O
Homem que criou Jesus Cristo
Robert Ambelain
Robert Ambelain nasceu no dia 2 de setembro de 1907, na cidade de Paris. No mundo profano, foi historiador, membro da Academia Nacional de História e da Associação dos Escritores de Língua Francesa.´ Foi iniciado nos Augustos Mistérios da Maçonaria em 26 de março (o Dictionnaire des Franc-Maçons Français, de Michel Gaudart de Soulages e de Hubert Lamant, não diz o ano da iniciação, apenas o dia e o mês), na Loja La Jérusalem des Vallés Égyptiennes, do Rito de Memphis-Misraïm. Em 24 de junho de 1941, Robert Ambelain foi elevado ao Grau de Companheiro e, em seguida, exaltado ao de Mestre. Logo depois, com outros maçons pertencentes à Resistência, funda a Loja Alexandria do Egito e o Capítulo respectivo. Para que pudesse manter a Maçonaria trabalhando durante a Ocupação, Robert Ambelain recebeu todos os graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, até o 33º, todos os graus do Rito Escocês Retificado, incluindo o de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa e o de Professo, todos os graus do Rito de Memphis-Misraïm e todos os graus do Rito Sueco, incluindo o de Cavaleiro do Templo. Robert Ambelain foi, também, Grão-Mestre ad vitam para a França e Grão-Mestre substituto mundial do Rito de Memphis-Misraïm, entre os anos de 1942 e 1944. Em 1962, foi alçado ao Grão-Mestrado mundial do Rito de Memphis-Misraïm. Em 1985, foi promovido a Grão-Mestre Mundial de Honra do Rito de Memphis-Misraïm. Foi agraciado, ainda, com os títulos de Grão-Mestre de Honra do Grande Oriente Misto do Brasil, Grão-Mestre de Honra do antigo Grande Oriente do Chile, Presidente do Supremo Conselho dos Ritos Confederados para a França, Grão-Mestre da França - do Rito Escocês Primitivo e Companheiro ymagier do Tour de France - da Union Compagnonnique dês Devoirs Unis, onde recebeu o nome de Parisien-la-Liberté.
Segunda parte
8 - O verdadeiro caminho de Damasco
Todos os caminhos do sonho não levam ao Katmandú..
Michel Delpech , Je suis pour...
Os exegetas da crítica liberal têm descoberto numerosas interpolações
no canon neotestamentário. Existem diversas fórmulas destas.
Pode introduzir um texto, longo ou curto, em uma obra antiga, no curso de
uma nova cópia manuscrita, arrumando-lhe para que o leitor inexperiente
não possa dar-se conta.
O exegeta treinado discernirá facilmente esta interpolação
ao constatar que, a maior parte do tempo, o fio do discurso inicial se rompe,
e que aparece perturbada a harmonia do estilo. Citaremos como exemplo a
célebre passagem de Suetonio sobre o incêndio de Roma: "impuseram-se
limites ao luxo, reduziram-se os festins públicos a distribuições
de mantimentos; proibiu-se vender nas Tavernas nenhum manjar cozido, à
exceção das verduras e dos legumes, quando antes se servia
todo tipo de comida; entregou-se ao suplício os cristãos,
gente dada a uma superstição nova e perigosa; proibiram-se
os jogos dos condutores de quadrigas, aos que um antigo costume autorizava
a vagar por toda a cidade para divertir-se, e se relegaram de uma vez as
pantomimas e suas facções". (Cf. Suetonio, Vida dos doze
Césares: Nero, VI.)
É evidente que o estilo de Suetonio merecia mais que essa interpolação,
tão áspera como torpe. Como observa Marcel Jouhandeau, "esse
autor não perde de vista seu objetivo nem um segundo".
E com efeito, o que faz essa condenação dos cristãos
em meio da venda da alface cozida e das verduras, e das farras noturnas
dos condutores de carros? Por isso acreditam a maioria dos exegetas imparciais
que toda a parte que temos escrito em itálico em nossa entrevista
é uma interpolação estranha ao texto inicial de Suetonio.
Nos evangelhos canônicos, uma das interpolações mais
audazes que existem é indubitavelmente a que se refere às
célebres "chaves", e que afirma assim a primazia do bispo
de Roma sobre todos outros. Vejamos esse célebre texto. Jesus acaba
de perguntar a seus discípulos (seus irmãos, de fato) o que
pensam dele. Todos respondem que lhe acreditam cristo, filho do Deus vivo
(Mateus, 16, 13-20; Marcos, 8, 27-30; Lucas, 9, 18-21; por isso com respeito
à João, ignora a totalidade deste episódio).
Mas no capítulo de Mateus citado, depois do versículo 16 se
interpolou um novo texto, que se converteu nos versículos 17 e 18,
e que diz assim: "E Jesus, respondendo, disse: Bem-aventurado você,
Simão Bar Jona*, porque não é a carne nem o sangue
quem revelou isto, a não ser meu Pai, que está nos céus.
E eu digo-lhe que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei
eu minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra
ela". (Mateus, 16, 17-18.)
*[Barjonna: veja a palavra acádia, que significa "fora da lei,
anarquista". Veja-se Jesús o el secreto mortal de los templarios,
p. 72.]
Esta audaz interpolação é, necessariamente, posterior
ao século IV, dado que naquela época, como já dissemos,
por ordem de Constantino e sob a vigilância de doutores como Eusébio
da Cesaréia, unificavam-se os evangelhos oficiais, enviavam-se série
de cinqüenta exemplares aos diversos bispados do Império Romano
e recolhiam-se os antigos, que não estavam de acordo.
É perfeitamente evidente que se esta passagem o tivessem conhecido
os anônimos redatores e copistas, os manuscritos mais antigos de Marcos,
Lucas e João também o levariam. E não há nada
disso. Por outra parte, em nossa época ninguém teria a audácia
de introduzi-lo nas versões desses mesmos evangelhos, aos que entretanto
se chamam sinóticos.
De todas as sucessivas interpolações de que foram vítimas
os textos canônicos, esta foi sem lugar à dúvidas a
mais gratificante, e justifica a constatação de Leão
X citada em página anterior desta obra.
Vem a seguir o que se conveio em chamar a interpolação repetida.
Os manuscritos antigos eram cilindros compostos por tiras de papel ou por
páginas quadradas de papiro, grudadas umas depois de outras, a fim
de formar uma longa banda. Para introduzir um texto novo no manuscrito inicial
bastava separar duas páginas ou duas bandas, e intercalar entre elas,
grudando-a por sua vez, a fração de pele ou a página
de papiro que contivesse os novos textos.
De qualquer maneira, ao proceder assim, às vezes podia acontecer
ao interpolador a fatalidade de ver que uma frase cortada em duas. E então
era obrigado a terminar, em cima da fração introduzida, a
frase desventuradamente partida. Logo, na parte debaixo da última
página introduzida, tinha que colocar, como fora, um texto que enlaçasse
com o cabeçalho da antiga página imediatamente posterior.
Cada um desses dois fragmentos dava então origem a uma nova frase,
mas a segunda constituía um áspero "dublê"
da primeira. Repetia os termos e as letras. Daí o nome de "interpolação
repetida" que se aplica a esse artifício fraudulento dos escribas
anônimos dos primeiros séculos.
O teólogo alemão protestante Wendt foi o primeiro que descobriu
nos Atos dos Apóstolos dois casos patentes de interpolação
repetida. O primeiro exemplo está relacionado com a lapidação
de Estêvão:
"Eles, gritando em vozes altas, tamparam-se os ouvidos e jogaram-se
sobre Estêvão, arrastaram-no fora da cidade e o apedrejaram."
(Atos, 7, 57-58.)
"As testemunhas depositaram seus mantos aos pés de um jovem
chamado Saulo."(Idem, 58.)
"E enquanto o lapidavam, Estêvão orava, e dizia: Senhor
Jesus, recebe meu espírito." (Idem, 59.)
A fim de introduzir um Saulo ainda menino na narração dos
Atos, o interpolador efetuou um corte entre os versículos 57 e 59.
Sem dúvida trata-se tão somente de uma pequena banda horizontal.
Mas esta interpolação resulta torpe, porque, como observa
divertido o abade Loisy: "Ao pobre Estêvão parece que
o tenham lapidado duas vezes".
Vejamos agora a segunda interpolação descoberta por Wendt.
Aqui o falsificador não se ateve com pequenas, porque compreende
nada menos que vários capítulos. Tomemos os Atos, capítulo
8, versículo 4: "Os que se dispersaram foram por toda parte
pregando a Palavra".
Saltemos agora todo o resto, quer dizer o assunto de Simão, o Mago,
enfrentando-se com o Simão-Pedro, logo a história do diácono
Felipe e do eunuco etíope da rainha Candaces de Etiópia. Detenhamo-nos
para rirmos um pouco pelo caminho, porque o diácono Felipe batiza
ao chamado eunuco pelo caminho de Jerusalém a Gaza. Quando aparece,
o Espírito Santo o eleva pelos ares, e nosso diácono se encontra,
assombrado, na cidade de Açoito, a uns quarenta quilômetros
dali, a vôo de pássaro, claro! (Açoito não é
outra coisa que o Ashdod bíblico -que em hebreu significa "pilhagem"-,
antiga cidade filistéia situada na mesma latitude de Jerusalém,
ao norte de Gaza.) Logo segue o relato da conversão de Saulo, a cura
de Ananías, a ressurreição (sim!) da Tabita graças
aos cuidados de Pedro, a conversão de Cornelio, o aviso que o Céu
deu ao Pedro de que abandonasse todos os tabus da Lei judia, etcétera.
E nosso ardiloso interpolador conclui (no século IV pelo menos):
"Para ouvir estas coisas, calaram e glorificaram a Deus, dizendo:
De maneira que também aos gentis outorga Deus a penitência
para alcançar a vida!". (Atos, 11, 18.)
Amém, diremos nós. E aqui voltamos a nos encontrar com a frase
do princípio: "Os que se dispersaram com motivo da perseguição
suscitada por Estêvão chegaram até Fenícia, a
ilha do Chipre e Antioquia, pregando a palavra somente aos judeus".
(Atos, 11, 19.)
É evidente que tudo o que se interpolou, desde 8, 4, até 11,
19, foi com a intenção de justificar ao Paulo, seu apostolado
entre os gentis, o acesso destes à nova comunidade, e o abandono
dos tabus alimentares judaicos, que, igual à circuncisão,
desagradavam aos pagãos e freavam sua conversão. E os relatos
nos quais abunda o sobrenatural estão destinados a fazer admitir
a autoridade daqueles que supostamente os viveram.
A data desta interpolação, uma das mais importantes do Novo
Testamento, pode situar-se nos arredores do ano 360, se recordarmos o que
assinalamos ao estudar a Confissão de São Cipriano.
E provavelmente é concomitante a essas "cópias conforme"
enviadas por séries de cinqüenta exemplares às igrejas
do Império Romano por ordem de Constantino, cópias efetuadas
sob a vigilância de seu panegirista Eusébio da Cesaréia
e logo repartidas, ao que seguiu, evidentemente, a recuperação
dos textos antigos. Não obstante, o que é seguro é
que esse mendaz acerto não esteve coordenado; o "nível
intelectual" dos destinatários não impunha aos escribas
anônimos do século IV muitas precauções ou controles.
Como prova temos as contradições observadas nos Atos dos Apóstolos,
obra que entretanto está atribuída, oficialmente, ao Lucas,
confidente e secretário de Saulo-Paulo, como autor único.
Julgue-se:
Em Atos, 9, 7, nos diz que a escolta de Saulo tinha permanecido de pé
e estupefata durante a aparição de Jesus. Em Atos, 26, 14,
lemos que os homens de Saulo caíram todos ao chão. .
Em Atos, 9, 7, esses mesmos homens armados ouviram a voz de Jesus dirigindo-se
ao Saulo, mas não viram ninguém. Em Atos, 22, 9, precisam-nos
que viram a misteriosa luz, mas que não ouviram a voz de Jesus.
Se, como afirmou recentemente a comissão vaticana autorizada, todo
católico tem a obrigação de admitir que Lucas é
o autor único dos Atos dos Apóstolos, o exegeta independente
e objetivo tem que tirar a conclusão de que o tal Lucas não
tinha as idéias muito claras...
Agora sabemos, pela Confissão de São Cipriano, relato composto
por volta dos anos 360-370, que naquela época os Atos dos Apóstolos
não mostravam o milagre acontecido à Saulo-Paulo no caminho
de Damasco pouco antes de entrar na cidade. Segundo esses mesmos Atos, a
conversão do chefe da polícia paralela judeu-romana se produziu
muito mais tarde (veja-se pág. 22).
Agora bem, Epífano (falecido em 403), em sua obra principal Adversus
Haereses, contribui-nos a tradição dos ebionitas. Esta seita,
uma das mais antigas citadas, junto com os nazarenos, reconhecia que o mundo
era obra de um Deus Supremo, mas no que se refere a Cristo, adotava a mesma
postura que Cerinto e Carpocras para esse eón gnóstico. Viviam
à maneira judaica ordinária, e pretendiam justificar-se pela
Lei. Segundo eles, foi praticando-a como Jesus se converteu em um justo,
no Ungido de Deus, pois ninguém entre os judeus tinha completa a
Lei. Mas segue-se o mesmo caminho, alguém se faz idêntico a
ele, e qualquer um pode converter-se por sua vez em um Cristo. "Porque,
diziam. Jesus era inicialmente um homem igual aos outros." (Cf. Hipólito
de Roma, Philosophumena.)
