide, a Auranítide,
e uma parte do que se chamou o domínio de Zenodoro, reportavam ao
Filipo cem talentos". (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas,
XII, XI, 4).
"Esses foram os filhos dos filhos de Herodes. Quanto à Herodias,
sua irmã, esta se casou com Herodes (Herodes Filipo I), que Herodes,
o Grande, tivera Mariamna (II), a filha do supremo pontífice Simão,
e tiveram por filha Salomé (II), depois de cujo nascimento Herodias,
desprezando as leis nacionais, e detrás separar-se de seu marido,
ainda vivo, casou-se com Herodes (Herodes Antipas), irmão consangüíneo
de seu primeiro marido, e que possuía a tetrarquia da Galiléia.
Sua filha Salomé (II) casou-se com Filipo, filho de Herodes, tetrarca
de Traconítide. E como morreu sem deixar filhos, voltou a casar-se,
desta vez com Aristóbulo, filho de Herodes irmão de Agripa.
dele teve três filhos: Herodes, Agripa e Aristóbulo".
(Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XVIII, V, 4).
Recapitulemos sobre tudo isto: "Sua filha Salomé se casou com
Filipo, filho de Herodes, tetrarca de Traconítide...". Isto
explica tudo! O tetrarca de Traconítide é Herodes Filipo I,
primeiro marido de Herodias, e ambos tiveram uma filha, Salomé II,
antes de que tal Herodias o abandonasse para viver com seu meio-irmão
Herodes Antipas. Mas como se viu anteriormente, a má construção
da frase faz acreditar que Salomé II se casou com o tetrarca, quer
dizer, com seu próprio pai!
Agora bem, além de Salomé II, esse mesmo tetrarca de Traconítide
teve outro filho, chamado também Filipo, e como também era
um Herodes, trata-se do verdadeiro Herodes Filipo II, e este não
foi imaginário, nem filho da imaginária Cleópatra de
Jerusalém. Como tinha por pai ao mesmo que engendrasse à Salomé
II, ainda admitindo que fossem de mães diferentes (coisa muito possível,
e inclusive muito comum naquela época), Salomé II era meio-irmã
dela, e ele era seu marido... Coisa que era deste modo muito corrente naquela
época, e não só entre os soberanos egípcios.
E ele é Herodes Lysanias tetrarca de Abilene. Quando morre, deixando
Salomé II viúva e sem filhos, ela será durante um tempo
a amiga de Jesus, segundo precisa o terrível Evangelho segundo Tomás,
(130) e mais tarde contrairá segundas núpcias, como se há
dito antes, com Aristóbulo III, a quem Nero converterá em
rei de Armênia. (131)
Mas como pôde Lucas saber da existência desse filho de Herodes
Filipo I, cujo minúsculo feudo inseria-se na tetrarquia de seu pai,
e que foi um personagem tão apagado que Flavio Josefo, que se informava
tão abundantemente nas Histórias do Ptolomeo do Ascalón
e do Nicolas de Damasco, biógrafos da dinastia herodiana, nem sequer
o menciona? Pois simplesmente por Saulo-Paulo, de quem ele era o secretário
e o companheiro de confiança. E isto constitui uma prova mais de
que este último não era absolutamente um judeu obscuro, deportado
ou nascido em Tarso, a não ser a mesma pessoa que o príncipe
herodiano Saúl, irmão de Costobaro, e neto, por parte de sua
mãe Cypros II, do rei Herodes, o Grande, e cuja verdadeira existência
já analisamos em um precedente volume. (132) Porque o judeu obscuro
não conheceria todos os membros desta família, tão
numerosa, e de filiações extremamente complicadas, enquanto
que o príncipe herodiano não poderia ignorar a nenhum de seus
primos. E essa frase terrivelmente reveladora de Lucas (III, 1-2), precisa-nos
além disso a data exata em que começou a revolução
anti-romana que Jesus devia comandar pessoalmente, fazendo pregar previamente
a guerra Santa por seu primo João, o Batista, ou seja, "o décimo
quinto ano do reinado de Tibério César", ou seja no ano
28 de nossa era. Esta revolução, provavelmente esporádica,
caminho pela retirada à Fenícia, por desigualdades, pela retirada
aos maquis da Alta Galiléia ou à solidão desértica
da selvagem Judéia, para terminar na fuga à Samaria, durou
de fato uns seis anos aproximadamente. (133)
Permanece um testemunho sobre a virulência da citada armas lançadas
por Batista, de Flavio Josefo: "As pessoas reuniram-se em torno dele,
porque estavam muito exaltadas lhe ouvindo falar. Herodes (Antipas) temia
que semelhante faculdade de persuasão não suscitasse uma revolta,
já que a multidão parecia disposta a seguir em tudo os conselhos
deste homem ..." (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XVIII,
V, 118).
Como se vê, nos discursos reais de Batista não se tratava de
prédicas morais ou devocionais. Tratava-se clara e sinceramente de
varrer aos ocupantes romanos e a seus homens viciados, os reyezuelos herodianos.
Porque as predicações religiosas não podiam suscitar
a desconfiança, e menos a ira de Herodes Antipas, antes ao contrário.
Não podia ser o mesmo no caso de discursos incendiários de
caráter político.
Os segredos do Gólgota
Tranqüilize-os,
Oh Mistos!
Seu deus ressuscitou
Suas penas e seus sofrimentos
Assegurarão sua salvação ...
JULIUS FORMICUS MATERNUS De Errore: XVIII, ritual do deus Mitra
22 - Jesus-bar-Juda
Em todas partes
se viu a povos arrastados por um só milagre falso; e Jesus Cristo
não pôde fazer nada do povo judeu, com uma infinidade de milagres
verdadeiros?... Esse milagre, o da incredulidade dos judeus, é o
que convém explicar !
DIDEROT, Pensées philosophiques, addition
Jesus-bar-Juda, aliás Jesus da Galiléia, mais tarde Jesus
de Nazaré, é um nome que vemos aparecer no cânone neotestamentário.
No Antigo Testamento o voltamos a encontrar, evidentemente, numerosas vezes,
mas sob a forma de Josué, já que Jesus é Josué,
quão mesmo Josué é também Jesus. Em hebreu esse
nome se pronuncia Ieoshuah, e se escreve exatamente assim: iod-he-waw-shin-ain,
e não iod-he-shin-waw-he, como alguns místicos cristãos
do século XVII quereriam nos fazer acreditar, seguidos mais adiante
pelos martinistas contemporâneos e os seguidores do "professor"
Philippe de Lyon. Jamais, e insistimos neste termo, jamais um rabino, cabalista
ou não, permitir-se-ia semelhante sacrilégio: romper o NOME
SAGRADO introduzindo nele uma quinta letra! E o que é mais, modificar
assim seu valor numeral, quer dizer, 26, fazendo-o passar a 326. De fato,
foi por ignorância no campo teúrgico pelo que nossos modificadores
do Tetragrama divino introduziram-no em seu centro. Em cabala prática,
a letra shin significava no esquema operativo, e no centro do tetragrama
circular, muito diferente, mas isso o mundo não sabe.
Em uma obra precedente consagramos um capítulo a esses famosos "Anos
obscuros de Jesus".
Contribuímos a prova de que, a princípio de nossa era, quando
não contava ainda mais que vinte e três anos aproximadamente,
houve uma insurreição dirigida por ele que implicou a tomada
de Jericó, e, ao abandonar essa cidade, execuções de
prisioneiros ou de reféns.
Por outra parte, o procedimento chamado do carbono 14 não nos proporcionou
a não ser uma data média sobre o momento da ocultação
clandestinamente dos manuscritos de Qumran, o ano 34 de nossa era, mas o
período se estende antes e depois, em uma "franja" de uns
cinqüenta anos. E isto confirma o que recordávamos antes.
Por outro lado, quando Jesus chama Simão-Pedro barjonna (em acadio:
anarquista, fora da lei), este pequeno detalhe sublinha que o chamado Simão-Pedro
está envolto faz tempo que (como precisam seus outros apelidos: canaíta,
zelote) em uma luta a mão armada contra os ocupantes romanos e contra
os saduceus, seus "colaboradores".
Este período dos "anos obscuros de Jesus" seria o mais
violento. Primeiro porque ele era jovem, quão mesmo seus irmãos
e discípulos, logo porque seu pai Judas da Gamala e seu tio Zacarías
já não estavam ali para moderar a toda essa juventude ardente.
Diversas provas disso subsistem ao contrário. Nem Suetonio em sua
Vida dos Doze Césares, nem Tácito em suas Histórias
ou em seus Annales nos contam nada referente à Judéia nesse
período. Os relatos se interrompem bruscamente, ou aparecem anormalmente
cortados em comparação com os capítulos precedentes
ou seguintes. À olhos vistos os ciumentos monges copistas passaram
por ali.
Mas apesar de tudo, subsiste uma prova de sua intervenção,
uma última prova; encontra-se nas Antigüidades judaicas de Flavio
Josefo: "Para o mesmo tempo, sobreveio na Judéia uma grande
comoção, e um grande escândalo em Roma". (Cf. Flavio
Josefo, Antigüidades judaicas, XVIII, IV, manuscrito grego).
Seria inútil procurar outros detalhes no que fica de capítulo;
a censura dos monges copistas se exerceu de forma total. Mas a apertada
comparação com os textos correspondentes de Tácito
em seus Annales (libero I, cap. LXXXV) demonstra que se trata do período
coberto por dito livro II, quer dizer, do ano 16 de nossa era (769 de Roma)
ao ano 19 da mesma (772 de Roma). E mais concretamente essa grande comoção
que sobreveio a Judéia teve lugar no ano 19 de nossa era, sendo cônsules
em Roma Julio Silano e Norbano Flacco, e procurador na Judéia Valerio
Grato. Jesus estava em sua melhor idade, e naquele lugar. Mas não
saberemos jamais o que aconteceu ali. Seria muito grave nos dizer isso já
que permitiria que a verdade subsistisse. Em todo caso, foi bastante violento
para justificar o decreto de Tibério César expulsando aquele
ano a todos os judeu da Itália... E se tivéssemos alguma dúvida,
bastar-nos-ia relendo o próprio texto dos evangelhos canônicos
e compará-los desde esta perspectiva que se desenha agora pouco a
pouco.
Tomemos, pois, ao João. Depois do célebre prólogo no
que o texto que falsamente lhe é atribuído identifica ao Jesus
e o Verbo divino, tomando essas afirmações de textos pagãos
mais antigos, vemos aparecer ao Jesus, na história do cristianismo,
no instante mesmo de seu batismo pelo João Batista, quando fazia
já longo tempo que tinha chegado à idade adulta. De seu nascimento
milagroso, de sua juventude, João não sabe nada ou não
nos conta nada (op. cit., I, 29).
Tomemos agora ao Lucas. Este faz nascer ao Jesus no ano 6 de nossa era,
quando teve lugar o censo de Quirino, quer dizer, doze anos depois da morte
de Herodes, o Grande. Não há nada dos reis magos, da matança
dos inocentes, etc. Quanto à fuga ao Egito, não nos diz nenhuma
palavra disso. Simplesmente que "o menino (Jesus) crescia e se robustecia
no espírito e vivia nos desertos até o dia de sua manifestação
ao Israel" (op. cit., 1, 80). Logo voltamos imediatamente para episódio
do censo, o que é de todo incoerente, assistimos a seu exame catequístico
pelos doutores da Lei, passa-se rapidamente sobre sua infância e nos
encontramos, também aqui, frente ao batismo de Jesus, sem que nos
tenha contado nada de sua adolescência ou de sua juventude.
