O Homem que criou Jesus Cristo
Robert Ambelain


Robert Ambelain nasceu no dia 2 de setembro de 1907, na cidade de Paris. No mundo profano, foi historiador, membro da Academia Nacional de História e da Associação dos Escritores de Língua Francesa.´ Foi iniciado nos Augustos Mistérios da Maçonaria em 26 de março (o Dictionnaire des Franc-Maçons Français, de Michel Gaudart de Soulages e de Hubert Lamant, não diz o ano da iniciação, apenas o dia e o mês), na Loja La Jérusalem des Vallés Égyptiennes, do Rito de Memphis-Misraïm. Em 24 de junho de 1941, Robert Ambelain foi elevado ao Grau de Companheiro e, em seguida, exaltado ao de Mestre. Logo depois, com outros maçons pertencentes à Resistência, funda a Loja Alexandria do Egito e o Capítulo respectivo. Para que pudesse manter a Maçonaria trabalhando durante a Ocupação, Robert Ambelain recebeu todos os graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, até o 33º, todos os graus do Rito Escocês Retificado, incluindo o de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa e o de Professo, todos os graus do Rito de Memphis-Misraïm e todos os graus do Rito Sueco, incluindo o de Cavaleiro do Templo. Robert Ambelain foi, também, Grão-Mestre ad vitam para a França e Grão-Mestre substituto mundial do Rito de Memphis-Misraïm, entre os anos de 1942 e 1944. Em 1962, foi alçado ao Grão-Mestrado mundial do Rito de Memphis-Misraïm. Em 1985, foi promovido a Grão-Mestre Mundial de Honra do Rito de Memphis-Misraïm. Foi agraciado, ainda, com os títulos de Grão-Mestre de Honra do Grande Oriente Misto do Brasil, Grão-Mestre de Honra do antigo Grande Oriente do Chile, Presidente do Supremo Conselho dos Ritos Confederados para a França, Grão-Mestre da França - do Rito Escocês Primitivo e Companheiro ymagier do Tour de France - da Union Compagnonnique dês Devoirs Unis, onde recebeu o nome de Parisien-la-Liberté.

Segunda parte
8 - O verdadeiro caminho de Damasco
Todos os caminhos do sonho não levam ao Katmandú..
Michel Delpech , Je suis pour...
Os exegetas da crítica liberal têm descoberto numerosas interpolações no canon neotestamentário. Existem diversas fórmulas destas. Pode introduzir um texto, longo ou curto, em uma obra antiga, no curso de uma nova cópia manuscrita, arrumando-lhe para que o leitor inexperiente não possa dar-se conta.
O exegeta treinado discernirá facilmente esta interpolação ao constatar que, a maior parte do tempo, o fio do discurso inicial se rompe, e que aparece perturbada a harmonia do estilo. Citaremos como exemplo a célebre passagem de Suetonio sobre o incêndio de Roma: "impuseram-se limites ao luxo, reduziram-se os festins públicos a distribuições de mantimentos; proibiu-se vender nas Tavernas nenhum manjar cozido, à exceção das verduras e dos legumes, quando antes se servia todo tipo de comida; entregou-se ao suplício os cristãos, gente dada a uma superstição nova e perigosa; proibiram-se os jogos dos condutores de quadrigas, aos que um antigo costume autorizava a vagar por toda a cidade para divertir-se, e se relegaram de uma vez as pantomimas e suas facções". (Cf. Suetonio, Vida dos doze Césares: Nero, VI.)
É evidente que o estilo de Suetonio merecia mais que essa interpolação, tão áspera como torpe. Como observa Marcel Jouhandeau, "esse autor não perde de vista seu objetivo nem um segundo".
E com efeito, o que faz essa condenação dos cristãos em meio da venda da alface cozida e das verduras, e das farras noturnas dos condutores de carros? Por isso acreditam a maioria dos exegetas imparciais que toda a parte que temos escrito em itálico em nossa entrevista é uma interpolação estranha ao texto inicial de Suetonio.
Nos evangelhos canônicos, uma das interpolações mais audazes que existem é indubitavelmente a que se refere às célebres "chaves", e que afirma assim a primazia do bispo de Roma sobre todos outros. Vejamos esse célebre texto. Jesus acaba de perguntar a seus discípulos (seus irmãos, de fato) o que pensam dele. Todos respondem que lhe acreditam cristo, filho do Deus vivo (Mateus, 16, 13-20; Marcos, 8, 27-30; Lucas, 9, 18-21; por isso com respeito à João, ignora a totalidade deste episódio).
Mas no capítulo de Mateus citado, depois do versículo 16 se interpolou um novo texto, que se converteu nos versículos 17 e 18, e que diz assim: "E Jesus, respondendo, disse: Bem-aventurado você, Simão Bar Jona*, porque não é a carne nem o sangue quem revelou isto, a não ser meu Pai, que está nos céus. E eu digo-lhe que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei eu minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela". (Mateus, 16, 17-18.)
*[Barjonna: veja a palavra acádia, que significa "fora da lei, anarquista". Veja-se Jesús o el secreto mortal de los templarios, p. 72.]
Esta audaz interpolação é, necessariamente, posterior ao século IV, dado que naquela época, como já dissemos, por ordem de Constantino e sob a vigilância de doutores como Eusébio da Cesaréia, unificavam-se os evangelhos oficiais, enviavam-se série de cinqüenta exemplares aos diversos bispados do Império Romano e recolhiam-se os antigos, que não estavam de acordo.
É perfeitamente evidente que se esta passagem o tivessem conhecido os anônimos redatores e copistas, os manuscritos mais antigos de Marcos, Lucas e João também o levariam. E não há nada disso. Por outra parte, em nossa época ninguém teria a audácia de introduzi-lo nas versões desses mesmos evangelhos, aos que entretanto se chamam sinóticos.
De todas as sucessivas interpolações de que foram vítimas os textos canônicos, esta foi sem lugar à dúvidas a mais gratificante, e justifica a constatação de Leão X citada em página anterior desta obra.
Vem a seguir o que se conveio em chamar a interpolação repetida. Os manuscritos antigos eram cilindros compostos por tiras de papel ou por páginas quadradas de papiro, grudadas umas depois de outras, a fim de formar uma longa banda. Para introduzir um texto novo no manuscrito inicial bastava separar duas páginas ou duas bandas, e intercalar entre elas, grudando-a por sua vez, a fração de pele ou a página de papiro que contivesse os novos textos.
De qualquer maneira, ao proceder assim, às vezes podia acontecer ao interpolador a fatalidade de ver que uma frase cortada em duas. E então era obrigado a terminar, em cima da fração introduzida, a frase desventuradamente partida. Logo, na parte debaixo da última página introduzida, tinha que colocar, como fora, um texto que enlaçasse com o cabeçalho da antiga página imediatamente posterior. Cada um desses dois fragmentos dava então origem a uma nova frase, mas a segunda constituía um áspero "dublê" da primeira. Repetia os termos e as letras. Daí o nome de "interpolação repetida" que se aplica a esse artifício fraudulento dos escribas anônimos dos primeiros séculos.
O teólogo alemão protestante Wendt foi o primeiro que descobriu nos Atos dos Apóstolos dois casos patentes de interpolação repetida. O primeiro exemplo está relacionado com a lapidação de Estêvão:
"Eles, gritando em vozes altas, tamparam-se os ouvidos e jogaram-se sobre Estêvão, arrastaram-no fora da cidade e o apedrejaram." (Atos, 7, 57-58.)
"As testemunhas depositaram seus mantos aos pés de um jovem chamado Saulo."(Idem, 58.)
"E enquanto o lapidavam, Estêvão orava, e dizia: Senhor Jesus, recebe meu espírito." (Idem, 59.)
A fim de introduzir um Saulo ainda menino na narração dos Atos, o interpolador efetuou um corte entre os versículos 57 e 59. Sem dúvida trata-se tão somente de uma pequena banda horizontal. Mas esta interpolação resulta torpe, porque, como observa divertido o abade Loisy: "Ao pobre Estêvão parece que o tenham lapidado duas vezes".
Vejamos agora a segunda interpolação descoberta por Wendt. Aqui o falsificador não se ateve com pequenas, porque compreende nada menos que vários capítulos. Tomemos os Atos, capítulo 8, versículo 4: "Os que se dispersaram foram por toda parte pregando a Palavra".
Saltemos agora todo o resto, quer dizer o assunto de Simão, o Mago, enfrentando-se com o Simão-Pedro, logo a história do diácono Felipe e do eunuco etíope da rainha Candaces de Etiópia. Detenhamo-nos para rirmos um pouco pelo caminho, porque o diácono Felipe batiza ao chamado eunuco pelo caminho de Jerusalém a Gaza. Quando aparece, o Espírito Santo o eleva pelos ares, e nosso diácono se encontra, assombrado, na cidade de Açoito, a uns quarenta quilômetros dali, a vôo de pássaro, claro! (Açoito não é outra coisa que o Ashdod bíblico -que em hebreu significa "pilhagem"-, antiga cidade filistéia situada na mesma latitude de Jerusalém, ao norte de Gaza.) Logo segue o relato da conversão de Saulo, a cura de Ananías, a ressurreição (sim!) da Tabita graças aos cuidados de Pedro, a conversão de Cornelio, o aviso que o Céu deu ao Pedro de que abandonasse todos os tabus da Lei judia, etcétera.
E nosso ardiloso interpolador conclui (no século IV pelo menos): "Para ouvir estas coisas, calaram e glorificaram a Deus, dizendo:
De maneira que também aos gentis outorga Deus a penitência para alcançar a vida!". (Atos, 11, 18.)
Amém, diremos nós. E aqui voltamos a nos encontrar com a frase do princípio: "Os que se dispersaram com motivo da perseguição suscitada por Estêvão chegaram até Fenícia, a ilha do Chipre e Antioquia, pregando a palavra somente aos judeus". (Atos, 11, 19.)
É evidente que tudo o que se interpolou, desde 8, 4, até 11, 19, foi com a intenção de justificar ao Paulo, seu apostolado entre os gentis, o acesso destes à nova comunidade, e o abandono dos tabus alimentares judaicos, que, igual à circuncisão, desagradavam aos pagãos e freavam sua conversão. E os relatos nos quais abunda o sobrenatural estão destinados a fazer admitir a autoridade daqueles que supostamente os viveram.
A data desta interpolação, uma das mais importantes do Novo Testamento, pode situar-se nos arredores do ano 360, se recordarmos o que assinalamos ao estudar a Confissão de São Cipriano.
E provavelmente é concomitante a essas "cópias conforme" enviadas por séries de cinqüenta exemplares às igrejas do Império Romano por ordem de Constantino, cópias efetuadas sob a vigilância de seu panegirista Eusébio da Cesaréia e logo repartidas, ao que seguiu, evidentemente, a recuperação dos textos antigos. Não obstante, o que é seguro é que esse mendaz acerto não esteve coordenado; o "nível intelectual" dos destinatários não impunha aos escribas anônimos do século IV muitas precauções ou controles. Como prova temos as contradições observadas nos Atos dos Apóstolos, obra que entretanto está atribuída, oficialmente, ao Lucas, confidente e secretário de Saulo-Paulo, como autor único. Julgue-se:
Em Atos, 9, 7, nos diz que a escolta de Saulo tinha permanecido de pé e estupefata durante a aparição de Jesus. Em Atos, 26, 14, lemos que os homens de Saulo caíram todos ao chão. .
Em Atos, 9, 7, esses mesmos homens armados ouviram a voz de Jesus dirigindo-se ao Saulo, mas não viram ninguém. Em Atos, 22, 9, precisam-nos que viram a misteriosa luz, mas que não ouviram a voz de Jesus.
Se, como afirmou recentemente a comissão vaticana autorizada, todo católico tem a obrigação de admitir que Lucas é o autor único dos Atos dos Apóstolos, o exegeta independente e objetivo tem que tirar a conclusão de que o tal Lucas não tinha as idéias muito claras...
Agora sabemos, pela Confissão de São Cipriano, relato composto por volta dos anos 360-370, que naquela época os Atos dos Apóstolos não mostravam o milagre acontecido à Saulo-Paulo no caminho de Damasco pouco antes de entrar na cidade. Segundo esses mesmos Atos, a conversão do chefe da polícia paralela judeu-romana se produziu muito mais tarde (veja-se pág. 22).
Agora bem, Epífano (falecido em 403), em sua obra principal Adversus Haereses, contribui-nos a tradição dos ebionitas. Esta seita, uma das mais antigas citadas, junto com os nazarenos, reconhecia que o mundo era obra de um Deus Supremo, mas no que se refere a Cristo, adotava a mesma postura que Cerinto e Carpocras para esse eón gnóstico. Viviam à maneira judaica ordinária, e pretendiam justificar-se pela Lei. Segundo eles, foi praticando-a como Jesus se converteu em um justo, no Ungido de Deus, pois ninguém entre os judeus tinha completa a Lei. Mas segue-se o mesmo caminho, alguém se faz idêntico a ele, e qualquer um pode converter-se por sua vez em um Cristo. "Porque, diziam. Jesus era inicialmente um homem igual aos outros." (Cf. Hipólito de Roma, Philosophumena.)
