AS VIAGENS DE APOLÔNIO DE TIANA
E assim Apolônio parte de Antióquia e viaja para Ninus, relíquia
da uma vez grande Nina ou Nínive. Lá encontra com Damis, que
se torna seu companheiro constante e fiel discípulo. "Vamos
juntos", diz Damis em palavras que nos lembram algo das de Rute, "tu
seguindo Deus e eu a ti!" (i, 19)
Deste ponto em diante Filóstrato declara basear-se em grande medida
na narrativa de Damis, e antes de prosseguirmos, é necessário
tentarmos formar uma imagem do caráter de Damis, e descobrir até
que ponto ele foi admitido na verdadeira confiança de Apolônio.
Damis era um entusiasta que amava Apolônio com um afeto apaixonado.
Ele via em seu mestre um ser quase divino, possuidor de poderes maravilhosos
que continuamente o assombravam, mas que jamais pôde entender. Como
Ânanda, o discípulo favorito de Buda e seu companheiro constante,
Damis avançou só lentamente na compreensão da real
natureza da ciência espiritual; ele tinha sempre de ficar nos recintos
externos dos templos e comunidades a cujos santuários e círculos
internos Apolônio tinha pleno acesso, enquanto que ele freqüentemente
professa sua ignorância dos planos e propósitos de seu mestre
(vide especialmente iii, 15, 41; v, 5, 10; vii, 10, 13; viii, 28). O fato
adicional que ele inscreve em suas notas como as "migalhas" (e?fat??sµata)
das "festas dos Deuses" (i, 19), aqueles festejos que ele na maior
parte das vezes podia conhecer só de segunda mão pelo pouco
que Apolônio julgava conveniente lhe contar, e que ele sem dúvida
geralmente compreendia mal e revestia com suas próprias fantasias,
confirmará isso, se alguma confirmação é necessária.
Mas de fato é claramente manifesto em toda parte que Damis estava
fora do círculo da iniciação, e isso explica tanto
seu amor pelas maravilhas quanto sua superficialidade geral.
Um outro fato que sobressai na narrativa é sua natureza tímida
(vide especialmente vii, 13, 14, 15, 223). Ele teme constantemente por si
e por seu mestre; e mesmo perto do fim, quando Apolônio é preso
por Domiciano, ele precisa ver com seus próprios olhos a remoção
sobrenatural das correntes que prendiam Apolônio para convencer-se
de que ele era uma vítima voluntária.
Damis ama e se maravilha; agarra um detalhe irrelevante e o amplifica, enquanto
que pode falar das coisas realmente importantes só o que ele fantasia
ter ocorrido a partir de poucas sugestões de Apolônio. À
medida que a história avança, realmente ele adquire um tom
mais sóbrio; mas o que Damis omite, Filóstrato está
sempre pronto para suprir com seu próprio estoque de prodígios,
se a chance aparece.
De qualquer maneira, mesmo que tivéssemos o escalpelo da crítica
para cortar fora cada pedaço de carne deste corpo de tradição
e lenda, ainda restaria um esqueleto de fatos que representariam Apolônio
e nos dariam uma idéia de sua estatura.
Apolônio foi um dos maiores viajantes conhecidos da antigüidade.
Dentre os países e lugares que visitou os que se seguem são
os principais que foram registrados por Filóstrato (a lista está
repleta de lacunas, pois não podemos supor que as notas de Damis
sejam algo semelhante a um registro completo dos numerosos itinerários;
não só isso, mas somos tentados a crer que todas as viagens
em que Damis não tomou parte estão omitidas).