Passemos ao Marcos. Aqui, quão mesmo em João, encontramo-nos
bruscamente em presença de um Jesus que vai da Galiléia à
Judéia para fazer-se batizar pelo João, o Batista. Como se
trata de um "batismo de penitência em remissão dos pecados"
(Lucas, 3,3), terá que supor que Jesus não tinha a consciência
tranqüila e que tinha pecados a perdoar. Mas de nascimento milagroso,
dos reis magos, da matança dos inocentes, da fuga ao Egito, Marcos
não sabe nada, ou ao menos não nos informa nada.
Fica Mateus. Ele é quem nos conta tudo concernente à maravilhosa
fecundação de Maria, o milagroso natal, o episódio
dos reis magos, a matança dos inocentes, a fuga ao Egito, etc. Mas,
não obstante, faz nascer ao Jesus no ano 6 antes de nossa era, em
vida ainda de Herodes O Jesus do Mateus conta, pois, doze anos quando o
do Lucas nasce! Isto não tem importância, o problema não
é de uma só incoerência. Mas depois da fuga ao Egito,
também Mateus nos põe em presença de um Jesus adulto,
que acode ao João para que lhe batize.
Assim, nenhum evangelista canônico nos diz o que fez Jesus desde sua
primeira infância até sua maturidade (trinta anos, segundo
uns, e cinqüenta segundo São Irineu). Ignoramos a sorte da santa
família durante os pesados e perigosos anos nos que aconteceram as
indomáveis revoluções judias e as implacáveis
repressões romanas. Agora sabemos o porquê desse silêncio,
tendo em conta o que Flavio Josefo nos dá a entender, comparado cuidadosamente
com Tácito. Da juventude guerreira de Jesus vale mais não
dizer uma palavra.
23-Jesus-Barrabás
A verdade é sempre estranha, mais estranha que a ficção
...
LORDE BYRON, Dom João, XIV
Os evangelhos canônicos nos contam o episódio da substituição
de Jesus por um amotinador que fora encarcerado por um assassinato que cometera
no curso de uma rebelião, e que por tal motivo também ele
fora condenado à crucificação.
"Era costume que o procurador, com ocasião da festa, desse à
multidão a liberdade de um detento, que pedissem. Havia então
um prisioneiro famoso chamado Barrabás. Estando, pois, reunidos,
disse-lhes Pilatos: 'A quem querem que lhes solte? A Barrabás ou
ao Jesus, o chamado Messias? Pois sabia que por inveja o entregaram. (...)
Eles responderam: 'Ao Barrabás!'..." (Mateus, 27, 15-18, 21).
Alguns detalhes complementares, inclusive com algumas diferenças
muito ligeiras, podemos encontrá-los no Marcos (15, 6 a 15), no Lucas
(23, 17-19), e no João (18, 39-40). Mas nenhum versículo contribui
com contradição alguma a breve narração feita
pelo Mateus.
Os manuscritos iniciais que possuímos (e que, recordemo-lo, remontam-se
todos ao século IV, como mínimo) transcrevem esse nome de
quatro maneiras diferentes: Varaba, Barabas, Barrabás e Bar-Rabban.
Desde onde estas diversas significações:
1 - Bar-rabba ................. Filho do doutor
2 - Bar-rabban ............... Filho de nosso doutor
3 - Bar-Abba .................. Filho do Pai
4 - Bar-Abban ................ Filho de nosso Pai
5 - Bar-Abba .................. Filho de Abba
Observaremos, antes que nada, que não se sabe nenhuma outra coisa
deste nome, salvo que, segundo Mateus, era um prisioneiro famoso, segundo
Marcos um sedicioso que cometera um assassinato durante um motim, Lucas
precisa que esse assassinato fora cometido "na cidade", quer dizer,
em Jesus, e João se limita a qualificar de bandido, termo que, com
o de "galileu", designava então aos insurretos zelotes
em geral.
O nome próprio de Jesus, que Orígenes afirma que era o de
Barrabás, vem testemunhado por alguns dos manuscritos mais antigos,
como:
a) o Codex Korideth (séculos VII-IX);
b) o Groupe do Minuscules, publicado pelo K. Lake em 1902;
c) o palimpsesto do monastério de Santa Catalina no Monte Sinaí,
encontrado pelo Lewis e Gibson, e que se remontaria ao século IV.
Como observa muito acertadamente R.P. Lucien Deiss em sua obra Synopse des
Evangiles, é impossível imaginar que ninguém se atreveu
a inventar, ulteriormente, semelhante identidade de nomes próprios.
Quanto mais que o grande Orígenes, que morreu no ano 254, assegurou,
como já dissemos antes, que tal nome figurava em certos manuscritos
que obravam em seu poder, com o que deste modo nos contribui a prova de
que, já no século III, existiam documentos mais antigos que
os três que aqui citamos, e que aplicavam o nome de Jesus a esse misterioso
Barrabás.
Daniel-Rops, examinando essa possibilidade de proceder à substituição
legal de um condenado por outro por ocasião da Páscoa judia,
diz o seguinte no Jesus em seu tempo: "discutiu-se muito sobre esse
direito de graça que o povo podia reclamar, e que o procurador, segundo
o evangelho, teria possuído. A graça era, em Israel, muito
estranha; os reis não dispunham dela, e em troca tinham o poder de
aumentar uma pena que eles julgassem insuficiente. E, com efeito, a remissão
das penas não é conciliável com o princípio
mesmo da lei mosaica, que vê na falta uma ofensa a Deus. Em Roma só
podia apelar-se aos Comícios em caso de sentença capital,
mas não se vê que o povo tomase a iniciativa de pedir a graça
sem petição prévia do condenado. Agora bem, um papiro
que data do ano 86 ou 88 de nossa era confirmou o episódio evangélico
ao mostrar a um prefeito do Egito perdoando a um culpado "por causa
da multidão". O fundamento jurídico do ato de graça
importa pouco, tanto se se trata de uma forma da abolitio, anistia que os
imperadores promulgavam por ocasião de suas vitórias ou de
certas festas, como de uma indulgentia, direito de graça que estava
na mão da pessoa do imperador, e que este fizesse extensivo a seu
representante. Neste caso parece que se tratou de uma medida excepcional,
resultante de uns hábitos locais dos quais nós não
estamos informados..." (Cf. Daniel-Rops, Jésus et su temps,
X, "O processo de Jesus").
Toda esta longa exposição, verbosa e vaga, em realidade está
destinada exclusivamente a nos fazer admitir uma inverossimilhança
histórica, e vamos demonstrar o porque, em suas obras, Flavio Josefo
não faz alusão nenhuma só vez a semelhante costume,
ele que era tão prolixo no que concernia às tradições
judias.
E, em primeiro lugar por que Daniel-Rops não nos dá as referências
exatas desse papiro? Pois simplesmente porque não lhe poderia alegar
como argumento em apoio da substituição de Jesus por Barrabás,
e nosso autor não quer que o leitor possa lhe contradizer seu falacioso
argumento.
É que tal documento não é outro que o papiro de Florência
nº 50, que data do ano 85 de nossa era, e que nos proporciona um exemplo
de graça concedida a um acusado por um magistrado romano a pedido
da multidão. Contém, com efeito, o processo verbal de um julgamento
ditado pelo G. Septimius Vegetus, governador do Egito, em favor de um tal
Fibion, quem, por sua própria autoridade, e estimando-se acima da
lei, tinha encarcerado a um homem honorável e a sua esposa, que eram
seus devedores. E o governador declarou então: "Mereceria ser
flagelado! Mas te entregarei ao povo" (Cf. A. Deissmann; Licht vom
Osten, de Neue Testament und die neu entdeckten Texte der hellenistisch-römischen
Welt, Tubinga, 1908, pp. 193-194).
É óbvio que o chamado Fibion merecia a flagelação
legal por tal crime de seqüestro arbitrário, mas se era civis
romanus era impossível, já que a lex Valeria do ano 509 antes
de nossa era proibia golpear a um cidadão romano sem uma decisão
popular prévia e decisiva, e a lex Porcia, do ano 248, também
de antes de nossa era, proibia fazer uso em nenhum caso dos açoites
lictoriais.
A sentença do governador Septimius Vegetus, que declarava ter em
conta a decisão popular, aplicava aqui, portanto, a lex Valeria do
ano 509 a.C., e isso demonstra irrefutavelmente que o tal Fibion era um
civis romanus, coisa que a audácia de seu ato já fazia presumir.
Neste caso o episódio em questão não pode, pois, levar-se
em conta para justificar a chamada de Pilatos solicitando a opinião
do povo judeu, pois é evidente que Jesus não é cidadão
romano, e muito mais tarde, o imperador Juliano, em sua carta ao Cirilo,
bispo de Alexandria e antigo seu condiscípulo nas escolas de Atenas,
declararia que: "O homem que foi crucificado pelo Pôncio Pilatos
era servo de César, e vamos demonstrar..." (Cf. Cirilo da Alexandria,
Contra Julianum).
De fato, o termo exato era escravo de César (servur caesaris), alusão
ao provável nascimento de Jesus em Séforis e à deportação
da população de tal cidade pelo Varus. Mas voltemos para problema
da autenticidade de tal substituição.
O Dictionnaire da Bible, do F. Vigouroux, sacerdote de Saint-Sulpice (tomo
I, 2ª. Parte, 1926, Letouzey & Ané, Imprimatur inicial de
26 de outubro de 1891), diz-nos o seguinte: "Esse costume de dar a
liberdade a um prisioneiro por ocasião das festas da Páscoa
não aparece mencionada em nenhuma outra parte, nem nas Sagradas Escrituras
nem no Talmud (...) Costumes similares existiam entre os romanos durante
os dias das Lectisternes, e entre os gregos durante as solenidades do Bacchus
Eleuthereus".
Entre os gregos, Baco era o mesmo deus que Dionisos, quem levava o apelido
de liberador (liber), dado que a embriaguez possui, com efeito, o dom de
liberar das preocupações e de exagerar as paixões habitualmente
refreadas.
Quanto às Lectisternes, tratava-se de uma cerimônia propiciatória
decidida em um período de grandes calamidades públicas, e
celebrada em Roma e nas grandes cidades do Império para obter o afastamento
de tais provas. Aquele dia se oferecia um banquete ritual aos principais
deuses de Roma, suas efígies apareciam reclinadas sobre leitos para
comer na mesma sala em que se desenvolvia esse autêntico "jantar
dos Invisíveis". Daí o furor de Saulo-Paulo ante a participação
de seus discípulos nesses ágapes tipicamente pagãos:
"Porque se algum vir , que tem ciência, sentado à mesa
em um santuário de ídolos, na fraqueza de sua consciência,
não se acreditará induzido a comer as carnes sacrificadas
aos ídolos?...". (Cf. I Epístola aos Corintios, 8, 10).
Tendo em conta o que precede, fica excluída a possibilidade de que
semelhante festa pudesse jamais haver-se celebrado na cidade Santa de Jerusalém,
e menos ainda no Templo aonde residia a Shekinah, "a Presença
divina". Isso suscitaria tais sublevações por parte dos
judeus, que a nenhum procurador romano lhe passasse nem sequer pela cabeça
tal idéia. Recorde-se que Pilatos, depois de penetrar de noite na
cidadela Antonia, em Jerusalém, as insígnias das legiões
(que não terá que confundir com suas águias) que foram
a acampar ali, teve que as fazer sair do lugar ante a iminente rebelião,
já que os sucessivos imperadores deram ordem de respeitar na Judéia
os princípios religiosos da população.
Pois bem, as insígnias legionárias ostentavam, ou o busto
dos imperadores, ou símbolos animais: andorinha, javali, águia,
etc. além disso, nos acampamentos lhes rendia um culto público.