O interesse da tradição ebionita, neste caso, consiste em
que nos conta o verdadeiro motivo da conversão de Saulo-Paulo. São
Epífano nos diz que Saulo tinha nascido de pais pagãos. Aqui
encontramos a justificação de todos os argumentos que tiramos
de Flavio Josefo. Prendado da filha do supremo sacerdote Gamaliel, teria
se feito circuncidar para conseguir casar-se com ela, mas ao ver frustradas
suas esperanças, por despeito teria começado a pregar contra
a Lei e os tabus judaicos, e claro está, principalmente contra essa
mesma circuncisão. (Cf. Epífano, Adversas Haereses, XXX, 16.)
assim, o maravilhoso "caminho" de Damasco se teria limitado aos
harmoniosos "quadris" de uma formosa judia.
Por que não? "O amor é forte como a morte, seus ardores
são ardores de fogo, uma chama do Eterno, e as imensas águas
não podem apagá-lo..." (Cantar dos Cantares, 8, 6-7.)
Assim, consciente de seu caráter de estrangeiro à nação
judia, Saulo, não emprestando ouvidos a não ser a seu amor
pela filha de Gamaliel, fez-se circuncidar; sem isto, ele sabia que para
ela teria significado o rechaço da coletividade mística, já
que: "A filha de um supremo sacerdote casada com um estrangeiro não
comerá já das coisas santas oferecidas por elevação".
(Levítico, 21, 12.)
Esta conversão de tipo cirúrgico foi, desgraçadamente,
inútil. Ou o Sanedrim vetou semelhante união entre a filha
de um supremo sacerdote (não de um simples sacerdote) e um recém
convertido (objetando o caráter desprovido de todo misticismo de
semelhante conversão), ou a filha se negou a casar-se com ele. E
os matrimônios de conveniência estavam religiosamente proibidos
em Israel. De maneira que não a podia obrigar em modo algum a casar-se
com Saulo. Quanto mais que a Lei judia rechaçava àquele que
se fazia partidário por amor a uma mulher.
Agora bem, Saulo-Paulo não era um playboy, nem muito menos, se tivermos
que dar crédito à tradição herdada dos Padres
da Igreja.
Em primeiro lugar, estava afetado de uma grave enfermidade, que ele menciona,
sem dizer qual, em seu II Coríntios (12, 2-9). Monsenhor Ricciotti,
em seu Saint Paúl, apotre nos diz sobre ela: "Da passagem de
Paulo que citamos se infere de forma evidente que estabeleceu uma relação
estreita entre a enfermidade desconhecida e seu rapto ao terceiro céu
e ao paraíso, já que considerava seu mal como um remédio
que Deus lhe administrava para lhe impedir de orgulhar-se". (Op. cit.,
P. 168.)
Recordemos esta relação, porque é muito importante.
A tese de que se tratava de epilepsia clássica, proposta já
pelo K. L. Ziegler, foi sustentada pelo Krenkel em 1890 com argumentos muito
convincentes. Esta tese mantiveram-na muitos exegetas e médicos.
Recordou-se casos análogos, nos quais ao mal clássico se acrescentavam
manifestações histeriformes, de caráter místico-alucinatório.
Cita-se a Julio César, Mahomé, Cola de Rienzo, Fernando o
Católico, Cromwell, Pedro o Grande, Napoleão; todos eles tiveram
visões ou audições de caráter neuropático.
Dirigiremo-nos agora para outra explicação. Vimos já
que os príncipes nabateus e idumeus estavam ligados deste modo a
uma espécie de sacralização religiosa. O uso de drogas
alucinógenas achava-se muito difundido, precisamente devido a sua
relação com os "planos" ocultos. Todo o Oriente
Médio conhecia desde fazia séculos o haxixe; o Egito usava
já o ópio em tempos de Ramsés II, e gregos e romanos
não ignoravam os efeitos da adormidera, chamada em grego mekon. Israel,
em suas escolas de profetismo (I Samuel, 10 e 19), utilizava vinhos de ervas,
e Síria, Fenícia, Iduméia, Nabatea e Egito conheciam
também os efeitos do banj ou Bang, extraído de uma espécie
de beleno chamado pelos árabes sekaron, quer dizer "a embriagadora"
(cresce em todo o Egito e na península do Sinai; é o Hyosciamus
muticus, um alucinógeno ou um narcótico, segundo a dose).
Saulo pôde muito bem ser um drogado de maneira intermitente, já
que, como veremos, teve numerosas visões em seus périplos,
visões provavelmente provocadas, e delas tirava suas próprias
instruções apostólicas. Mas há algo ainda mais
grave!
Deixemos agora seu estado patológico. Como era fisicamente?
Os Atos de Paulo nos dizem dele: "...homem de pequena estatura, calvo,
de pernas arqueadas, de bom estado de saúde, sombrancelhas unidas,
de nariz bem grande, cheio de graça...".
Os Principes Apostolorum, atribuídos ao João Crisóstomo,
põem-lhe um metro e trinta de altura. Sem dúvida para sublinhar
sua pequena estatura, porque isso daria um homem de apenas um metro cinqüenta
no máximo, o que é manifiestamente exagerado.
No século VI, Juan Malala nos diz: "Em vida. Paulo foi de pequena
estatura, calvo, com a cabeça e a barba grisalhas, um formoso nariz,
olhos azul grisáceos, sobrancelhas juntas, pele branca, barba espessa,
sorridente...". (Cf. Juan Malala, Chronographia, X, no Migne, Patrologie
Grecque, 97.)
As pernas arqueadas podiam justificar-se por causa dos largos exercícios
a cavalo, coisa nada surpreendente em um príncipe herodiano. Mas
isso também pode significar uma degeneração, sublinhada
pela pequena estatura.
Dessas breves descrições surge um retrato robô de Paulo,
ao que se rodearam todos os pintores e escultores a partir do século
IV.
Consideremos agora outra questão. Admitindo que a circuncisão
livremente aceita por ele tivesse derivado do consentimento, por parte da
filha de Gamaliel para um eventual matrimônio, terei que suspeitar
que Saulo, utilizando seus conhecimentos ocultos, teria obtido o consentimento
da jovem por efeito de um sortilégio. Coisa que não seria
tão surpreendente, tendo em conta a época e o meio. Assim
se compreende a reação violenta do Sanedrim, e provavelmente
do próprio Gamaliel, já que a magia era rigorosamente perseguida
e condenada, tanto pela Lei judia como pela Lei das Doze Tábuas,
aplicada em Roma.
O que nos incita a ter em conta esta hipótese é a seguinte
passagem de Flavio Josefo: "Pouco depois do matrimônio da Drusila
com Aziz, esta união se rompeu pela razão seguinte: Félix,
procurador da Judéia, depois de ter visto a Drusila, a quem nenhuma
mulher igualava em beleza, foi inflamado pelo desejo de possui-la, e enviando
a ela um judeu seu amigo chamado Simão, cipriota de nascimento, que
se fazia passar por mago, esforçou-se por persuadi-la de que abandonasse
seu marido e se casasse com ele, prometendo-lhe que a faria feliz se ela
não o desdenhasse. Drusila, atuando mal, e querendo fugir do ciúmes
de sua irmã Berenice, que não a tratava bem por causa de sua
beleza, deixou-se persuadir para atuar contra as instituições
de seu povo e casar-se com Félix". (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades
judaicas, VII, 2.)
Como vemos, a magia intervinha às vezes nos matrimônios.
O leitor já teria adivinhado que a expressão "cipriota
de nascimento" foi interpolada astutamente, a fim de separar do Simão,
o Mago, aliás Saulo-Paulo, a responsabilidade desse feitiço
de amor que permitiu ao Félix casar-se com Drusila. Não esqueçamos
que Flavio Josefo chegou até nós em manuscritos dos séculos
IX e XII, quer dizer, que foram obra de copistas da Idade Média.
E da cruzada contra os albigenses e da destruição da Ordem
dos Templários, a Igreja não ignora que entre os hereges sabem
muito bem a que se ater sobre as verdadeiras origens do cristianismo. Remetemos
ao leitor ao que dizemos sobre o "segredo da Igreja" em nossa
obra precedente.
Em caso afirmativo, e se Saulo-Paulo, aliás Simão o Mago,
foi o artífice do matrimônio da bela Drusila com o Antonio
Félix (antigo liberto da Antonia, mãe de Claudio César),
e isso por meio da velha bruxaria dos árabes nabateus, podemos supor
que a data seria posterior ao ano 52, já que até 52 não
nomeou o imperador Claudio procurador da Judéia ao Félix.
Agora bem, Aziz, rei de Emeso, primeiro marido de Drusila, morreu no ano
54, e sucedeu a seu irmão Soemas. Então, como pôde Saulo-Paulo
reprovar ao Félix e a Drusila sua união, se esta era viúva
desde ano 54? Porque nos Atos dos Apóstolos é o que se insinua:
"Passados alguns dias, veio Félix com sua mulher Drusila, que
era judia, e mandou que viesse Paulo, e lhe escutou a respeito da fé
em Cristo. E ao falar ele sobre a justiça, a continência e
o julgamento vindouro, Félix se encheu de terror, e lhe disse: É
bastante por hora. Retire-se Paulo, quando tiver tempo voltarei a chama-lo".
(Atos dos Apóstolos, 24, 24-25.)
Acima de tudo, observamos uma primeira inexatidão. Drusila não
é judia, e sim da Iduméia, da família de Herodes. Interessa-se,
como muitas mulheres cultas de seu tempo, tanto romanas como gregas, sírias
ou iduméias, pelos problemas filosóficos e religiosos. Mas
disso a fazer dela uma judia há uma grande distância.
Vejamos agora a segunda inexatidão. Adivinha-se que o escriba anônimo
que redigiu esta passagem dos Atos quis insinuar que Paulo queria moralizar
ao casal Félix-Drusila. Novo João Batista, considera a Drusila
como uma nova Herodías, e por isso os fala de justiça (não
se toma a mulher de outro) e de castidade (não se vive em estado
de adultério), porque se corre o risco de ser castigado em julgamento
vindouro. Não obstante, esta entrevista se situa no ano 58, na Cesaréia.
Portanto faz quatro anos que Drusila é viúva. De maneira que
já não pode viver em estado de adultério. Mas essas
passagens, visivelmente interpolados em versões mais antigas dos
Atos, reforçam a alusão ao "judeu, cipriota de nascimento",
porque é um mago judeu no Chipre; é comensal e conselheiro
do governador da ilha de Pafos, capital do Chipre (Atos, 13, 6-12). Mas
se chama Elimas Bar-Jesus, e não Simão.
De fato, a amizade testemunhada pelo procurador Félix para o Paulo
é o agradecimento do Antonio Félix ao Simão o Mago"
por lhe haver feito obter o amor da bela Drusila. Uma vez mais o amor rege
aos homens e às vezes suas ações mais importantes!
Assim, se o sortilégio de amor que uniu Drusila e Félix teve
a Saulo-Paulo como autor, não é desatinado supor que este
último fizesse uso de algum para obter à filha de Gamaliel.
Exponhamos os elementos do problema:
a) Saulo-Paulo não é fisicamente um Apolo;
b) não é judeu.
De maneira que se a filha de Gamaliel mostrou alguma inclinação
para ele e lhe disse que "sim", não foi o físico
de Saulo-Paulo que a seduziu.
E necessariamente disse que "sim", porque se houvesse dito que
"não", Saulo não se teria feito circuncidar, coisa
que, em idade adulta, não tem nada de agradável, tendo em
conta a cirurgia da época.
O "sim" da jovem teve que obtê-lo, pois, por outros meios.
E voltamos a encontrar aqui nossa hipótese: cedeu como conseqüência
de um feitiço de amor. Embora não consideramos os efeitos
da magia a não ser na perspectiva de uma física transcendental.
Cem mil experiências de hipnotismo, há quase um século,
estão aí para sublinhar a eficácia de todos esses procedimentos.
Também por isso, tendo em conta as confidências de diversos
"magnetizadores-hipnotizadores", desaconselhamos absolutamente
que uma mulher vá confiar-se a algum deles sem ir acompanhada de
algum familiar.
Por outro lado, não se pode negar a magia na vida de Paulo. Citaremos
simplesmente estas duas passagens das Epístolas: "Pois eu, ausente
em corpo, mas presente em espírito, condenei já, como se estivesse
presente, ao que isso tem feito: Em nome de nosso Senhor Jesus, entrego
esse homem a Satanás, para a destruição de sua carne".
(Cf. Coríntios, 5, 3-5.)
"Entre eles Himeneu e Alexandre, a quem entreguei a Satanás
para que aprendam a não blasfemar..." (Cf. I Timóteo,
1, 20.)
No primeiro caso se tratava de um homem jovem que se casou com a viúva
de seu pai, e por conseguinte sua madrasta. Ela devia ser muito jovem, segundo
o costume da época.
No segundo caso se tratava de cristãos ordinários, que passaram
à Gnosis, e portanto , abandonaram os grupos submetidos ao Paulo.