O interesse da tradição ebionita, neste caso, consiste em que nos conta o verdadeiro motivo da conversão de Saulo-Paulo. São Epífano nos diz que Saulo tinha nascido de pais pagãos. Aqui encontramos a justificação de todos os argumentos que tiramos de Flavio Josefo. Prendado da filha do supremo sacerdote Gamaliel, teria se feito circuncidar para conseguir casar-se com ela, mas ao ver frustradas suas esperanças, por despeito teria começado a pregar contra a Lei e os tabus judaicos, e claro está, principalmente contra essa mesma circuncisão. (Cf. Epífano, Adversas Haereses, XXX, 16.) assim, o maravilhoso "caminho" de Damasco se teria limitado aos harmoniosos "quadris" de uma formosa judia.
Por que não? "O amor é forte como a morte, seus ardores são ardores de fogo, uma chama do Eterno, e as imensas águas não podem apagá-lo..." (Cantar dos Cantares, 8, 6-7.)
Assim, consciente de seu caráter de estrangeiro à nação judia, Saulo, não emprestando ouvidos a não ser a seu amor pela filha de Gamaliel, fez-se circuncidar; sem isto, ele sabia que para ela teria significado o rechaço da coletividade mística, já que: "A filha de um supremo sacerdote casada com um estrangeiro não comerá já das coisas santas oferecidas por elevação". (Levítico, 21, 12.)
Esta conversão de tipo cirúrgico foi, desgraçadamente, inútil. Ou o Sanedrim vetou semelhante união entre a filha de um supremo sacerdote (não de um simples sacerdote) e um recém convertido (objetando o caráter desprovido de todo misticismo de semelhante conversão), ou a filha se negou a casar-se com ele. E os matrimônios de conveniência estavam religiosamente proibidos em Israel. De maneira que não a podia obrigar em modo algum a casar-se com Saulo. Quanto mais que a Lei judia rechaçava àquele que se fazia partidário por amor a uma mulher.
Agora bem, Saulo-Paulo não era um playboy, nem muito menos, se tivermos que dar crédito à tradição herdada dos Padres da Igreja.
Em primeiro lugar, estava afetado de uma grave enfermidade, que ele menciona, sem dizer qual, em seu II Coríntios (12, 2-9). Monsenhor Ricciotti, em seu Saint Paúl, apotre nos diz sobre ela: "Da passagem de Paulo que citamos se infere de forma evidente que estabeleceu uma relação estreita entre a enfermidade desconhecida e seu rapto ao terceiro céu e ao paraíso, já que considerava seu mal como um remédio que Deus lhe administrava para lhe impedir de orgulhar-se". (Op. cit., P. 168.)
Recordemos esta relação, porque é muito importante.
A tese de que se tratava de epilepsia clássica, proposta já pelo K. L. Ziegler, foi sustentada pelo Krenkel em 1890 com argumentos muito convincentes. Esta tese mantiveram-na muitos exegetas e médicos. Recordou-se casos análogos, nos quais ao mal clássico se acrescentavam manifestações histeriformes, de caráter místico-alucinatório. Cita-se a Julio César, Mahomé, Cola de Rienzo, Fernando o Católico, Cromwell, Pedro o Grande, Napoleão; todos eles tiveram visões ou audições de caráter neuropático.
Dirigiremo-nos agora para outra explicação. Vimos já que os príncipes nabateus e idumeus estavam ligados deste modo a uma espécie de sacralização religiosa. O uso de drogas alucinógenas achava-se muito difundido, precisamente devido a sua relação com os "planos" ocultos. Todo o Oriente Médio conhecia desde fazia séculos o haxixe; o Egito usava já o ópio em tempos de Ramsés II, e gregos e romanos não ignoravam os efeitos da adormidera, chamada em grego mekon. Israel, em suas escolas de profetismo (I Samuel, 10 e 19), utilizava vinhos de ervas, e Síria, Fenícia, Iduméia, Nabatea e Egito conheciam também os efeitos do banj ou Bang, extraído de uma espécie de beleno chamado pelos árabes sekaron, quer dizer "a embriagadora" (cresce em todo o Egito e na península do Sinai; é o Hyosciamus muticus, um alucinógeno ou um narcótico, segundo a dose). Saulo pôde muito bem ser um drogado de maneira intermitente, já que, como veremos, teve numerosas visões em seus périplos, visões provavelmente provocadas, e delas tirava suas próprias instruções apostólicas. Mas há algo ainda mais grave!
Deixemos agora seu estado patológico. Como era fisicamente?
Os Atos de Paulo nos dizem dele: "...homem de pequena estatura, calvo, de pernas arqueadas, de bom estado de saúde, sombrancelhas unidas, de nariz bem grande, cheio de graça...".
Os Principes Apostolorum, atribuídos ao João Crisóstomo, põem-lhe um metro e trinta de altura. Sem dúvida para sublinhar sua pequena estatura, porque isso daria um homem de apenas um metro cinqüenta no máximo, o que é manifiestamente exagerado.
No século VI, Juan Malala nos diz: "Em vida. Paulo foi de pequena estatura, calvo, com a cabeça e a barba grisalhas, um formoso nariz, olhos azul grisáceos, sobrancelhas juntas, pele branca, barba espessa, sorridente...". (Cf. Juan Malala, Chronographia, X, no Migne, Patrologie Grecque, 97.)
As pernas arqueadas podiam justificar-se por causa dos largos exercícios a cavalo, coisa nada surpreendente em um príncipe herodiano. Mas isso também pode significar uma degeneração, sublinhada pela pequena estatura.
Dessas breves descrições surge um retrato robô de Paulo, ao que se rodearam todos os pintores e escultores a partir do século IV.
Consideremos agora outra questão. Admitindo que a circuncisão livremente aceita por ele tivesse derivado do consentimento, por parte da filha de Gamaliel para um eventual matrimônio, terei que suspeitar que Saulo, utilizando seus conhecimentos ocultos, teria obtido o consentimento da jovem por efeito de um sortilégio. Coisa que não seria tão surpreendente, tendo em conta a época e o meio. Assim se compreende a reação violenta do Sanedrim, e provavelmente do próprio Gamaliel, já que a magia era rigorosamente perseguida e condenada, tanto pela Lei judia como pela Lei das Doze Tábuas, aplicada em Roma.
O que nos incita a ter em conta esta hipótese é a seguinte passagem de Flavio Josefo: "Pouco depois do matrimônio da Drusila com Aziz, esta união se rompeu pela razão seguinte: Félix, procurador da Judéia, depois de ter visto a Drusila, a quem nenhuma mulher igualava em beleza, foi inflamado pelo desejo de possui-la, e enviando a ela um judeu seu amigo chamado Simão, cipriota de nascimento, que se fazia passar por mago, esforçou-se por persuadi-la de que abandonasse seu marido e se casasse com ele, prometendo-lhe que a faria feliz se ela não o desdenhasse. Drusila, atuando mal, e querendo fugir do ciúmes de sua irmã Berenice, que não a tratava bem por causa de sua beleza, deixou-se persuadir para atuar contra as instituições de seu povo e casar-se com Félix". (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, VII, 2.)
Como vemos, a magia intervinha às vezes nos matrimônios.
O leitor já teria adivinhado que a expressão "cipriota de nascimento" foi interpolada astutamente, a fim de separar do Simão, o Mago, aliás Saulo-Paulo, a responsabilidade desse feitiço de amor que permitiu ao Félix casar-se com Drusila. Não esqueçamos que Flavio Josefo chegou até nós em manuscritos dos séculos IX e XII, quer dizer, que foram obra de copistas da Idade Média. E da cruzada contra os albigenses e da destruição da Ordem dos Templários, a Igreja não ignora que entre os hereges sabem muito bem a que se ater sobre as verdadeiras origens do cristianismo. Remetemos ao leitor ao que dizemos sobre o "segredo da Igreja" em nossa obra precedente.
Em caso afirmativo, e se Saulo-Paulo, aliás Simão o Mago, foi o artífice do matrimônio da bela Drusila com o Antonio Félix (antigo liberto da Antonia, mãe de Claudio César), e isso por meio da velha bruxaria dos árabes nabateus, podemos supor que a data seria posterior ao ano 52, já que até 52 não nomeou o imperador Claudio procurador da Judéia ao Félix.
Agora bem, Aziz, rei de Emeso, primeiro marido de Drusila, morreu no ano 54, e sucedeu a seu irmão Soemas. Então, como pôde Saulo-Paulo reprovar ao Félix e a Drusila sua união, se esta era viúva desde ano 54? Porque nos Atos dos Apóstolos é o que se insinua: "Passados alguns dias, veio Félix com sua mulher Drusila, que era judia, e mandou que viesse Paulo, e lhe escutou a respeito da fé em Cristo. E ao falar ele sobre a justiça, a continência e o julgamento vindouro, Félix se encheu de terror, e lhe disse: É bastante por hora. Retire-se Paulo, quando tiver tempo voltarei a chama-lo". (Atos dos Apóstolos, 24, 24-25.)
Acima de tudo, observamos uma primeira inexatidão. Drusila não é judia, e sim da Iduméia, da família de Herodes. Interessa-se, como muitas mulheres cultas de seu tempo, tanto romanas como gregas, sírias ou iduméias, pelos problemas filosóficos e religiosos. Mas disso a fazer dela uma judia há uma grande distância.
Vejamos agora a segunda inexatidão. Adivinha-se que o escriba anônimo que redigiu esta passagem dos Atos quis insinuar que Paulo queria moralizar ao casal Félix-Drusila. Novo João Batista, considera a Drusila como uma nova Herodías, e por isso os fala de justiça (não se toma a mulher de outro) e de castidade (não se vive em estado de adultério), porque se corre o risco de ser castigado em julgamento vindouro. Não obstante, esta entrevista se situa no ano 58, na Cesaréia. Portanto faz quatro anos que Drusila é viúva. De maneira que já não pode viver em estado de adultério. Mas essas passagens, visivelmente interpolados em versões mais antigas dos Atos, reforçam a alusão ao "judeu, cipriota de nascimento", porque é um mago judeu no Chipre; é comensal e conselheiro do governador da ilha de Pafos, capital do Chipre (Atos, 13, 6-12). Mas se chama Elimas Bar-Jesus, e não Simão.
De fato, a amizade testemunhada pelo procurador Félix para o Paulo é o agradecimento do Antonio Félix ao Simão o Mago" por lhe haver feito obter o amor da bela Drusila. Uma vez mais o amor rege aos homens e às vezes suas ações mais importantes!
Assim, se o sortilégio de amor que uniu Drusila e Félix teve a Saulo-Paulo como autor, não é desatinado supor que este último fizesse uso de algum para obter à filha de Gamaliel. Exponhamos os elementos do problema:
a) Saulo-Paulo não é fisicamente um Apolo;
b) não é judeu.
De maneira que se a filha de Gamaliel mostrou alguma inclinação para ele e lhe disse que "sim", não foi o físico de Saulo-Paulo que a seduziu.
E necessariamente disse que "sim", porque se houvesse dito que "não", Saulo não se teria feito circuncidar, coisa que, em idade adulta, não tem nada de agradável, tendo em conta a cirurgia da época.
O "sim" da jovem teve que obtê-lo, pois, por outros meios. E voltamos a encontrar aqui nossa hipótese: cedeu como conseqüência de um feitiço de amor. Embora não consideramos os efeitos da magia a não ser na perspectiva de uma física transcendental. Cem mil experiências de hipnotismo, há quase um século, estão aí para sublinhar a eficácia de todos esses procedimentos. Também por isso, tendo em conta as confidências de diversos "magnetizadores-hipnotizadores", desaconselhamos absolutamente que uma mulher vá confiar-se a algum deles sem ir acompanhada de algum familiar.
Por outro lado, não se pode negar a magia na vida de Paulo. Citaremos simplesmente estas duas passagens das Epístolas: "Pois eu, ausente em corpo, mas presente em espírito, condenei já, como se estivesse presente, ao que isso tem feito: Em nome de nosso Senhor Jesus, entrego esse homem a Satanás, para a destruição de sua carne". (Cf. Coríntios, 5, 3-5.)
"Entre eles Himeneu e Alexandre, a quem entreguei a Satanás para que aprendam a não blasfemar..." (Cf. I Timóteo, 1, 20.)
No primeiro caso se tratava de um homem jovem que se casou com a viúva de seu pai, e por conseguinte sua madrasta. Ela devia ser muito jovem, segundo o costume da época.