Coisas, todas elas, que a lei de Moisés reprovava.
Por outra parte, se em Roma podia exercer o direito da graça, isto
tinha que acontecer antes de ser pronunciada a sentença. Depois,
não era costume desmenti-la, pois isso comprometeria a falibilidade
da Justiça. Não ficava, pois, ao condenado mais que a sorte
de encontrar-se pelo caminho para sua execução a uma vestal
(estas possuíam o privilégio de conceder a graça ipso
facto a todo condenado com o que se cruzassem pelo caminho), ou recorrer
a indulgentia imperial. Por isso Suetonio nos conta que Nero, a quem horrorizava
o derramamento de sangue, um dia, ao princípio de seu reinado, no
momento de referendar a condenação a morte de um criminoso
notório, deixou o "estilo" com o que se dispunha a assinar
e murmurou abatido: "Ai! por que me ensinariam a escrever?..."
(Cf. Suetonio, Vida dos Doze Césares, Nero, 10). E Tácito
observaria, além disso, que: "Quando não pode evitar
uma condenação, adiava tanto, que o acusado tem tempo de morrer
de velho..." (Cf. Tácito, Annales, XVIII, 33).
Tudo isso demonstra claramente que, uma vez pronunciada a sentença,
não se acostumava a modificá-la.
Fica o conceito de graça judicial no Israel antigo. Este não
existia ali absolutamente, e unicamente umas revelações novas
podiam justificar a suspensão provisória de uma sentença
capital, e eventualmente uma revisão. Esse caráter definitivo
da condenação fora precisado pelo profeta Isaías:
Se se fizer graça ao ímpio, ele não aprende a justiça;
na terra corrompe a retidão,
não repara na majestade de Yavé ...
(Isaías, 26, 10)
Desde onde a hostilidade geral dos Mestres da Torah ante a pena de morte,
porque é um castigo irreversível. Estava acostumado a afirmar-se
que um Sanedrín que pronunciasse onze condenações de
morte em sete anos era uma assembléia de assassinos. E Rabbi Eleazar-Ben-Azaria
chegava ainda mais longe: para sua escola, onze condenações
à pena capital em setenta anos justificavam já esse apelativo
de "tribunal assassino". Outros, como Rabbi Tarphon e Rabbi Akiba
eram contrários totalmente à pena de morte (cf. Talmud, IV,
Nezikim, 5 Makkoth).
Quer dizer, que toda essa história de uma substituição
legal de um culpado por outro, de um condenado a morte por assassinato no
curso de uma revolta, perdoado contrariamente à todos os costumes,
tanto judias como romanas, por um procurador tão rude e desumano
como parece que estava acostumado a ser Pôncio Pilatos, toda essa
história não constitui a não ser uma mentira mais dos
escribas anônimos dos séculos IV e V, anti-semitas patentes
e aduladores interessados dos novos imperadores cristãos. Não
obstante, ainda fica por ver outra misteriosa substituição,
problema que logo vamos abordar.
Porque, que prisioneiro famoso podia ter sido encarcerado por aqueles dias,
além de Jesus? Ninguém conhece Barrabás, fora dos textos
evangélicos do século IV. Flavio Josefo, o Talmud de Babilônia,
o Talmud de Jerusalém, todos ignoram dito personagem. Eusebio da
Cesaréia (falecido no ano 340), ao redigir sua História eclesiástica,
uma obra enorme, não conhece Barrabás. Sim que cita a um tal
Agapios, quem figurava entre os mártires da Palestina no curso da
perseguição dos anos 306-307, e a quem a graça imperial
preferiu frente a um escravo obscuro que tinha assassinado a seu amo. E
o texto nos diz que foi "julgado digno de piedade e benevolência,
quase da mesma maneira que o famoso Barrabás em tempos do Salvador..."
(Cf. op. cit., Des martyribus Palestinae, VI, 5). Mas existem duas resenhas
diferentes desse texto, uma curta e uma longa, a primeira em grego, a segunda
em siríaco. "As relações entre as duas resenhas
são difíceis de determinar...", diz-nos o P. Mondésert,
S.J., e é evidente. Não estamos absolutamente convencidos
de que todo o conjunto proceda do Eusebio da Cesaréia. Porque só
nesse texto indeciso aparece uma alusão à Barrabás,
e isso é algo muito surpreendente, tendo em conta a importância
do resto de sua obra, onde não faltaram as ocasiões para podê-lo
citar.
Para nós, Jesus e Jesus-Barrabás não são a não
ser a mesma pessoa, e essa substituição não se imaginou
até muito mais tarde, para fazer desaparecer o papel de outro misterioso
bloco. Nós citamos ao Simão de Cirene, quem substituiu em
realidade ao Jesus e foi crucificado em seu lugar, seis semanas antes da
Páscoa, e a morte, desta vez bem real, deste último.
Quando o leitor chegar ao próximo capítulo, intitulado O crime
do Templo, poderá constatar que o "bandoleiro famoso, autor
de um assassinato no curso de uma rebelião na cidade" não
pôde ser outro que Jesus, pois não havia nenhum mais.
24- O crime do Templo
Há homens nos que a vergonha se ceva além da tumba é
o primeiro autor da superstição judaica ...
FABIUS QUINTILIANUS, De institutione oratoria
Nos textos evangélicos aparece citado um documento que expõe
todo o problema referente à autenticidade do relato tradicional sobre
a crucificação de Jesus. Trata-se do texto da sentença
abreviada que figurava sobre a cruz, e que se atribui ao próprio
Pilatos. Coisa em si já bastante duvidosa, pois dificilmente imaginamos
ao procurador de Roma na Judéia fazendo o trabalho dos auxiliarii
e aplicando-se, inclusive de ser necessário com a língua fora,
em riscar sobre uma prancha de madeira o motivo da condenação
de um rebelde judeu, no que concorria além disso o agravante de ser
também um bandoleiro. Para este fim tinha a seus escribas, e seria
um deles o que se ocuparia do titulus legal.
A inautenticidade de tal texto vem sublinhada pelo fato de que os evangelhos
sinóticos e o do João não estão totalmente de
acordo sobre ele. Vejamos as variantes:
- Mateus: "Eis aqui ao rei dos judeus" (27, 37),
- Marcos: "O rei dos judeus" (15, 27),
- Lucas: "Este é o rei dos judeus" (23, 38,
- João: "Jesus de Nazaré, rei dos judeus" (19, 19).
Os evangelhos iniciais que chegaram até nós estão redigidos
em grego. Não é preciso ser um grande letrado para compreender
que, traduzidas ao latim, é impossível que essas quatro inscrições
diferentes dêem invariavelmente "I.N.R.I.".
Mas foi esse o texto que figurou na cabeça da cruz de Jesus? Isso
é algo perfeitamente duvidoso, porque:
- não é possível que Pilatos dissesse que Jesus era
originário de Nazaré, já que tal localidade não
existia naquela época, pois a criaram (trocando de nome a um lugar
dado, para satisfazer aos peregrinos iluminados) para o século VIII.
O texto latino da Vulgata de São Jerônimo, texto oficial da
igreja católica, tampouco o diz. Qualifica ao Jesus de nazareus,
quer dizer, de nazareno, ou, o que é o mesmo, "consagrado ao
Senhor", em hebreu nazir. As leis do nazareato estão precisadas
no Livro dos Números (6, 2);
- Por outra parte, Pilatos não pôde dar este qualificativo
ao Jesus, já que:
a) evidentemente, este não era um motivo de condenação
aos olhos da lei romana, era algo que não lhe podia reprovar ao Jesus;
b) Jesus jamais foi nazareno, ou não o era desde fazia já
bastante tempo, porque tal consagração lhe proibia beber vinho,
comer carne, aproximar-se das pessoas ritualmente impuras aos olhos da lei
judia, e, sobretudo, aproximar-se de um cadáver ou tocá-lo.
Coisas todas elas das que ele nunca se privou. Pelos citados motivos, e
com perdão dos místicos mais heterodoxos, Jesus não
foi jamais nazareno no curso de sua vida pública.
Por conseguinte, se não podia ter sido originário de Nazaré,
se não era nazareno, o texto da condenação atribuído
ao Pilatos é, pois, um texto mendaz. Os escribas anônimos dos
séculos IV e V, ao redigir, por ordem, uns evangelhos oportunistas,
colocaram este texto em substituição de um titulus real, mas
infamante, que justificava o que Jesus tivesse sido crucificado cabeça
acima, como os malfeitores e os escravos, e não cabeça abaixo,
como acontecia com os rebeldes, o que tivesse sido seu caso se só
lhe tivesse acusado de qualificar-se de "rei dos judeus".
Também é provável que a pancarta que acompanhava a
toda execução na cruz tivesse ido primeiro pendurada do pescoço
do condenado, quem a levaria assim do lugar de sua detenção
ao de sua execução. Seus braços estariam então
estendidos lateralmente e atados à madeira transversal, que repousava
sobre sua nuca à maneira de um jugo. Isso era tudo o que levava o
condenado, já que o poste vertical de tal cruz permanecia fincado
no chão, na convocação habitual das crucificações.
Esta formalidade legal justificava o que se dissesse que o desgraçado
"levou sua cruz", como precisam os autores antigos (Séneca,
Cicerón, Plutarco, etc.), mas é que se tinha em conta que
era impossível que o condenado carregasse com a totalidade, que representava
um peso de uns setenta quilogramas, às vezes depois inclusive de
uma terrível flagelação que minava suas últimas
forças (a maioria das vezes, e com o fim de evitar tal risco, esta
flagelação lhe infligia no lugar mesmo da crucificação).
Essa travessa ao que estavam atados os braços do futuro crucificado
impedia, além disso, qualquer intento de evasão, já
que não permitia uma fuga rápida pelas estreitas ruelas transversais,
embora lhe facilitasse tal fuga, e lhe dificultava deste modo o procurar
refúgio em alguma moradia amiga, dado que a abertura da porta não
permitia uma penetração fácil. Além disso, expor
ao condenado às injúrias, bofetadas, escarros, pedradas e
projeção de imundícies por parte de seus adversários
da véspera; e o mundo antigo não sabia o que era a piedade.
Voltando para os verdadeiros motivos da condenação de Jesus,
é evidente que estes foram muito numerosos. Está, sem dúvida,
o fato de que se dissesse "rei dos judeus", coisa que se acrescenta
às atividades zelotes e a seus habituais atos de violência,
aos pagamentos de um dízimo muito parecido a nosso moderno racket,
e inclusive ao banditismo puro e simples. Não condenemos aos zelotes
sem compreendê-los. Um guerrilheiro come também ao menos uma
vez ao dia, e o dinheiro foi sempre o nervo da guerra. E aqui vamos por
fim a abordar o estudo desse famoso crime, cometido no curso de uma rebelião
pelo misterioso Jesus-Barrabás, "bandoleiro famoso", encarcerado
com outros sediciosos (cf. Marcos, 15, 7).
Agora sabemos (veja o capítulo anterior) que Jesus e Barrabás
são um mesmo personagem. Não percamos, pois, nosso tempo epilogando
de novo este problema.
Quando nosso chefe zelote faz sua entrada triunfal em Jerusalém,
o famoso dia chamado "de Ramos", montado sobre um asno que caminhava
ao lado de sua mãe asna, o fato nos parece já suspeito. Com
efeito, a fim de não manchar a cidade Santa, cavalos, asnos, cães,
cordeiros, cabras, etc., não podiam circular por dentro dela. Não
esqueçamos que o verdadeiro nome da cidade se mantinha em segredo,
e não se podia pronunciar: Kedesha, "a Santa". Se dizia
simplesmente Ierushalaim (Jerusalém), do mesmo modo que se dizia
Adonai (Senhor), em lugar do nome impronunciável do Iaweh, que era
o tetragrama divino.