De Ninus (i, 19) Apolônio passa para Babilônia (i, 21), onde
permanece um ano e oito meses (i, 40), e visita as cidades vizinhas de Ecbatana,
a capital da Média (i, 39); de Babilônia até a fronteira
da Índia nenhum nome é mencionado; a Ìndia foi atingida
provavelmente através do Passo Khaibar (ii, 6) (aqui de qualquer
forma eles vislumbram as gigantescas montanhas do Imaus, ou Himavat, ou
Cordilheira do Himalaia, onde estava o grande monte Meros, ou Meru. O nome
do Olimpo hindu, mudado para Meros em grego, desde o tempo da expedição
de Alexandre, deu margem ao mito de que Baco nascera da coxa - meros - de
Zeus - presumivelmente um dos fatos que levaram o Prof. Max Müller
a estigmatizar toda a mitologia como uma "doença da linguagem"),
pois a primeira cidade que é mencionada é Taxila (Attock)
(ii, 20); e assim seguem caminho através dos tributários do
Indo (ii, 43) até o vale do Ganges (iii, 5), e finalmente chegam
ao "mosteiro dos sábios" (iii, 10), onde Apolônio
passa quatro meses (iii, 50).
Este mosteiro provavelmente se localizava no Nepal; é nas montanhas,
e a "cidade" mais próxima é Paraca. O caos que Filóstrato
fez da história de Damis, e antes dele as maravilhosas transformações
que o próprio Damis fez nos nomes indianos, é presumivelmente
demonstrado por esta palavra. Paraca, talvez, é tudo o que Damis
pôde fazer com Bharata, o nome genérico do vale do Ganges onde
os árias dominantes se estabeleceram. Também é provável
que estes sábios fossem Budistas, pois eles vivem em um t??s??, um
lugar que a Damis parecia um forte ou fortaleza.
Tenho poucas dúvidas que Filóstrato não poderia conceber
nada da geografia da Índia a partir dos nomes no diário de
Damis; todos lhe são desconhecidos, de modo que tão logo esgota
os poucos nomes gregos conhecidos por ele a partir dos relatos da expedição
de Alexandre, perde-se ele "nos confins da Terra", e nada pode
fazer até que encontre novamente nossos viajantes já a caminho
de volta na embocadura do Indo. O fato saliente de que Apolônio estava
estabelecendo uma certa comunidade, o que era seu objetivo específico,
impressionou tanto a imaginação de Filóstrato (e provavelmente
a de Damis antes dele) que ele a descreveu como sendo a única em
seu gênero na Índia. Apolônio foi à Índia
com um propósito e voltou de lá com uma missão diferente
(referindo-se aos seus instrutores ele diz: "Sempre me lembro de meus
mestres e viajo por todo o mundo ensinando o que aprendi deles"; vi,
18); e talvez suas incessantes indagações a respeito daqueles
"sábios" que ele procurava, induziram Damis a imaginar
que só eles fossem os "Gimnosofistas", os "filósofos
nus" (se formos tomar a palavra ao pé da letra) da popular lenda
grega, que ignorantemente atribuía a todos os ascetas hindus as mais
extraordinárias peculiaridades que na verdade pertenciam só
a um reduzido grupo. Mas voltemos ao nosso itinerário.
Filóstrato embeleza o relato da viagem do Indo até a foz do
Eufrates (iii, 52-58) com as lendas de viajantes e nomes de ilhas e cidades
que ele apanhou nos livros de histórias da Índia que lhe eram
acessíveis, e assim novamente voltamos à Babilônia e
à geografia familiar seguindo este itinerário: Babilônia,
Ninus, Antióquia, Selêucia, Chipre; e então a Jônia
(iii, 58), onde ele passa um tempo na Ásia Menor, especialmente em
Éfeso (iv, 1), Esmirna (iv, 5), Pérgamo (iv, 9), e Tróia
(iv, 11. Daí Apolônio cruza para Lesbos (iv, 13), e subseqüentemente
embarca para Atenas, onde passa alguns anos na Grécia (iv, 17-33),
visitando os templos da Hélade, reformando seus ritos e instruindo
os sacerdotes (iv, 25). A seguir o encontramos em Creta (iv, 34) e depois
em Roma no tempo de Nero (iv, 36-46).