No segundo caso se tratava de cristãos ordinários, que passaram à Gnosis, e portanto , abandonaram os grupos submetidos ao Paulo. Como Satanás era, sob o nome de Samael, o anjo das provas e da tentação, constatar-se-á que Paulo gosta de praticar a magia negra, já que não se trata de outra coisa. De todo modo, terá que suportar seus inconvenientes, pois o chamado Alexandre se converterá em testemunha de cargo durante seu último processo, em Roma: "Alexandre, o ferreiro, tem-me feito muito mal. O Senhor lhe dará pagamento segundo suas obras. Guarde você também dele, porque mostrou forte oposição à minhas palavras". (Cf. Paulo, II Timóteo, 4, 14.)
Além disso, o testemunho deste Alexandre, confirmado pelo original -ou uma cópia- da "primeira carta ao Timóteo", implicará para o Paulo, acusado já de um pouco mais terrível, que analisaremos chegado o momento, a acusação também de magia negra. E esta se achava já sancionada de antemão com a pena capital pela implacável "Lei das Doze Tábuas" para quem quer que praticasse "sortilégios, feitiços ou palavras de encantamento, malefícios contra pessoas, animais ou colheitas".
Já sob Augusto procuraram cuidadosamente todos os livros de bruxaria que pudesse haver no Império. Logo foram imediatamente queimados, por ordem expressa do imperador. Tibério e Nero confirmaram com numerosos decretos a vigência das antigas leis. Estas tinham levado a execução, sob o consulado de Claudio Marcelo e de Valerio Flaco, a 170 bruxas, que tinham arrojado malefícios sobre numerosas pessoas melando as portas de suas casas (provavelmente os trincos) com ungüentos especiais. (Cf. Leg. duodecim Tabular: art. 55, 68, 69, etc.)
O mesmo acontecia na Grécia, onde uma lei castigava a "todos aqueles que, por encantamentos, palavras, ligadura, imagem de cera ou outro malefício encantem ou enfeiticem a alguém, ou se dele sirvam para fazer morrer a homens ou animais de curral, todos esses serão castigados com a morte". (Cf. De Lamarre, Traite de la Pólice, tomo I, título vII.)
Platão nos fala desta lei em seu De Legibus, livro II. E Pausanias, em seu In Elia, livro V, relata uma aplicação: Lemnia, uma bruxa, foi condenada a morte pela denúncia de uma faxineira. Se relacionarmos este nome com o da lamia das lendas, que atraía aos jovens e lhes tirava a vida pouco a pouco com voluptuosos enlaçamentos, devia-se tratar de uma mulher que enfeitiçava aos homens que desejava.
Seja como for, agora vamos encontrar logo ao Paulo em sua obra de mago, mas para ele do que se tratará é de constituir extensas redes de cumplicidades femininas na grande empresa que tentará levar a bom termo.
Fica por elucidar um ponto histórico.
Constatamos na Confissão de São Cipriano e na versão dos Atos dos Apóstolos dessa época que Saulo-Paulo tinha efetuado sua conversão muito depois do episódio de sua visita à Damasco, no curso do qual o etnarca do rei nabateu Aretas IV quis lhe fazer capturar. Ele mesmo nos conta como uns amigos que tinha na cidade lhe ajudaram a baixar de noite, ao longo das muralhas, metido em um cesto de vime (tarsos). Portanto tal conversão temos que procurá-la depois deste desatino de Damasco.
Por outra parte, sabemos pelos manuscritos do mar Morto que a seita dos sadocitas, os "filhos de Sadoc", um dia teve que fugir do lugar e do monastério de Qumrán para refugiar-se em Damasco. Quando teve lugar a volta deste exílio, uma fração da seita ficou ali, embora sem deixar de estar em relação com os repatriados, conforme nos diz o cardeal Jean Daniélou em seu livro Les Symboles chrétiens primitifs. E aqui intervém um curioso dado que devemos ao Lurie. Recorda que a seita sadocita não estava fixada em Damasco mesmo (cf. Document de Damas, VIII, 21; XX, 12), mas quinze quilômetros ao sudoeste, no caminho que levava à Galiléia, e em uma aldeia chamada Kokba (cf. R. North, relatório sobre "Eretz Israel", IV, no Verbum Domini, núm. 35, 1957).
Epífano, em sua obra Adversus Haereses (XXIX, VII, 7), menciona deste modo aos nazarenos entre os refugiados na Kokba, quer dizer judeus-cristãos ortodoxos que pertenciam ao ramo fundado por Santiago, o Maior, e aos arcónticos, judeu-cristãos de caráter gnóstico (Pp. cit., XL, I, 5.) E Julio, o Africano, chamado pelo Eusébio da Cesaréia em sua História eclesiástica (I, VII, 14), diz-nos que provavelmente entre eles havia "parentes carnais do Senhor". Sobre esta questão, veja-se H. J. Schoeps, El judeocristianismo.
Todo o qual conduz ao Dositeo. Este foi o Mestre de Simão, o Mago. Tinha estado em relação com João Batista, e Epífano o apresenta como saduceu (coisa que era, evidentemente, um engano); em realidade era sadocita, levava uma vida muito ascética e praticava o sabbat de forma muito estrita. Segundo os antigos heresiólogos, foi um gnóstico no sentido absoluto do termo. Pois bem, segundo o Talmud (cf. R. North, loe. cit., P. 49), vivia na Kokba.
E Jean Daniélou nos proporciona além disso, em seu livro Les Symboles chrétiens primitifs, o seguinte dado, particularmente significativo:
"Outro detalhe curioso é a existência de uma tradição segundo a qual a conversão de São Paulo teria tido lugar na Kokba. Saulo teria tido ali um primeiro contato com helenistas, que a seguir se encarregariam de sua instrução em Damasco". (Cf. J. Daniélou, op. cit., VII, l'étoile de Jacob.)
Segundo monsenhor Ricciotti esta tradição seria muito antiga (cf. Saint Paúl, apotre, P. 213). O historiador protestante Harnack o confirma no Die Mission und Ausbreitung des Christentums, II, 636, assim como S. Lósch em Deitas Jesu und Antike Apotheose.
"A gente pode perguntar-se deste modo -prossegue Jean Daniélou- se a permanência na Arábia (cf. Epístola aos Gálatas, 1, 17) não designava simplesmente a Kokba. Naquela época a região de Damasco se considerava como parte da Arábia." Com efeito, formava parte do domínio do rei Aretas IV (e havia um etnarca), toda essa parte da Síria era então do reino nabateu.
Recapitulemos, pois, nossas sucessivas conclusões:
1) Saulo-Paulo não é outro que Simão, o Mago, já o vimos;
2) Simão, o Mago, foi antes discípulo de Dositeo;
3) Dositeo vivia em Kokba, a quinze quilômetros de Damasco;
4) Saulo-Paulo teria sido antes instruído pelos helenistas em Kokba, onde vivia Dositeo.
O silogismo é fácil de estabelecer, tendo em conta o que precede, já que a primeira e a segunda premissas são unânimes em sua demonstração de que Saulo-Paulo e Simão o Mago não são a não ser uma mesma pessoa.
Quanto à improbabilidade de uma viagem de Saulo-Paulo a pleno território nabateo, quer dizer a seu capital Petra, confirmam-no dois detalhes:
a) A permanência na região de Damasco, território nabateo, pode explicar a passagem da Epístola aos Gálatas, 1, 17, que diz:
"Não subi a Jerusalém para ver os que me precederam no apostolado, mas sim parti para a Arábia, de onde voltei outra vez a Damasco".
b) Observar-se-á que Saulo-Paulo não retornou jamais à Arábia nabatea no curso de suas numerosas viagens missionárias. Porque, como príncipe das dinastias Iduméia (por via masculina) e nabatea (por via feminina: sua bisavó Cypros I), e por haver-se feito circuncidar para fazer-se judeu e casar-se com a filha do Gamaliel, corria o risco de ser lapidado.
Em efeito, quando sua avó Salomé I decidiu casar-se pela terceira vez, tinha tido um enredo no palácio de seu irmão Herodes o Grande com um árabe nabateo chamado Silaios. Ante a indignação das esposas de Herodes, o árabe, ao ver que suspeitavam dele, partiu, mas retornou três meses mais tarde, para pedir em matrimônio à Salomé. Era o administrador do rei da Arábia Obodas, e era jovem e de aparência agradável. Salomé consentiu, e Herodes também, mas apesar de tudo impôs uma condição: para poder levar-se bem com a população judia, Silaios se converteria ao judaísmo, ao menos aparentemente; sem isso, o matrimônio seria impossível, declarou Herodes. Silaios recusou "dizendo que, se o fazia, seria lapidado pelos árabes" (cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XVI, vII).
E esta é a razão, bastante válida, pela qual Saulo-Paulo não retornou jamais, no transcurso de suas viagens missionárias, à Arábia nabatea. O que contribui uma prova a mais à suas origens principescos e árabes. Sua circuncisão "por amor" teria validade também à ele, em território nabateo, a lapidação que temia Silaios.
Porque, para o Saulo, toda esta aventura expunha problemas insolúveis.
Aos olhos da casa do Herodes, tinha abandonado os cultos ancestrais, tradicionais, e isso não era o mais grave, a não ser o fato de que pertencia à religião judia implicava uma naturalização judaica. Já que em Israel religião e raça eram uma só coisa; pertencer à comunidade mística era pertencer ao povo eleito, a sua comunidade física.
Agora bem, uma e outra impunham deveres imperiosos, e esses deveres com muita freqüência eram opostos ao que a dinastia herodiana considerava como direitos. Converter-se em judeu não significava só desertar, a não ser alinhar-se entre os adversários.
Sem dúvida, entre as mulheres cultas da aristocracia Iduméia e romana, produziram-se com freqüência, se não conversões oficiais, ao menos adesões interiores. Mas se limitavam a isso.
Entre os homens tornar-se judeu expunha outros problemas, imensamente mais graves, já que o Império Romano via com muito maus olhos essas conversões masculinas. Aconselhamos ao leitor que releia tudo o que dizemos sobre o particular mais acima.
No que diz respeito a suas relações com as três potências presentes, nosso Saulo se encontra, pois, na situação seguinte, depois de sua conversão por interesse e da circuncisão que o deixou marcado para sempre:
- Judaismo: considera-lhe um convertido não sincero, já que movido inicialmente pelo corriqueiro desejo de uma mulher, jamais lhe viu antes manifestar o mínimo interesse pela religião judia e sua doutrina. Daí lhe rechacem.
- Herodismo: considera-lhe como um desertor, já que fazer-se judeu, para um príncipe herodiano, supõe aderir-se a uma nação que, unanimemente, é hostil aos incircuncisos em geral, e em numerosas ocasiões tentou varrer (se era necessário efetuando grandes matanças) aos membros da descendência do Herodes o Grande.
- Romanismo: passar de maneira total de uma família aliada de Roma e amiga dos imperadores (veja-se o referente às relações de Salomé I e da imperatriz Livia) a uma nação que, em setenta e quatro anos, do 68 antes de nossa era até o 6 d. C., levantou trinta e seis vezes o estandarte da revolução (e com que violência!), implica converter-se a sua vez em inimigo de Roma.
Como se vê, a situação do Saulo era crítica. Aparecia como suspeito para uns e para outros, era rechaçado por todos, e ainda teria que enfrentar-se com um quarto adversário.
Voltemos para assunto de Damasco.
Saulo está circunciso, não obteve a mão da filha de Gamaliel, mas continua sendo o chefe da tropa paralela. Essas funções lhe impõem, se não deveres, ao menos sim atividades.
Estas últimas as exerce em especial em torno dos zelotes, esses integristas judeus a quem a comunidade oficial qualificou de apóstatas. E a esses integristas Saulo os odeia, porque um estado de ânimo semelhante foi o que, ao suscitar o veto dos sanedritas, quebrou para sempre suas esperanças sentimentais.
De maneira que redobra as perseguições e pesquisas contra eles. Montará uma operação contra os de Damasco, porque esta cidade é um centro zelote importante.
Só que, como já precisamos, Damasco é então um enclave nabateo em Síria, e está governado por um etnarca, que representa ali ao rei Aretas IV. Vejamos os dois textos, contraditórios, da Epístola aos Gálatas e os Atos dos Apóstolos.
Como lemos na Confissão de São Cipriano, Paulo e seu grupo de homens armados vão a Damasco a fim de efetuar ali uma batida geral entre os hereges. Entretanto: "Em Damasco, o etnarca do rei Aretas pôs guardas na cidade dos damascenos para me prender. Mas fui desprendido por uma janela, em uma cesta, com o passar do muro, e assim escapei de suas mãos". (Cf. II Coríntios, 11, 32-33.)
Por que quereria prender ao Saulo o etnarca do soberano nabateo? O assunto se remonta a muito longe.
No ano 6 antes de nossa era, Herodes-Antipas, de volta de Roma, levou a seu palácio do Tiberíades ao Herodías, esposa de Herodes Filipo, seu irmão, e filha de ambos, Salomé II. Sua primeira esposa, filha do Aretas III, apressou-se então a empreender a fuga e refugiar-se em casa de seu pai. Este último, para vingar do insulto infligido a sua casa, declarou a guerra a Herodes Antipas. Por último, depois de numerosos momentos de calma aparente, de renovação das hostilidades, etc., as tropas de Herodes Antipas resultaram vencidas. Certas hostilidades duraram perto de quarenta anos. A intervenção romana em favor do Herodes Antipas, por ordem do Tibério César, no ano 36, não mudou nada. E aconteceu uma paz precária, que Calígula, desejoso de consolidá-la por parte de Roma, acreditou selar entregando livremente Damasco aos nabateus.