Como Satanás era, sob o nome de Samael, o anjo das provas e da tentação,
constatar-se-á que Paulo gosta de praticar a magia negra, já
que não se trata de outra coisa. De todo modo, terá que suportar
seus inconvenientes, pois o chamado Alexandre se converterá em testemunha
de cargo durante seu último processo, em Roma: "Alexandre, o
ferreiro, tem-me feito muito mal. O Senhor lhe dará pagamento segundo
suas obras. Guarde você também dele, porque mostrou forte oposição
à minhas palavras". (Cf. Paulo, II Timóteo, 4, 14.)
Além disso, o testemunho deste Alexandre, confirmado pelo original
-ou uma cópia- da "primeira carta ao Timóteo", implicará
para o Paulo, acusado já de um pouco mais terrível, que analisaremos
chegado o momento, a acusação também de magia negra.
E esta se achava já sancionada de antemão com a pena capital
pela implacável "Lei das Doze Tábuas" para quem
quer que praticasse "sortilégios, feitiços ou palavras
de encantamento, malefícios contra pessoas, animais ou colheitas".
Já sob Augusto procuraram cuidadosamente todos os livros de bruxaria
que pudesse haver no Império. Logo foram imediatamente queimados,
por ordem expressa do imperador. Tibério e Nero confirmaram com numerosos
decretos a vigência das antigas leis. Estas tinham levado a execução,
sob o consulado de Claudio Marcelo e de Valerio Flaco, a 170 bruxas, que
tinham arrojado malefícios sobre numerosas pessoas melando as portas
de suas casas (provavelmente os trincos) com ungüentos especiais. (Cf.
Leg. duodecim Tabular: art. 55, 68, 69, etc.)
O mesmo acontecia na Grécia, onde uma lei castigava a "todos
aqueles que, por encantamentos, palavras, ligadura, imagem de cera ou outro
malefício encantem ou enfeiticem a alguém, ou se dele sirvam
para fazer morrer a homens ou animais de curral, todos esses serão
castigados com a morte". (Cf. De Lamarre, Traite de la Pólice,
tomo I, título vII.)
Platão nos fala desta lei em seu De Legibus, livro II. E Pausanias,
em seu In Elia, livro V, relata uma aplicação: Lemnia, uma
bruxa, foi condenada a morte pela denúncia de uma faxineira. Se relacionarmos
este nome com o da lamia das lendas, que atraía aos jovens e lhes
tirava a vida pouco a pouco com voluptuosos enlaçamentos, devia-se
tratar de uma mulher que enfeitiçava aos homens que desejava.
Seja como for, agora vamos encontrar logo ao Paulo em sua obra de mago,
mas para ele do que se tratará é de constituir extensas redes
de cumplicidades femininas na grande empresa que tentará levar a
bom termo.
Fica por elucidar um ponto histórico.
Constatamos na Confissão de São Cipriano e na versão
dos Atos dos Apóstolos dessa época que Saulo-Paulo tinha efetuado
sua conversão muito depois do episódio de sua visita à
Damasco, no curso do qual o etnarca do rei nabateu Aretas IV quis lhe fazer
capturar. Ele mesmo nos conta como uns amigos que tinha na cidade lhe ajudaram
a baixar de noite, ao longo das muralhas, metido em um cesto de vime (tarsos).
Portanto tal conversão temos que procurá-la depois deste desatino
de Damasco.
Por outra parte, sabemos pelos manuscritos do mar Morto que a seita dos
sadocitas, os "filhos de Sadoc", um dia teve que fugir do lugar
e do monastério de Qumrán para refugiar-se em Damasco. Quando
teve lugar a volta deste exílio, uma fração da seita
ficou ali, embora sem deixar de estar em relação com os repatriados,
conforme nos diz o cardeal Jean Daniélou em seu livro Les Symboles
chrétiens primitifs. E aqui intervém um curioso dado que devemos
ao Lurie. Recorda que a seita sadocita não estava fixada em Damasco
mesmo (cf. Document de Damas, VIII, 21; XX, 12), mas quinze quilômetros
ao sudoeste, no caminho que levava à Galiléia, e em uma aldeia
chamada Kokba (cf. R. North, relatório sobre "Eretz Israel",
IV, no Verbum Domini, núm. 35, 1957).
Epífano, em sua obra Adversus Haereses (XXIX, VII, 7), menciona deste
modo aos nazarenos entre os refugiados na Kokba, quer dizer judeus-cristãos
ortodoxos que pertenciam ao ramo fundado por Santiago, o Maior, e aos arcónticos,
judeu-cristãos de caráter gnóstico (Pp. cit., XL, I,
5.) E Julio, o Africano, chamado pelo Eusébio da Cesaréia
em sua História eclesiástica (I, VII, 14), diz-nos que provavelmente
entre eles havia "parentes carnais do Senhor". Sobre esta questão,
veja-se H. J. Schoeps, El judeocristianismo.
Todo o qual conduz ao Dositeo. Este foi o Mestre de Simão, o Mago.
Tinha estado em relação com João Batista, e Epífano
o apresenta como saduceu (coisa que era, evidentemente, um engano); em realidade
era sadocita, levava uma vida muito ascética e praticava o sabbat
de forma muito estrita. Segundo os antigos heresiólogos, foi um gnóstico
no sentido absoluto do termo. Pois bem, segundo o Talmud (cf. R. North,
loe. cit., P. 49), vivia na Kokba.
E Jean Daniélou nos proporciona além disso, em seu livro Les
Symboles chrétiens primitifs, o seguinte dado, particularmente significativo:
"Outro detalhe curioso é a existência de uma tradição
segundo a qual a conversão de São Paulo teria tido lugar na
Kokba. Saulo teria tido ali um primeiro contato com helenistas, que a seguir
se encarregariam de sua instrução em Damasco". (Cf. J.
Daniélou, op. cit., VII, l'étoile de Jacob.)
Segundo monsenhor Ricciotti esta tradição seria muito antiga
(cf. Saint Paúl, apotre, P. 213). O historiador protestante Harnack
o confirma no Die Mission und Ausbreitung des Christentums, II, 636, assim
como S. Lósch em Deitas Jesu und Antike Apotheose.
"A gente pode perguntar-se deste modo -prossegue Jean Daniélou-
se a permanência na Arábia (cf. Epístola aos Gálatas,
1, 17) não designava simplesmente a Kokba. Naquela época a
região de Damasco se considerava como parte da Arábia."
Com efeito, formava parte do domínio do rei Aretas IV (e havia um
etnarca), toda essa parte da Síria era então do reino nabateu.
Recapitulemos, pois, nossas sucessivas conclusões:
1) Saulo-Paulo não é outro que Simão, o Mago, já
o vimos;
2) Simão, o Mago, foi antes discípulo de Dositeo;
3) Dositeo vivia em Kokba, a quinze quilômetros de Damasco;
4) Saulo-Paulo teria sido antes instruído pelos helenistas em Kokba,
onde vivia Dositeo.
O silogismo é fácil de estabelecer, tendo em conta o que precede,
já que a primeira e a segunda premissas são unânimes
em sua demonstração de que Saulo-Paulo e Simão o Mago
não são a não ser uma mesma pessoa.
Quanto à improbabilidade de uma viagem de Saulo-Paulo a pleno território
nabateo, quer dizer a seu capital Petra, confirmam-no dois detalhes:
a) A permanência na região de Damasco, território nabateo,
pode explicar a passagem da Epístola aos Gálatas, 1, 17, que
diz:
"Não subi a Jerusalém para ver os que me precederam no
apostolado, mas sim parti para a Arábia, de onde voltei outra vez
a Damasco".
b) Observar-se-á que Saulo-Paulo não retornou jamais à
Arábia nabatea no curso de suas numerosas viagens missionárias.
Porque, como príncipe das dinastias Iduméia (por via masculina)
e nabatea (por via feminina: sua bisavó Cypros I), e por haver-se
feito circuncidar para fazer-se judeu e casar-se com a filha do Gamaliel,
corria o risco de ser lapidado.
Em efeito, quando sua avó Salomé I decidiu casar-se pela terceira
vez, tinha tido um enredo no palácio de seu irmão Herodes
o Grande com um árabe nabateo chamado Silaios. Ante a indignação
das esposas de Herodes, o árabe, ao ver que suspeitavam dele, partiu,
mas retornou três meses mais tarde, para pedir em matrimônio
à Salomé. Era o administrador do rei da Arábia Obodas,
e era jovem e de aparência agradável. Salomé consentiu,
e Herodes também, mas apesar de tudo impôs uma condição:
para poder levar-se bem com a população judia, Silaios se
converteria ao judaísmo, ao menos aparentemente; sem isso, o matrimônio
seria impossível, declarou Herodes. Silaios recusou "dizendo
que, se o fazia, seria lapidado pelos árabes" (cf. Flavio Josefo,
Antigüidades judaicas, XVI, vII).
E esta é a razão, bastante válida, pela qual Saulo-Paulo
não retornou jamais, no transcurso de suas viagens missionárias,
à Arábia nabatea. O que contribui uma prova a mais à
suas origens principescos e árabes. Sua circuncisão "por
amor" teria validade também à ele, em território
nabateo, a lapidação que temia Silaios.
Porque, para o Saulo, toda esta aventura expunha problemas insolúveis.
Aos olhos da casa do Herodes, tinha abandonado os cultos ancestrais, tradicionais,
e isso não era o mais grave, a não ser o fato de que pertencia
à religião judia implicava uma naturalização
judaica. Já que em Israel religião e raça eram uma
só coisa; pertencer à comunidade mística era pertencer
ao povo eleito, a sua comunidade física.
Agora bem, uma e outra impunham deveres imperiosos, e esses deveres com
muita freqüência eram opostos ao que a dinastia herodiana considerava
como direitos. Converter-se em judeu não significava só desertar,
a não ser alinhar-se entre os adversários.
Sem dúvida, entre as mulheres cultas da aristocracia Iduméia
e romana, produziram-se com freqüência, se não conversões
oficiais, ao menos adesões interiores. Mas se limitavam a isso.
Entre os homens tornar-se judeu expunha outros problemas, imensamente mais
graves, já que o Império Romano via com muito maus olhos essas
conversões masculinas. Aconselhamos ao leitor que releia tudo o que
dizemos sobre o particular mais acima.
No que diz respeito a suas relações com as três potências
presentes, nosso Saulo se encontra, pois, na situação seguinte,
depois de sua conversão por interesse e da circuncisão que
o deixou marcado para sempre:
- Judaismo: considera-lhe um convertido não sincero, já que
movido inicialmente pelo corriqueiro desejo de uma mulher, jamais lhe viu
antes manifestar o mínimo interesse pela religião judia e
sua doutrina. Daí lhe rechacem.
- Herodismo: considera-lhe como um desertor, já que fazer-se judeu,
para um príncipe herodiano, supõe aderir-se a uma nação
que, unanimemente, é hostil aos incircuncisos em geral, e em numerosas
ocasiões tentou varrer (se era necessário efetuando grandes
matanças) aos membros da descendência do Herodes o Grande.
- Romanismo: passar de maneira total de uma família aliada de Roma
e amiga dos imperadores (veja-se o referente às relações
de Salomé I e da imperatriz Livia) a uma nação que,
em setenta e quatro anos, do 68 antes de nossa era até o 6 d. C.,
levantou trinta e seis vezes o estandarte da revolução (e
com que violência!), implica converter-se a sua vez em inimigo de
Roma.
Como se vê, a situação do Saulo era crítica.
Aparecia como suspeito para uns e para outros, era rechaçado por
todos, e ainda teria que enfrentar-se com um quarto adversário.
Voltemos para assunto de Damasco.
Saulo está circunciso, não obteve a mão da filha de
Gamaliel, mas continua sendo o chefe da tropa paralela. Essas funções
lhe impõem, se não deveres, ao menos sim atividades.
Estas últimas as exerce em especial em torno dos zelotes, esses integristas
judeus a quem a comunidade oficial qualificou de apóstatas. E a esses
integristas Saulo os odeia, porque um estado de ânimo semelhante foi
o que, ao suscitar o veto dos sanedritas, quebrou para sempre suas esperanças
sentimentais.
De maneira que redobra as perseguições e pesquisas contra
eles. Montará uma operação contra os de Damasco, porque
esta cidade é um centro zelote importante.
Só que, como já precisamos, Damasco é então
um enclave nabateo em Síria, e está governado por um etnarca,
que representa ali ao rei Aretas IV. Vejamos os dois textos, contraditórios,
da Epístola aos Gálatas e os Atos dos Apóstolos.
Como lemos na Confissão de São Cipriano, Paulo e seu grupo
de homens armados vão a Damasco a fim de efetuar ali uma batida geral
entre os hereges. Entretanto: "Em Damasco, o etnarca do rei Aretas
pôs guardas na cidade dos damascenos para me prender. Mas fui desprendido
por uma janela, em uma cesta, com o passar do muro, e assim escapei de suas
mãos". (Cf. II Coríntios, 11, 32-33.)
Por que quereria prender ao Saulo o etnarca do soberano nabateo? O assunto
se remonta a muito longe.
No ano 6 antes de nossa era, Herodes-Antipas, de volta de Roma, levou a
seu palácio do Tiberíades ao Herodías, esposa de Herodes
Filipo, seu irmão, e filha de ambos, Salomé II. Sua primeira
esposa, filha do Aretas III, apressou-se então a empreender a fuga
e refugiar-se em casa de seu pai. Este último, para vingar do insulto
infligido a sua casa, declarou a guerra a Herodes Antipas. Por último,
depois de numerosos momentos de calma aparente, de renovação
das hostilidades, etc., as tropas de Herodes Antipas resultaram vencidas.