Em 66 d.C. Nero emitiu um decreto proibindo qualquer filósofo de
permanecer em Roma, e Apolônio mudou-se para a Espanha, e desembarcou
em Gades, a moderna Cádiz; parece ter ficado na Espanha só
um curto período (iv, 47); daí cruzou para a África,
e por mar de novo à Sicília, onde visitou as principais cidades
e templos (v, 11-14). Então Apolônio voltou à Grécia
(v, 18), tendo transcorrido quatro anos desde sua chegada em Atenas a partir
de Lesbos (v, 19) (de acordo com alguns, Apolônio estaria então
com 68 anos de idade. Mas se ainda era jovem, digamos em torno dos 30 anos,
quando partiu para a Índia, ele então deve ter passado um
longo período naquele país, ou temos um registro muito imperfeito
de seus feitos na Ásia Menor, Grécia, Itália e Espanha,
depois de seu regresso).
Do Pireu nosso filósofo embarca para Quios (v, 21), depois para Rodes
e então para Alexandria (v, 24). Em Alexandria ele passa algum tempo,
e tem vários encontros com o futuro Imperador Vespasiano (v, 27-41),
e então empreende uma longa viagem Nilo acima até a Etiópia,
além das cataratas, onde ele visita uma interessante comunidade de
ascetas chamados vagamente de Gimnosofistas (vi, 1-27).
Em seu retorno a Alexandria (vi, 28), ele foi convidado por Tito, recém
coroado Imperador, para encontrá-lo em Tarso. Depois deste encontro
ele parece ter retornado ao Egito, pois Filóstrato fala vagamente
de ele ter passado algum tempo no Baixo Egito, e sobre visitas aos fenícios,
cilícios, jônios, aqueus, e também à Itália
(vi, 35).
Mas Vespasiano foi imperador de 69 a 79, e Tito, de 79 a 81. Como a entrevista
com Vespasiano ocorreu logo antes do início do reinado daquele imperador,
é razoável concluir que um número de anos foi gasto
por nosso filósofo nesta viagem à Etiópia, e que portanto
a narração de Damis é das mais imperfeitas. Em 81 Domiciano
tornou-se Imperador, e assim como Apolônio se opôs às
loucuras de Nero, igualmente criticou os atos de Domiciano. Com isso naturalmente
ele se tornou objeto de suspeita para o Imperador; mas em vez de permanecer
longe de Roma, ele determinou-se enfrentar o tirano face a face. Cruzando
do Egito para a Grécia e tomando um barco em Corinto, navegou pelo
caminho da Sicília até Puteoli, e então até
a boca do Tibre, e daí para Roma (vii, 10-16). Ali Apolônio
foi preso e liberado (vii 17-viii, 10). Embarcando de Puteoli, novamente
Apolônio voltou à Grécia (viii, 15), onde passou dois
anos (viii, 24). Então uma vez mais passou para a Jônia na
época da morte de Domiciano (viii, 25), visitando Esmirna e Èfeso
e outros de seus lugares favoritos. Então sob algum pretexto ele
envia Damis para Roma (viii, 28) e - desaparece; isto é, se podemos
especular, ele empreendeu uma outra viagem até o lugar amado acima
de todos, a "terra dos sábios".
Mas Domiciano foi morto em 96 d.C., e um dos últimos atos registrados
de Apolônio é sua visão deste evento no momento de sua
ocorrência. Portanto o julgamento de Apolônio em Roma teve lugar
em torno de 93, e temos um intervalo de 12 anos desde sua entrevista com
Tito em 81, que Filóstrato só pode preencher com umas poucas
histórias vagas e generalidades.
Sobre sua idade na época de seu misterioso desaparecimento das páginas
da história, Fillóstrato diz que Damis não fala nada;
mas alguns, acrescenta, dizem que ele estava com 80, alguns com 90, e outros
mesmo com 100 anos.
A estimativa de 80 anos parece concordar melhor com o resto das indicações
cronológicas, mas não há certeza no assunto com os
materiais de que dispomos hoje. Este é, pois, o perfil geográfico,
por assim dizer, da vida de Apolônio, e mesmo o mais displicente leitor
deste esqueleto descarnado das jornadas registradas por Filóstrato
deve ficar impressionado com a indômita energia do homem, e seu poder
de perseverança.
Agora voltaremos nossa atenção a um ou dois pontos de interesse
ligados aos templos e comunidades que ele visitou.