Mas ao pretender efetuar detenções ali, Saulo cometeu uma imprudência. Este fato ultrajou a soberania do Aretas IV, filho do precedente. E o etnarca deste último tentou então capturar ao Saulo, tanto para castigá-lo para entregar a seu soberano um refém de categoria, o sobrinho neto do Herodes o Grande em pessoa.
De modo que Saulo tentará ficar um tempo junto aos zelotes.
Como as arrumou? Quando nos diz que, depois de uma conversação com o Ananías, "as escamas lhe caíram dos olhos e viu claro" (cf. Atos, 9, 17-18), não vemos a utilidade de imaginar a um Saulo fisicamente cego, com as pupilas cobertas de escamas, que cairão ao chão quando ele receba o batismo. A frase deve entender-se em sentido figurado, é óbvio.
Mas Saulo não é judeu nem está louco. Ele, como chefe de guerra e príncipe herodiano, não ignora a enorme potência militar de Roma. E os sonhos ideológicos dos zelotes, assim como todas as esperanças messianistas judias, deixam-lhe frio, não despertam nele, e com razão, nenhum eco.
Seu plano está, pois, montado. Orientará o messianismo político, quer dizer o zelote, para uma postura especulativo, puramente mística. Fazendo isto, não terá nada que temer de Roma, mas bem ao contrário. Possivelmente esta inclusive lhe dará suporte, já que assim lhes fará o jogo, ao romper a resistência judia em suas raízes espirituais.
De todo modo, como o movimento zelote constituía um bloco muito unido, dificilmente penetrável para um homem só e tão suspeito por seu passado como Saulo, este se dedicaria primeiro a interessar aos gentis na nova ideologia.
Quando tiver em suas mãos uma massa suficientemente numerosa de fiéis, tentará fundir os dois messianismos. Fazendo isto, os que resultarão anexados serão os zelotes, e não os gentis. E por isso não retrocederá em seu empenho de que os primeiros renunciem pouco a pouco aos costumes tradicionais judaicos mais importantes: circuncisão, tabus alimentares, etcétera.
Então se alargará mais o fosso que os separa do judaísmo oficial. E pouco a pouco a corrente zelote acabará por morrer na massa da Gentilidade...
NOTAS COMPLEMENTARES
Para monsenhor Giuseppe Ricciotti, que evoca em seu livro Saint Paúl, Apotre (trad. do italiano pelo F. Hayward, imprimatur 15 de maio de 1952, Robert Laffont édit., Paris), a tradição ebionita contribuída no século IV por São Epífano, "Paulo apaixonou-se pela filha do supremo sacerdote, e para casar-se com ela, teria aceito a circuncisão e o judaísmo. Mas ao não alcançar seu objetivo, para vingar-se, teria passado à oposição, e teria começado a lutar e a escrever contra a circuncisão, o sabbat e a Lei". (Op. cit., P. 82.)
Para o abade Migne e seus colaboradores, na tradução latina do grego antigo do Epífano, Paulo "... quando veio a Jerusalém e fixou aqui sua residência, casou-se com a filha do pontífice. Nesta ocasião se fez partidário e aceitou a circuncisão. Mas como logo se divorciou, escreveu encolerizado contra a circuncisão, o sabbat e a Lei". (Cf. Migne, Patrologie grecque, Epiphane: Adversus Haereses, libero I, tomo II, III, 16, pp. 431-434, Paris, 1858.)
Quem tem razão? Monsenhor Ricciotti ou o abade Migne? Nós acreditamos que o primeiro, que ao ser prelado romano, teve indubitavelmente acesso à célebre Biblioteca do Vaticano e aos manuscritos mais antigos de Epífano, enquanto que o segundo e seus colaboradores se contentaram traduzindo a um excelente latim um manuscrito grego do século XVI, gravado sobre madeira e impresso, das obras completas do mesmo Epífano. E é muito provável, em efeito, que como sempre, as obras deste último sofressem sérios retoques e variações, ao desejo de cada monge copista dos séculos passados; daí as diferenças entre os manuscritos.
Assim, parece mais plausível convir com monsenhor Ricciotti em que Saulo-Paulo se encontrou com que lhe negavam a mão da jovem -daí sua mudança de atitude-, em lugar de atribuir tal mudança ao fato de que Saulo-Paulo tivesse repudiado à moça, porque esta separação depois do matrimônio, segundo os termos da lei judia, não podia correr a não ser a cargo do marido, já que a esposa não possuía este direito.
O único modo de conciliar estes dois variantes seria admitir que Saulo-Paulo e a jovem estiveram oficialmente prometidos, já que este fato, em Israel antigo, equivalia a uma espécie de matrimônio privado, do que o matrimônio oficial não constituía mais que a conclusão legal. Assim, uma vez prometidos, as severas leis sobre o adultério eram já aplicáveis aos noivos, posto que o noivo podia viver já em casa de seu futuro sogro, e usar dos direitos legítimos do matrimônio, e daí a frase de Mateus, que não se entende a não ser nesse contexto: "O homem abandonará a seu pai e a sua mãe e se unirá à mulher" (Mateus, 19, 5). De modo que os recém casados não foram viver à parte ou à casa dos pais do marido até depois do matrimônio oficial e legal.
Pode supor-se, pois, que se rompeu o noivado de Saulo-Paulo por causa da oposição do Sanedrim, e daí sua irritação. Na hipótese inversa, se foi ele quem rompeu o acordo, depois de ter feito uso dos direitos legítimos e ter abusado deste modo da confiança da família e da jovem, é facilmente concebível o furor dos judeus contra esse pagão de má fé.
E fica um último ponto, ou seja: quem era o pai da jovem? Era o pontífice de Israel, quer dizer o supremo sacerdote, o cohen-ha-gadol, ou era Gamaliel, o rabban, quer dizer o "professor dos professores", o "doutor dos doutores", ou seja o próprio presidente do Sanedrim, o Hahan-ha-hahanim (sábio dos sábios), possivelmente inclusive Rosch-Galouta (príncipe do Exílio) ou Daion-di-baba (Juiz supremo)?
Pessoalmente, nos inclinamos pelo Gamaliel, já que os Atos dos Apóstolos contribuem, apesar de tudo, uma lembrança, possivelmente deformada, mas nada desdenhável, das relações entre Saulo-Paulo e Gamaliel (Atos, 22, 3), assim como nos mostram o mesmo Saulo-Paulo na incapacidade de reconhecer e de identificar ao pontífice. (Atos, 23, 1-5.)
9 - A família de Saulo-Paulo
A herança é como uma diligência em que viajassem todos nossos antepassados. De vez em quando um deles tira a cabeça pela portinhola e vem a nos causar todo tipo de complicações. O. W. Holmes, seleção
Começamos já a enfocar suficientemente o personagem múltiplo que se oculta sob os nomes sucessivos de Shaul, Saulo, Paulo para estar agora em condições de abordar numerosos detalhes sobre sua existência. E em primeiro lugar, quando e onde nasceu.
Tomamos cuidadosamente nota de que tinha sido educado com:
a) Menahem, neto de Judas da Gamala, de filiação davídica e real, e que levantará o estandarte de uma nova revolução judia no ano 64 de nossa era. Será o bisavô do Jonathan-Ben-Menahem, intendente geral do Simão-Ben-Koseba, príncipe de Israel, chefe da última revolução no ano 132;
b) Herodes, o Tetrarca, e é este último que nos permitirá marcar datas importantes da vida de Saulo.
Trata-se, com efeito, de Herodes Agripa II, filho de Herodes Agripa I, rei da Judéia e da Samaria, nascido no ano 10 antes de nossa era e morto em 44 desta. Herodes Agripa II foi o irmão de Berenice, esposa de Herodes do Calcis, e que, uma vez viúva, foi ao lado de seu irmão, com quem sustentou, segundo os rumores públicos, umas relações incestuosas. Sua segunda irmã era Drusila, que se casou com Aziz, rei de Emeso (morto no ano 54), e o abandonara no 52 para viver com Antonio Félix, procurador de Roma na Judéia, no ano 53.
Herodes Agripa II foi com toda certeza educado em princípio na Cesaréia e em Tiberíades, na corte de seu pai. Nasceu no ano 27 de nossa era, já que contava 17 anos de idade à morte deste, em Cesaréia, em 44. Chamado à Roma por Claudio César, ao advento deste imperador, quer dizer em princípio do ano 41. Não retornou à Judéia até muito mais tarde, porque Claudio César não quis confiar tais responsabilidades a um adolescente. Em sua ausência, Judéia teve como procuradores, sucessivamente, a: Marcelo (44), Cuspio Fado (45-46), Tibério Alexandre (46-48), Ventidio Cumano (48-51) e Antonio Félix (51-58). Enquanto isso, no ano 51, a tetrarquia da Traconítide fora concedida ao Herodes Agripa II, daí seu nome de tetrarca. Mas, como vemos, não foi realmente rei, e não reinou como seu pai sobre a Judéia e Samaria.
Teve que haver aí uma manifestação de desconfiança por parte de Claudio César, porque sua saída de Roma coincidiu com o decreto deste imperador expulsando aos judeus livres da capital do Império. Ali não ficaram mais que os escravos e os que não tinham alforria por completo ante o pretor.
Portanto, foi com Herodes Agripa II e com Menahem com quem foi criado Saulo. Podemos admitir que este último fora algo maior. De todo modo, se Estêvão foi realmente lapidado no ano 36, Saulo não devia ter alcançado ainda a maioridade civil e religiosa do bar-mitzva (aproximadamente aos doze anos), posto que não participou da lapidação, e os judeus se limitaram a lhe confiar a vigilância de suas roupas (Atos, 7, 58).
Mas, já que agora sabemos que não era judeu, a não ser idumeu, o problema não se expõe sob este ângulo. De todo modo, dizem que aprovou o assassinato legal de Estêvão (Atos, 22, 20). Assim, estiveram obrigados a recorrer a uma aprovação, ao menos tácita, de Saulo, o que implica que tinha já certa autoridade. E com efeito, imediatamente depois do enterro de Estêvão, vemo-lo penetrar nas moradias e arrancar delas homens e mulheres para colocá-los na prisão (Atos, 8, 3); logo abandona Jerusalém para estender suas pesquisas e suas batidas até Damasco, em Síria (Atos, 8, 1-2).
Semelhantes atividades, que implicam uma autoridade policial, não são exclusivas da adolescência nos séculos passados. Não esqueçamos que seu avô Herodes, o Grande, só tinha vinte e sete anos quando capturou ao Ezequías, pai de Judas da Gamala e avô de Jesus, e o fez crucificar no curso de suas campanhas contra esse "filho de David" que fazia estragos em Síria, à cabeça de seus partidários. E o próprio Herodes, o Grande, recebera já de seu pai Antípater, amigo de César, o governo da Galiléia, "embora fosse então extremamente jovem" (cf. Flavio Josefo, Guerra dos judeus. I, VIII). Durante muito tempo será assim, e na França, por exemplo, chegou até Capelos. Luis XI exercerá um mando militar efetivo aos quatorze anos, e fomentará a revolta da Pragueria contra seu pai Carlos VII aos dezessete anos. Então nomeia-lhe governador do Delfinado. Carlos V foi regente do reino da França aos dezoito anos. Os reis, com efeito, eram maiores de idade aos quatorze anos, e Luis XIII foi aos treze.
Por conseguinte, a juventude de Saulo quando lapidaram Estêvão, e imediatamente depois seu papel na repressão do neomessianismo, não fazem a não ser confirmar a inanidade da tese segundo a qual não se tratava senão de um judeu comum, quando tudo demonstra, pelo contrário, que era um príncipe herodiano, que gozava de todos os privilégios de seu berço e de todas as responsabilidades inerentes a esta.

Filiação da dinastia Iduméia
Saulo nasceu, portanto, entre os anos 23 e 25 de nossa era, e morreu aos quarenta ou quarenta e cinco anos. Estes dados o fazem três ou quatro anos maior que seu süntrophós Herodes o Tetrarca (Atos, 13, 1). Este termo grego significa "companheiro de juventude, amigo da infância", e é a palavra que figura nos manuscritos gregos dos Atos dos Apóstolos.
Assim, se se criou na Cesaréia e em Tiberíades, na corte de Herodes Antipas, não pôde conhecer nem ter visto antes ao Jesus, posto que este jamais pôs os pés em tais cidades, impuras para um judeu integrista, a primeira por ser meio helenística, e a segunda porque estava construída sobre um antigo cemitério. Herodes Antipas tampouco nunca vira Jesus, porque foi Poncio Pilatos quem o enviou à Jerusalém, depois de sua captura. E o evangelho de Lucas nos diz: "Quando Herodes viu Jesus, teve uma grande alegria, já que desde fazia tempo desejava vê-lo, pois tinha ouvido dizer muitas coisas dele, e esperava lhe ver fazer algum milagre". (Lucas, 23, 8.) Observe-se que Mateus, Marcos e João ignoram este comparecimento de Jesus ante o Herodes Antipas.