Certas hostilidades duraram perto de quarenta anos. A intervenção
romana em favor do Herodes Antipas, por ordem do Tibério César,
no ano 36, não mudou nada. E aconteceu uma paz precária, que
Calígula, desejoso de consolidá-la por parte de Roma, acreditou
selar entregando livremente Damasco aos nabateus.
Mas ao pretender efetuar detenções ali, Saulo cometeu uma
imprudência. Este fato ultrajou a soberania do Aretas IV, filho do
precedente. E o etnarca deste último tentou então capturar
ao Saulo, tanto para castigá-lo para entregar a seu soberano um refém
de categoria, o sobrinho neto do Herodes o Grande em pessoa.
De modo que Saulo tentará ficar um tempo junto aos zelotes.
Como as arrumou? Quando nos diz que, depois de uma conversação
com o Ananías, "as escamas lhe caíram dos olhos e viu
claro" (cf. Atos, 9, 17-18), não vemos a utilidade de imaginar
a um Saulo fisicamente cego, com as pupilas cobertas de escamas, que cairão
ao chão quando ele receba o batismo. A frase deve entender-se em
sentido figurado, é óbvio.
Mas Saulo não é judeu nem está louco. Ele, como chefe
de guerra e príncipe herodiano, não ignora a enorme potência
militar de Roma. E os sonhos ideológicos dos zelotes, assim como
todas as esperanças messianistas judias, deixam-lhe frio, não
despertam nele, e com razão, nenhum eco.
Seu plano está, pois, montado. Orientará o messianismo político,
quer dizer o zelote, para uma postura especulativo, puramente mística.
Fazendo isto, não terá nada que temer de Roma, mas bem ao
contrário. Possivelmente esta inclusive lhe dará suporte,
já que assim lhes fará o jogo, ao romper a resistência
judia em suas raízes espirituais.
De todo modo, como o movimento zelote constituía um bloco muito unido,
dificilmente penetrável para um homem só e tão suspeito
por seu passado como Saulo, este se dedicaria primeiro a interessar aos
gentis na nova ideologia.
Quando tiver em suas mãos uma massa suficientemente numerosa de fiéis,
tentará fundir os dois messianismos. Fazendo isto, os que resultarão
anexados serão os zelotes, e não os gentis. E por isso não
retrocederá em seu empenho de que os primeiros renunciem pouco a
pouco aos costumes tradicionais judaicos mais importantes: circuncisão,
tabus alimentares, etcétera.
Então se alargará mais o fosso que os separa do judaísmo
oficial. E pouco a pouco a corrente zelote acabará por morrer na
massa da Gentilidade...
NOTAS COMPLEMENTARES
Para monsenhor Giuseppe Ricciotti, que evoca em seu livro Saint Paúl,
Apotre (trad. do italiano pelo F. Hayward, imprimatur 15 de maio de 1952,
Robert Laffont édit., Paris), a tradição ebionita contribuída
no século IV por São Epífano, "Paulo apaixonou-se
pela filha do supremo sacerdote, e para casar-se com ela, teria aceito a
circuncisão e o judaísmo. Mas ao não alcançar
seu objetivo, para vingar-se, teria passado à oposição,
e teria começado a lutar e a escrever contra a circuncisão,
o sabbat e a Lei". (Op. cit., P. 82.)
Para o abade Migne e seus colaboradores, na tradução latina
do grego antigo do Epífano, Paulo "... quando veio a Jerusalém
e fixou aqui sua residência, casou-se com a filha do pontífice.
Nesta ocasião se fez partidário e aceitou a circuncisão.
Mas como logo se divorciou, escreveu encolerizado contra a circuncisão,
o sabbat e a Lei". (Cf. Migne, Patrologie grecque, Epiphane: Adversus
Haereses, libero I, tomo II, III, 16, pp. 431-434, Paris, 1858.)
Quem tem razão? Monsenhor Ricciotti ou o abade Migne? Nós
acreditamos que o primeiro, que ao ser prelado romano, teve indubitavelmente
acesso à célebre Biblioteca do Vaticano e aos manuscritos
mais antigos de Epífano, enquanto que o segundo e seus colaboradores
se contentaram traduzindo a um excelente latim um manuscrito grego do século
XVI, gravado sobre madeira e impresso, das obras completas do mesmo Epífano.
E é muito provável, em efeito, que como sempre, as obras deste
último sofressem sérios retoques e variações,
ao desejo de cada monge copista dos séculos passados; daí
as diferenças entre os manuscritos.
Assim, parece mais plausível convir com monsenhor Ricciotti em que
Saulo-Paulo se encontrou com que lhe negavam a mão da jovem -daí
sua mudança de atitude-, em lugar de atribuir tal mudança
ao fato de que Saulo-Paulo tivesse repudiado à moça, porque
esta separação depois do matrimônio, segundo os termos
da lei judia, não podia correr a não ser a cargo do marido,
já que a esposa não possuía este direito.
O único modo de conciliar estes dois variantes seria admitir que
Saulo-Paulo e a jovem estiveram oficialmente prometidos, já que este
fato, em Israel antigo, equivalia a uma espécie de matrimônio
privado, do que o matrimônio oficial não constituía
mais que a conclusão legal. Assim, uma vez prometidos, as severas
leis sobre o adultério eram já aplicáveis aos noivos,
posto que o noivo podia viver já em casa de seu futuro sogro, e usar
dos direitos legítimos do matrimônio, e daí a frase
de Mateus, que não se entende a não ser nesse contexto: "O
homem abandonará a seu pai e a sua mãe e se unirá à
mulher" (Mateus, 19, 5). De modo que os recém casados não
foram viver à parte ou à casa dos pais do marido até
depois do matrimônio oficial e legal.
Pode supor-se, pois, que se rompeu o noivado de Saulo-Paulo por causa da
oposição do Sanedrim, e daí sua irritação.
Na hipótese inversa, se foi ele quem rompeu o acordo, depois de ter
feito uso dos direitos legítimos e ter abusado deste modo da confiança
da família e da jovem, é facilmente concebível o furor
dos judeus contra esse pagão de má fé.
E fica um último ponto, ou seja: quem era o pai da jovem? Era o pontífice
de Israel, quer dizer o supremo sacerdote, o cohen-ha-gadol, ou era Gamaliel,
o rabban, quer dizer o "professor dos professores", o "doutor
dos doutores", ou seja o próprio presidente do Sanedrim, o Hahan-ha-hahanim
(sábio dos sábios), possivelmente inclusive Rosch-Galouta
(príncipe do Exílio) ou Daion-di-baba (Juiz supremo)?
Pessoalmente, nos inclinamos pelo Gamaliel, já que os Atos dos Apóstolos
contribuem, apesar de tudo, uma lembrança, possivelmente deformada,
mas nada desdenhável, das relações entre Saulo-Paulo
e Gamaliel (Atos, 22, 3), assim como nos mostram o mesmo Saulo-Paulo na
incapacidade de reconhecer e de identificar ao pontífice. (Atos,
23, 1-5.)
9 - A família de Saulo-Paulo
A herança é como uma diligência em que viajassem todos
nossos antepassados. De vez em quando um deles tira a cabeça pela
portinhola e vem a nos causar todo tipo de complicações. O.
W. Holmes, seleção
Começamos já a enfocar suficientemente o personagem múltiplo
que se oculta sob os nomes sucessivos de Shaul, Saulo, Paulo para estar
agora em condições de abordar numerosos detalhes sobre sua
existência. E em primeiro lugar, quando e onde nasceu.
Tomamos cuidadosamente nota de que tinha sido educado com:
a) Menahem, neto de Judas da Gamala, de filiação davídica
e real, e que levantará o estandarte de uma nova revolução
judia no ano 64 de nossa era. Será o bisavô do Jonathan-Ben-Menahem,
intendente geral do Simão-Ben-Koseba, príncipe de Israel,
chefe da última revolução no ano 132;
b) Herodes, o Tetrarca, e é este último que nos permitirá
marcar datas importantes da vida de Saulo.
Trata-se, com efeito, de Herodes Agripa II, filho de Herodes Agripa I, rei
da Judéia e da Samaria, nascido no ano 10 antes de nossa era e morto
em 44 desta. Herodes Agripa II foi o irmão de Berenice, esposa de
Herodes do Calcis, e que, uma vez viúva, foi ao lado de seu irmão,
com quem sustentou, segundo os rumores públicos, umas relações
incestuosas. Sua segunda irmã era Drusila, que se casou com Aziz,
rei de Emeso (morto no ano 54), e o abandonara no 52 para viver com Antonio
Félix, procurador de Roma na Judéia, no ano 53.
Herodes Agripa II foi com toda certeza educado em princípio na Cesaréia
e em Tiberíades, na corte de seu pai. Nasceu no ano 27 de nossa era,
já que contava 17 anos de idade à morte deste, em Cesaréia,
em 44. Chamado à Roma por Claudio César, ao advento deste
imperador, quer dizer em princípio do ano 41. Não retornou
à Judéia até muito mais tarde, porque Claudio César
não quis confiar tais responsabilidades a um adolescente. Em sua
ausência, Judéia teve como procuradores, sucessivamente, a:
Marcelo (44), Cuspio Fado (45-46), Tibério Alexandre (46-48), Ventidio
Cumano (48-51) e Antonio Félix (51-58). Enquanto isso, no ano 51,
a tetrarquia da Traconítide fora concedida ao Herodes Agripa II,
daí seu nome de tetrarca. Mas, como vemos, não foi realmente
rei, e não reinou como seu pai sobre a Judéia e Samaria.
Teve que haver aí uma manifestação de desconfiança
por parte de Claudio César, porque sua saída de Roma coincidiu
com o decreto deste imperador expulsando aos judeus livres da capital do
Império. Ali não ficaram mais que os escravos e os que não
tinham alforria por completo ante o pretor.
Portanto, foi com Herodes Agripa II e com Menahem com quem foi criado Saulo.
Podemos admitir que este último fora algo maior. De todo modo, se
Estêvão foi realmente lapidado no ano 36, Saulo não
devia ter alcançado ainda a maioridade civil e religiosa do bar-mitzva
(aproximadamente aos doze anos), posto que não participou da lapidação,
e os judeus se limitaram a lhe confiar a vigilância de suas roupas
(Atos, 7, 58).
Mas, já que agora sabemos que não era judeu, a não
ser idumeu, o problema não se expõe sob este ângulo.
De todo modo, dizem que aprovou o assassinato legal de Estêvão
(Atos, 22, 20). Assim, estiveram obrigados a recorrer a uma aprovação,
ao menos tácita, de Saulo, o que implica que tinha já certa
autoridade. E com efeito, imediatamente depois do enterro de Estêvão,
vemo-lo penetrar nas moradias e arrancar delas homens e mulheres para colocá-los
na prisão (Atos, 8, 3); logo abandona Jerusalém para estender
suas pesquisas e suas batidas até Damasco, em Síria (Atos,
8, 1-2).
Semelhantes atividades, que implicam uma autoridade policial, não
são exclusivas da adolescência nos séculos passados.
Não esqueçamos que seu avô Herodes, o Grande, só
tinha vinte e sete anos quando capturou ao Ezequías, pai de Judas
da Gamala e avô de Jesus, e o fez crucificar no curso de suas campanhas
contra esse "filho de David" que fazia estragos em Síria,
à cabeça de seus partidários. E o próprio Herodes,
o Grande, recebera já de seu pai Antípater, amigo de César,
o governo da Galiléia, "embora fosse então extremamente
jovem" (cf. Flavio Josefo, Guerra dos judeus. I, VIII). Durante muito
tempo será assim, e na França, por exemplo, chegou até
Capelos. Luis XI exercerá um mando militar efetivo aos quatorze anos,
e fomentará a revolta da Pragueria contra seu pai Carlos VII aos
dezessete anos. Então nomeia-lhe governador do Delfinado. Carlos
V foi regente do reino da França aos dezoito anos. Os reis, com efeito,
eram maiores de idade aos quatorze anos, e Luis XIII foi aos treze.
Por conseguinte, a juventude de Saulo quando lapidaram Estêvão,
e imediatamente depois seu papel na repressão do neomessianismo,
não fazem a não ser confirmar a inanidade da tese segundo
a qual não se tratava senão de um judeu comum, quando tudo
demonstra, pelo contrário, que era um príncipe herodiano,
que gozava de todos os privilégios de seu berço e de todas
as responsabilidades inerentes a esta.
Filiação da dinastia Iduméia
Saulo nasceu, portanto, entre os anos 23 e 25 de nossa era, e morreu aos
quarenta ou quarenta e cinco anos. Estes dados o fazem três ou quatro
anos maior que seu süntrophós Herodes o Tetrarca (Atos, 13,
1). Este termo grego significa "companheiro de juventude, amigo da
infância", e é a palavra que figura nos manuscritos gregos
dos Atos dos Apóstolos.
Assim, se se criou na Cesaréia e em Tiberíades, na corte de
Herodes Antipas, não pôde conhecer nem ter visto antes ao Jesus,
posto que este jamais pôs os pés em tais cidades, impuras para
um judeu integrista, a primeira por ser meio helenística, e a segunda
porque estava construída sobre um antigo cemitério. Herodes
Antipas tampouco nunca vira Jesus, porque foi Poncio Pilatos quem o enviou
à Jerusalém, depois de sua captura. E o evangelho de Lucas
nos diz: "Quando Herodes viu Jesus, teve uma grande alegria, já
que desde fazia tempo desejava vê-lo, pois tinha ouvido dizer muitas
coisas dele, e esperava lhe ver fazer algum milagre". (Lucas, 23, 8.)