Portanto, os animais destinados ao sacrifício penetravam na cidade
pela porta do Norte, passavam por diante da cidadela Antonia e chegavam
assim rapidamente ao recinto de espera do interior do Templo. Mas passemos
por cima esses enganos de nossos copistas, e vejamos como os jovens judeus
aclamavam ao Jesus como o esperado libertador:
"Hosanna ao filho do David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosanna
nas alturas! ..." (Cf. Mateus, 21, 9). O escriba se confunde com aleluia
...
Porque hosanna não significa, nem muito menos, "louvado seja",
a não ser "nos libere", o que implica que nossos jovens
pertenciam, ao menos ideologicamente, à corrente dos zelotes. E isso
demonstra que o chamado episódio foi manipulado.
Então dispuseram diante de Jesus, pelo caminho, e à medida
que ele avançava, inumeráveis vestimentas, e as multidões
cortavam ramos de Palmas e de árvores diversos e as dispunham a seu
passo. Não é difícil imaginar que todo esse grupo que
acompanhava ao Jesus e que, desde Jericó, recebia a parte de aclamações
entusiastas que lhe correspondia, estava composto por partidários
da resistência judia contra Roma. Eram militantes zelotes...
Transcorreram alguns dias. Jesus fora detido, e outra multidão (mas,
que não era a mesma...) reclamou apaixonadamente ao procurador romano
que lhe dessem morte, por blasfemo e sacrílego.
O que era, então, o que tinha acontecido? A que veio semelhante mudança
de atitude?
Daniel-Rops, em Jesus em seu tempo, atribui-o à variabilidade popular.
Isto poderia ser certo no caso de uma multidão corrente, mas não
no de uma massa de seguidores com os olhos fixos -e com que violência!-
em uma ideologia muito precisa, elaborada dotrinalmente. Voltemos, pois,
aos evangelistas...
"(Jesus) Estando sentado em frente do gazolifácio, observava
como a multidão ia jogando moedas no tesouro, e muitos ricos jogavam
muitas... (Cf. Marcos, 12, 41).
E não ignora a existência do famoso "tesouro do Templo",
o Korban, alimentado tanto pelas doações como pelos depósitos
provisórios, já que numerosos judeus ricos preferiam confiar
sua fortuna a essa cidadela religiosa, antes que perdê-la em sua moradia
em mãos de malfeitores.
Além disso, o Templo abrigava o arsenal dos levitas encarregados
de sua defesa e da polícia de seus recintos: arcos, flechas, lanças,
escudos, espadas, fundas, etc., tudo estava ali. E terá que reconhecer
que o dinheiro e as armas constituem a riqueza essencial de todo movimento
revolucionário.
Indubitavelmente, nos dizem com freqüência que do que se tratava
era de expulsar o mercantilismo dos "mercados do Templo". Mas
por que atacou Jesus igualmente aos desafortunados peregrinos que, ao chegar
a Jerusalém e ver-se objeto de tal violência, não entenderam
absolutamente nada? Porque isso é o que aconteceu, se dermos crédito
aos evangelhos:
"Entrou Jesus no Templo e arrojou dali a quantos vendiam e compravam
nele, e derrubou as mesas dos cambistas e os assentos dos vendedores de
pombas..." (Mateus, 21, 12; Marcos, 11, 15; Lucas, 19, 45; João,
2, 13-17).
De fato, tudo estava já preparado, minuciosamente, com antecedência.
Jesus não atirou ele sozinho todas as bancas dos cambistas e derrubou
a todos os mercados que esperavam, na sala de espera, a venda de seus animais.
Porque não era dentro do Templo onde estavam expostos os animais,
pois semelhante coisa era impensável. Além disso, não
podiam prescindir desses fornecedores, porque sem eles, sem suas vendas,
faziam-se impossíveis as oferendas de sacrifícios. E se não
se tratava mais que de reprimir esses sacrifícios, não era
necessário agredir a esses desgraçados peregrinos que não
deveram compreender nada de tal escândalo. Fazia séculos e
séculos que a Lei judia era assim, e se terei que modificá-la,
o certo é que não tinha que sê-lo entregando-se a semelhantes
atos de violência.
Assim, esta briga fora organizada de antemão. E se desencadeou depois
de umas palavras de Jesus. A gente pode perguntar-se, tendo em conta tudo
o que antecede, se todo o dinheiro assim dispersado pelo chão, essas
peças de ouro e prata rodando a centenas daqui para lá, foram
recuperadas a seguir por seus proprietários legítimos. Porque
sabemos que o "tesoureiro" era um tal Judas Iscariotes (João,
13, 29), que roubava na bolsa quanto se metia nela (João, 12, 6),
porque "era ladrão" (id.), e mais tendo em conta que seu
nome significa "homem criminal". E apesar de todos esses inconvenientes,
Jesus o conserva como tesoureiro. Assombroso! Nesse ataque ao Templo, nesse
escândalo, o leitor reconhecerá facilmente a técnica
habitual dos trapaceiros modernos, extorquindo aos proprietários
dos salões noturnos, ou saqueando seus estabelecimentos se se mostrarem
recalcitrantes. Não há nada novo sob o sol.
Entretanto, é provável que o estrategista do Templo que estava
ao mando da tropa levítica, avisado dessa revolta a mão armada,
enviasse imediatamente um destacamento armado para restabelecer a ordem.
E que, paralelamente, da próxima cidadela Antonia, que dominava o
Templo, a centúria legionária "de dia", alertada
por suas vigias, fosse a cortar a retirada ao Jesus e a seus homens. E seria
assim como nosso Barrabás e alguns de seus cúmplices cairiam
em mãos dos romanos, e se veriam encarcerados por homicídio
cometido no curso de uma revolta, na cidade (cf. Marcos, 15, 7). Assim,
chegamos já à medula do problema que evoca o título
deste capítulo.
O grupo de exaltados e de homens dispostos a tudo que invadiu o Templo seguindo
ao Jesus ia armado com clavas, as armas elementares e clássicas de
todo o mundo árabe sempre. O próprio termo vem dessa língua:
matrak, com o mesmo significado.
Com toda probabilidade foram armados deste modo com a sicca, essa adaga
grande e curva que lhes deu nome (sicarii).
Vejamos os textos dos evangelhos:
Mateus: "... outros, cortando ramos de árvores, estendiam-nas
no meio-fio..." (op. cit., 21, 8).
Marcos: "... outros cortavam folhagem dos campos..." (op. cit.,
11, 8).
Lucas: este autor não fala de ramos, a não ser só das
vestimentas estendidas sobre o caminho.
João: este nos apresenta outra versão, indubitavelmente muito
mais verídica: "Ao dia seguinte, a numerosa multidão
que tinha vindo à festa, tendo ouvido que Jesus chegava a Jerusalém,
tomaram Ramos de palmeira e saíram a seu encontro gritando: Hosanna!"
(Op. cit., 12, 12-13).
Não era questão de cobrir o caminho do Jericó a Jerusalém,
já de por si bastante rudimentar, com ramos de árvores, que
não teriam feito a não ser entorpecer a marcha do jovem asno
sobre o que avançava Jesus. Mas na mão de seus seguidores
constituíam perfeitamente umas armas improvisadas, porque do sul
de Marrocos, em país bereber, até o sul da Tunicia, e em todo
o Oriente Médio, a arma mais estendida é um ramo de palmeira,
despojada de suas folhas, e que se apresenta sob o aspecto de uma clava
cujo extremo grosso pode medir de cinco a seis dedos de largura, e a extremidade
menor, a que se conserva na mão, uns dois dedos. A flexibilidade
de semelhante pau, que recorda um pouco a forma do pen-baz bretão,
ou inclusive do makila basco, faz dele uma temível arma contundente.
Agora bem, o texto inicial do João (2, 15) emprega o termo skoinion,
que significa sogas, para designar o molho de cordas com que Jesus teria
golpeado àqueles "que compravam e que vendiam".
Se observarmos que em grego se utiliza skoidion para traduzir um ramo de
árvore, é evidente que alguém pode perguntar-se se
sob o raspador perito e prudente dos ardilosos escribas anônimos do
século IV, a delta de skoidion não se converteria na inocente
NY de skoinion. Porque basta fazendo a parte superior da delta para obter
uma NY muito apresentável. Em uma palavra, Jesus teria ido armado
também ele, igual a seus seguidores, não de um simples molho
de cordas recolhido sobre o terreno, mas sim de um ramo de árvore,
de uma clava, atalho e preparado com vistas a esta manifestação
no seio do Templo. Recordemos algumas de suas palavras: "E quanto àqueles
inimigos meus que não quiseram que eu reinasse sobre eles, tragam-me
isso para cá e degolem em minha presença! E dito isto, seguiu
adiante, subindo para Jerusalém..." (Lucas, 19, 27-28).
"Eu vim jogar fogo na terra, e o que tenho que querer mas sim se acenda?..."
(Lucas, 12, 49).
"Porque vim a separa ao homem contra seu pai, e à filha contra
sua mãe, e à nora contra sua sogra, e os inimigos do homem
serão os de sua casa..." (Mateus, 10, 35-36).
"Não pensem que vim a pôr paz sobre a terra; não
vim pôr paz, a não ser espada..." (Mateus, 10, 34).
"E quem não tenha espada, venda seu manto e compre uma..."
(Lucas, 22, 36).
E isto é algo que desagradará a certos admiradores do famoso
Sermão da montanha que se limitam prudentemente aos versículos
20 a 23 do capítulo 6 do Lucas, omitindo, por prudência e astúcia,
as maldições que compõem, imediatamente depois, os
versículos 24 a 26. Porque terá que fazer desaparecer todo
rastro de Jesus zelote, que amaldiçoava violentamente a seus inimigos.
Voltemos agora para episódio do Templo. Jesus propinou golpes de
clava a inimigos e a mercados com os que se aprovisionavam. Teve mortos
e feridos, em proporção ao número de agressores e de
vítimas. E esse seria o "crime" que lhe faria perder Jesus
grande número de partidários, que inclusive às vezes
chegaram a somar-se ao número de seus adversários. Porque,
voltemo-lo para dizer, o grito de hosanna que clamam os jovens judeus a
sua chegada à Porta Dourada, procedente de Jericó, significa
"nos libere..." em hebreu. O que todos esperam, por conseguinte,
é que Jesus os leve a assalto da cidadela Antonia, onde se acha entrincheirada
a guarnição romana de Jerusalém, e que, mediante os
prodígios anunciados, expulse aos odiados ocupantes fora da Cidade
Santa. Em lugar disso o que faz é levá-los a atacar a seus
próprios correligionários, tanto aos comerciantes habituais
como aos piedosos peregrinos! E no próprio recinto do Templo, o lugar
mais sagrado de todos, o que constitui um sacrilégio mais!
Por pouco que nossos zelotes roubassem aos cambistas, ou inclusive fraturassem
aquelas escovas que tanto interessavam ao Jesus, essa juventude apaixonada,
mas idealista, descobriu que, em lugar de achar-se frente a um liberador,
o que tinham era a um simples guerrilheiro que atuava além como bandoleiro.
Porque esse assassinato atribuído ao hipotético Barrabás,
mas que sem lugar a dúvida foi obra de Jesus, encontra-se na filigrana
de nossos manuscritos gregos. E aqui temos a demonstração.