Achamo-nos agora em situação de poder estabelecer a genealogia de Saulo-Paulo:
Genealogia do Shaul-bar-Antípater
Primeiro grau: Herodes do Ascalón, sacerdote do templo do Apolo no Ascalón. De sua união com o X... nasceu Antípater.
Segundo grau: Antípater, epimeleta da Palestina. De sua união com Cypros I, pertencente a uma das mais ilustres famílias da Arábia nabatea, nasceram quatro filhos, Fazael, Herodes o Grande, José e Perora, e uma filha, Salomé I. Morreu no ano 43 antes de nossa era, acredita-se que envenenado.
Terceiro grau: Salomé I, que esteve primeiro casada com um tal José, do que não possuímos nenhuma informação, salvo que foi assassinado por ordem de Herodes o Grande, assim como Mariana, esposa deste último, no ano 29 antes de nossa era, depois de serem acusados de adultério por Salomé I ante seu irmão. Esta se casou a seguir com Costobaro I, íntimo amigo de Herodes o Grande, quem antes de que tivesse lugar o enlace o nomeou governador da Iduméia e da Gaza, no ano 37 antes de nossa era. Costobaro I procedia de uma das maiores famílias da Iduméia, e seus antepassados nos tempos dos príncipes-sacerdotes, tinham sido sacrificadores do deus Cosas -divindade que as tribos Iduméias adoravam com grande devoção-, antes de que Hircano os obrigasse a abraçar a religião judia, se não sinceramente, ao menos na aparência. Como Costobaro I conspirasse com Cleópatra, rainha do Egito, para separar Iduméia do reino do Herodes a fim de fazer-se independente, este o mandou executar por volta do ano 28 antes de nossa era. Logo Salomé I se casou pela terceira vez com um tal Alexas.
De sua segunda união com Costobaro I, Salomé teve duas filhas. De uma delas se ignora o nome; sabe-se que se casou com Caleas, filho de Alexas, terceiro marido de Salomé I. A outra se chamava Berenice, e se casou com Aristóbulo, filho de Herodes, o Grande. Salomé I teve um filho, chamado Antípater, de que falaremos a seguir. Ela morreu no ano 14 de nossa era.
Quarto grau: Antípater II, filho de Costobaro I e de Salomé I, casou-se com Cypros II, filha de Herodes, o Grande, e de Mariana. Desta união nasceram uma filha, Cypros III, que se casou com Alexias Helsius, e dois filhos, Shaul e Costobaro II. Observar-se-á que o nome primitivo de Saulo-Paulo era Shaul, posto que é o que os Atos dão no capítulo 9, versículo 4, no episódio do caminho de Damasco. Essa é a forma aramaica do nome, e Saulós era a forma grega. Pois bem, o aramaico se falava na Palestina e na Síria, e nesta época se estendeu do Sinai ao Taurus e mais à frente do golfo Pérsico.
Aqui, o manuscrito grego das Antigüidades judaicas de Flavio Josefo mostra uma importante lacuna. Os famosos monges copistas deram-lhe em mãos, já que os originais desapareceram misteriosamente, e não possuímos mais que transcrições medievais dos séculos IX e XIL. A Igreja velou zelosamente pela ortodoxia das cópias das obras de tal autor. Hoje em dia, na Biblioteca de Friburgo, encontra-se um manuscrito de Flavio Josefo que, no século XV, era ainda propriedade privada do arcebispo de Toulouse, Monsenhor Rieux, e que procedia possivelmente das expropriações inquisitoriais entre os albigenses e os cátaros, ou do processo contra a Ordem do Templo. A Igreja citou ao arcebispo e seu manuscrito ante o Parlamento de Paris, a fim de que o manuscrito fora examinado, e requisitado se era necessário, e o arcebispo interrogado sobre sua ortodoxia. Esta lacuna na filiação da dinastia Iduméia não deve, pois, nos surpreender; tratava-se de fazer desaparecer da verdade histórica a esse príncipe herodiano de origens muito significativos. Na obra de Flavio Josefo só encontramos a seguinte referência:
Quinto grau: "Costobaro [II] e Shaul tinham também consigo grande número de guerreiros, e o fato de que fossem príncipes de sangue real e parentes do rei os fazia gozar de uma grande consideração. Mas eram violentos, sempre dispostos a oprimir aos mais débeis." (Flavio Josefo, op. cit.) Costobaro II formou parte da delegação enviada ao rei Herodes Agripa II para lhe pedir que fora a Jerusalém com tropas, a fim de sufocar a rebelião. Logo, durante a estância de Nero César na Acaia, foi enviado a este por Cestio Galo, governador de Síria, para que lhe explicasse os motivos de sua derrota.
Como vemos indiscutivelmente, Saulo-Paulo foi pois o autêntico neto de Herodes, o Grande, graças ao matrimônio de seu pai Antípater II com a filha daquele (Cypros II), e é também seu sobrinho-neto, por ser neto da irmã de Herodes, Salomé I, mãe de Antípater II.
De maneira que nos achamos muito longe desse casal de judeus desconhecidos, deportados ao Tarso, dos quais inclusive se ignora o nome. Coisa que não impedirá à certos críticos bem pensantes negar-se a discutir nossos argumentos, embora sem contribuir eles com os seus.
Não obstante, observaremos que Saulo-Paulo não é cem por cento idumeu, já que sua avó materna, Mariana (mãe de Cypros II), era filha de Alexandre e de Alexandra, e portanto neta de Hircano II, rei e supremo sacerdote, descendente direto de uma linhagem de supremos sacerdotes de Israel que se remontava até o Matatias, pai de Judas Macabeo, o herói da luta judia contra Antíoco IV Epífanes (veja a árvore genealógica acima). Assim, por esta avó judia, Saulo-Paulo tem 25% de sangue judeu (sua mãe, Cypros II, tem 50%), e o resto, 75 %, de sangue Iduméia e nabatea.
Por outra parte, se isto lhe facilitar a circuncisão ulterior, o fato de contar em sua ascendência materna com quatro supremos sacerdotes de Israel (Hircano II, Alexandre Janeo, Juan Hircano I e Simão-bar-Matatias) seria incitado a considerar como possível uma união com a filha de Gamaliel.
Mas, além de que o valor moral desta circuncisão tardia foi discutido pelo Sanedrim, a dinastia asmonea, procedente de Matatias e seus filhos, deixara lembranças muito penosas e sangrentas nas memórias judias para que o povo aceitasse tal união; de fato, ante a alternativa, preferiam a filiação davídica.
E isso não podia a não ser agravar as más relações posteriores entre Saulo-Paulo, asmoneo por parte de mãe e idumeu por parte de pai, e Simão-Pedro, "filho de David", como seu irmão maior Jesus, como seu pai Judas da Gamala e como seu avô Ezequias, crucificado por Herodes, avô de Saulo-Paulo. Esses ódios familiares explicarão muitos dramas, especialmente a crucificação de Simão-Pedro e de Santiago, seu irmão, no ano 47 em Jerusalém, por ordem de Tibério Alexandre, procurador de Roma.
Porque esta dupla execução tem lugar em plena nova revolução judia, durante a enorme fome que assolou o Império romano naquela época, anunciada pelo vidente Agabus (Atos, 11, 28), e que se produziu ao término do primeiro "concílio" de Jerusalém, verdadeiro conselho de guerra, onde se enfrentaram os adversários dos tabus legais, e sobretudo da circuncisão, agrupados ao redor de Saulo-Paulo e vindos da Gentilidade, e os judeus-cristãos tradicionalistas, agrupados ao redor de Simão-Pedro, e procedentes, ou da corrente zelote, ou da seita fariseu.
É provável que as origens principescas de Saulo-Paulo e suas antigas funções o colocassem em situação de poder alertar eficazmente às autoridades romanas contra o que ele considerava como irredutíveis obstáculos a suas ambições e a seus planos. Porque fica uma alusão muito clara a este drama: "Pedro, quem, vítima de um injusto ciúmes, passou não por uma, mas sim por numerosas provas, e quem, depois de ter sofrido assim seu martírio, foi à glória que lhe estava devida...". (Cf. Clemente de Roma, Epístola aos Coríntios, V, 4.)
E isso é o que vamos estudar agora.
Este estudo genealógico poderia parecemos fastidioso e inútil se não nos pusesse em presença de uma verdade pasmosa, verdade que, como efeito de uma bomba cega, permitir-nos-á compreender muitas coisas. Que o leitor tenha a bondade de remeter-se aos quadros genealógicos das páginas anteriores, que podem resumir-se como se indica no esquema desta página.
Não faz falta ser um grande letrado para constatar que Saulo-Paulo é o segundo primo do rei Herodes Agripa I, quem a sua vez é primo em terceiro grau de seu filho Herodes Agripa II e de suas filhas, as princesas Berenice (viúva de seu tio Herodes, rei do Calcis) e Drusila (viúva do Aziz, rei do Emeso), e que por conseguinte, quando esta última se casou com o Antonio Félix, procurador de Roma, irmão do Palante (favorito do imperador Claudio), este matrimônio converteu Félix e Paulo em primos por aliança.
Genitores Primos irmãos Primos segundos Primos em terceiro grau
Herodes, o Grande, casado com a Mariana;
Sua irmã é: Salomé I, casada com Costobaro I; de onde:
Antípater II, casado com Cypros II;
de onde:
Saulo-Paulo e Costobaro II
de onde:
Alexandre Aristóbulo, casado com Glafira;
de onde:
Herodes Agripa I, casado com X...;
de onde:
Herodes Agripa II, cujas irmãs são: Berenice e Drusila, casada com Félix, o procurador romano
Assim se compreende facilmente por que Claudio Lisias, tribuno das coortes e governador da Antonia, em Jerusalém, fez conduzir Saulo-Paulo à Cesaréia Marítima, sob a proteção de quatrocentos e setenta soldados, com várias montarias para o "prisioneiro Paulo" (sic). Era para pô-lo sob o amparo de seu primo Félix.
Porque detrás deste último estava seu irmão Palante, secretário de Claudio César, e o tribuno Lisias era tão bom diplomático como perito soldado...
Referências Bibliográficas Flavio Josefo: Antigüidades judaicas (manuscrito grego): XIV, XII; XV, XI; XVI, VII; XVII, I; XVII, I; XVIII, V; XVIII, V; XX, VIII. Guerra dos judeus (manuscrito eslavo): I, IX; I, XI; I, XVII; II, XXXI; II, XII.
As cifras romanas maiúsculas indicam o livro da obra, e as cifras romanas minúsculas precisam os capítulos de tais livros.
Nota: Segundo costume em genealogia, e a fim de diferenciar aos personagens do mesmo nome mas com graus diferentes de filiação, demos um indicativo de ordem a cada um dos membros desta família: Salomé I, Costobaro II, Cypros III, etc. Se se examina a árvore genealógica da Casa dos Herodes se observará, em efeito, que há um uso constante dos mesmos nomes. Trata-se de uma espécie de costume tribal.
Por outra parte, Shaul ou Saulo é um nome raramente utilizado no Antigo Testamento. Primeiro está o de um dos filhos de Esaú, um dos reis do Edom, adversários dos filhos de Israel (Gênesis, 36, 37). Há logo um Saúl, filho de Simão e de uma cananéia, e neto de Jacob. Sua descendência constituiu um ramo à parte, pelo mesmo fato desta aliança com uma mulher de raça estrangeira. (Gênesis, 46, 10, e Números, 26, 13.) Está, por último, o Saúl que precedeu ao David (I Samuel, II Samuel, I Crônicas). Como vemos, isto confirma que Saúl não era um nome verdadeiramente judeu, mas, ao contrário muito utilizado entre os árabes.
Os sacrilégios de Saulo-Paulo
Resulta que a desonra e a própria santidade, devidamente identificadas, aconselham deste modo uma certa prudência, e representam, de cara ao mundo, os dois pólos de um campo atemorizador.
R. Caillois, L'Homme elle Sacre
Nos Atos dos Apóstolos lêem o que segue: "E seguiu até chegar ao Derbe e a Listra. E se encontrou ali com um discípulo chamado Timóteo, filho de uma mulher judia crente e de pai grego, que tinha a seu favor o testemunho dos irmãos que havia em Listra e em Iconio. Quis Paulo que se fora com ele, e tomando, circundou-lhe por causa de quão judeus havia naqueles lugares, pois todos sabiam que seu pai era grego". (Atos dos Apóstolos, 16, 1-5.)
O que quer dizer com isto? Porque o mesmo texto nos contribui a seguir sua própria contradição: "Ao passar pelas cidades, comunicava-lhes os decretos dados pelos apóstolos e anciões de Jerusalém, lhes encarregando que os guardassem". (Atos dos Apóstolos, 16, 4.)