Observe-se que Mateus, Marcos e João ignoram este comparecimento
de Jesus ante o Herodes Antipas.
Achamo-nos agora em situação de poder estabelecer a genealogia
de Saulo-Paulo:
Genealogia do Shaul-bar-Antípater
Primeiro grau: Herodes do Ascalón, sacerdote do templo do Apolo no
Ascalón. De sua união com o X... nasceu Antípater.
Segundo grau: Antípater, epimeleta da Palestina. De sua união
com Cypros I, pertencente a uma das mais ilustres famílias da Arábia
nabatea, nasceram quatro filhos, Fazael, Herodes o Grande, José e
Perora, e uma filha, Salomé I. Morreu no ano 43 antes de nossa era,
acredita-se que envenenado.
Terceiro grau: Salomé I, que esteve primeiro casada com um tal José,
do que não possuímos nenhuma informação, salvo
que foi assassinado por ordem de Herodes o Grande, assim como Mariana, esposa
deste último, no ano 29 antes de nossa era, depois de serem acusados
de adultério por Salomé I ante seu irmão. Esta se casou
a seguir com Costobaro I, íntimo amigo de Herodes o Grande, quem
antes de que tivesse lugar o enlace o nomeou governador da Iduméia
e da Gaza, no ano 37 antes de nossa era. Costobaro I procedia de uma das
maiores famílias da Iduméia, e seus antepassados nos tempos
dos príncipes-sacerdotes, tinham sido sacrificadores do deus Cosas
-divindade que as tribos Iduméias adoravam com grande devoção-,
antes de que Hircano os obrigasse a abraçar a religião judia,
se não sinceramente, ao menos na aparência. Como Costobaro
I conspirasse com Cleópatra, rainha do Egito, para separar Iduméia
do reino do Herodes a fim de fazer-se independente, este o mandou executar
por volta do ano 28 antes de nossa era. Logo Salomé I se casou pela
terceira vez com um tal Alexas.
De sua segunda união com Costobaro I, Salomé teve duas filhas.
De uma delas se ignora o nome; sabe-se que se casou com Caleas, filho de
Alexas, terceiro marido de Salomé I. A outra se chamava Berenice,
e se casou com Aristóbulo, filho de Herodes, o Grande. Salomé
I teve um filho, chamado Antípater, de que falaremos a seguir. Ela
morreu no ano 14 de nossa era.
Quarto grau: Antípater II, filho de Costobaro I e de Salomé
I, casou-se com Cypros II, filha de Herodes, o Grande, e de Mariana. Desta
união nasceram uma filha, Cypros III, que se casou com Alexias Helsius,
e dois filhos, Shaul e Costobaro II. Observar-se-á que o nome primitivo
de Saulo-Paulo era Shaul, posto que é o que os Atos dão no
capítulo 9, versículo 4, no episódio do caminho de
Damasco. Essa é a forma aramaica do nome, e Saulós era a forma
grega. Pois bem, o aramaico se falava na Palestina e na Síria, e
nesta época se estendeu do Sinai ao Taurus e mais à frente
do golfo Pérsico.
Aqui, o manuscrito grego das Antigüidades judaicas de Flavio Josefo
mostra uma importante lacuna. Os famosos monges copistas deram-lhe em mãos,
já que os originais desapareceram misteriosamente, e não possuímos
mais que transcrições medievais dos séculos IX e XIL.
A Igreja velou zelosamente pela ortodoxia das cópias das obras de
tal autor. Hoje em dia, na Biblioteca de Friburgo, encontra-se um manuscrito
de Flavio Josefo que, no século XV, era ainda propriedade privada
do arcebispo de Toulouse, Monsenhor Rieux, e que procedia possivelmente
das expropriações inquisitoriais entre os albigenses e os
cátaros, ou do processo contra a Ordem do Templo. A Igreja citou
ao arcebispo e seu manuscrito ante o Parlamento de Paris, a fim de que o
manuscrito fora examinado, e requisitado se era necessário, e o arcebispo
interrogado sobre sua ortodoxia. Esta lacuna na filiação da
dinastia Iduméia não deve, pois, nos surpreender; tratava-se
de fazer desaparecer da verdade histórica a esse príncipe
herodiano de origens muito significativos. Na obra de Flavio Josefo só
encontramos a seguinte referência:
Quinto grau: "Costobaro [II] e Shaul tinham também consigo grande
número de guerreiros, e o fato de que fossem príncipes de
sangue real e parentes do rei os fazia gozar de uma grande consideração.
Mas eram violentos, sempre dispostos a oprimir aos mais débeis."
(Flavio Josefo, op. cit.) Costobaro II formou parte da delegação
enviada ao rei Herodes Agripa II para lhe pedir que fora a Jerusalém
com tropas, a fim de sufocar a rebelião. Logo, durante a estância
de Nero César na Acaia, foi enviado a este por Cestio Galo, governador
de Síria, para que lhe explicasse os motivos de sua derrota.
Como vemos indiscutivelmente, Saulo-Paulo foi pois o autêntico neto
de Herodes, o Grande, graças ao matrimônio de seu pai Antípater
II com a filha daquele (Cypros II), e é também seu sobrinho-neto,
por ser neto da irmã de Herodes, Salomé I, mãe de Antípater
II.
De maneira que nos achamos muito longe desse casal de judeus desconhecidos,
deportados ao Tarso, dos quais inclusive se ignora o nome. Coisa que não
impedirá à certos críticos bem pensantes negar-se a
discutir nossos argumentos, embora sem contribuir eles com os seus.
Não obstante, observaremos que Saulo-Paulo não é cem
por cento idumeu, já que sua avó materna, Mariana (mãe
de Cypros II), era filha de Alexandre e de Alexandra, e portanto neta de
Hircano II, rei e supremo sacerdote, descendente direto de uma linhagem
de supremos sacerdotes de Israel que se remontava até o Matatias,
pai de Judas Macabeo, o herói da luta judia contra Antíoco
IV Epífanes (veja a árvore genealógica acima). Assim,
por esta avó judia, Saulo-Paulo tem 25% de sangue judeu (sua mãe,
Cypros II, tem 50%), e o resto, 75 %, de sangue Iduméia e nabatea.
Por outra parte, se isto lhe facilitar a circuncisão ulterior, o
fato de contar em sua ascendência materna com quatro supremos sacerdotes
de Israel (Hircano II, Alexandre Janeo, Juan Hircano I e Simão-bar-Matatias)
seria incitado a considerar como possível uma união com a
filha de Gamaliel.
Mas, além de que o valor moral desta circuncisão tardia foi
discutido pelo Sanedrim, a dinastia asmonea, procedente de Matatias e seus
filhos, deixara lembranças muito penosas e sangrentas nas memórias
judias para que o povo aceitasse tal união; de fato, ante a alternativa,
preferiam a filiação davídica.
E isso não podia a não ser agravar as más relações
posteriores entre Saulo-Paulo, asmoneo por parte de mãe e idumeu
por parte de pai, e Simão-Pedro, "filho de David", como
seu irmão maior Jesus, como seu pai Judas da Gamala e como seu avô
Ezequias, crucificado por Herodes, avô de Saulo-Paulo. Esses ódios
familiares explicarão muitos dramas, especialmente a crucificação
de Simão-Pedro e de Santiago, seu irmão, no ano 47 em Jerusalém,
por ordem de Tibério Alexandre, procurador de Roma.
Porque esta dupla execução tem lugar em plena nova revolução
judia, durante a enorme fome que assolou o Império romano naquela
época, anunciada pelo vidente Agabus (Atos, 11, 28), e que se produziu
ao término do primeiro "concílio" de Jerusalém,
verdadeiro conselho de guerra, onde se enfrentaram os adversários
dos tabus legais, e sobretudo da circuncisão, agrupados ao redor
de Saulo-Paulo e vindos da Gentilidade, e os judeus-cristãos tradicionalistas,
agrupados ao redor de Simão-Pedro, e procedentes, ou da corrente
zelote, ou da seita fariseu.
É provável que as origens principescas de Saulo-Paulo e suas
antigas funções o colocassem em situação de
poder alertar eficazmente às autoridades romanas contra o que ele
considerava como irredutíveis obstáculos a suas ambições
e a seus planos. Porque fica uma alusão muito clara a este drama:
"Pedro, quem, vítima de um injusto ciúmes, passou não
por uma, mas sim por numerosas provas, e quem, depois de ter sofrido assim
seu martírio, foi à glória que lhe estava devida...".
(Cf. Clemente de Roma, Epístola aos Coríntios, V, 4.)
E isso é o que vamos estudar agora.
Este estudo genealógico poderia parecemos fastidioso e inútil
se não nos pusesse em presença de uma verdade pasmosa, verdade
que, como efeito de uma bomba cega, permitir-nos-á compreender muitas
coisas. Que o leitor tenha a bondade de remeter-se aos quadros genealógicos
das páginas anteriores, que podem resumir-se como se indica no esquema
desta página.
Não faz falta ser um grande letrado para constatar que Saulo-Paulo
é o segundo primo do rei Herodes Agripa I, quem a sua vez é
primo em terceiro grau de seu filho Herodes Agripa II e de suas filhas,
as princesas Berenice (viúva de seu tio Herodes, rei do Calcis) e
Drusila (viúva do Aziz, rei do Emeso), e que por conseguinte, quando
esta última se casou com o Antonio Félix, procurador de Roma,
irmão do Palante (favorito do imperador Claudio), este matrimônio
converteu Félix e Paulo em primos por aliança.
Genitores Primos irmãos Primos segundos Primos em terceiro grau
Herodes, o Grande, casado com a Mariana;
Sua irmã é: Salomé I, casada com Costobaro I; de onde:
Antípater II, casado com Cypros II;
de onde:
Saulo-Paulo e Costobaro II
de onde:
Alexandre Aristóbulo, casado com Glafira;
de onde:
Herodes Agripa I, casado com X...;
de onde:
Herodes Agripa II, cujas irmãs são: Berenice e Drusila, casada
com Félix, o procurador romano
Assim se compreende facilmente por que Claudio Lisias, tribuno das coortes
e governador da Antonia, em Jerusalém, fez conduzir Saulo-Paulo à
Cesaréia Marítima, sob a proteção de quatrocentos
e setenta soldados, com várias montarias para o "prisioneiro
Paulo" (sic). Era para pô-lo sob o amparo de seu primo Félix.
Porque detrás deste último estava seu irmão Palante,
secretário de Claudio César, e o tribuno Lisias era tão
bom diplomático como perito soldado...
Referências Bibliográficas Flavio Josefo: Antigüidades
judaicas (manuscrito grego): XIV, XII; XV, XI; XVI, VII; XVII, I; XVII,
I; XVIII, V; XVIII, V; XX, VIII. Guerra dos judeus (manuscrito eslavo):
I, IX; I, XI; I, XVII; II, XXXI; II, XII.
As cifras romanas maiúsculas indicam o livro da obra, e as cifras
romanas minúsculas precisam os capítulos de tais livros.
Nota: Segundo costume em genealogia, e a fim de diferenciar aos personagens
do mesmo nome mas com graus diferentes de filiação, demos
um indicativo de ordem a cada um dos membros desta família: Salomé
I, Costobaro II, Cypros III, etc. Se se examina a árvore genealógica
da Casa dos Herodes se observará, em efeito, que há um uso
constante dos mesmos nomes. Trata-se de uma espécie de costume tribal.
Por outra parte, Shaul ou Saulo é um nome raramente utilizado no
Antigo Testamento. Primeiro está o de um dos filhos de Esaú,
um dos reis do Edom, adversários dos filhos de Israel (Gênesis,
36, 37). Há logo um Saúl, filho de Simão e de uma cananéia,
e neto de Jacob. Sua descendência constituiu um ramo à parte,
pelo mesmo fato desta aliança com uma mulher de raça estrangeira.
(Gênesis, 46, 10, e Números, 26, 13.) Está, por último,
o Saúl que precedeu ao David (I Samuel, II Samuel, I Crônicas).
Como vemos, isto confirma que Saúl não era um nome verdadeiramente
judeu, mas, ao contrário muito utilizado entre os árabes.
Os sacrilégios de Saulo-Paulo
Resulta que a desonra e a própria santidade, devidamente identificadas,
aconselham deste modo uma certa prudência, e representam, de cara
ao mundo, os dois pólos de um campo atemorizador.
R. Caillois, L'Homme elle Sacre
Nos Atos dos Apóstolos lêem o que segue: "E seguiu até
chegar ao Derbe e a Listra. E se encontrou ali com um discípulo chamado
Timóteo, filho de uma mulher judia crente e de pai grego, que tinha
a seu favor o testemunho dos irmãos que havia em Listra e em Iconio.
Quis Paulo que se fora com ele, e tomando, circundou-lhe por causa de quão
judeus havia naqueles lugares, pois todos sabiam que seu pai era grego".
(Atos dos Apóstolos, 16, 1-5.)
O que quer dizer com isto? Porque o mesmo texto nos contribui a seguir sua
própria contradição: "Ao passar pelas cidades,
comunicava-lhes os decretos dados pelos apóstolos e anciões
de Jerusalém, lhes encarregando que os guardassem". (Atos dos
Apóstolos, 16, 4.)