Em Marcos (15, 7) nos diz que Barrabás está encarcerado por
assassinato, e no manuscrito grego inicial esse termo vem dado pelo nome
de phonon, com o mesmo significado (crime, assassinato). Três versículos
mais longe nos inteiramos de que os chefes dos sacerdotes tinham entregue
Jesus ao Pilatos por inveja, quer dizer, por phtonon no grego do manuscrito
inicial. Entre phonon, que significa assassinato, e phtonon, que significa
inveja, há no grego cursivo uma similitude bastante incômoda.
Basta inserindo, depois da phi de phonon, uma simples theta, e então
se obtém phtonon, que significa inveja. E assim ficará apagado
todo rastro do crime sacrílego cometido por Jesus.
Começamos a compreender por que nossos documentos mais antigos do
cristianismo nos chegaram sempre, não em aramaico, a não ser
em grego. Porque é uma língua cuja grafia se dispõe
à muitos acertos, como pode constatar-se pelo que segue: É
evidente que esta comparação é particularmente demonstrativa,
já que o escândalo causado por essas pilhagens e esses assassinatos
foi tal, como verdadeiro sacrilégio que violava a Casa do Eterno,
que Jesus teve que fugir e ocultar-se na cidade durante perto de seis meses.
Aqui temos a prova.
No tomo II de seu Synopse des quatre Evangiles, R.P. Boismard, recolhendo
uma tese sustentada tempo atrás pelo cardeal Jean Daniélou,
estima que nós situamos a festa de Ramos em uma data muito diferente
da realidade histórica, ao colocá-la oito dias antes de Páscoa.
De fato, a entrada de Jesus sob as aclamações da juventude
judia desenvolveu-se seis meses antes, durante a festa dos Tabernáculos,
quer dizer, no outono precedente. Vejamos o que tem tudo isso.
Inicialmente, duas grandes festas marcavam o ano judeu: a da Primavera e
a do Outono, que se converteram uma na Páscoa judia (aniversário
da saída do Egito), e a outra na festa das Cabanas, ou festa das
Colheitas de uvas, convertida em festa dos Tabernáculos. A primeira
se desenvolvia invariavelmente durante a lua cheia do mês de Nisan,
a segunda durante os primeiros dias do mês de Tischri.
A Socoth, aliás festa dos Tabernáculos, que se observava desde
tempos muito remotos como uma festa da Natureza, implicava que os israelitas
viveram durante sete dias em tendas ou em cabanas, chamadas mais tarde tabernáculos.
Passaremos por cima o ritual das cerimônias próprias de Socoth,
para sublinhar seu significado messiânico. E aqui citaremos ao cardeal
Jean Daniélou em seu livro Os symboles chrétiens primitifs:
"A festa parece ter, efetivamente, uma relação muito
especial com as esperanças messiânicas. As origens dessa relação
são obscuras. Mas parece que a festa dos Tabernáculos estaria
ligada, ou com a festa anual da instauração real, ou, como
pensa Kraus, com a renovação da aliança com o rei davídico.
Os restos desintegrados desta festa seriam os que subsistiriam nas três
grandes festas judias do Tischri: Rosh-há-Shana, Kippur, e Sukkoth.
Esta festa teria adquirido no judaísmo um caráter messiânico,
quer dizer, que se relacionava com a espera do vindouro rei. Aqui não
se trata das primeiras origens da festa, que parecem ser uns ritos sazonais,
mas sim de uma transformação que sofrera na época real
e que teria introduzido nela elementos novos" (Op. cit., P. 11).
"Assim, para os judeus, a festividade dos Tabernáculos, onde
cada um comia e bebia com sua família em sua choça adornada
com ramos variados, apareciam como uma prefiguração dos gozos
materiais no reino messiânico. As esperanças messiânicas
alimentadas pela festa podem nos explicar que esta desse ocasião
a uma certa agitação política, e que os Padres da Igreja
punham aos cristãos especialmente em guarda contra ela" (Op.
cit., P. 13).
Sublinhamos algumas frases que no livro de João Daniélou não
aparecem sublinhadas, ao menos voluntariamente. Nós já demonstramos
que Jesus reconhecera ante Pilatos que reivindicara a realeza de Israel,
sem discussão possível, e que fora necessária sua captura
para que ele considerasse então que se equivocou e se visse na obrigação
de situar essa dignidade real no outro mundo. Agora provamos que participara
de uma agitação política comemorativa da instauração
da realeza em Israel, e que nessa circunstância se deixou aclamar
como rei liberador e como soberano, já que aparece sublinhada sua
qualidade de "filho de David". Pois bem, ele não desautorizou
essas manifestações de entusiasmo, essas aclamações
tão precisas, essa qualidade de "liberador", antes ao contrário,
prestou-se a elas complacente, ao subir de Jericó à Jerusalém
encabeçando seus partidários, depois de mencionar que teria
que degolar a todos aqueles que não o queriam reconhecer como rei.
(Cf. Lucas, 19, 11 a 27).
E então, como admitir nem por um momento que o procurador representante
de Roma na Judéia não se sentisse na obrigação
de castigar severamente, fosse qual fosse a simpatia que ele pudesse sentir
para o Jesus? Isto, evidentemente, não demorou para chegar, já
que o abade Laurentin, resumindo o texto de P. Boismard, diz-nos no periódico
O Figaro de 25 de maio de 1972:
"Quanto a sua entrada em Jerusalém (os Ramos) parece que teve
lugar muito antes do que dizem os evangelistas, durante a festa dos Tabernáculos
(par. 273., P. 333), de modo que Jesus teria passado seus últimos
dias em Jerusalém, não como um homem que ensinasse ainda com
êxito, mas sim como um proscrito que se oculta e que finalmente será
traído e entregue por um dos seus".
Aqui devemos particularizar. A festa dos Tabernáculos desenvolve-se
em setembro, e Jesus morreu na Páscoa, quer dizer, em abril; portanto,
encontrou-se proscrito durante seis meses, e se viu obrigado a ocultar-se
em Jerusalém, literalmente pego na armadilha, sem poder sair dela
durante todo este período. Se a gente recordar que Jesus se viu já
na obrigação de fugir quando estava em Fenícia, e que
logo, reconhecido pela mulher cananéia (Mateus, 15, 21-24), e não
podendo "seguir oculto ali" (sic) (Marcos, 7, 24-25), teve que
fugir de novo, e tentar despistar à polícia romana lançada
atrás dele, convirá que esta atitude resulta mais surpreendente
em um "Filho de Deus" vindo a oferecer-se em sacrifício
para aplacar a cólera de seu Pai. O leitor mais indulgente considerará
então que o "Filho de Deus" não tinha muita pressa
por assegurar a salvação da humanidade, já que, durante
todo esse tempo perdido, e segundo a dogmática cristã, esta
continuava condenando-se, dado que: "Os meninos que nascem e que morrem
sem receber o sacramento do batismo não podem salvar-se, já
que para eles, e segundo a ordem estabelecida por Deus na sociedade dos
homens, não existe outro meio que este para incorporar-se à
Jesus Cristo e receber sua graça, sem a qual não existe salvação
entre os filhos do Adão". (Cf. Tomás de Aquino, Suma
teológica, LXVIII, 3).
Esse caráter temeroso do pseudo-sacrifício voluntário
também está reconhecido em Daniel-Rops, já que nos
diz no Jesus em seu tempo:
"Ela explica também o deslocamento repentino de Jesus, desejoso
de passar à soberania mais benevolente do tetrarca Filipo, passando
ao outro lado do rio (o Jordão) para não permanecer mais tempo
em poder de Antipas, o assassino de São João Batista"
(Op. cit., P. 257, La mort du Précurseur). Veja-se o compreendemos!
E também como tudo resulta mais claro ao voltar-se mais humano...
Quanto ao lugar onde se oculta Jesus em Jerusalém durante seis longos
meses depois do ataque ao Templo (segundo opinião de Daniel-Rops
e de numerosos exegetas, houve dois ataques deste gênero), ignoramo-lo.
É pouco provável que se refugiasse em uma moradia amiga, porque
havia sempre a possibilidade de uma denúncia por parte de um vizinho
hostil, ou a quem lhe atraíra a recompensa oferecida. E uma fuga
assim implicava um percurso bastante longo pela cidade inflamada de rumores.
É mais provável que Jesus fugisse para a porta Norte (veja
o capítulo 27), e saísse da cidade em direção
ao que Flavio Josefo chama as "cavernas reais". A poucos passos
da atual porta de Damasco, sob a escarpada rocha coroada pela muralha da
cidade, observa-se uma pequena porta fechada; ali haveria antigamente as
pedreiras de Bezatha, de onde se extraíram em diversas épocas
os formosos blocos de pedra empregados nas construções do
Templo ou dos palácios asmoneos e herodianos. Essas pedreiras foram
inauguradas pelo rei Salomão. O arqueólogo Clément
Ganneau descobriu, do mesmo modo, um graffiti fenício naquele lugar.
No exterior, o orifício de entrada desemboca no fosso antigo da cidade.
Foi indubitavelmente nestes amplos subterrâneos onde tiveram lugar
aquelas assembléias secretas às quais fazem alusão
os Salmos de Salomão, no curso das quais tinham lugar orgias sexuais
de formas rituais que implicavam uma sobrevivência dos cultos à
Astarté e à Baal, tomados provavelmente das longínquas
tradicionais do tantrismo hindu. Remetemos ao leitor ao capítulo
20.
É pouco provável que os zelotes não conhecessem a existência
de tais pedreiras, quanto mais se se tem em conta que a tia de Jesus, Maria
II (aliás Mariamna II, aliás Cleopatra de Jerusalém),
não ignorava, como já vimos, essas mesmas tradições
orgiásticas, posto que as praticara no palácio de Herodes,
o Grande.
E, quando chegou o momento, foi ali de onde Jesus foi aos domínios
de Ierahmeel, nas Oliveiras, retiro que seu sobrinho Judas Iscariotes revelou
ao tribuno das coortes, governador da Antonio e chefe de armas de Jerusalém
(cf. Jesus ou o segredo mortal dos templários, página 274
e seguintes). Porque a lenda do jantar pascal em Jerusalém e logo,
imediatamente depois, a saída em direção às
Oliveiras, é inverossímil. As portas da cidade estavam fechadas
e vigiadas, patrulha romanas percorriam as ruas, porque a Páscoa
era um período de agitação messiânica; e, por
último, o Êxodo (12, 22) especifica-o de forma cortante: depois
da comida pascal estava proibido sair da moradia até a alvorada seguinte.
Todo judeu encontrado de noite pela cidade, seria suspeito e detido pelas
patrulhas.
25- A verdade sobre a Paixão
Que o juiz não empreste ouvidos aos vãos clamores da multidão.
Com muita freqüência deseja perdoar ao culpado e condenar ao
inocente... DIOCLECIANO, Axiomas jurídicos
Quando se lê nos evangelhos sinóticos o relato da Paixão
de Jesus, em especial tudo o que tem relação com a montagem
de escárnio que aconteceu à flagelação legal,
quando se for aos legionários romanos revestindo ao Jesus com uma
clámide escarlate, provavelmente tirada dentre as roupas velhas de
seu quartel, logo lhe pondo na mão um cano, a modo de cetro irrisório,
e por último coroando-o com uma coroa de espinhos; surpreende constatar
que, no evangelho de Lucas, esta frase, que entretanto é impressionante,
é totalmente ignorada por seu redator. Mas Lucas, de quem a Igreja
afirma que foi o autor de tal relato, ateve-se ao de seu Mestre, que foi
o apóstolo Paulo. Se este se achava em Jerusalém no ano 36
de nossa era, quando teve lugar a lapidação de Estêvão,
estudando a Thora aos pés de seu Mestre o rabban Gamaliel, devia
encontrar-se também nesta cidade no ano precedente, o 35, quando
se produziu a morte de Jesus. E, entretanto, não sabe nada dessa
exibição de escárnio. Que estranho!