Que decretos são esses? Aqui os temos: "Porque pareceu bom ao Espírito Santo e a nós não lhes impor nenhuma outra carga mais que estas necessárias: que lhes abstenham das carnes imoladas aos ídolos, do sangue, dos animais estrangulados e da fornicação, do qual farão bem em lhes guardar". (Atos dos Apóstolos, 15, 28-29.)
Aqui não se fala em nada de circuncisão... Porque do que aqui se trata é da Lei de Noé, menos severo que a Lei de Moisés. Logo voltaremos sobre este tema.
Por conseguinte, a operação efetuada sobre Timóteo pelo próprio Paulo foi uma circuncisão clandestina, não ritual, com o fim de enganar, e portanto mendaz e sacrílega.
Agora bem, ele não tinha nenhuma autoridade para efetuá-la, por não ser judeu, e menos ainda sacrifícador. E se fosse judeu. Paulo, a quem nos apresenta como chefe de uma tropa ao serviço do Sanedrim, demonstrava com esta função puramente laica que não era sacerdote. Porque é mais que incerto que Gamaliel, doutor supremo de Israel, recebesse entre seus discípulos a um jovem judeu destinado simplesmente a desempenhar o papel de jenízaro. Assim, Paulo mentiu ao pretender ter sido educado "aos pés do Gamaliel" (Atos dos Apóstolos, 22, 3).
Vejamos como se desenvolvia essa circuncisão ritual.
Exigia a presença de três mohelim (sacrifícadores), e de sete testemunhas varões adultos. A circuncisão, que começava com a faca ritual o primeiro mohel, terminava-se dentibus. A primeira aspiração de sangue a tragava esse primeiro mohel, que representava a "Deus, o primeiro servido". As duas aspirações seguintes as cuspiam a seguir os outros dois mohelim em uma taça de vinho de bênção. Com esse vinho consagrado se esfregava os lábios do jovem circunciso. A taça circulava logo do pai aos convidados varões, e todos bebiam dela. Tinha lugar assim a comunhão com Israel humano, e logo vinha a comunhão com Deus. O resto do vinho passava à mãe, que o mesclava com bolos e com geléias que eram distribuídas em seguida entre os amigos da família. (Cf. León de Módena, grande rabino de Veneza, Cérémonies & Coutumes juives, p.131.)
Por último, durante esta tripla comunhão com Deus, os sacerdotes e os laicos, cantava-se o salmo 16 de Ezequiel: "Revive em seu sangue!". E esta era a única circunstância em que os judeus podiam ingerir sangue, e mesmo assim se tratava de sangue humano, rigorosamente judeu, o que elimina a abominável lenda dos crimes rituais imputados aos judeus, e dos meninos cristãos sacrificados durante a Páscoa.
Como se vê por este relato; Paulo não tinha complexos, e para tratar com semelhante desenvoltura o rito mais sagrado da Antiga Aliança, tinha que ser totalmente alheio à raça judia, porque naquela época um filho de Israel "educado os pés de Gamaliel" jamais se atreveria a cometer tal impiedade.
Este constitui, pois, o primeiro sacrilégio de Saulo-Paulo, e é fácil de conceber que suscitasse entre os judeus um forte ódio quando fora conhecido por eles.
Vejamos agora o segundo: "Quando chegamos à Jerusalém, fomos recebidos pelos irmãos com alegria. Ao dia seguinte, Paulo, acompanhado de nós, visitou Santiago, e ali se reuniram todos os anciões. Depois de havê-los saudado, contou uma por uma as coisas que Deus tinha obrado entre os gentis por seu ministério. Logo eles lhe disseram: Já vê, irmão, quantos milhares de crentes há entre os judeus, e todos são zeladores da lei. Mas ouviram que ensina aos judeus da dispersão que terá que renunciar ao Moisés, e lhes diz que não circuncidem a seus filhos e não sigam os costumes mosaicos. O que fazer, pois? Indubitavelmente a gente se reunirá, porque saberão que veio! Por isso faz o que vamos dizer: Há entre nós quatro homens que têm feito voto. Toma-os contigo, purifica-se com eles e lhes pague os gastos para que se raspem a cabeça. E assim todos conhecerão que não há nada de quanto ouviram sobre si, mas sim você também segue na observância da Lei. [...] Então Paulo, tomando consigo aos varões, purificou-se, e entrou na manhã seguinte no Templo com eles para anunciar que dia se cumpriria a purificação, e a oferenda apresentada por cada um deles". (Atos dos Apóstolos, 21, 17-26.)
Os quatro homens que deviam cumprir essas cerimônias de purificação eram judeus que tinham feito o voto do nazireato para um tempo dado. Essas cerimônias implicavam gastos consideráveis; compreende-se, pois, que ao tomar Paulo a seu cargo a estes, infiltrando-se entre eles sem ter feito antes o voto prévio (e com razão!), cai no caso de corrupção de quatro nazirim, crime muito grave, tanto para ele como para eles, e no de falsa declaração de nazireato, verdadeiro sacrilégio, já que profanava as cerimônias de liberação desse estado.
E chegamos agora ao terceiro: Em Jerusalém, o tribuno Lisias convoca ao Sanedrim e chama a sua presença Paulo, que vai sob o amparo dos legionários. É então quando nosso Paulo tem a audácia mendaz de declarar: "Varões irmãos, eu com toda boa consciência procedi ante Deus até este dia" (Atos dos Apóstolos, 23, 1); o supremo sacerdote Ananías ordena a um dos que estão a seu lado que lhe golpeiem na boca. Então Paulo declara, furioso: "Deus golpeará a ti, parede branqueada!" (op. cit., 23, 3).
Com cal vivo branqueavam-se as soleiras, os pingentes as portas dos sepulcros utilizados para alertar aos judeus e lhes evitar o contato com um lugar impuro, no que se decompunha lentamente um cadáver. Os epítetos de "sepulcro" e de "parede branqueada" equivaliam portanto a tratar a alguém de podridão ou de carniça. (Jesus, por certo, tampouco se privou de utilizá-los; veja-se Mateus, 22, 27, e Lucas, 11, 44.)
Paulo, dando-se conta então da magnitude da estupidez que tinha cometido, replicou sem alterar-se aos judeus que lhe acusavam de ter insultado ao "soberano pontífice de Deus" (Atos dos Apóstolos, 23, 4): "Não sabia, irmãos, que fora o pontífice. Porque escrito está: Não injuriará ao príncipe de seu povo". (Atos dos Apóstolos, 23, 5, citando o Êxodo, 22, 27.)
Isto constitui uma prova mais de que não era judeu, e que não cresceu espiritualmente "aos pés de Gamaliel", como afirma. Porque nesse caso conheceria o rosto daquele que lhe sucedeu, seu sucessor direto; teria que lhe encontrar forçosamente, como simples cohén, na casa de Gamaliel. Mas, sobretudo, conheceria suas roupas e ornamentos rituais, e saberia, assim identificá-lo entre os sanedritas.
O que caberia pensar, por exemplo, de um sacerdote católico romano que, em presença de um concílio, não soubesse distinguir ao Papa por seus ornamentos particulares, seu posto, sua importância e sua autoridade?
O judaísmo compreendia duas categorias de fiéis, e um só se convertia verdadeiramente em filho de Israel ao final de duas etapas, ou seja:
1) partidários de primeiro grau, chamados "temerosos deste Deus observavam a Lei de Noé -daí seu nome de noacitas-, quer dizer que não consumiam sangue, e por este motivo, nenhuma carne procedente de animal morto (cf. Gênesis, 9, 1-7);
2) partidários de segundo grau, chamados "de justiça". Observavam a Lei de Moisés com todo seu rigor: proibição de sangue, de carnes consagradas e oferecidas em altares dedicados a outros deuses, de carnes procedentes de animais mortos ou impuros, etc. (cf. Deuteronômio, caps. 12-26).
É fácil tirar a conclusão de que Saulo-Paulo nem sequer foi partidário de primeiro grau, um "temeroso de Deus", porque ao ter que respeitar a Lei de Noé, que impunha a fecundidade sexual (Gênesis, 9, 7), não poderia aconselhar seus seguidores: "Quem casa a sua filha donzela faz bem. Mas quem não a casa faz melhor". (Cf. I Epístola aos Coríntios, 7, 38.)
Quanto à circuncisão por complacência, aceita para poder casar-se com uma das filhas do Gamaliel, é provável que fora igual de irregular que a de seu discípulo Timóteo, e não nos está proibido supor que nem sequer foi um cohén regular o que a praticou.
Nota: Observar-se-á que no texto grego dos Atos, 13, 1: "... e Menahem, que fora criado com Herodes, o Tetrarca, e Saulo...", o escriba do século IV pôs este último nome em nominativo (Saúlos), o que implica, em seu espírito, que Saulo não foi criado com Menahem e Herodes, o Tetrarca, futuro Herodes Agripa I. Trata-se de uma artimanha indiscutível, já que é evidente que, muito mais que Menahem, membro de uma família rival da de Herodes, o Saulo "príncipe de sangue real", como o qualifica Flavio Josefo, esteve em situação de poder ser criado com seu primo Herodes, o Tetrarca. Quanto mais que as obras deste autor nos mostram sem cessar aos membros desta dinastia mesclados em uma espécie de vida em comum, verdadeira corte reunida nos diversos palácios em torno de um dos príncipes descendentes de Herodes, o Grande. De onde essas múltiplas intrigas que marcam tragicamente a história de tal família.
10 - Paulo e as mulheres
Se me amarem tanto como eu vos amo, nenhum mortal é, então, tão amado como eu.
Gregorio VII Carta a Mathilda, duquesa da Toscana, sua concubina.
"Há uma raça nova de homens, nascidos ontem, sem pátria nem tradições, unidos contra todas as instituições civis e religiosas, perseguidos pela justiça, pontuados universalmente de infâmia, mas que se vangloriam da abominação comum: são os cristãos... Os perigos que os cristãos confrontam por suas crenças, Sócrates soube encará-los por si com um valor inquebrável e uma serenidade maravilhosa. Os preceitos de sua moral, no que tem de melhor, ensinaram-nos os filósofos antes deles. Suas críticas à idolatria, que consistem em dizer que as estátuas realizadas por homens freqüentemente desprezíveis não são deuses, foram repetidas inumeráveis vezes. Heráclito, por exemplo, disse: "Dirigir orações à imagens, sem saber o que são os deuses e os heróis que representam, é o mesmo que falar com pedras".
"O poder que parecem possuir lhes vem de nomes misteriosos e da invocação de certos demônios. Através da magia foi como seu Mestre realizou tudo que de assombroso houve em suas ações. Logo pôs grande cuidado em advertir à seus discípulos que se protegessem daqueles que, ao conhecer os mesmos segredos, poderiam fazer quão mesmo ele e fingir, igual a ele, que participassem do Poder Divino. Divertida e escandalosa contradição! Porque se condena com razão a quem imita, como não se voltar contra ele sua própria condenação? E se ele não é nem impostor nem perverso por ter realizado ditos prodígios, por que seus imitadores, pelo fato de levar a cabo as mesmas coisas mediante os mesmos meios teriam que sê-lo mais que ele?..." (Cf. Celso: Discurso da Verdade, 1-3.)
Antes nosso terrível autor assinala os círculos familiares nos quais os cristãos tentam, preferencialmente, obter partidários: "vêem-se cardadores de lã, sapateiros, tecelões, gente da maior ignorância e desprovidos de toda educação, que, em presença de seus professores, homens de experiência e de julgamento, guardam-se bem de abrir a boca. Mas quando surpreendem aos meninos da casa, ou inclusive às mulheres, que não têm mais razão que eles mesmos, começam a lhes contar maravilhas! É a eles sozinhos a quem terá que acreditar; o pai de família, os preceptores, são loucos que ignoram o verdadeiro bem e são incapazes de ensiná-lo. Só eles sabem como terá que viver; os meninos farão bem de segui-los, e através deles a felicidade visitará toda a família! Não obstante, se enquanto eles pregavam aparece um dos preceptores, ou o próprio pai de família, ou alguma pessoa séria, os mais tímidos não se calam; os descarados não deixam de incitar aos meninos a que sacudam o jugo, insinuando em surdina que não querem lhes ensinar nada em presença de seu pai ou seu preceptor, para não expor-se à brutalidade dessas gente corrompidas, e que lhes castigariam. Mas que aqueles que desejem saber a verdade, suplantem ao pai e preceptor, e vão com as mulheres e os meninos ao gineceu, ou à tenda do sapateiro ou a do tecelão, para aprender a vida perfeita". (Op. cit., tradução de Louis Rougier, Jean-Jacques Pauvert, éditeur. Paris 1965.)
Vimos, indiscutivelmente, um quadro tomado ao vivo. Uma coisa assim não se inventa. E Celso, amigo do imperador Juliano, seu companheiro de estudos nas escolas de Atenas, a quem Juliano fez governador das províncias da Capadocia, Cilícia, pretor da Bitinia, com toda segurança teve que se ver com propagandistas cristãos.