Que decretos são esses? Aqui os temos: "Porque pareceu bom ao
Espírito Santo e a nós não lhes impor nenhuma outra
carga mais que estas necessárias: que lhes abstenham das carnes imoladas
aos ídolos, do sangue, dos animais estrangulados e da fornicação,
do qual farão bem em lhes guardar". (Atos dos Apóstolos,
15, 28-29.)
Aqui não se fala em nada de circuncisão... Porque do que aqui
se trata é da Lei de Noé, menos severo que a Lei de Moisés.
Logo voltaremos sobre este tema.
Por conseguinte, a operação efetuada sobre Timóteo
pelo próprio Paulo foi uma circuncisão clandestina, não
ritual, com o fim de enganar, e portanto mendaz e sacrílega.
Agora bem, ele não tinha nenhuma autoridade para efetuá-la,
por não ser judeu, e menos ainda sacrifícador. E se fosse
judeu. Paulo, a quem nos apresenta como chefe de uma tropa ao serviço
do Sanedrim, demonstrava com esta função puramente laica que
não era sacerdote. Porque é mais que incerto que Gamaliel,
doutor supremo de Israel, recebesse entre seus discípulos a um jovem
judeu destinado simplesmente a desempenhar o papel de jenízaro. Assim,
Paulo mentiu ao pretender ter sido educado "aos pés do Gamaliel"
(Atos dos Apóstolos, 22, 3).
Vejamos como se desenvolvia essa circuncisão ritual.
Exigia a presença de três mohelim (sacrifícadores),
e de sete testemunhas varões adultos. A circuncisão, que começava
com a faca ritual o primeiro mohel, terminava-se dentibus. A primeira aspiração
de sangue a tragava esse primeiro mohel, que representava a "Deus,
o primeiro servido". As duas aspirações seguintes as
cuspiam a seguir os outros dois mohelim em uma taça de vinho de bênção.
Com esse vinho consagrado se esfregava os lábios do jovem circunciso.
A taça circulava logo do pai aos convidados varões, e todos
bebiam dela. Tinha lugar assim a comunhão com Israel humano, e logo
vinha a comunhão com Deus. O resto do vinho passava à mãe,
que o mesclava com bolos e com geléias que eram distribuídas
em seguida entre os amigos da família. (Cf. León de Módena,
grande rabino de Veneza, Cérémonies & Coutumes juives,
p.131.)
Por último, durante esta tripla comunhão com Deus, os sacerdotes
e os laicos, cantava-se o salmo 16 de Ezequiel: "Revive em seu sangue!".
E esta era a única circunstância em que os judeus podiam ingerir
sangue, e mesmo assim se tratava de sangue humano, rigorosamente judeu,
o que elimina a abominável lenda dos crimes rituais imputados aos
judeus, e dos meninos cristãos sacrificados durante a Páscoa.
Como se vê por este relato; Paulo não tinha complexos, e para
tratar com semelhante desenvoltura o rito mais sagrado da Antiga Aliança,
tinha que ser totalmente alheio à raça judia, porque naquela
época um filho de Israel "educado os pés de Gamaliel"
jamais se atreveria a cometer tal impiedade.
Este constitui, pois, o primeiro sacrilégio de Saulo-Paulo, e é
fácil de conceber que suscitasse entre os judeus um forte ódio
quando fora conhecido por eles.
Vejamos agora o segundo: "Quando chegamos à Jerusalém,
fomos recebidos pelos irmãos com alegria. Ao dia seguinte, Paulo,
acompanhado de nós, visitou Santiago, e ali se reuniram todos os
anciões. Depois de havê-los saudado, contou uma por uma as
coisas que Deus tinha obrado entre os gentis por seu ministério.
Logo eles lhe disseram: Já vê, irmão, quantos milhares
de crentes há entre os judeus, e todos são zeladores da lei.
Mas ouviram que ensina aos judeus da dispersão que terá que
renunciar ao Moisés, e lhes diz que não circuncidem a seus
filhos e não sigam os costumes mosaicos. O que fazer, pois? Indubitavelmente
a gente se reunirá, porque saberão que veio! Por isso faz
o que vamos dizer: Há entre nós quatro homens que têm
feito voto. Toma-os contigo, purifica-se com eles e lhes pague os gastos
para que se raspem a cabeça. E assim todos conhecerão que
não há nada de quanto ouviram sobre si, mas sim você
também segue na observância da Lei. [...] Então Paulo,
tomando consigo aos varões, purificou-se, e entrou na manhã
seguinte no Templo com eles para anunciar que dia se cumpriria a purificação,
e a oferenda apresentada por cada um deles". (Atos dos Apóstolos,
21, 17-26.)
Os quatro homens que deviam cumprir essas cerimônias de purificação
eram judeus que tinham feito o voto do nazireato para um tempo dado. Essas
cerimônias implicavam gastos consideráveis; compreende-se,
pois, que ao tomar Paulo a seu cargo a estes, infiltrando-se entre eles
sem ter feito antes o voto prévio (e com razão!), cai no caso
de corrupção de quatro nazirim, crime muito grave, tanto para
ele como para eles, e no de falsa declaração de nazireato,
verdadeiro sacrilégio, já que profanava as cerimônias
de liberação desse estado.
E chegamos agora ao terceiro: Em Jerusalém, o tribuno Lisias convoca
ao Sanedrim e chama a sua presença Paulo, que vai sob o amparo dos
legionários. É então quando nosso Paulo tem a audácia
mendaz de declarar: "Varões irmãos, eu com toda boa consciência
procedi ante Deus até este dia" (Atos dos Apóstolos,
23, 1); o supremo sacerdote Ananías ordena a um dos que estão
a seu lado que lhe golpeiem na boca. Então Paulo declara, furioso:
"Deus golpeará a ti, parede branqueada!" (op. cit., 23,
3).
Com cal vivo branqueavam-se as soleiras, os pingentes as portas dos sepulcros
utilizados para alertar aos judeus e lhes evitar o contato com um lugar
impuro, no que se decompunha lentamente um cadáver. Os epítetos
de "sepulcro" e de "parede branqueada" equivaliam portanto
a tratar a alguém de podridão ou de carniça. (Jesus,
por certo, tampouco se privou de utilizá-los; veja-se Mateus, 22,
27, e Lucas, 11, 44.)
Paulo, dando-se conta então da magnitude da estupidez que tinha cometido,
replicou sem alterar-se aos judeus que lhe acusavam de ter insultado ao
"soberano pontífice de Deus" (Atos dos Apóstolos,
23, 4): "Não sabia, irmãos, que fora o pontífice.
Porque escrito está: Não injuriará ao príncipe
de seu povo". (Atos dos Apóstolos, 23, 5, citando o Êxodo,
22, 27.)
Isto constitui uma prova mais de que não era judeu, e que não
cresceu espiritualmente "aos pés de Gamaliel", como afirma.
Porque nesse caso conheceria o rosto daquele que lhe sucedeu, seu sucessor
direto; teria que lhe encontrar forçosamente, como simples cohén,
na casa de Gamaliel. Mas, sobretudo, conheceria suas roupas e ornamentos
rituais, e saberia, assim identificá-lo entre os sanedritas.
O que caberia pensar, por exemplo, de um sacerdote católico romano
que, em presença de um concílio, não soubesse distinguir
ao Papa por seus ornamentos particulares, seu posto, sua importância
e sua autoridade?
O judaísmo compreendia duas categorias de fiéis, e um só
se convertia verdadeiramente em filho de Israel ao final de duas etapas,
ou seja:
1) partidários de primeiro grau, chamados "temerosos deste Deus
observavam a Lei de Noé -daí seu nome de noacitas-, quer dizer
que não consumiam sangue, e por este motivo, nenhuma carne procedente
de animal morto (cf. Gênesis, 9, 1-7);
2) partidários de segundo grau, chamados "de justiça".
Observavam a Lei de Moisés com todo seu rigor: proibição
de sangue, de carnes consagradas e oferecidas em altares dedicados a outros
deuses, de carnes procedentes de animais mortos ou impuros, etc. (cf. Deuteronômio,
caps. 12-26).
É fácil tirar a conclusão de que Saulo-Paulo nem sequer
foi partidário de primeiro grau, um "temeroso de Deus",
porque ao ter que respeitar a Lei de Noé, que impunha a fecundidade
sexual (Gênesis, 9, 7), não poderia aconselhar seus seguidores:
"Quem casa a sua filha donzela faz bem. Mas quem não a casa
faz melhor". (Cf. I Epístola aos Coríntios, 7, 38.)
Quanto à circuncisão por complacência, aceita para poder
casar-se com uma das filhas do Gamaliel, é provável que fora
igual de irregular que a de seu discípulo Timóteo, e não
nos está proibido supor que nem sequer foi um cohén regular
o que a praticou.
Nota: Observar-se-á que no texto grego dos Atos, 13, 1: "...
e Menahem, que fora criado com Herodes, o Tetrarca, e Saulo...", o
escriba do século IV pôs este último nome em nominativo
(Saúlos), o que implica, em seu espírito, que Saulo não
foi criado com Menahem e Herodes, o Tetrarca, futuro Herodes Agripa I. Trata-se
de uma artimanha indiscutível, já que é evidente que,
muito mais que Menahem, membro de uma família rival da de Herodes,
o Saulo "príncipe de sangue real", como o qualifica Flavio
Josefo, esteve em situação de poder ser criado com seu primo
Herodes, o Tetrarca. Quanto mais que as obras deste autor nos mostram sem
cessar aos membros desta dinastia mesclados em uma espécie de vida
em comum, verdadeira corte reunida nos diversos palácios em torno
de um dos príncipes descendentes de Herodes, o Grande. De onde essas
múltiplas intrigas que marcam tragicamente a história de tal
família.
10 - Paulo e as mulheres
Se me amarem tanto como eu vos amo, nenhum mortal é, então,
tão amado como eu.
Gregorio VII Carta a Mathilda, duquesa da Toscana, sua concubina.
"Há uma raça nova de homens, nascidos ontem, sem pátria
nem tradições, unidos contra todas as instituições
civis e religiosas, perseguidos pela justiça, pontuados universalmente
de infâmia, mas que se vangloriam da abominação comum:
são os cristãos... Os perigos que os cristãos confrontam
por suas crenças, Sócrates soube encará-los por si
com um valor inquebrável e uma serenidade maravilhosa. Os preceitos
de sua moral, no que tem de melhor, ensinaram-nos os filósofos antes
deles. Suas críticas à idolatria, que consistem em dizer que
as estátuas realizadas por homens freqüentemente desprezíveis
não são deuses, foram repetidas inumeráveis vezes.
Heráclito, por exemplo, disse: "Dirigir orações
à imagens, sem saber o que são os deuses e os heróis
que representam, é o mesmo que falar com pedras".
"O poder que parecem possuir lhes vem de nomes misteriosos e da invocação
de certos demônios. Através da magia foi como seu Mestre realizou
tudo que de assombroso houve em suas ações. Logo pôs
grande cuidado em advertir à seus discípulos que se protegessem
daqueles que, ao conhecer os mesmos segredos, poderiam fazer quão
mesmo ele e fingir, igual a ele, que participassem do Poder Divino. Divertida
e escandalosa contradição! Porque se condena com razão
a quem imita, como não se voltar contra ele sua própria condenação?
E se ele não é nem impostor nem perverso por ter realizado
ditos prodígios, por que seus imitadores, pelo fato de levar a cabo
as mesmas coisas mediante os mesmos meios teriam que sê-lo mais que
ele?..." (Cf. Celso: Discurso da Verdade, 1-3.)
Antes nosso terrível autor assinala os círculos familiares
nos quais os cristãos tentam, preferencialmente, obter partidários:
"vêem-se cardadores de lã, sapateiros, tecelões,
gente da maior ignorância e desprovidos de toda educação,
que, em presença de seus professores, homens de experiência
e de julgamento, guardam-se bem de abrir a boca. Mas quando surpreendem
aos meninos da casa, ou inclusive às mulheres, que não têm
mais razão que eles mesmos, começam a lhes contar maravilhas!
É a eles sozinhos a quem terá que acreditar; o pai de família,
os preceptores, são loucos que ignoram o verdadeiro bem e são
incapazes de ensiná-lo. Só eles sabem como terá que
viver; os meninos farão bem de segui-los, e através deles
a felicidade visitará toda a família! Não obstante,
se enquanto eles pregavam aparece um dos preceptores, ou o próprio
pai de família, ou alguma pessoa séria, os mais tímidos
não se calam; os descarados não deixam de incitar aos meninos
a que sacudam o jugo, insinuando em surdina que não querem lhes ensinar
nada em presença de seu pai ou seu preceptor, para não expor-se
à brutalidade dessas gente corrompidas, e que lhes castigariam. Mas
que aqueles que desejem saber a verdade, suplantem ao pai e preceptor, e
vão com as mulheres e os meninos ao gineceu, ou à tenda do
sapateiro ou a do tecelão, para aprender a vida perfeita". (Op.
cit., tradução de Louis Rougier, Jean-Jacques Pauvert, éditeur.
Paris 1965.)
Vimos, indiscutivelmente, um quadro tomado ao vivo. Uma coisa assim não
se inventa. E Celso, amigo do imperador Juliano, seu companheiro de estudos
nas escolas de Atenas, a quem Juliano fez governador das províncias
da Capadocia, Cilícia, pretor da Bitinia, com toda segurança
teve que se ver com propagandistas cristãos.