Para a maioria dos historiadores conformistas, a historicidade deste episódio
não oferece nenhuma dúvida. E Daniel-Rops, em Jesus em seu
tempo, diz-nos o seguinte:
"Esse outro suplício, Pilatos não o tinha ordenado. Mas
a multidão humana é feroz com os vencidos, e o que pode esperar-se
de uma soldadesca desenfreada? Esses soldados eram sírios, beduínos,
mandados possivelmente por alguns oficiais romanos. Entregava-lhes um judeu
que não devia valer muito, já que o governador o tinha mandado
flagelar.
"Aqui é onde pode defender a hipótese de uma imitação
de costumes mais ou menos carnavalescos. Algum daqueles soldados poderia
achar-se em alguma guarnição de Alexandria ou da Mesopotâmia,
e ser ali testemunha de uma festa de origem estrita que se conhecia com
o nome de Sacaea: escolhia-se um rei de pantomina que, durante dois ou três
dias podia permitir-lhe tudo, incluído o utilizar às concubinas
reais, mas, ao final da festa, era despojado de suas vestimentas reais,
açoitado e enforcado.
"Em algumas legiões romanas, durante a festa das Saturnais,
escolhia-se ao acaso um soldado como "rei Saturno", e, depois
de inumeráveis episódios de desenfreados bacanais, lhe dava
morte". (Cf. Daniel-Rops, Jesus em seu tempo, X).
Observemos que para o próprio Daniel-Rops os elementos deste relato
parecem incertos, emprega o termo de hipótese, que pode defender-se,
embora Pilatos não tivesse ordenado esse inesperado suplemento da
flagelação legal. Na opinião do abade Loisy, que foi
professor de hebreu no Institut Catholique de Paris, professor de Sagradas
Escrituras, e logo professor de história das religiões no
Collège de France (1857-1940), tudo isto não se tem em pé:
"Não há nem necessidade de assinalar que semelhante procedimento
se ajustava muito pouco aos hábitos da justiça romana, ao
caráter de Pilatos e à verossimilhança do caso! Para
o evangelista isso não era a não ser um meio de alargar o
drama e de acentuar o crime dos judeus". (Cf. A. Loisy, O quatrième
évangile, Jean, XIX, 2-5, comentário).
E é exato até não poder mais. O direito romano, que
subsiste ainda em bom número de nossos textos legislativos europeus,
era absoluto. Não havia fantasia alguma na aplicação
das penas, tudo estava previsto, catalogado, considerado. Unicamente, coisa
que Daniel-Rops ignora ou finge ignorar, é que o costume pedia que
todo acusado, fosse qual fosse sua classe social, no momento de comparecer
ante seus juízes, despojasse-se de suas vestimentas habituais e se
revestisse de outras ignominiosas, proporcionadas pela prisão. Isto
se fazia com o fim de incitar aos juízes à piedade, assim
para refrear a altivez de certos detidos cuja origem ou riqueza podiam voltar
insolentes. Esse foi o caso de Jesus, e lhe fez despir, como a todo mundo.
Porque, à volta de casa de Herodes Antipas, vestem-lhe com as roupas
"deslumbrantes" que este lhe fez ficar, em lugar de suas vestimentas
feitas de farrapos no curso do combate das Oliveiras. Pois bem, estas roupagens,
segundo os exegetas, consistiam em uma túnica branca, idêntica
a que revestiam os tribunos das coortes antes do combate, ou os candidatos
que aspiravam em Roma a um elevado cargo público. Em função
de dito uso legal, despojou-se Jesus de suas aduladoras roupas e lhe fazer
vestir roupas infamantes. Coisa que se fez, mas muito antes do comparecimento
ante o procurador, e muito antes da flagelação que lhe seguiu.
E essas roupagens a seguir lhe foram restituídas legalmente, já
que são estes mesmos, tecidos sem costura (João, 19, 23),
e portanto de máximo luxo, os que os soldados romanos que atuaram
de verdugos jogaram às tais quando teve lugar a crucificação.
(op. Cit.) Tudo isto desmente o episódio da exibição
de brincadeira. Não era absolutamente legal, já que o direito
romano não deixava nada à fantasia dos verdugos. O juiz era
o único que decidia sobre tal ou qual pena, o instante de sua aplicação,
e o de sua suspensão. Fica essas aparentes referências históricas
às quais se remete Daniel-Rops para justificar a identificação
de Jesus com um "rei de Carnaval".
É real o fato de que, entre os escitas, houvesse soberanos efêmeros
sacrificados tal como se disse. Mas Roma não dominava aquelas regiões,
já que rapidamente fizesse desaparecer semelhantes sacrifícios
humanos, ela que os tinha extirpado sem piedade nas Galias druídicas,
e em todos os lugares onde plantava as insígnias de suas legiões.
Recordemos que ao pai de Tertuliano, que era centurião legionário,
um dia lhe encarregou como exactor mortis que fizesse crucificar a todos
os sacerdotes de Cartago culpados de ter prosseguido clandestinamente com
os sacrifícios humanos habituais dedicados ao deus Moloch.
O fato de que as legiões romanas designasse, durante a festa das
Saturnais, um deus efêmero para o tempo que durasse a festa, não
implicava que seus camaradas tivessem o direito de sacrificá-lo a
seguir. É preciso não conhecer absolutamente nada da implacável
disciplina existente naquelas regiões, para admitir, embora só
seja um instante, a hipótese de tal crime ritual, assim tolerado
pelos tribunos das coortes e seus centuriões. Durante as Saturnais,
em Roma (primeiro durante um dia, logo durante três, mais tarde quatro,
logo cinco e por último sete dias), ficava perturbado o ritmo habitual
da sociedade, os escravos recebiam o mesmo trato que os amos, e alguns inclusive
chegavam a abusar disso, sem que a seguir lhes pudesse castigar. Por conseguinte,
como imaginar semelhantes assassinatos no seio das legiões romanas?
É indubitável que em Roma havia também um Saturnalicius
princeps, análogo ao "rei Saturno" dos soldados, que encabeçava
todas essas licenciosidades um pouco à maneira do rei Carnaval da
cidade de Niza. Mas nem ali nem em Roma se dava morte a ser humano algum.
E é preciso remontar-se às épocas mais longínquas
para encontrar nos velhos cultos mediterrâneos o sacrifício
desse efêmero soberano, suposta encarnação do deus,
cujo sangue derramado asseguraria a fertilidade da Terra.
Por certo que Tácito nos conta que Nero, quando era ainda um adolescente,
foi designado pela sorte como "rei Saturno" no curso dessas mesmas
festas Saturnais, e é evidente que a ninguém lhe ocorreu a
idéia de sacrificá-lo. (cf. Tácito, Annales, XIII,
XV).
Nada disso existia, pois, na época de Jesus, e não temos nenhuma
referência sobre essas misteriosas legiões romanas nas quais
um soldado se enfrentasse com o fato de ter que ser executado com ocasião
da celebração das Saturnais. E possuímos a lista completa
de tais unidades, assim como suas localizações históricas
em tal ou qual época. Como imaginar, então, que algumas delas
houvessem possuído o privilégio de levar a cabo assassinatos
rituais, se todos estes estavam proibidos em todo o Império, sob
pena de morte? Por último, as Saturnais tinham lugar a partir de
17 de dezembro; na época de Jesus duravam três dias, por isso
finalizaram na noite de 19. Simbolizavam o retorno ao caos primitivo, já
que a partir do 20 ou de 21 de dezembro, data média do solstício
de inverno, o sol ao remontar-se sobre a eclíptica anunciava uma
nova era anual. Mas Jesus foi crucificado no mês de Nisán,
que cobre a lunação da Páscoa judia, e se situa entre
21 de março e 21 de abril. Estamos, pois, muito longe das Saturnais.
De modo que a hipótese de Daniel-Rops de que Jesus foi assimilado
a um "rei de Carnaval" e sofresse, a dito título, os vexames
dos legionários, carece de fundamento.
Então, em que época se imaginou toda essa sádica montagem
teatral? Indubitavelmente em época bastante tardia, já que
as Ata Pilati, célebre apócrifo copto, não o conhecem,
mas o Evangelho de Pedro, em troca, apresenta-nos isso sob outra forma,
fora do pretório e fora de Antonia, e desta vez é a multidão
que submete Jesus à maus entendimentos e lhe impõe a coroa
de espinhos. Como se vê, todos esses relatos estão longe de
concordar e abundam as contradições. Vejamos esta passagem:
"E ele (Pilatos) entregou-o ao povo a véspera dos Ázimos,
sua festa. E estes, depois de ter tomado ao Senhor, empurravam-no correndo,
e diziam: 'Arrastamos ao filho de Deus, já que está em nosso
poder'..." (Cf. Evangelho do Pedro, 7).
Em realidade, provavelmente o fato de impor ao Jesus as vestimentas infamantes
de comparação ante os juízes, costume habitual e legal,
e que, por pura casualidade, resultou ser uma velha clámide militar
usada, seria o que desencadeou o processo de elaboração da
lenda, e cada qual contribuiu algo à ela. Por outra parte, em seu
livro Théologie du judéo-christianisme, o cardeal Jean Daniélou
nos diz o seguinte:
"A Epístola ao Bernabé contém uma série
de entrevistas que parecem vir de um midrash cristão sobre o Levítico
e os Números. Os ritos judeus estão descritos neles de forma
que ponham em relevo os pontos de contato com o cristianismo..." (Cf.
Jean Daniélou, Epístola ao Bernabé, III, midrash chrétiens,
P. 112).
Os midrashim (plural de midrash) são paráfrase de textos do
Antigo Testamento, ligeiramente diferentes a estes últimos e redigidos
pelos doutores da Lei de forma mais clara que os textos iniciais, de modo
que se pudessem suprimir os inevitáveis comentários. Incluem
bom número de ensinos preciosos sobre as tradições
rituais judaicas, tradições que sem eles nós ignoraríamos.
E o exame desses midrashim, no que concerne a todo o ritual da vítima
propiciatória descrito em Levítico (capítulos 4, 9,
10 e 16), demonstra-nos que o episódio da velha túnica escarlate
imposta ao Jesus quando teve que comparecer, e em função do
uso legal romano, foi o que desencadeou o processo de criação
da lenda da paixão. Julgue-se:
"O que diz o Senhor em casa do Profeta? Que comam do macho caibro devotado
no Dia do Jejum por todos os pecados. E tenham isto em conta: que todos
os sacerdotes, e só eles, comam as vísceras não lavadas
com vinagre". (Epístola do Bernabé, VII, 4).
Eis aí a origem da esponja e do vinagre ...
Desde aí procede deste modo o tema (ignorado por Jesus) da ingestão
de sua própria carne sob as formas eucarísticas, ao ser ele
a vítima propiciatória por excelência, sacrificada por
todos os pecados do mundo. Continuemos:
"Prestem atenção ao que está prescrito: Tomem
os machos caibros, formosos e semelhantes, e ofereçam. Que o sacerdote
tome um para o holocausto pelos pecados. Quanto ao outro, o que farão
dele? O outro, conforme está escrito, está maldito. Cuspam
todos sobre ele, ferroem, coroem sua cabeça com lã escarlate,
e que seja assim expulso ao deserto". (Epístola de Bernabé,
VII, 6-8).
"Quando todo isso se executou, que quem se leve a macho caibro o conduza
para o deserto, tire-lhe a lã, que porá sobre uma sarça".(Epístola
do Bernabé, VII, 8).