Agora bem, vamos encontrar nos próprios textos cristãos esta ação insidiosa entre as mulheres, e sobretudo as jovens. Freqüentemente estas últimas eram "dadas em matrimônio" pelo pater familias, sem preocupar-se o mínimo por suas inclinações do momento (coisa que em Israel a Lei religiosa proibia fazer). Disso resultavam feridas morais incuráveis, e se compreende facilmente que os pregadores da nova religião encontrassem terreno abonado para lhes pregar a castidade.
Pois bem, nos Atos de Paulo, chamados também Atos de Paulo e de Tecla, cujas versões siríaca, eslava e árabe são do século VI (existem fragmentos da versão grega em um pergaminho do século VI), vamos encontrar provas formais desta ação insidiosa de Paulo entre as mulheres. E esta ação, tendo em conta as crenças daqueles tempos, revestirá um aspecto mágico não menos seguro.
Por uma parte, Paulo aconselhará a quão jovens não se casem. Por outra, aconselhará às jovens e às mulheres o mesmo. Mas enquanto o efeito sobre os primeiros é menos tangível, a ação, ou, como poderíamos dizer, a influência, por volta das segundas, é total. Julgue-se:
"Afortunados aqueles que têm mulheres como se não tivessem, porque terão a Deus como herança..." (Op. cit., V.)
"Enquanto Paulo assim falava em meio da assembléia, na mansão de Onesiforo, uma virgem, cuja mãe se chamava Teoclia, e que estava prometida a um jovem chamado Tamiris, sentada na janela mais próxima a sua casa, escutava dia e noite a palavra de Deus anunciada por Paulo... E não se movia da janela... Além disso, como via mulheres e virgens ao lado de Paulo... Porque ela não tinha visto ainda nunca as facções de Paulo, só tinha ouvido sua palavra." (Op. cit., VII.)
"E Teoclia disse: Tenho detalhes novos para dar, Tamiris. Faz três dias e três noites que sua prometida não se separa da janela, nem para comer nem para beber, mas sim, como extraviada de gozo, aterra-se de tal maneira a um homem estrangeiro que ensina palavras enganosas e artificiosas, que estou surpreendida de que o tão grande pudor da jovem esteja turbado de forma tão penosa." (Op. cit., VIII.)
"Tamiris, este homem transtorna a cidade dos iconianos, como a sua própria pregação, já que todas as mulheres e os jovens vão a ele... E minha filha também, encadeada como uma aranha a sua janela pelo que ele diz, está dominada por um desejo novo e por uma temível paixão... E a jovem está gostando muito..." (Op. cit., IX.)
"E todos choravam amargamente, Tamiris porque perdia a sua futura esposa, Teoclia a sua filha, os jovens escravos a sua ama. Reinava, pois, na casa uma grande e geral confusão de pesar. E enquanto isso, Tecla não mudava, e permanecia sempre atenta ao verbo de Paulo." (Op cit., X.)
"Tamiris, quando ouviu isto, ficou com ciúmes e cólera. Logo que amanheceu se levantou e foi à casa de Onesiforo com magistrados, funcionários, e um grupo bastante numeroso armado de fortificações, e disse ao Paulo: "seduziste à cidade dos iconianos e a minha prometida, de modo que esta já não quer casar-se comigo; vamos ante o governador Cestilio". E o grupo inteiro disse: "leve este bruxo, porque seduziu todas nossas esposas"; e a multidão era desta mesma opinião." (Op. cit., XV.)
"Tamiris, diante do tribunal, disse aos gritos: "pró-cônsul, não sabemos de onde vem este homem que impede de casar-se às jovens. Que diga ante ti por que ensina essas coisas"..." (Op. cit., XVI.)
Ao revelar o interrogatório de Paulo que este era cristão, o governador ordenou prendê-lo e colocá-lo na prisão, esperando que, ao ter mais tempo livre, pudesse escutá-lo mais a fundo.
"Mas Tecla, durante a noite, tirou os braceletes e os deu ao porteiro, e quando teve aberta a porta, encaminhou-se para a prisão. Deu de presente ao carcereiro um espelho de prata, entrou junto ao Paulo e, depois de sentar-se a seus pés, escutou a grandeza de Deus. E Paulo não temia nada e se conduzia com a liberdade de Deus, e sua fé recobrou firmeza nela, enquanto lhe beijava as algemas." (Op. cit., XVIII.)
A liberdade de Deus ou a liberdade dos filhos de Deus? O que pretende isto dizer? Porque essa expressão em desuso designa o fato de efetuar não importa que ação, na ignorância do bem e do mal!
Aqui abriremos um parêntese. A tradução deste velho apócrifo (a versão copta é do século V, mas aparece citado no ano 200 por Tertuliano) é do abade Vouaux, catedrático de universidade, professor no Collége de Malgrange. O imprimatur é de Paris, de 1912, e foi editado pela Librairie Letouzey et Ané.
Agora bem, em relação ao último versículo citado acima, o tradutor toma a precaução de assinalar: "A observação acautela de todo escândalo, mas este seria muito similar em tais circunstâncias, e possivelmente mais valeria calar-se, e não desflorar essa ingenuidade assinalando de forma muito vigorosa. Humildade no amor puro, essa é a comovedora virtude da pecadora arrependida (Lucas, 7, 38), e essa é também a de Tecla...". (Op. cit., notas da página 181.)
Observar-se-á que se os Atos de Paulo e de Tecla estão classificados entre os apócrifos, e se o Papa Leão e Toribio da Astorga (por volta de 450) condenam a estes últimos por terem utilizados seitas heréticas, só o foram por este motivo, já que: "...sem nenhum gênero de dúvidas, essas maravilhas e esses milagres descritos nos apócrifos, ou são dos santos apóstolos, ou puderam ser deles". Coisa que nos dá a razão!
Quisemos oferecer estes comentários do abade Vouaux para demonstrar que se tratava de uma atração de ordem sentimental, que foi justificada a seguir em função de uma conversão final. Agora bem, o aspecto físico de Paulo não justifica uma influência semelhante sobre as mulheres, como já vimos Or-ffav outra coisa, que logo abordaremos. Mas prossigamos, porque o texto vale a pena:
"Enquanto isso Tecla era procurada por seus familiares e por Tamiris. Acreditando-a perdida, foram em sua busca pelas ruas. Mas um dos escravos, companheiro do porteiro, declarou que tinha saído durante a noite. Então perguntaram ao porteiro, e este lhes disse que tinha ido encontrar-se com o estrangeiro na prisão. Seguindo esta indicação, foram ali, e encontraram-na, por assim dizê-lo, encadeada pelo amor. Saíram então da prisão, arrastaram às multidões atrás deles, e revelaram ao governador o que tinha acontecido." (Op. cit., XIX.)
"Este ordenou que conduzissem Paulo diante de seu tribunal. Mas Tecla rodava pelo chão, no lugar exato em que, sentado na prisão, tinha-a instruído Paulo. E o governador ordenou que a levassem-na também diante do tribunal. Ela, cheia de alegria, saiu prazerosa. Mas quando traziam já de retorno Paulo, as multidões gritavam com mais violência: É um bruxo, matem! Mas o governador escutava agradando ao Paulo, que falava de suas obras santas; logo, depois de reunir a seu conselho, chamou Tecla e lhe disse: "por que não se casa com Tamiris, segundo a lei dos iconianos?" Mas ela olhava entusiasmada ao Paulo. E como não respondia, sua mãe interrompeu neste grito: "Queima esta perversa; queima a esta inimizade no meio do teatro, para que todas as mulheres instruídas por este homem cobrem medo"." (Op. cit., XX.)
"O governador sofreu atrozmente, mas mandou flagelar ao Paulo e o expulsou da cidade, e condenou Tecla à fogueira. Imediatamente se levantou e foi ao teatro, e todo o povo foi contemplar este castigo, legalmente imposto. Mas Tecla, igual ao cordeiro no deserto olhou por todos lados em busca do pastor, do mesmo modo procurava Tecla ao Paulo! E quando passou seu olhar pela multidão, viu um senhor sentado, com os traços de Paulo. Ela disse: "Como se eu pudesse fraquejar, Paulo veio a me contemplar". E o olhou fixamente, encantada. Mas ele ascendeu de novo aos céus." (Op. cit., XXI.)
Continuando, um motim levado a cabo por mulheres tenta opor-se ao suplício de Tecla. Conseguem-no, e Tecla irá a pé, vestida de homem, mesclada com um grupo de meninos e garotas jovens, em busca de seu querido Paulo, ao Myras, aliás Antioquia de Pisidia.
Deixemos de lado todo o sobrenatural abundantemente aumentado, como está mandado em todos estes textos apócrifos. O que fica é que a história de Tecla "teve uma grande acolhida e alta veneração em toda a Igreja", como nos diz o abade Vouaux, tradutor da versão grega citada.
Assim, o "encanto" do qual fazia uso Saulo-Paulo para com as mulheres, a fim de lhe permitir fazer delas elementos propagandísticos da doutrina de que era autor, esse "encanto" é inegável, e segue sem explicação racional. Evidentemente, nos objetará que era obra do Espírito Santo. Mas que o Espírito Santo faça que uma moça se derrube pelo chão no lugar que ocupasse seu querido Paulo em um calabouço, que a deixe muda de admiração ao contemplá-lo, que distribua suas jóias para ir a seu encontro tão longe, a mais de cem quilômetros de sua residência familiar, tudo isso causará cepticismo em todo leitor com sentido comum.
E isso não faz a não ser reforçar nossa primeira hipótese, ou seja, que o judeu chamado Simão, que conseguiu mediante seus sortilégios que a princesa Drusila abandonasse a seu marido Aziz, rei do Emeso, para viver com um antigo escravo liberto, o procurador Félix, esse Simão poderia muito bem ser Simão, o Mago, aliás Paulo, aliás Saulo, antigo príncipe herodiano...
E a segunda hipótese, segundo a qual Saulo teria obtido o "sim" da filha de Gamaliel (coisa que lhe decidiu a praticar-se previamente a circuncisão) unicamente graças a um sortilégio, e em modo algum devido a sua superioridade física, teria também fundamento.
Por outra parte, seria um grande engano supor que a magia foi uma técnica habitual só de Paulo. Os cristãos utilizaram com profusão a magia curativa, e ficam testemunhos indiscutíveis nos textos antigos. É provável que a mesma magia fora utilizada em certos episódios de circo, em presença das feras. Mas o pequeno número de iniciados nesta ciência, zelosamente conservada por seus escassos possuidores, no seio da massa anônima dos crentes, forçosamente tem feito escassear as manifestações deste tipo, e os ocultos se foram perdendo pouco a pouco.
Vejamos o que diz disso Orígens no Contra Celsum: "Existem determinadas doutrinas, ocultas às multidões, que não são reveladas, somente depois que forem repartidos os ensinos esotéricos. Isso não é exclusivo do cristianismo". (Op. cit.)
Vejamos ainda outros textos que demonstram sem dificuldade a ação misteriosa dos propagandistas cristãos sobre as mulheres, no seio das nações pagãs. O R. P. Festugiére, O. P., em seu quarto tomo de La Révelation d'Hermés Trismégiste, le Dieu Inconnu et la Gnose, sublinha que em bom número de Atos apócrifos: "Sempre a mesma história constitui um dos topos desta literatura apócrifa. Um chefe, um rei, parente do rei ou do magistrado local, está casado, vive em boa união com sua esposa, tem filhos. Aparece o apóstolo, converte à mulher: esta, então, rechaça os ardores de seu marido e decide permanecer casta". (Op. cit., P. 227.)
Pode citar-se a este respeito:
- O prefeito Agripa e suas quatro concubinas, nos Atos de Pedro (XXXIV):
- o pró-cônsul de Hierápolis e sua esposa Nicanora, nos Atos de Felipe (114);
- o magistrado Aigeates e Maximilia, nos Atos de André (3);
- Andránicos, estrategista de Éfeso, e Drusiana, nos Atos de João (63);
- Cansíos, parente do rei, e Migdonia, nos Atos de Tomás (ou);
- o rei Misdaios e Tertia, nos mesmos Atos de Tomás (134). Nos Atos de André, ao rechaçar Maximilia a seu marido Aigeates, corre a reunir-se com o apóstolo André na prisão onde o encerraram. E este sustenta com ela uma estranha linguagem, no que se vê aparecer algo distinto ao desejo de espiritualização da mulher, mas, ao contrário um ódio ao marido legítimo e o desejo de subjugar esta mulher:
"Suporta todas as torturas que inflige seu marido, e olhe um pouco para mim, e verá como se enche inteiro de atordoamento, e se murchará longe de si. Porque -sobretudo, me tinha passado,devo lhe dizer isso não conhecerei o descanso até que não veja cumprida a obra que vejo produzir-se em si. Sim, na verdade, vejo-a uma Eva arrependida, e em mim a um Adão voltando-se. Porque o que Eva sofreu por ignorância, agora, você, para quem eu tendo minha alma, você o endireita com sua conversão. O que o nous* sofreu quando foi abatido com Eva e escapou a si mesmo, eu o levanto contigo, do momento em que se reconhece recuperada". (Cf. Atos de André, XL.)