Agora bem, vamos encontrar nos próprios textos cristãos esta
ação insidiosa entre as mulheres, e sobretudo as jovens. Freqüentemente
estas últimas eram "dadas em matrimônio" pelo pater
familias, sem preocupar-se o mínimo por suas inclinações
do momento (coisa que em Israel a Lei religiosa proibia fazer). Disso resultavam
feridas morais incuráveis, e se compreende facilmente que os pregadores
da nova religião encontrassem terreno abonado para lhes pregar a
castidade.
Pois bem, nos Atos de Paulo, chamados também Atos de Paulo e de Tecla,
cujas versões siríaca, eslava e árabe são do
século VI (existem fragmentos da versão grega em um pergaminho
do século VI), vamos encontrar provas formais desta ação
insidiosa de Paulo entre as mulheres. E esta ação, tendo em
conta as crenças daqueles tempos, revestirá um aspecto mágico
não menos seguro.
Por uma parte, Paulo aconselhará a quão jovens não
se casem. Por outra, aconselhará às jovens e às mulheres
o mesmo. Mas enquanto o efeito sobre os primeiros é menos tangível,
a ação, ou, como poderíamos dizer, a influência,
por volta das segundas, é total. Julgue-se:
"Afortunados aqueles que têm mulheres como se não tivessem,
porque terão a Deus como herança..." (Op. cit., V.)
"Enquanto Paulo assim falava em meio da assembléia, na mansão
de Onesiforo, uma virgem, cuja mãe se chamava Teoclia, e que estava
prometida a um jovem chamado Tamiris, sentada na janela mais próxima
a sua casa, escutava dia e noite a palavra de Deus anunciada por Paulo...
E não se movia da janela... Além disso, como via mulheres
e virgens ao lado de Paulo... Porque ela não tinha visto ainda nunca
as facções de Paulo, só tinha ouvido sua palavra."
(Op. cit., VII.)
"E Teoclia disse: Tenho detalhes novos para dar, Tamiris. Faz três
dias e três noites que sua prometida não se separa da janela,
nem para comer nem para beber, mas sim, como extraviada de gozo, aterra-se
de tal maneira a um homem estrangeiro que ensina palavras enganosas e artificiosas,
que estou surpreendida de que o tão grande pudor da jovem esteja
turbado de forma tão penosa." (Op. cit., VIII.)
"Tamiris, este homem transtorna a cidade dos iconianos, como a sua
própria pregação, já que todas as mulheres e
os jovens vão a ele... E minha filha também, encadeada como
uma aranha a sua janela pelo que ele diz, está dominada por um desejo
novo e por uma temível paixão... E a jovem está gostando
muito..." (Op. cit., IX.)
"E todos choravam amargamente, Tamiris porque perdia a sua futura esposa,
Teoclia a sua filha, os jovens escravos a sua ama. Reinava, pois, na casa
uma grande e geral confusão de pesar. E enquanto isso, Tecla não
mudava, e permanecia sempre atenta ao verbo de Paulo." (Op cit., X.)
"Tamiris, quando ouviu isto, ficou com ciúmes e cólera.
Logo que amanheceu se levantou e foi à casa de Onesiforo com magistrados,
funcionários, e um grupo bastante numeroso armado de fortificações,
e disse ao Paulo: "seduziste à cidade dos iconianos e a minha
prometida, de modo que esta já não quer casar-se comigo; vamos
ante o governador Cestilio". E o grupo inteiro disse: "leve este
bruxo, porque seduziu todas nossas esposas"; e a multidão era
desta mesma opinião." (Op. cit., XV.)
"Tamiris, diante do tribunal, disse aos gritos: "pró-cônsul,
não sabemos de onde vem este homem que impede de casar-se às
jovens. Que diga ante ti por que ensina essas coisas"..." (Op.
cit., XVI.)
Ao revelar o interrogatório de Paulo que este era cristão,
o governador ordenou prendê-lo e colocá-lo na prisão,
esperando que, ao ter mais tempo livre, pudesse escutá-lo mais a
fundo.
"Mas Tecla, durante a noite, tirou os braceletes e os deu ao porteiro,
e quando teve aberta a porta, encaminhou-se para a prisão. Deu de
presente ao carcereiro um espelho de prata, entrou junto ao Paulo e, depois
de sentar-se a seus pés, escutou a grandeza de Deus. E Paulo não
temia nada e se conduzia com a liberdade de Deus, e sua fé recobrou
firmeza nela, enquanto lhe beijava as algemas." (Op. cit., XVIII.)
A liberdade de Deus ou a liberdade dos filhos de Deus? O que pretende isto
dizer? Porque essa expressão em desuso designa o fato de efetuar
não importa que ação, na ignorância do bem e
do mal!
Aqui abriremos um parêntese. A tradução deste velho
apócrifo (a versão copta é do século V, mas
aparece citado no ano 200 por Tertuliano) é do abade Vouaux, catedrático
de universidade, professor no Collége de Malgrange. O imprimatur
é de Paris, de 1912, e foi editado pela Librairie Letouzey et Ané.
Agora bem, em relação ao último versículo citado
acima, o tradutor toma a precaução de assinalar: "A observação
acautela de todo escândalo, mas este seria muito similar em tais circunstâncias,
e possivelmente mais valeria calar-se, e não desflorar essa ingenuidade
assinalando de forma muito vigorosa. Humildade no amor puro, essa é
a comovedora virtude da pecadora arrependida (Lucas, 7, 38), e essa é
também a de Tecla...". (Op. cit., notas da página 181.)
Observar-se-á que se os Atos de Paulo e de Tecla estão classificados
entre os apócrifos, e se o Papa Leão e Toribio da Astorga
(por volta de 450) condenam a estes últimos por terem utilizados
seitas heréticas, só o foram por este motivo, já que:
"...sem nenhum gênero de dúvidas, essas maravilhas e esses
milagres descritos nos apócrifos, ou são dos santos apóstolos,
ou puderam ser deles". Coisa que nos dá a razão!
Quisemos oferecer estes comentários do abade Vouaux para demonstrar
que se tratava de uma atração de ordem sentimental, que foi
justificada a seguir em função de uma conversão final.
Agora bem, o aspecto físico de Paulo não justifica uma influência
semelhante sobre as mulheres, como já vimos Or-ffav outra coisa,
que logo abordaremos. Mas prossigamos, porque o texto vale a pena:
"Enquanto isso Tecla era procurada por seus familiares e por Tamiris.
Acreditando-a perdida, foram em sua busca pelas ruas. Mas um dos escravos,
companheiro do porteiro, declarou que tinha saído durante a noite.
Então perguntaram ao porteiro, e este lhes disse que tinha ido encontrar-se
com o estrangeiro na prisão. Seguindo esta indicação,
foram ali, e encontraram-na, por assim dizê-lo, encadeada pelo amor.
Saíram então da prisão, arrastaram às multidões
atrás deles, e revelaram ao governador o que tinha acontecido."
(Op. cit., XIX.)
"Este ordenou que conduzissem Paulo diante de seu tribunal. Mas Tecla
rodava pelo chão, no lugar exato em que, sentado na prisão,
tinha-a instruído Paulo. E o governador ordenou que a levassem-na
também diante do tribunal. Ela, cheia de alegria, saiu prazerosa.
Mas quando traziam já de retorno Paulo, as multidões gritavam
com mais violência: É um bruxo, matem! Mas o governador escutava
agradando ao Paulo, que falava de suas obras santas; logo, depois de reunir
a seu conselho, chamou Tecla e lhe disse: "por que não se casa
com Tamiris, segundo a lei dos iconianos?" Mas ela olhava entusiasmada
ao Paulo. E como não respondia, sua mãe interrompeu neste
grito: "Queima esta perversa; queima a esta inimizade no meio do teatro,
para que todas as mulheres instruídas por este homem cobrem medo"."
(Op. cit., XX.)
"O governador sofreu atrozmente, mas mandou flagelar ao Paulo e o expulsou
da cidade, e condenou Tecla à fogueira. Imediatamente se levantou
e foi ao teatro, e todo o povo foi contemplar este castigo, legalmente imposto.
Mas Tecla, igual ao cordeiro no deserto olhou por todos lados em busca do
pastor, do mesmo modo procurava Tecla ao Paulo! E quando passou seu olhar
pela multidão, viu um senhor sentado, com os traços de Paulo.
Ela disse: "Como se eu pudesse fraquejar, Paulo veio a me contemplar".
E o olhou fixamente, encantada. Mas ele ascendeu de novo aos céus."
(Op. cit., XXI.)
Continuando, um motim levado a cabo por mulheres tenta opor-se ao suplício
de Tecla. Conseguem-no, e Tecla irá a pé, vestida de homem,
mesclada com um grupo de meninos e garotas jovens, em busca de seu querido
Paulo, ao Myras, aliás Antioquia de Pisidia.
Deixemos de lado todo o sobrenatural abundantemente aumentado, como está
mandado em todos estes textos apócrifos. O que fica é que
a história de Tecla "teve uma grande acolhida e alta veneração
em toda a Igreja", como nos diz o abade Vouaux, tradutor da versão
grega citada.
Assim, o "encanto" do qual fazia uso Saulo-Paulo para com as mulheres,
a fim de lhe permitir fazer delas elementos propagandísticos da doutrina
de que era autor, esse "encanto" é inegável, e segue
sem explicação racional. Evidentemente, nos objetará
que era obra do Espírito Santo. Mas que o Espírito Santo faça
que uma moça se derrube pelo chão no lugar que ocupasse seu
querido Paulo em um calabouço, que a deixe muda de admiração
ao contemplá-lo, que distribua suas jóias para ir a seu encontro
tão longe, a mais de cem quilômetros de sua residência
familiar, tudo isso causará cepticismo em todo leitor com sentido
comum.
E isso não faz a não ser reforçar nossa primeira hipótese,
ou seja, que o judeu chamado Simão, que conseguiu mediante seus sortilégios
que a princesa Drusila abandonasse a seu marido Aziz, rei do Emeso, para
viver com um antigo escravo liberto, o procurador Félix, esse Simão
poderia muito bem ser Simão, o Mago, aliás Paulo, aliás
Saulo, antigo príncipe herodiano...
E a segunda hipótese, segundo a qual Saulo teria obtido o "sim"
da filha de Gamaliel (coisa que lhe decidiu a praticar-se previamente a
circuncisão) unicamente graças a um sortilégio, e em
modo algum devido a sua superioridade física, teria também
fundamento.
Por outra parte, seria um grande engano supor que a magia foi uma técnica
habitual só de Paulo. Os cristãos utilizaram com profusão
a magia curativa, e ficam testemunhos indiscutíveis nos textos antigos.
É provável que a mesma magia fora utilizada em certos episódios
de circo, em presença das feras. Mas o pequeno número de iniciados
nesta ciência, zelosamente conservada por seus escassos possuidores,
no seio da massa anônima dos crentes, forçosamente tem feito
escassear as manifestações deste tipo, e os ocultos se foram
perdendo pouco a pouco.
Vejamos o que diz disso Orígens no Contra Celsum: "Existem determinadas
doutrinas, ocultas às multidões, que não são
reveladas, somente depois que forem repartidos os ensinos esotéricos.
Isso não é exclusivo do cristianismo". (Op. cit.)
Vejamos ainda outros textos que demonstram sem dificuldade a ação
misteriosa dos propagandistas cristãos sobre as mulheres, no seio
das nações pagãs. O R. P. Festugiére, O. P.,
em seu quarto tomo de La Révelation d'Hermés Trismégiste,
le Dieu Inconnu et la Gnose, sublinha que em bom número de Atos apócrifos:
"Sempre a mesma história constitui um dos topos desta literatura
apócrifa. Um chefe, um rei, parente do rei ou do magistrado local,
está casado, vive em boa união com sua esposa, tem filhos.
Aparece o apóstolo, converte à mulher: esta, então,
rechaça os ardores de seu marido e decide permanecer casta".
(Op. cit., P. 227.)
Pode citar-se a este respeito:
- O prefeito Agripa e suas quatro concubinas, nos Atos de Pedro (XXXIV):
- o pró-cônsul de Hierápolis e sua esposa Nicanora,
nos Atos de Felipe (114);
- o magistrado Aigeates e Maximilia, nos Atos de André (3);
- Andránicos, estrategista de Éfeso, e Drusiana, nos Atos
de João (63);
- Cansíos, parente do rei, e Migdonia, nos Atos de Tomás (ou);
- o rei Misdaios e Tertia, nos mesmos Atos de Tomás (134). Nos Atos
de André, ao rechaçar Maximilia a seu marido Aigeates, corre
a reunir-se com o apóstolo André na prisão onde o encerraram.
E este sustenta com ela uma estranha linguagem, no que se vê aparecer
algo distinto ao desejo de espiritualização da mulher, mas,
ao contrário um ódio ao marido legítimo e o desejo
de subjugar esta mulher:
"Suporta todas as torturas que inflige seu marido, e olhe um pouco
para mim, e verá como se enche inteiro de atordoamento, e se murchará
longe de si. Porque -sobretudo, me tinha passado,devo lhe dizer isso não
conhecerei o descanso até que não veja cumprida a obra que
vejo produzir-se em si. Sim, na verdade, vejo-a uma Eva arrependida, e em
mim a um Adão voltando-se. Porque o que Eva sofreu por ignorância,
agora, você, para quem eu tendo minha alma, você o endireita
com sua conversão. O que o nous* sofreu quando foi abatido com Eva
e escapou a si mesmo, eu o levanto contigo, do momento em que se reconhece
recuperada". (Cf. Atos de André, XL.)