É evidente que todo isso sugeriu aos escribas cristãos um
bom número de imagens análogas. Como Jesus já estava
prefigurado pelo carneiro pelo que Abraham substitui a seu filho Isaac quando
o sacrifício deste, e este carneiro tinha os chifres enganchados
em umas sarças, podia continuá-la composição
dessa cena imaginária que é a Paixão. A clámide
escarlate (o escarlate, no simbolismo judaico, era a imagem do pecado) permitiu
identificar ao Jesus com a vítima propiciatória, a que se
coroava com uma lã escarlate que representava os pecados do povo
de Israel. O arbusto de sarças sobre a que o encarregado enganchava
a citada lã escarlate sugeriu a idéia de uma coroa de espinhos,
ao que seguiu a esponja embebida de vinagre.
Muito mais tarde, Melitón, bispo de Sardes, em Lídia (morto
por volta do ano 195), redigiria uma Homilia sobre a Paixão, em que
declarou audazmente: "Você (Deus) puseste o escarlate sobre seu
corpo, e o espinho sobre sua cabeça..." (Cf. Melitón
de Sardes, Homilia sobre a Paixão, XIII, 3-4).
Tanto mais que em Roma, além dos farrapos legais, os detidos compareciam
com a cabeça rodeada por duas cintas, uma branca e o outra escarlate,
a primeira (velamenta) como presunção de inocência,
a segunda (infulae) de culpabilidade (cf. Tácito, Histórias,
III, XXXI). É muito possível que este costume legal fora observado
durante o processo de Jesus ante um procurador romano. E isto não
o ignoravam os escribas anônimos dos séculos IV e V. E tiraram
bom partido disso.
A psicanálise moderna permitirá captar facilmente o processo
pelo qual se criou a lenda da Paixão de Jesus a partir de um fato
corriqueiro, e o humilde legionário que lhe fez revestir uma velha
túnica regulamentar em desuso não podia imaginar que ia assegurar,
durante séculos, um imenso e frutífero comércio, o
das efígies, quadros, gravados, etc., representando uma série
de feitos totalmente imaginários.
Sem dúvida nos apresentará como objeção as "visões"
da irmã Anne-Catherine Emmerich. Mas além de que visse o Pilatos
a cavalo, em cortejo (devia confundi-lo com o centurião da semana!)
e que ignora ao Simão de Cirene, pois Jesus levava ele mesmo a cruz,
também esteve na Lua. Muito antes que os astronautas, evidentemente.
E ali encontrou aos habitantes desta, que são temerosos, tímidos,
vivem em cavernas e não rendem nenhum culto a Deus, o que a seus
olhos não está bem, claro. (cf. Sex de Catherine Emmerich,
III, 15 a 18). Não riamos, leitor! Quando os primeiros foguetes soviéticos
chegaram a nosso satélite, um douto cônego, diretor do Osservatore
Romano dominical, declarou gravemente no curso de uma conferência
de imprensa e a um grupo de jornalistas italianos assombrados, que quando
chegássemos à Lua exporíamos o problema de saber se
seus habitantes "teriam conservado a graça quando Adão
a perdeu, ou se, pelo contrário, perderiam-na ao mesmo tempo que
ele" (sic). Semelhante candura não precisa de comentários,
evidentemente.
Como é natural, possuímos todas as relíquias da Paixão,
fragmentos da túnica escarlate, cano, coroa de espinhos, não
faltam mais que os cuspes da soldadesca. Acrescentemos à Santa Face,
os pregos, a cruz, a pancarta, a lança, a esponja, os tecidos, e
inclusive a escada do pretório, que agora se acha em São João
de Letrán. O leitor que se interesse pelo estudo da ingenuidade humana
encontrará tudo isso em Des reliques et cde leur bon usage, de Patrice
Boussel, conservador na Bibliothèque historique da Ville de Paris
(Paris, 1971, Balland éd.).
Vejamos agora a verdade, leitor, e não se parece em nada à
lenda.
E, em primeiro lugar, o que é essa coroa de espinhos que pusseram
em Jesus os legionários romanos, lhe acrescentando assim sofrimentos,
e em sinal de brincadeira frente a suas pretensões reais?
Ao princípio houve a seu respeito um silêncio de quatro séculos,
ninguém falava dela, e os historiadores não encontraram seu
rastro até as afirmações de São Paulino, bispo
de Nole, na Companhia, em documentos do século V. Cem anos mais tarde,
Gregorio de Tours nos afirma que os espinhos têm fama de permanecer
sempre verdes, e Saint Germain, à volta de uma peregrinação
à Jerusalém, diz-se que recebeu do imperador Justiniano um
desses espinhos, que ele depositou piedosamente nas arcas da igreja Saint-Vincent-et-Sainte-Croix,
que logo se converteria em Saint-Germain-des-Prés.
Se se der crédito à tradição, Carlos Magno seria
recompensado com um certo número delas pela imperatriz Irene, ou
pelo então patriarca de Jerusalém. Não se puseram de
acordo. Onde o problema se converte em mistério é em 1239,
quando chega a coroa a Paris, quase totalmente intacta. O mistério
se acrescentará quando constatarmos que, na mesma época, Ruhault
do Fleury nos afirma que os habitantes da cidade de Pisa, na Itália,
fizeram construir a igreja de Santa-maria-della-spina para abrigar nela
duas partes dessa coroa. Porque 1239 é precisamente o ano em que
Luis IX, aliás são Luis, mandará construir a Sainte-Chapelle,
para albergar dito objeto, que uns ardilosos venezianos venderam a bom preço.
Esse rei era um ingênuo e um fanático. Foi ele quem decidiu
que a partir de então se atravessasse a língua dos blasfemos
com um ferro ao vermelho vivo (incluindo entre eles aos hereges e aos judeus,
claro está), e que se queimasse vivo, com a Thora enrolada ao redor
do peito nu, aos rabinos que se negassem a admitir a divindade de Jesus.
Luis IX, filho de uma mãe particularmente fanática, dona Branca
da Castilla, levava em suas veias sangue espanhol, o que explica muitas
coisas. É óbvio que jamais se analisaram tais espinhos, não
se sabe sequer se estiveram alguma vez ensangüentadas; jamais se procurou
com o carbono 14 a época de sua aparição no mundo vegetal.
Esse tipo de experimentos quase nunca os autorizam.
Hoje que os espinhos estão dispostos prudentemente por toda a Europa
cristã, a relíquia já não se apresenta mais
que sob o aspecto de seu suporte de círculos de junco, o Juncus balticus
dos botânicos, trancados e atados uns aos outros por uma quinzena
de ligamentos. Esse suporte permitiria aos legionários romanos enrolar
nele os ramos espinhosos propriamente ditos, feitos com o Rhamus spina christi
dos arqueólogos cristãos. Essa planta é muito comum
na Judéia. Daniel-Rops se pergunta se Jesus a levava ainda na cruz.
Antes de resolver esta questão, expõe outras, mais molestas.
Basta relendo o que todos os autores antigos sublinharam no referente à
disciplina no seio das legiões, a perfeita harmonia e a total limpeza
dos acampamentos, embora estivessem montados rapidamente de noite, depois
de uma etapa fatigante, para imaginar o que devia ser a cidadela Antonia,
onde residiam seis centúrias de veteranos, um tribuno das coortes
com classe de cônsul e que exercia as funções de chefe
de armas de Jerusalém, para negar-se a admitir que se tolerou nem
por um só instante a presença de matagais espinhosos e matas
de juncos no pátio de dita cidadela. Então, onde se teriam
procurado os legionários ditos juncos e espinheiros? Os fossos, por
prudência, estavam cuidadosamente desprovidos de toda vegetação
que pudesse mascarar ao inimigo, e Herodes, o Grande tinha mandado revestir
as muralhas exteriores com placas de mármore branco, com o fim de
impedir qualquer escalada, conforme nos diz Flavio Josefo.
Por outra parte, essas pontas agudas vegetais têm uns oito centímetros
de longitude; enrolá-los ao redor da coroa de junco representaria
indevidamente que o encarregado sofresse feridas nas mãos, já
que os legionários romanos não dispunham absolutamente de
luvas de ferro que lhes protegessem. E, uma vez mais, por que prodígio
todos esses acessórios de uma "paixão" absolutamente
ilegal puderam ser recolhidos pelos discípulos, todos eles zelotes,
procurados por Roma? Ainda mais quando umas leis muito severas castigavam,
inclusive com a pena de morte, a quem quer que se procurasse elementos materiais
que tivessem formado parte de uma execução capital ou uma
inumação: sangue do justiçado, restos corporais, ossos,
pregos de cruz, etc., em vista a posteriores operações mágicas.
Pois bem, uma vez mais, nós possuímos milagrosamente todos
esses objetos.
No mundo antigo era costume crucificar ou empalar ao condenado com a prova
material do delito que lhe reprovava, quando isso era possível, ou
com as insígnias de sua função ou de sua classe social.
Assim por exemplo, quando Nabucodonosor, rei de Babilônia, saca os
olhos ao Sedecías, rei da Judéia (quem já tem a mandíbula
perfurada com um anel soldado a uma cadeia que sustenta Nabucodonosor),
com um ferro de lança ao vermelho vivo, Sedecías leva ainda
a tiara real.
Este costume conheciam os romanos. No ano 69 de nossa era, a cidade de Terracina,
na Itália, que se rebelara contra Vitelio César, foi entregue
por um escravo que pertencia a um tal Vergilio Capito. Como recompensa,
Vitelio lhe concedeu ao escravo o anel de ouro que fazia dele um cavaleiro
romano. Quando este imperador foi tombado, e logo assassinado pelos partidários
do Romaciano, o escravo que tinha traído a seu amo e que tinha entregue
a cidade de Terracina, foi crucificado, mas levando no dedo o anel de ouro
da ordem eqüestre com o que Vitelio o tinha honrado tão escandalosamente
(cf. Tácito, Histórias, III, LXXII e IV, III). Esta forma
legal não tinha por objeto honrar ao condenado, a não ser
sublinhar a força do poder que lhe podia dar a morte, e a importância
da cerimônia capital.
Esse foi, sem lugar a dúvida, o caso de Jesus. Estava condenado a
morte por Roma por haver-se proclamado rei de Israel e havê-lo reconhecido
ante Pilatos. Não há nada de surpreendente, portanto, no fato
de que Jesus levasse a coroa real durante todo o cerimonial de sua execução.
Mas, perguntarão, de onde saía essa coroa desconhecida? Observaremos
que esse símbolo da realeza antiga não se apresentava sob
o aspecto das pesadas coroas européias que conhecemos da Idade Média.
Em todo o Oriente Médio se trata, simplesmente, da coroa chamada
"radiada", composta por uma estreita banda que rodeava a cabeça
e de onde brotavam, como raios (de onde seu nome), umas pontas que se abriam
para fora. Encontra-se nas moedas de Antíoco Epífano, rei
de Síria, e ainda era utilizada nos primeiros séculos de nossa
era pelos reyezuelos dessas regiões. Essa foi, como é natural,
a coroa dos reis de Judá e de Israel.
O ouro da coroa principal, a das consagrações e as cerimônias
grandiosas, fazia dela, tendo em conta sua densidade, um ornamento muito
pesado. Aliviava-se, portanto, a banda de suporte e o número de pontas.
E para as cerimônias cotidianas se utilizava uma coroa de cobre, que
era uma réplica exata da coroa de ouro oficial. Uma coroa de cobre,
de forma um pouco diferente, foi descoberta no deserto de Judá, procedente
sem dúvida do tesouro de Engaddi. Esse tipo de coroa tinha a vantagem
de que era muito mais leve, já que como a densidade do cobre é
de 8,92, e a do ouro de 19, 3, o peso era de menos da metade. Além
disso, como esse metal era muito comum, apenas se corria o risco de tentar
aos ladrões, e sua cor, uma vez batido as asas com o estanho, dava-lhe
uma aparência muito próxima ao ouro, e o aliviava um pouco
mais. Possuiu Jesus uma coroa desse tipo e dessa natureza? Provavelmente.