*[Nous: em grego significa o espírito.]
Se isto não se parecer com um malefício, as palavras não têm sentido! Nos Atos de Felipe encontramos a mesma má fama dos apóstolos: a de sedutores de mulheres. Uma vez mais citaremos ao R. P. Festugiéres: "O apóstolo Felipe está entrando na cidade de Nicatera, na Grécia, quando os cidadãos, e especialmente os judeus, revoltam-se. Felipe tem fama de separar aos maridos das mulheres; portanto, terá que jogá-lo antes de que se instale e comece a seduzir às mulheres". (Op. cit., P. 239.)
O mesmo acontece no caso de Carisios e Migdonia, nos Atos de Tomás. Diz-nos este autor: "Migdonia, depois de haver-se recusado a seu marido Carisios, tenta reunir-se com o apóstolo Felipe em sua prisão". (Op. cit., P. 240.)
É óbvio que nos textos cristãos ortodoxos esta atração das mulheres pelo apóstolo é sempre platônica. Mas não vemos por que deveria exercer-se de forma precisa e total em uma única mulher, enquanto o apóstolo não desperta entre todas as demais a não ser uma imensa comente de simpatia para a nova doutrina. Não vemos por que teria que ser indispensável separar a esta única mulher de seu legítimo marido, e suscitar nela o desejo absoluto e fascinante de não abandonar jamais nem por um instante ao chamado apóstolo, enquanto que todas as outras permanecem unidas a seu marido legal. Confessemos que em todas essas numerosas circunstâncias o Espírito Santo desempenha um estranho papel, habitualmente encomendado a personagens pouco recomendáveis. E no que fica aqui o famoso sacramento do matrimônio?
Se ainda duvidássemos disso, bastaria-nos tomando textos análogos de certos padres da Igreja, textos nos quais não vacilam em ser mais loquazes, simplesmente porque então se trata de notórios hereges. Citaremos ao Ireneu, em seu tratado célebre Contra as Heresias, no qual estigmatiza ao gnóstico Marcos: "Sobretudo é com as mulheres com as quais tem entendimentos, e preferentemente com as grandes damas, de alto berço e as mais ricas possíveis. Freqüentemente tenta seduzi-las sustentando com elas conversações de linguagem aduladora como esta: "Quero lhe dar parte de minha graça, já que o Pai de todas as coisas vê continuamente seu anjo frente a seu rosto (Mateus, 18, 10). É em nós onde tem lugar a Grandeza. Temos que nos fundir na Unidade. Recebe primeiro de mim e por minha Graça. Esteja disposta como uma recém casada a espera de seu jovem marido, para que você eu seja, e eu você seja. Instala em sua câmara nupcial o germe da Luz. Tira de minha mão ao jovem marido, lhe dê lugar em si, e encontra lugar nele. Vê? A Graça descendeu a si, abre a boca e profetiza". Se a mulher responde: "Eu não profetizei jamais, e não sei profetizar", ele, fazendo de novo certas invocações para deixar estupefata àquela a quem seduziu, diz: "Abre a boca e dá algo; profetizará". Ela então, inflada de orgulho, e apanhada na armadilha destas palavras, com o ânimo ardendo já ao simples pensamento de que vai profetizar, com o coração lhe palpitando em excesso, aviva-se e pronuncia frivolidades, algo, impudicas tolices, dignas do tolo espírito que a inflamou... A partir desse instante se vê à si mesmo como profetisa, cheia de agradecimento ao Marcos, que lhe comunicou sua Graça. Ela tenta recompensá-lo, não só lhe dando o que possui (daí procedem as imensas riquezas que acumulou), mas também lhe entregando seu corpo, já que arde em desejos de unir-se à ele em tudo, a fim de fundir-se, com ele, na Unidade". (Cf. Ireneu, Contra as heresias. I, xIII, 3.)
Pois bem, este Marcos, aliás Marcus, discípulo de Valentino, foi o fundador de uma grande igreja gnóstica em finais do século II, e não se tratava de uma seita minúscula, nem de um chefe não cristão. E ao demonstramos que Marcos seduzia às mulheres ricas em nome da nova religião, Ireneu não faz a não ser confirmar que as outras faziam o mesmo.
Em um texto redigido, conforme parece, por volta do ano 150, e intitulado O Pastor, o autor, um certo Hermas, considerado como um dos quatro "pais apostólicos", descreve-nos mais à frente: "...aqueles que estão cobertos de manchas são os diáconos prevaricadores, que roubaram o bem das viúvas e dos órfãos, e se enriqueceram nas funções que receberam..." (Op. cit., IX, 26.)
Acaso o próprio Saulo-Paulo não aconselhava: "Honra às viúvas que são verdadeiramente viúvas..." (I Epístola ao Timóteo, 5, 3)? Eugenio Sue, em seu Judeu errante, não inventou nada. Cometeria-se um grande engano caso que esta ação oculta sobre as massas femininas, polarizada mais particularmente sobre uma delas, começou posteriormente à morte de Jesus, no ano 34. Que o leitor se remeta ao capítulo 26 do volume precedente, intitulado "Jesus e as mulheres", e ficará bem informado. O exemplo vinha de acima.
Citemos simplesmente, para abreviar: "Havia também umas mulheres que olhavam de longe. Entre elas estavam Maria de Magdala, Maria, mãe de Santiago, o Menor, e de José, e Salomé, as quais, quando ele estava na Galiléia, seguiam-lhe e serviam-lhe, e outras muitas, que tinham subido com ele à Jerusalém...". (Marcos, 15, 40-41.)
Lucas (8, 3) diz-nos que essas mulheres "lhe assistiam com seus bens...", quer dizer, com seu dinheiro, já que abandonaram suas casas. Não se tratava já de hospitalidade.
E, se ainda duvidássemos, bastar-nos-ia relendo um evangelho apócrifo muito velho, de que possuímos um manuscrito do século IV, sobre um texto inicial de finais do século II, por volta dos anos 175-180: "Salomé disse: "E você quem é, homem? De quem saiu para haver-se metido em minha cama e ter comido em minha mesa? E Jesus lhe disse: "Eu sou aquele que se produziu daquele que é seu igual. Deram-me o que é de meu Pai". E Salomé respondeu: "Sou sua discípula!". (Cf. Evangelho de Tomás, capítulo 43, versículo 65, tradução do Jean Doure. Pión, Paris, 1959.)
Por outra parte, é seguro que o "ambiente" daqueles tempos alimentou o tesouro zelote em proporções consideráveis; demos entrevistas que o provam no volume precedente. Desde aí a conhecida frase de Jesus: "Na verdade lhes digo que os publicanos e as rameiras lhes precederão no reino dos céus...". (Mateus, 21, 31-32.)
As peças justificativas da condenação de Jesus pelo procurador Poncio Pilatos foram necessariamente enviadas à Roma, já que se tratava da execução de um "filho de David" que pretendia o trono de Israel, e a quem Tibério César, durante um tempo, tinha pensado em confiar uma tetrarquia. Estas peças, conservadas nos arquivos da Chancelaria imperial, em Roma, foram examinadas pelo imperador Juliano, sucessor de Constantino, e à elas se refere freqüentemente em suas polêmicas com os cristãos. E aqui temos uma alusão bastante clara no que diz respeito aos laços existentes entre o partido zelote e a prostituição, que tiramos de suas obras: "A Molessa recebeu ao Constantino meigamente, enlaçou-o entre seus braços, revestiu-o e o adornou com vestimentas , e logo lhe conduziu ao lenocínio... Assim o príncipe pôde encontrar-se também com Jesus, que freqüentava esses lugares, gritando a tudo o que chegava: "Que todo sedutor, que todo homicida, todo homem golpeado pela maldição e a infâmia se apresente com toda confiança! Banhando-se com esta água, voltarei imediatamente puro! E se voltar a recair nas mesmas faltas, quando lhe golpearem no peito e na cabeça, voltarei a conceder-lhes a pureza!"". (Cf. Julio César, Obras completas, tradução de J. Bidez, Ed. Les Belles-Lettres, Paris, 1932.)
Terá que dizer que Constantino, "o homem coberto de crimes" segundo os grandes bispos cristãos (fez assassinar a sua esposa, a seu filho e a numerosos parentes e amigos), foi também um dissoluto notável. Não obstante, no século IX lhe santificaram, a pedido de Carlos Magno*. Mas Juliano, que era amável, casto, aficionado às boas letras, que sabia perdoar a seus piores adversários, Juliano foi simplesmente injuriado e assassinado.
*[Carlomagno estava interessado na "santificação" de seu colega Constantino. Sua vida tinha sido muito pouco edificante. Além da matança de quatro mil e quinhentos; reféns no Werden, no ano 782, teve nove esposas ou concubinas (é bastante difícil nessa época estabelecer a diferença), mas, além disso, praticou o incesto com maestria. Seu cronista e biógrafo, o monge Eginhard, relata que este imperador se guardava bem de casar a suas filhas, já que "se servia carnalmente delas como de suas esposas". Isso não impediria à Igreja convertê-lo no santo padroeiro dos escolares! O Papa João XXIII o fez apagar do santoral, com um certo número de "glórias usurpadas" mais. Quanto ao Constantino, jamais gozou da aparição no céu do famoso Iabarum: "In signo vinces!". Seu biógrafo e panegirista Eusebio da Cesárea ignora tal milagre, ideado mais adiante por Lactancio. Este transpôs sem dúvida o fato de que Constantino, anteriormente, tinha tido uma visão em um templo de Apolo que ele visitava. Tinha "visto" como o deus Apolo estendia-lhe uma coroa. Lactancio arrumou a história...]
Um fato que naquela época teria suscitado uma violenta hostilidade popular e reações legais contra Saulo-Paulo e seus lugares-tenentes em Roma foi fazer participar às mulheres em uma "eucaristia", no curso da qual podiam beber vinho, quanto mais que esta "eucaristia" estava incluída em um "ágape" prévio no que o tonus elítico subia rapidamente, se dermos crédito aos protestos de Paulo. (Cf. I Epístola aos Coríntios, 11, 20-21, infra, P. 254.)
Com efeito, a conseqüência dos inauditos escândalos suscitados pelas orgias dionisíacas femininas, em princípio do século II antes de nossa era, um senatus-consulte datado do ano 186 A. C. da mesma reiterara em Roma a proibição dos bacanais em toda a Itália, recordando que, desde Rômulo, o vinho estava rigorosamente proibido às mulheres. Estava-lhes deste modo proibido pôr a mão sobre as chaves das cavas e as adegas. A embriaguez feminina, fosse qual fosse, obtida pelo vinho, bebidas fermentadas ou as fumigações, Rômulo a identificava ao adultério, já que se dizia que a mulher era possuída pelo deus de quem dependia o ingrediente assimilado. A única embriaguez tolerada na mulher era a do gozo sexual nos braços do legítimo marido.
O texto original de tal senatus-consulte figura em uma placa de bronze descoberta em Tiriola, na Calabria, e conserva-se em Viena, no antigo gabinete imperial.
Como se vê, para os judeus e as mulheres das diversas "províncias" submetidas a Roma e convertidas à nova religião, isto não expôs nenhum problema; mas para os romanos era muito distinto, e a absorção do vinho "eucarístico" no curso de ágapes freqüentemente desviados para outros objetivos, implicava sanções penais inevitáveis.
11- O "Quadrado de Amor" de São Ireneu
A desgraça mais grave que possa acontecer a uma criatura humana caída para o amor é ter ligado seu destino a um ser inferior. O perigo constitui na decadência que pode resultar para ela, e esse perigo pode estender-se ao longo de prolongados períodos de tempo.
Maurice Magre, L'Amour et la Haine
Sabe-se que entre as fórmulas mágicas da tradição do Ocidente figuram o que se conveio em denominar os palíndromos. São palavras, nomes, frases que, lidos da direita à esquerda ou da esquerda à direita, de cima para baixo ou de baixo para cima, dão invariavelmente os mesmos termos. Neste aspecto constituem, no campo literal, o que os quadrados mágicos constituem no campo numeral, mas estes últimos representam um grau mais elevado de conhecimento, e permitem o acesso a um esoterismo imensamente mais oculto. São, efetivamente, os quadrados mágicos os que constituem as "pranchas de extração" reais dos nomes de poder na magia prática, nomes de entidades verdadeiramente polarizadas, e ao mesmo tempo permitem estabelecer os célebres "selos planetários".
No campo dos palíndromos citarão a célebre fórmula latina: ROMA TIBÍ SÚBITO MOTIBUS IBIT AMOR, que se lê igual em um sentido como no outro.
Não obstante, é menos conhecida que o célebre quadrado mágico que suscita justas encarniçadas entre eruditos, e