*[Nous: em grego significa o espírito.]
Se isto não se parecer com um malefício, as palavras não
têm sentido! Nos Atos de Felipe encontramos a mesma má fama
dos apóstolos: a de sedutores de mulheres. Uma vez mais citaremos
ao R. P. Festugiéres: "O apóstolo Felipe está
entrando na cidade de Nicatera, na Grécia, quando os cidadãos,
e especialmente os judeus, revoltam-se. Felipe tem fama de separar aos maridos
das mulheres; portanto, terá que jogá-lo antes de que se instale
e comece a seduzir às mulheres". (Op. cit., P. 239.)
O mesmo acontece no caso de Carisios e Migdonia, nos Atos de Tomás.
Diz-nos este autor: "Migdonia, depois de haver-se recusado a seu marido
Carisios, tenta reunir-se com o apóstolo Felipe em sua prisão".
(Op. cit., P. 240.)
É óbvio que nos textos cristãos ortodoxos esta atração
das mulheres pelo apóstolo é sempre platônica. Mas não
vemos por que deveria exercer-se de forma precisa e total em uma única
mulher, enquanto o apóstolo não desperta entre todas as demais
a não ser uma imensa comente de simpatia para a nova doutrina. Não
vemos por que teria que ser indispensável separar a esta única
mulher de seu legítimo marido, e suscitar nela o desejo absoluto
e fascinante de não abandonar jamais nem por um instante ao chamado
apóstolo, enquanto que todas as outras permanecem unidas a seu marido
legal. Confessemos que em todas essas numerosas circunstâncias o Espírito
Santo desempenha um estranho papel, habitualmente encomendado a personagens
pouco recomendáveis. E no que fica aqui o famoso sacramento do matrimônio?
Se ainda duvidássemos disso, bastaria-nos tomando textos análogos
de certos padres da Igreja, textos nos quais não vacilam em ser mais
loquazes, simplesmente porque então se trata de notórios hereges.
Citaremos ao Ireneu, em seu tratado célebre Contra as Heresias, no
qual estigmatiza ao gnóstico Marcos: "Sobretudo é com
as mulheres com as quais tem entendimentos, e preferentemente com as grandes
damas, de alto berço e as mais ricas possíveis. Freqüentemente
tenta seduzi-las sustentando com elas conversações de linguagem
aduladora como esta: "Quero lhe dar parte de minha graça, já
que o Pai de todas as coisas vê continuamente seu anjo frente a seu
rosto (Mateus, 18, 10). É em nós onde tem lugar a Grandeza.
Temos que nos fundir na Unidade. Recebe primeiro de mim e por minha Graça.
Esteja disposta como uma recém casada a espera de seu jovem marido,
para que você eu seja, e eu você seja. Instala em sua câmara
nupcial o germe da Luz. Tira de minha mão ao jovem marido, lhe dê
lugar em si, e encontra lugar nele. Vê? A Graça descendeu a
si, abre a boca e profetiza". Se a mulher responde: "Eu não
profetizei jamais, e não sei profetizar", ele, fazendo de novo
certas invocações para deixar estupefata àquela a quem
seduziu, diz: "Abre a boca e dá algo; profetizará".
Ela então, inflada de orgulho, e apanhada na armadilha destas palavras,
com o ânimo ardendo já ao simples pensamento de que vai profetizar,
com o coração lhe palpitando em excesso, aviva-se e pronuncia
frivolidades, algo, impudicas tolices, dignas do tolo espírito que
a inflamou... A partir desse instante se vê à si mesmo como
profetisa, cheia de agradecimento ao Marcos, que lhe comunicou sua Graça.
Ela tenta recompensá-lo, não só lhe dando o que possui
(daí procedem as imensas riquezas que acumulou), mas também
lhe entregando seu corpo, já que arde em desejos de unir-se à
ele em tudo, a fim de fundir-se, com ele, na Unidade". (Cf. Ireneu,
Contra as heresias. I, xIII, 3.)
Pois bem, este Marcos, aliás Marcus, discípulo de Valentino,
foi o fundador de uma grande igreja gnóstica em finais do século
II, e não se tratava de uma seita minúscula, nem de um chefe
não cristão. E ao demonstramos que Marcos seduzia às
mulheres ricas em nome da nova religião, Ireneu não faz a
não ser confirmar que as outras faziam o mesmo.
Em um texto redigido, conforme parece, por volta do ano 150, e intitulado
O Pastor, o autor, um certo Hermas, considerado como um dos quatro "pais
apostólicos", descreve-nos mais à frente: "...aqueles
que estão cobertos de manchas são os diáconos prevaricadores,
que roubaram o bem das viúvas e dos órfãos, e se enriqueceram
nas funções que receberam..." (Op. cit., IX, 26.)
Acaso o próprio Saulo-Paulo não aconselhava: "Honra às
viúvas que são verdadeiramente viúvas..." (I Epístola
ao Timóteo, 5, 3)? Eugenio Sue, em seu Judeu errante, não
inventou nada. Cometeria-se um grande engano caso que esta ação
oculta sobre as massas femininas, polarizada mais particularmente sobre
uma delas, começou posteriormente à morte de Jesus, no ano
34. Que o leitor se remeta ao capítulo 26 do volume precedente, intitulado
"Jesus e as mulheres", e ficará bem informado. O exemplo
vinha de acima.
Citemos simplesmente, para abreviar: "Havia também umas mulheres
que olhavam de longe. Entre elas estavam Maria de Magdala, Maria, mãe
de Santiago, o Menor, e de José, e Salomé, as quais, quando
ele estava na Galiléia, seguiam-lhe e serviam-lhe, e outras muitas,
que tinham subido com ele à Jerusalém...". (Marcos, 15,
40-41.)
Lucas (8, 3) diz-nos que essas mulheres "lhe assistiam com seus bens...",
quer dizer, com seu dinheiro, já que abandonaram suas casas. Não
se tratava já de hospitalidade.
E, se ainda duvidássemos, bastar-nos-ia relendo um evangelho apócrifo
muito velho, de que possuímos um manuscrito do século IV,
sobre um texto inicial de finais do século II, por volta dos anos
175-180: "Salomé disse: "E você quem é, homem?
De quem saiu para haver-se metido em minha cama e ter comido em minha mesa?
E Jesus lhe disse: "Eu sou aquele que se produziu daquele que é
seu igual. Deram-me o que é de meu Pai". E Salomé respondeu:
"Sou sua discípula!". (Cf. Evangelho de Tomás, capítulo
43, versículo 65, tradução do Jean Doure. Pión,
Paris, 1959.)
Por outra parte, é seguro que o "ambiente" daqueles tempos
alimentou o tesouro zelote em proporções consideráveis;
demos entrevistas que o provam no volume precedente. Desde aí a conhecida
frase de Jesus: "Na verdade lhes digo que os publicanos e as rameiras
lhes precederão no reino dos céus...". (Mateus, 21, 31-32.)
As peças justificativas da condenação de Jesus pelo
procurador Poncio Pilatos foram necessariamente enviadas à Roma,
já que se tratava da execução de um "filho de
David" que pretendia o trono de Israel, e a quem Tibério César,
durante um tempo, tinha pensado em confiar uma tetrarquia. Estas peças,
conservadas nos arquivos da Chancelaria imperial, em Roma, foram examinadas
pelo imperador Juliano, sucessor de Constantino, e à elas se refere
freqüentemente em suas polêmicas com os cristãos. E aqui
temos uma alusão bastante clara no que diz respeito aos laços
existentes entre o partido zelote e a prostituição, que tiramos
de suas obras: "A Molessa recebeu ao Constantino meigamente, enlaçou-o
entre seus braços, revestiu-o e o adornou com vestimentas , e logo
lhe conduziu ao lenocínio... Assim o príncipe pôde encontrar-se
também com Jesus, que freqüentava esses lugares, gritando a
tudo o que chegava: "Que todo sedutor, que todo homicida, todo homem
golpeado pela maldição e a infâmia se apresente com
toda confiança! Banhando-se com esta água, voltarei imediatamente
puro! E se voltar a recair nas mesmas faltas, quando lhe golpearem no peito
e na cabeça, voltarei a conceder-lhes a pureza!"". (Cf.
Julio César, Obras completas, tradução de J. Bidez,
Ed. Les Belles-Lettres, Paris, 1932.)
Terá que dizer que Constantino, "o homem coberto de crimes"
segundo os grandes bispos cristãos (fez assassinar a sua esposa,
a seu filho e a numerosos parentes e amigos), foi também um dissoluto
notável. Não obstante, no século IX lhe santificaram,
a pedido de Carlos Magno*. Mas Juliano, que era amável, casto, aficionado
às boas letras, que sabia perdoar a seus piores adversários,
Juliano foi simplesmente injuriado e assassinado.
*[Carlomagno estava interessado na "santificação"
de seu colega Constantino. Sua vida tinha sido muito pouco edificante. Além
da matança de quatro mil e quinhentos; reféns no Werden, no
ano 782, teve nove esposas ou concubinas (é bastante difícil
nessa época estabelecer a diferença), mas, além disso,
praticou o incesto com maestria. Seu cronista e biógrafo, o monge
Eginhard, relata que este imperador se guardava bem de casar a suas filhas,
já que "se servia carnalmente delas como de suas esposas".
Isso não impediria à Igreja convertê-lo no santo padroeiro
dos escolares! O Papa João XXIII o fez apagar do santoral, com um
certo número de "glórias usurpadas" mais. Quanto
ao Constantino, jamais gozou da aparição no céu do
famoso Iabarum: "In signo vinces!". Seu biógrafo e panegirista
Eusebio da Cesárea ignora tal milagre, ideado mais adiante por Lactancio.
Este transpôs sem dúvida o fato de que Constantino, anteriormente,
tinha tido uma visão em um templo de Apolo que ele visitava. Tinha
"visto" como o deus Apolo estendia-lhe uma coroa. Lactancio arrumou
a história...]
Um fato que naquela época teria suscitado uma violenta hostilidade
popular e reações legais contra Saulo-Paulo e seus lugares-tenentes
em Roma foi fazer participar às mulheres em uma "eucaristia",
no curso da qual podiam beber vinho, quanto mais que esta "eucaristia"
estava incluída em um "ágape" prévio no que
o tonus elítico subia rapidamente, se dermos crédito aos protestos
de Paulo. (Cf. I Epístola aos Coríntios, 11, 20-21, infra,
P. 254.)
Com efeito, a conseqüência dos inauditos escândalos suscitados
pelas orgias dionisíacas femininas, em princípio do século
II antes de nossa era, um senatus-consulte datado do ano 186 A. C. da mesma
reiterara em Roma a proibição dos bacanais em toda a Itália,
recordando que, desde Rômulo, o vinho estava rigorosamente proibido
às mulheres. Estava-lhes deste modo proibido pôr a mão
sobre as chaves das cavas e as adegas. A embriaguez feminina, fosse qual
fosse, obtida pelo vinho, bebidas fermentadas ou as fumigações,
Rômulo a identificava ao adultério, já que se dizia
que a mulher era possuída pelo deus de quem dependia o ingrediente
assimilado. A única embriaguez tolerada na mulher era a do gozo sexual
nos braços do legítimo marido.
O texto original de tal senatus-consulte figura em uma placa de bronze descoberta
em Tiriola, na Calabria, e conserva-se em Viena, no antigo gabinete imperial.
Como se vê, para os judeus e as mulheres das diversas "províncias"
submetidas a Roma e convertidas à nova religião, isto não
expôs nenhum problema; mas para os romanos era muito distinto, e a
absorção do vinho "eucarístico" no curso
de ágapes freqüentemente desviados para outros objetivos, implicava
sanções penais inevitáveis.
11- O "Quadrado de Amor" de São Ireneu
A desgraça mais grave que possa acontecer a uma criatura humana caída
para o amor é ter ligado seu destino a um ser inferior. O perigo
constitui na decadência que pode resultar para ela, e esse perigo
pode estender-se ao longo de prolongados períodos de tempo.
Maurice Magre, L'Amour et la Haine
Sabe-se que entre as fórmulas mágicas da tradição
do Ocidente figuram o que se conveio em denominar os palíndromos.
São palavras, nomes, frases que, lidos da direita à esquerda
ou da esquerda à direita, de cima para baixo ou de baixo para cima,
dão invariavelmente os mesmos termos. Neste aspecto constituem, no
campo literal, o que os quadrados mágicos constituem no campo numeral,
mas estes últimos representam um grau mais elevado de conhecimento,
e permitem o acesso a um esoterismo imensamente mais oculto. São,
efetivamente, os quadrados mágicos os que constituem as "pranchas
de extração" reais dos nomes de poder na magia prática,
nomes de entidades verdadeiramente polarizadas, e ao mesmo tempo permitem
estabelecer os célebres "selos planetários".
No campo dos palíndromos citarão a célebre fórmula
latina: ROMA TIBÍ SÚBITO MOTIBUS IBIT AMOR, que se lê
igual em um sentido como no outro.
Não obstante, é menos conhecida que o célebre quadrado
mágico que suscita justas encarniçadas entre eruditos, e