Faz alusão a ela em seu Apocalipse, que redigiu em vida como já
demonstramos. Assim lemos isto: "Vi, no meio do trono e dos outros
seres viventes, e em meio dos anciões, um cordeiro que estava ali
como imolado. Tinha sete chifres e sete olhos... (Cf. Apocalipse, 5, 6).
A versão de Lemaistre de Sacy precisa que o cordeiro estava de pé
e como degolado. E isto é uma prova mais de que o Apocalipse foi
redigido em vida de Jesus. Esse texto não inclui nenhuma alusão
à crucificação, a maior parte dos manuscritos falam
de uma degolação, e o cordeiro está de pé. Agora
bem, Jesus sabia perfeitamente que pereceria em mão dos romanos.
Mas não supôs nem por um instante que seria na cruz da infâmia,
reservada aos criminosos comuns e aos escravos rebeldes. Acreditava que
figuraria no desfile triunfal de seu vencedor em Roma, onde ele apareceria
coroado, para logo, segundo o costume, ser degolado como aconteceu com seus
trágicos predecessores. A alusão aos sete chifres (o corno
era símbolo de poder) e aos sete olhos era simplesmente uma alusão
às sete pontas da coroa "radiada" e às pérolas
ou às gemas que a terminavam. Que Jesus possuísse uma coroa
de cobre entre seus efeitos pessoais não é, em si, nada estranho.
Sua avó Ana, mãe de sua mãe Maria, possuía seu
próprio diadema real, se dermos crédito ao Protoevangelio
de Santiago: "Ana se lamentava duplamente, dizendo: 'Chorarei minha
viuvez e minha esterilidade'. Mas eis aqui o que aconteceu o dia do Senhor;
Judith, sua faxineira, disse-lhe: Até quando afligirá sua
alma? chegou o dia do Senhor (o sabbat), e não se permite lamentar.
Vamos, toma esse diadema que me deu a ama de serviço e que não
me permite rodear, porque eu sou uma faxineira, e é uma banda real"
(Abade. E. Amann, Protoevangelio de Santiago, II, 2).
Esse tradutor observa com toda justiça que o termo grego utilizado
no manuscrito é kephalodesmion, que designa muito exatamente diadema
no sentido etimológico da palavra, quer dizer, "a banda mais
ou menos adornada que serve para prender os cabelos e que, fixada na parte
baixa da tiara persa, converte-se em um ornamento real. Não sem intenção,
o autor faz que se proponha este adorno à mulher de Joaquim. Quer
fazer pensar muito discretamente na dignidade de Ana; só ela pode
levar tal cinta, pois só a filha dos reis é digna dela".
(Op. cit., Comentário do abade E. Amann, tradutor do Protoevangelio).
E a coroa de cobre dos reis de Judá podia muito bem encontrar-se
já na Antonia, com as vestimentas sagradas, a tiara e a roupa do
pontífice de Israel, como nos conta Flavio Josefo: (Antigüidades
judaicas, XX, I, 1 a 6).
Além disso, os filhos de David reivindicavam também o poder
pontifício. Em Eusebio da Cesaréia lemos o seguinte: "Também
João, aquele que repousou sobre o peito do Senhor e que foi sacerdote
(em hebreu cohen), e que levou o petalon, que foi didáscalo e mártir..."
(cf. Eusebio da Cesaréia, História eclesiástica, VII,
XIX).
O petalon era uma insígnia pontifícia, própria do supremo
sacerdote de Israel. Está descrito no Êxodo (28, 36-38) como
uma lâmina de ouro que levava a inscrição "Consagrado
ao Yavé" e que estava fixado sobre a tiara do pontífice.
Por outra parte, e sempre em Eusebio, descobrimos um detalhe bastante importante:
"Também o trono de Santiago, daquele que foi o primeiro em receber
do Salvador e dos apóstolos, o episcopado da Igreja de Jerusalém,
e ao que as divinas Escrituras designam em geral como o irmão de
Cristo, conservou-se até a atualidade". (Cf. Eusebio da Cesaréia,
História eclesiástica, VII, XIX).
Agora bem, os tronos episcopais não aparecerão, sob o aspecto
de cadeiras de pedra ou de mármore, até que os cristãos
possuam basílicas, quer dizer, no século IV. Esse trono, que
na opinião dos exegetas e dos arqueólogos devia ser de madeira,
e quase com toda segurança de cedro, era um sinal de autoridade de
Santiago, irmão de Jesus, e essa autoridade era temporária,
já que João possuía a autoridade espiritual (o petalon).
Era, portanto, um trono real, e não uma cadeira episcopal, desconhecida
naquela época. E então, por que os filhos de David não
foram possuir uma coroa, se existia entre eles um trono, e sua avó
Ana levava às vezes, nos dias de grande solenidade, um diadema real?
Assim, é mais que provável que Jesus fora crucificado meio
doido com essa coroa de cobre. A coroa de ouro terá que exclui-la,
já que seria confiscada, tendo em conta seu valor, e logo enviada
ao Tibério, e seu peso teria dissuadido aos zelotes de conservá-la
permanentemente no curso de seus movimentos e campanhas.
Jesus devia levá-la habitualmente, e este ornamento era o que fazia
que as pessoas o reconhecessem como o "Filho de David".
Ocultou-se este detalhe pelo que se imaginou, muito mais tarde, a coroa
de espinhos, cuja morfologia se adaptava perfeitamente a de coroa "radiada"
e aos sete chifres do cordeiro vencedor descrito no Apocalipse.
É conveniente observar, por certo, que unicamente Mateus (27, 29),
Marcos (15, 17), e João (19, 2 e 5) conhecem o episódio da
coroa de espinhos, em troca Lucas o ignora por completo. Segundo os três
primeiros, impuseram-na à Jesus no pretório, no seio da cidadela
Antonia, enquanto que segundo o Evangelho de Pedro (6 e 7), foi a multidão
hostil a que lhe coroou com ela, no caminho para o Gólgota, fora
da fortaleza. Pelo contrário, nas Ata Pilati foi no instante da crucificação
quando Jesus recebeu essa dolorosa diadema: "Depois destas coisas,
Jesus saiu do pretório com os dois ladrões. Quando chegou
ao lugar designado, lhe despojou de suas vestimentas, lhe rodeou um linteum,
e se colocou sobre sua cabeça uma coroa de espinhos. De maneira similar
foram crucificados os dois ladrões, Dimas a sua direita e Cestas
a sua esquerda". (Op. cit., X).
Este velho apócrifo copto é o que mais se aproxima da verdade
histórica; quando se acabava de cravar o titulus que indicava que
se tratava de Jesus rei dos judeus" (cf. Mateus, 27, 37), pôs
ao condenado a coroa de cobre, da que provavelmente se deram procuração
durante o local dos domínios de Ierahmeel, depois do combate das
Oliveiras. Tal costume se perpetuou durante muito tempo ainda, já
que mais de treze séculos mais tarde, em 10 de junho de 1358, quando
se teve vencido a Jacquerie, Carlos, o Mau, fez coroar a seu chefe, Guillermo
Calot, com um aro de ferro, previamente avermelhado ao vermelho vivo, antes
de fazê-lo decapitar. E é que Guillermo Calot fora proclamado
"rei dos Jacques" ao princípio da insurreição.
Esta coroa de sete pontas adornadas com gemas é, por outra parte,
um símbolo clássico do reino de Deus sobre o universo criado,
como sublinham as orações judias cotidianas com sua permanente
alusão a tal realeza: "Seja louvado, Yavé nosso Deus,
rei do Universo, Você que... etcétera". Aparece com freqüência
representada na ornamentação litúrgica do judaísmo
tradicional. Possuímos um pequeno relicário de ferro forjado
descoberto por um de nossos amigos em Valência (Espanha), e nele domina
a abertura de dois portinhas que descobrem um pergaminho aonde está
transcrito ritualmente o nome divino Shadai, quer dizer, "Todo-poderoso".
De fato, as sete pontas ou corno da coroa radiada se referem esotericamente
aos sete Sephiroth inferiores: Geburah (o Rigor), Hoesed (a Misericórdia),
Tipheret (a Beleza), Netzah (a Glória), Hod (a Vitória), Iesod
(o Fundamento), Malkuth (o Reino). Constituem o Microprosopio ou "Pequeno
Rosto", o "Casal Inferior" da Cabala judia tradicional.
Esse nome de "coroa" é deste modo o da Sephirah suprema,
chamada em hebreu Kether, ou "Soleira da Eternidade". As sete
gemas ou pérolas que coroam as pontas figuram os sete Espíritos
ante o Trono (cf. Apocalipse, 4, 5), e os sete arcanjos clássicos:
Miguel (o Sol), Gabriel (a Lua), Anael (Vênus), Rafael (Mercúrio),
Zaquiel (Júpiter), Orifiel (Saturno), Samael (Marte). No ritmo quaternário,
relativo aos arcanjos dos outros elementos, estão Miguel, Gabriel,
Rafael, Uriel.
Ao reivindicar esta coroa, Jesus pretendia substituir ao Metatron-saar-ha-Panim
(o "Príncipe dos Rostos" de Deus), aliás Saar-ha-Olam
(o "Príncipe do Mundo"), ou Saar-ha-Gadol (o "Grande
Príncipe"), a quem também lhe dá o nome de Miguel
("Semelhante a Deus"), chamado na profecia do Daniel: "Naqueles
tempos se levantará Miguel, o Grande Príncipe, protetor dos
filhos de nosso povo...". (Cf. Daniel, 12, 1).
Neste caso, como podia permitir-se Jesus, sem cair em uma heresia blasfematória
indiscutível, rechaçar a esse Grande Príncipe, protetor
de Israel segundo a vontade divina, e reduzi-lo à classe de poder
demoníaco, no evangelho do João?:
"Agora o Príncipe deste Mundo será arrojado fora..."
(Cf. João, 12, 31).
"Porque vem o Príncipe do Mundo, que em mim não tem nada..."
(Cf. João, 14, 30).
"O Príncipe deste Mundo já está julgado ..."
(Cf. João, 16, 11).
Depois disto, à Igreja ainda lhe ocorrerá constituir uma Archicofradia
de San Miguel, cuja sede se acha precisamente no famoso monte de dito nome
(Mont Saint-Michel), a "maravilhosa do Ocidente", e difundir um
exorcismo especial colocado sob o patrocínio do arcanjo.
NOTAS COMPLEMENTARES
Observar-se-á que os termos mais freqüentes utilizados nos Evangelhos
canônicos para designar os espinhos da coroa são (nos originais
gregos) akanthon (Mateus, 27, 29, e João, 19, 2) e akanthinon (Marcos,
15, 17). Lucas ignora a existência da citada coroa.
Pois bem, esse termo está muito próximo ao também grego
de akanthos, que designa o acanto ornamental, e não ao temível
e doloroso rhamus spina christi, de espinhos de oito centímetros
de longitude. Porque o acanto possui uma espécie espinhosa e outra
não espinhosa. Por outro lado, o grego akane e akanès designa
uma cesta, termos ambos que se aproximam de akanea: espinheiro (arvorezinha).
A coroa de espinhos da suposta Paixão seria uma corriqueira e insignificante
cesta de barriga para baixo, a que teriam arrancado o fundo? Neste caso,
no lugar da crucificação seria onde teria lugar este ilegal
ultraje, mais tarde e po